Notas iniciais
Primeiro capitulo, yey! História narrada pela Magali.

Foi uma noite complicada a última. Eu provavelmente deveria ter tirado um tempo para arrumar a mochila, a roupa e o que mais fosse necessário para o dia de hoje. O emblemática primeiro dia do último ano da escola. Pois é, parece que o tempo passa mesmo...

Noite passada, inclusive, passou demasiado rápida, enquanto eu conversava via Messenger com o meu melhor amigo, Cebola. Já eram por volta de onze horas quando eu decidi finalmente deitar para ver alguma série antes de dormir e, então, a janelinha dele piscou. "Hey, Maga, não consigo dormir! Preciso da minha parceira da madrugada! SOS!" foi a mensagem que eu não pude ignorar.

Parceira da madrugada, pff.

Parceira de madrugada era a atualização amigável para "melhores amigos que foram obrigados a se afastarem pela vida". Nós costumávamos ser inseparáveis, a dupla dinâmica do bairro do Limoeiro, mas, então, as coisas mudaram. Bom, ELE se mudou.

É tão clichê esse drama de cidade pequena. Tem sempre alguém que está indo embora devido a alguma oportunidade imperdível e, há alguns anos, esse alguém fora o Cebola. Um agradecimento especial para a tia podre de rica e moradora do Canadá que insistiu que meu melhor amigo deveria fazer o colegial no país em que ela residia há anos. "Outro nível de educação", ela disse. Bruxa!

Faz bastante tempo, dois anos para ser mais exata, mas a memória de um amigo se distanciando nunca é fácil de esquecer.

O dia estava quente e ensolarado e eu podia ter certeza que, em uma ocasião normal, nós todos poderíamos estar estirados na piscina da casa da Carmen, mas aquele não era um dia normal.

O dia estava quente e ensolarado, no auge das 13h, mas o aeroporto parecia um universo a parte: gelado, movimentado e, naquela ocasião, particularmente triste.

Acompanhada de Mônica e Cascão, eu tinha acabado de entrar naquele aeroporto, mas sentia como se já pudesse e embora. Achar meu amigo, segurá-lo pelo pulso, sair arrastando-o porta a fora, jogá-lo no porta mala do meu pai e pronto: "Pronto, pai, por favor, nos leve para a nossa gentil e aconchegante pequena cidade, na qual nem todo mundo fala inglês e francês, mas eu aposto que se pode ser bem feliz lá também."

Infelizmente, isso não iria acontecer! Para ser sincera, era até bem egoísta da minha parte pensar naquela hipótese. Cebola estava saindo dali para correr atrás de coisas melhores. Ele podia fazer isso e, principalmente, tinha coragem para tal.

Sinceramente, na situação dele, não sei se teria peito para enfrentar morar em um país diferente. Nem um inglês muito bom também.

"Ei, olha ele ali!", gritou Cascão, apontando para uma das cadeiras acolchoadas, perto da área de check-in.

"Santo Deus, finalmente!", Cebola se levantou assim que focou seu olhar sobre nós, enquanto nos aproximávamos. "Meu voo é daqui a pouco mais de meia-hora. Estava pensando que vocês não vinham mais!"

"Calma aí, cara, segura a onda garotinha sensível e carente, nós estamos aqui!", Cascão riu, enquanto dava um abraço no amigo. "O pai da Maga pegou um baita trânsito no caminho para cá!"

Cebola revirou os olhos, pouco satisfeito com a situação, e, então, pousou-os cuidadosamente sobre mim, ao se desvencilhar do abraço do Cascão.

"É, Maga, e aí? Como você está?"

Um sorriso contido se desenhou em seus lábios. Um dos muitos sorrisos mais bonitos que ele tinha.

"Maga..."

— Magali! Magali!

Precisei piscar os olhos algumas vezes antes de focalizar a imagem da minha mãe parada de frente para mim na cozinha, me fitando com uma expressão ao mesmo tempo confusa e insatisfeita. Olhei discretamente para baixo e vi que segurava uma colher – a qual supostamente deveria estar levando cereal a minha boca – completamente vazia.

— Magali! — Ela insistiu. — Você está me ouvindo?

