Ainda é cedo.

4 Capítulo 4 - Quem brinca com fogo…


Notas iniciais
PARTE 1 - Só queríamos estar ali To aproveitando pra postar o quanto conseguir hoje, então vamos pra mais um!

Manuela

Meninos nunca demoram pra se arrumar, e ainda bem. Ele saiu e já foi pegando as chaves para irmos.

Uau, ele tava gato, tenho que admitir!

A blusa preta lisa de mangas, a calça jeans já meio desbotada e o all star também preto. Eu e ele tínhamos o mesmo estilo: simples, básico. O cabelo como sempre, despenteado. Acho que mesmo que ele tentasse não conseguiria arrumar, mas era um charme que fazia toda diferença.

Descemos os dois calados até o carro. Admito que eu ainda estava de bico. O que o Sam tem na cabeça? Não que eu não queira que o Eduardo vá, não faz muita diferença pra ser sincera. Mas o que me incomoda foi o jeito que ele pediu. Ele sabe muito bem que não sou uma garotinha indefesa. Nunca precisei de ajuda para me livrar de algum idiota, e sempre que me metia em alguma encrenca envolvendo algum menino, dava um jeito. Além de que, isso não era muito comum, como o Sam disse uma vez:

“Você me dá medo, Manu!”.

E era exatamente isso. Os garotos tinham medo de mim. Uns ou outros se arriscaram, mas na maioria das vezes acabavam desistindo no meio do caminho. Sou complicada, e literalmente um problema pra mim mesma. Digo que sou encrenca... Quem dera eles acreditassem alguma vez… Em resumo, era mais fácil desistir no meio do caminho, então nunca me iludi com uma relação que já começava fadada ao fracasso.

Chegamos no lugar que eu tinha marcado com a Laura. Era um barzinho com música ao vivo. Chegamos juntos, mas assim que descemos do carro ele me disse:

-Vou ficar por perto. Se precisar, me chame. Vá curtir, garota.

Eu apenas dei um sorriso em agradecimento. Ele retribuiu.

Assim que entrei, vi a Laura acenando agitada de uma das mesas. Ela me apresentou alguns novos amigos e eu fiquei lá com outros que já conhecia da faculdade. O papo ia bem com um colega de turma, o Rodrigo, até uma das novas garotas do grupo, uma tal de Chris, veio toda pra cima dele, interrompendo o papo.

Sutil como uma fêmea no cio.

Revirei os olhos ao ver aquela cena na minha frente. Que coisa ridícula!

-Até mais, Rodrigo.

Ele abriu a boca em protesto, eu apenas acenei em um “relaxa, tá tudo bem”.

Senti alguém me puxar pelo braço e ouvi a Laura já um pouco alterada, gritando pra mim:

-Garoooooota, tem um cara babando por você ali no bar, olha.

Não contive o riso e fui até o cara depois de deixar a bêbada sentada cantando.

-Se divertindo?

-Perdeu seu homem pra piriguete?

Franzi o cenho, ele tava todo engraçadinho hoje.

-Sim e não.

-Não?

-Sim, ela é uma piriguete. Não, ele não é meu homem.

-Você tava babando por ele, Manu...

Pera, o Eduardo me chamando de Manu? Gostei...

-Eu não tava babando, Edu. E que negócio é esse de ficar secando as meninas do bar? Daqui a pouco vão achar que tá interessado em mim. Vá se divertir, prometo que não vou julgar se ver você atracado com alguém.

Ele riu, mas não se moveu. Me sentei no banco ao lado e pedi uma água.

-Água?

-Eu não bebo.

-Ta me surpreendendo...

Abri a garrafa e me servi.

-Ta falando do que?

-Toda certinha, veio de uma cidade menor, o orgulho da mamãe... Não bebe, não faz nenhum tipo de loucura, aplicada nos estudos... Ta perfeitinha demais pro meu gosto. O que você esconde?

