Ainda é Cedo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ah, o nome deles:
Sérvia - Nikola Zlokovïc
Bósnia- Zlata Bojana Milosevic
Críticas construtivas são bem vindas.
Bósnia –Bósnia para os outros, em meus braços era apenas Zlata- é a garota que me ensinou quase tudo que eu sei. E, hostilidades e conflitos à parte, Zlata era a luz de minha vida. Quando todos os meus sonhos se converteram em pesadelos, quando minha Iugoslávia entrava em verdadeiro colapso (Deus, como odeio esta palavra!), ela continuava me tratando como um rei.
E não se importava como eu a tratava. Podia espancá-la pelo simples motivo de precisar descontar minha fúria e estresse em alguém. Podia chamá-la do que bem entendesse, insultá-la em seu bósnio ou em meu sérvio. Podia insultar seu Alá. E, no fim, apenas sorriria e me perguntaria do que eu precisava.
“O que quer que eu faça, senhor Sérvia?”, perguntaria ela, sempre naquele jeito delicado, ajeitando os cabelos lisos e escuros. Ah, minha Zlata, eu nunca encontraria ninguém melhor do que você! Sempre tão dedicada, talentosa, submissa.
“O que quer que eu faça, Nikola?”, perguntaria ela em momentos de mais intimidade. E me enchia de orgulho e satisfação saber que só eu conhecia bem aquele corpo. Só eu conhecia cada uma daquelas curvas perfeitas, a textura de sua pele apenas maculada por alguns cortes e hematomas, o cabelo que lhe caía pelo rosto contorcido de dor e prazer.
Minha Zlata sempre fora uma garota sonhadora. Gostava de estudar sistemas de industrialização mais modernos, mapas, linhas ferroviárias. E eu não tinha nada contra um futuro próprio da Bósnia – desde que, é claro, eu estivesse incluído.
Egoísta que eu sou, nem me importava em retribuir seus favores, de ajudá-la como me ajudou – e ah, Deus, ainda queria estar sempre em seus planos!
E não quis me separar.
Zlata não estava feliz. Por trás de suas maneiras sempre obedientes e alegres, escondia uma vontade de ter aquela coisa estúpida, a independência. Chorava sozinha nas noites em que não dormia comigo. Soluçava em meio às goladas do café espesso, típico de seu povo, que tanto amava.
E ela, tão perdida e tão confusa, sem saber para onde ir, tentava se afastar, mas se agarrava a mim cada vez mais. E eu também me agarrava a ela, não somente por amá-la, mas por não ter mais ninguém.
Eslovênia, após um rápido desentendimento, havia ido embora. Croácia, aquele pirralho imprestável, conseguira sua independência depois de alguns meses de sufoco. E Macedônia, que não me acrescentava nem subtraia coisa alguma, simplesmente deixei ir.
Mas, minha Bósnia, ainda era muito cedo para me deixar. Sempre seria muito cedo para me deixar.
Sei que ela terminou tudo, e ainda mais rápido do que eu havia começado, se faz algum sentido. Simplesmente foi passando pela porta, dizendo “Sérvia, estou indo embora”.
Não, minha querida Zlata, você não iria embora.
Levantei minhas mãos contra ela, como havia feito tantas vezes. Mas desta vez seus olhos estavam irreconhecíveis, ela inteira exibia uma aura diferente. Foi naquele momento que percebi que minha Zlata era uma guerreira, uma garota corajosa, e que eu não poderia mais usá-la a meu bel-prazer.
“Já terminou, Sérvia? Já posso ir embora?”, me perguntava, desafiadora. E lá estava Bósnia, cambaleante, ferida, violada, mas viva e sedenta por independência.
Eu lhe disse que não. Chorei. Eu queria tê-la para sempre.
Entre risadinhas amargas, Zlata sussurrou:
“Você tem medo, Sérvia. Você tem medo de ficar sozinho de novo. E é exatamente isso o que vai acontecer.”
Não acreditei em meus ouvidos. Zlata jamais me desafiaria assim. Respondi-a, com um tom ainda mais desafiador:
“Quem tem medo é você. Sabe que posso ser pior do que isso.”
E lhe disse coisas que soaram terríveis até mesmo para mim. E recebi daquela boca perfeita palavras terríveis também. E mais sangue de Zlata. Mais tapas em Zlata. Mais cicatrizes que nunca seriam apagadas por completo em Zlata. E a independência de Zlata.
“Eu gostava de você. Eu não sei mais o que sinto agora.”, me disse.
Quem sabe um dia você não volta para mim, Bósnia?
Zlata, ainda é cedo. Eu ainda te amo.
Notas finais
Mas reviews? ^-^
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