— O quê, mãe? — Retornei à realidade, finalmente. — Claro que eu estou te ouvindo. Eu tenho 17 anos, não deu para ficar surda ainda. Apesar que, às vezes, a Mônica dá uns gritos que, bom... Talvez daqui a uns dois anos, a gente possa voltar a falar de surdez!

Concentrei-me no meu cereal, determinada a leva-lo à minha boca, como deveria estar fazendo antes de me deixar perder em pensamentos. Eu estava certa de que, apesar da estranheza em um primeiro momento, eu estava agindo com total normalidade agora. Infelizmente, aquilo não parecia ser normal suficiente para a minha mãe, que continuou sem tirar os olhos de mim.

— O quê? — Perguntei, intrigada.

— Sei lá, me diz você! — Ela riu, de uma forma contida, caminhando até a geladeira. — Você está muito alegrinha para alguém que teve que acordar às seis da manhã pela primeira vez em três meses!

— É — concordei -, é raro, mas se chama bom-humor matinal. Acho que tive uma noite bem legal ontem, então... Deve ser por isso!

— Ah, aposto que foi! Afinal, se você tem que chegar na escola daqui a quinze minutos e ainda está sentada calmamente tomando café... Bom, eu diria que deve ter sido uma noite e tanto!

— O quê?

Licença poética para surtar, por favor.

— Droga! Por que você não me avisou antes?

Não era como se eu não soubesse que estava atrasada. De fato, eu já havia acordado bastante atrasada, por um motivo bem óbvio: Cebola. O problema era que, a pé, que era como eu normalmente ia para a escola, eu demorava uns bons vinte minutos para chegar lá. Eu estava realmente esperando sair de casa a tempo.

— Magali, você vai fazer dezoito anos logo. Não posso ser o seu despertador para sempre!

— Você tem razão! — Falei, enquanto tirava o meu prato e tacava-o com menos cuidado do que o necessário na pia. — Mas eu realmente esperava que pudesse contar com isso, pelo menos, até terminar o colégio!

Não contive a cara de cãozinho abandonado ao olhar para ela mais uma vez e minha mãe, como o doce raio de sol que sempre foi, sorriu amigavelmente para mim.

— Deixa isso aí que eu lavo! Vai logo para a escola!

— Quem é a melhor mãe do mundo? — Explodi em felicidade, antes de lhe dar um beijo estalado na bochecha. — Te amo! Indo para o colégio agora, te vejo à noite!

Agarrei minha mochila jogada na sala de estar, ao sair correndo da cozinha. Peguei os tênis encostados perto da porta de saída e ponderei antes de calçá-los. Nem se eu fosse o próprio Usain Bolt conseguiria chegar no Colégio Dom Limão, em pouco mais de dez minutos, calçando aquelas coisas. Eu precisava de um update rápido!

Enfiei os tênis na mochila e corri, só de meia, até a garagem. Vasculhando algumas bagunças encostadas a parede, peguei meu patins que estavam largados por ali desde o ano passado e os calcei, apertando bem os cadarços para evitar acidentes.

Dez minutos para chegar ao colégio e, felizmente, sobre aquelas pequenas quatro rodas, eu era um raio. Infelizmente, por outro lado, havia muito mais pessoas do que deveriam na rua, aquele horário e, como raio, era um tanto quanto complicado desviar de todas. Precisei de, pelo menos, uns sete pedidos apressados de "desculpas" devido a leves esbarrões, pequenos demais para desviarem meu foco.

O toque do meu celular, porém, era, sim, o suficiente para desviar o meu foco.

Tirei o pequeno aparelho do bolso da calça, visualizando a tela inicial e diminuindo devagar a velocidade dos meus patins. Mônica Souza piscando insistentemente na pequena janela. Era uma mensagem de texto, uma no WhatsApp e outra no Messenger. Definitivamente, algo de errado não estava certo!

Definindo níveis claros de urgência, escolhi a do Messenger.

"Maga, CADÊ VOCÊ?

Falei contigo hoje cedo no wpp. Estava atrasada para a aula, mas aqui estou eu e cadê você? Onde quer que esteja, se apresse! Nós temos o primeiro tempo da segunda com a Michelle de Matemática. Ela detesta atrasos excessivos e exagerados.