Eu sou perfeitinha? Faça-me rir! Nunca fui santa, mas também nunca fui de aprontar.

-Sou uma santa, meu querido – fiz cara de anjo e mandei um beijinho de longe.

-As santinhas são as piores, é o que dizem por aí, não é?

Ele deu um gole no refrigerante, sem deixar de me olhar. Só então percebi que estávamos mais próximos, meio que involuntariamente.

-Não sei, são as piores?

Ele cortou os olhares revirando os olhos.

-Pelo visto sim.


Eduardo

Ela tá jogando comigo. Não gosto disso. Sempre fui eu que joguei com as garotas... Assim, com todo respeito! Posso ser mulherengo, mas não sou um cafajeste.

Ela deixou um sorriso escapar. Ela ria quando estava em alguma situação que a deixasse nervosa. Brava não, apenas nervosa com o que acontecia no momento.

Se levantou e voltou a conversar com o outro cara, que a piriguete já havia sido dispensada. Não vou mentir: não gostei nem um pouco dele. Tinha o cabelo com um corte perfeitamente alinhado e os olhos claros, parecia um daqueles protagonistas de filme da Disney. Ela ria solta, jogando os cabelos para o lado e sempre se ajeitando. Eu sabia que estava desconfortável naquela saia curta, porque a cada cinco segundos, ela puxava um pouco a barra, numa falha tentativa de esconder um pouco de pele. Mas nem se quisesse iria conseguir. O corpo se revelava e lutava contra o tecido da saia, insistindo em ser mostrado.

Eles dançaram e eu só observando ela rir sem parar. De vez em quando olhava de canto de olho e via que eu ainda estava lá, mas fingia que não tinha visto nada ou que os olhares que tínhamos acabado de cruzar tinha sido uma mera coincidência.

A banda foi embora, devia ser mais ou menos 1 hora da manhã. Um dj começou a tocar algumas músicas mais animadas e o clima do lugar esquentou. Alguns casais começaram a se formar, incentivados pelo aumento do álcool no corpo, e eu só de olho no tal cara.

“Não deixe ninguém chegar muito perto da minha irmã” o Sam disse.

Mas e se ela quisesse que alguém chegasse mais perto? Quem era eu pra impedir?

Uma ou outra garota chegou em mim, mas eu não estava muito interessado. Mesmo que ela tenha dito que não tinha problema, não tava afim de ficar com ninguém com ela ali me vendo.

Até que uma coisa realmente me chamou a atenção: a Manu se esquivando repetidas vezes. No início, parecia que ela estava se divertindo, mas o cara foi se aproximando e foi nítido que a postura dela ficou defensiva.

Peguei minhas coisas no balcão e me dirigi até ela. Quando percebeu, me olhou com uma cara de “graças a deus”.

-Posso dançar um pouco com ela?

Ele me olhou de cara feia, mas não teve escolha quando a Manu se soltou dele e entrelaçou as mãos no meu pescoço.

-Obrigada.

-Agradeça ao seu irmão.

Ela nem se importou com o que eu disse e continuou a dançar. Como ela conseguia mexer o quadril daquele jeito, eu não sei, só sei que era uma visão muito boa de se ter. Me esforcei para manter uma distância respeitável e não acabar me constrangendo.

-Dança desde quando?

-Desde sempre. Fiz algumas aulas de dança para ver se ajudava minha coordenação motora.

-Pelo visto não adiantou.

Ela me olhou feio.

-Não sou estabanada na dança, e minha professora disse que meu jeito desengonçado me permite ter os movimentos que tenho.

Já estamos quase gritando para ouvir o que o outro falava. Ri da tentativa de se explicar. Realmente, os movimentos dela, eram só dela. Não eram perfeitos mas eram envolventes.

Olhei ao redor, o cara ainda olhava feio para nós.

-Não vai dar uma chance pro cara?

-Pro Rodrigo? Ele é legal... Mas não tô atrás de um namorado, e pelo que já ouvi dele, é daqueles que te beija hoje e te pede em casamento amanhã. Além de que não estou interessada em competir por homem e já tem muita gente de olho nele.

Talvez pela dança, talvez para provocar o Rodrigo, me aproximei da sua orelha para falar.

-Ele parece gostar de você, pelo jeito que tá me fuzilando…

-Duvido, conheço ele há dois dias. Antes disso nunca nem tínhamos nos falado na aula.

-E...?

-Ah, fala sério, como você pode gostar de alguém com dois dias? Não pode ser pra valer.

Subitamente me afastei. Merda Manuela! Ela tinha que falar isso agora? Lógico que lembrei da Rachel, fiquei louco por ela em apenas uma semana...

-Acho que é possível sim — era ridículo mas senti que precisava me defender, mesmo sem motivo algum.

-Pra mim não. Na verdade, é muuuuuuito difícil eu gostar de alguém.

-Isso é porque você é fria, Manuela!

Até esperei pela cara feia, um tapa e um biquinho de raiva. Mas não, ela apenas deu de ombros.

-Sou fria mesmo, sou um problema nesse quesito e nunca neguei que era. A gente nunca teve que falar sobre por motivos óbvios. Mas sempre que alguém mostrou interesse em mim eu avisava sobre isso. Azar de quem não acredita mas nunca foi por falta de aviso.

A Manu podia ter mil defeitos, mas eu admirava como ela reconhecia e admitia eles. Não inventava desculpas nem considerava eles alguma fraqueza. Aceitar nossa parte feia faz parte de quem somos e nem sempre reconhecemos isso.

A música mudou e ela me encarou. Naquela luz de balada, piscando sem parar, seus olhos refletiam as cores que passavam. Seus olhos eram as únicas coisas que eu via com exatidão. Outro tipo de luz começou a piscar, dessa vez, era branca. Meu foco mudou. Sua boca... Vermelha, com o batom um pouco mais fraco, mas que ainda dava um destaque.

As pessoas dançavam animadas ao nosso redor, e não sei o que ela via, mas eu só olhava sua boca. Não era grande, nem carnuda, mas tinha um formato certinho, e a maneira que passava o batom, destacava o lábio inferior.

Minha cabeça girou. Era a Manu, não era? A Rachel não usava batom vermelho e não me olhava desse jeito.

Uma garota esbarrou nela, gritando:

-Manuuuuuu!

Pegou seu braço e saiu carregando ela pelas pessoas. Ela não olhou para trás enquanto andava, e o tal Rodrigo sorriu, triunfante.


Manuela

A Laura já estava mais do que alterada, eu nem sabia como ela ia pra casa. Ela contava histórias perdidas e eu não ouvia uma palavra do que ela dizia, apenas ria quando ela ria, e a afirmava com a cabeça quando ela falava “não é?”.

Eu passava o dedo em volta da borda de um copo vazio, apenas para me distrair da pergunta insistente.

O que ele queria me olhando daquele jeito?

“-Ta perfeitinha demais pro meu gosto. O que você esconde?

— As santinhas são as piores, é o que dizem por aí, não é?”.

Sim, as santinhas são as piores. O famoso “come quieto”.

Nunca dei dor de cabeça pra minha família nesse quesito. Sabia muito bem fazer escondido quando precisava e não gastava meu tempo e oportunidade se não achasse que valia a pena. Não tinha insistência do cara que me fizesse fazer algo que eu não quisesse. Assim, foram 18 anos muito bem vividos e sem passar vontade. Já dizia algum psicólogo francês em algum tempo antigo:

“Melhor do que a vontade, só o que atiça ela”.

Era um lema que eu levava pra vida. Tinha um equilíbrio entre passar do limite as vezes, mas não sempre porque senão vira rotina e perde a graça. Provavelmente uma terapia justificaria isso com alguma coisa sobre minha criação, a necessidade de controle e conquista, mas eu sinceramente não queria saber o real motivo. Se isso for cientificamente comprovado como um problema, que seja! Um problema que não faço questão de tentar consertar.