Vem logo! Nossa sala é no terceiro andar, nº 305."

Ah, meu Pai do céu!

Sem sequer voltar a guardar o celular, acelerei o passo — ou as rodas, para ser mais precisa. Eu tinha três minutos e, graças às benções do bom-humor matinal, depois de pouco mais de um, eu já era capaz de ver o portão do colégio.

O inspetor me olhou um pouco torto quando entrei ainda de patins, com o horário apertado demais para poder parar e tirá-los. Enquanto conseguia ver pelo canto do olho, os alunos do primeiro ano se amontoando sobre o painel de entrada para ver em que turma estavam, fiz uma oração rápida para conseguir enfrentar, com sucesso, as escadas.

Três andares, dois consideráveis lances de escadas cada, tudo sob patins. Feito! Eu era oficialmente a pessoa mais jeitosa de todo o planeta Terra!

Sala 305 encontrada e, por ora, nenhum sinal da professora Michelle. Aquele ano letivo parecia estar se iniciando bem como eu merecia: em paz. Tudo termina bem quando começa bem!

— Ei, Maga! — Ouvi a voz de Mônica me chamar em algum lugar do fundo da sala.

— Oi! Como você está?

Mônica havia guardado o meu lugar ao seu lado, o que, depois de mais de dez anos estudando juntas, não era uma surpresa. Supri a distância entre nós rapidamente, desviando dos outros alunos que pareciam animados, papeando em voz alta e, cedo demais, tacando bolinhas de papéis uns nos outros.

Nossa sala, apesar das típicas panelinhas, era bem unida. Basicamente, todo mundo falava com todo mundo, mas, naquele momento, ainda recuperando o fôlego de fazer um trajeto de vinte minutos em dez, passei por todos calada, evitando prolongar assunto para mais do que um simples aceno de cabeça. Espero, de verdade, que isso não tenha posto minha simpatia em jogo!

— Cansada! — Respondeu Mônica, assim que finalmente me sentei ao seu lado. — Corri feito louca hoje de manhã. É realmente uma droga ter que acordar cedo depois de tanto tempo de boa vida!

— E eu não sei?

Comecei a tirar os patins, pronta para trocá-los pelos tênis. Ao meu lado, Mônica puxou uma agenda da mochila e pôs em cima da carteira. Observei-a, em silêncio, enquanto me ajeitava. O tempo definitivamente havia feito bem a ela. Sua pele agora impecável estava perfeitamente harmônica com o novo corte de cabelo um dedo abaixo dos ombros. Ela estava mais linda do que todos os "primeiros dias de aula" anteriores.

— Você está incrível hoje! — Ressaltei, já preparando o assunto da conversa. — Então, essa produção toda é casual ou temos nomes novos e interessantes na lista do terceiro ano?

— Há, eu bem que queria... — Ela riu, voltando a me fitar animada. — Infelizmente, eu realmente cheguei atrasada, então não deu para olhar as listagem!

— Bom, de qualquer forma, é o terceiro ano! Acho que nossas chances de termos nomes novos por aqui é bem pequena!

— Eu sei, né? Mas a esperança é a última que morre! Fala sério, é o último ano e... Eu realmente preciso de um rostinho novo e encantador para me distrair um pouco!

— E eu não sei? — Ri, divertida. — Estamos tão empatadas nisso!

Não estávamos desesperadas, mas fazia um tempo que saíamos para os mesmos lugares com as mesmas pessoas com os mesmos assuntos. Então, em pleno ano de vestibular, nada mais justo do que termos gente nova para ares novos (e por que não beijos novos?). O primeiro tempo de aula ainda não havia, de fato, começado, então, em partes, talvez valesse a pena esperar que um gato alto, moreno, inteligente e carismático entrasse pela porta a qualquer momento.

Mas não foi exatamente isso que aconteceu.

— Bom dia, Magali! Tudo bem?

Aquela voz conhecida e, há algum tempo, não mais comum no meu cotidiano fez com que cada célula do meu corpo congelasse gradativamente.

Lá vamos nós, primeiro dia de aula!

Notas finais
Bom, espero que tenham gostado... Fiquem à vontade para deixar reviews ou conversar comigo nos comentários. Até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.