Levei um susto com a gargalhada que a Laura deu. Apenas segui ela e comecei a rir. Ela começou a mexer na bolsa e tirou o celular, a chave de casa e do carro.

-Como vai pra casa?

-Helloooo – ela sacudiu as chaves na minha cara.

Peguei as chaves dela e guardei na minha bolsa.

-Vou te levar em casa, vamos.

Procurei o Edu e o encontrei no mesmo lugar do bar. Laura cantava e se sacudia ao som da música alta, quase se perdendo de mim no caminho.

-Precisamos levar ela pra casa, tipo, agora!

Ele deu um último gole no seu refrigerante, pegou as chaves e saímos abrindo o caminho.


Eduardo

Ela insistiu em ligar o rádio, e ficou cantando o caminho inteiro. A Manu fez bem em não deixar ela voltar pra casa dirigindo, não estava em condição para isso.

Surgiu entre mim e a Manu e falou mais alto que o rádio.

-Vocês pensam que eu sou burra?

A língua enrolava tanto para falar que uma legenda seria super bem-vinda nas falas dela. Olhei pra Manu procurando uma resposta, mas ela deu de ombros.

-Ta falando do que?

-Vocês não se conheceram hoje... Você – ela apontou pra mim – tirou ela – apontou pra Manu — pra dançar só pra atrapalhar o Rodrigo, que pediu pra mim – apontou pra si mesma – ir atrapalhar. Ele se aproveitou do meu atual estado… — ela apontou para todo seu corpo agora, dando risada ao se bater sem querer — Então, o que tá rolando entre vocês? Tavam quase se beijando antes de eu arrancar ela de lá.

Beijando? Quando? Não, ela estava mesmo bêbada.

Quer dizer, a gente tava... Eu sei lá o que estava rolando.

-Fica quieta, Laura — a Manu também não parecia querer continuar ouvindo a amiga.

-Não Manu, não fico! Vocês são uma gracinha. E ele tem um charme... Deve ser esse cabelo bagunçado...

Ela esticou um dos braços e arrastou os dedos moles de bebida no meu rosto. Deu outra risada quando o braço caiu, pesado entre os bancos do carro e começou a cantar outra música que não dava pra reconhecer e se perdeu na frase, deixando nós dois calados.

Quando enfim chegamos no endereço, ajudei a Manu tirando a Laura do carro, e deixei elas na porta da casa. A Manu entrou e voltou alguns minutos depois.

-Ela capotou do jeito que caiu na cama.

-Ela vai ficar bem?

-Sim, só uma bela ressaca amanhã.

O restante do caminho foi silencioso, mas não um silêncio desconfortável. Fiquei pensando no que a Laura tinha dito e talvez tenha gostado mais da ideia do que deveria admitir.

Entramos na garagem e antes dela descer do carro, ela me olhou por um momento. Abriu um sorriso, arrumou uma mecha solta do meu cabelo, balançou a cabeça e disse:

-É, acho que é o cabelo.

Desceu do carro e saiu descalça, carregando os saltos na mão.

Nesse momento, percebi que um dia ela ainda ia me deixar doido. Mas se ela quisesse brincar assim, então assim seria!

Entrei no apartamento e ela já estava com uma camiseta grande e um short, tirando a maquiagem na pia do banheiro.

Me encostei na porta e observei alguns segundos.

-Manuela…

A visão era interessante e podia ficar a noite toda vendo. Ela me olhou pelo reflexo do espelho.

-Eduardo...

-Ta brincando com fogo, garota.

Ergui uma sobrancelha. Ela mordeu o lábio… Ela já tinha tirado quase toda a maquiagem mas ainda tinha um resquício de batom que mantinham seus lábios avermelhados.

-Digamos que eu gosto do calor — ela deu de ombros e sorriu — Boa noite.

Me afastei e ela fechou a porta, me deixando bobo.