Ainda somos os mesmos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Annabeth descia as escadas de sua casa tentando não fazer barulho para não acordar ninguém. Ela passou pela sala e notou que o relógio indicava 06:55. Suspirou com pesar. Pior do que acordar cedo forçada, é acordar cedo forçada para fazer coisas que não gosta. Tentou afastar pensamentos desestimulantes da cabeça e seguiu até a cozinha.
– O que faz acordado essa hora em um sábado, mocinho? — Annabeth questionou o garoto sentado na mesa, seu filho.
– Oh! — Ele se espantou ao ver a mãe com uma expressão curiosa no batente da porta. — Eu estava com fome.
O pequeno ergueu um biscoito azul com a mão direita e um copo de leite com a esquerda. Annabeth sorriu e se sentou ao lado do filho.
– Papai me diz para nunca acordar você, então vim sozinho. — Ele continuou.
– Contanto que não tenha destruído minha cozinha — Annabeth olhou em volta. — tudo bem, Lucas.
Ele sorriu e continuou a comer a pilha de biscoitos derramados sobre a mesa. Annabeth ficou observando-o. Lucas significava iluminado, e isso era exatamente o que ela sentia quando olhava pra ele. Deuses! Que garoto lindo! Percy e ela não costumavam fazer coisas certas juntos. Desde planos para missões até bigas de corrida.
– Você não tem culpa de ter um monstro como irmão. — Falou.
– Ele não é meu irmão. — Percy disse, impaciente. — E ele também não é um monstro.
– Ei, não se zangue comigo, e tecnicamente, ele é, sim, um monstro.
– Bem, você lhe deu permissão para entrar no Acampamento. — Percy retrucou.
– Porque era o único jeito de salvar sua vida. — Annabeth devolveu o comentário. — Quer dizer, sinto muito, Percy, eu não esperava que Poseidon o reclamasse. Os ciclopes são as criaturas mais enganadoras, traiçoeiras..
– Ele não é! — Percy gritou. — O que você tem contra os ciclopes, afinal?
– Esqueça! — Annabeth mudou de assunto, ela não tinha intimidade suficiente com Percy para falar sobre aquilo naquela época. — Agora, o eixo para essa biga...
– Você o trata como se ele fosse uma coisa horrível! Ele salvou minha vida.
– Então talvez você deva projetar uma carruagem com ele! — Annabeth jogou o lápis que estava em sua mão no chão.
– Talvez eu deva! — Retornou Percy.
– Ótimo!
– Ótimo!
E lá se foi ela, furiosa.
O resultado final das bigas de corrida não foi favorável para nenhum dos dois. Ela deu um riso nasal e silencioso, sentindo-se nostálgica. Agora, depois de 21 anos daquela briga, parecia mais fácil achar situações como essas divertidas. Annabeth tornou a olhar para Lucas. Essa foi a primeira coisa certa que eles fizeram juntos. Será que a Annabeth pré-adolescente daquela pequena discussão saberia que um dia isso viria a acontecer?! Ah, com certeza não.
Lucas se levantou e levou o copo até a pia. Annabeth era apaixonada pelo filho. Os olhos verdes como os de seu marido. Os cabelos pretos que antes eram cacheados mas devido ao novo corte de cabelo só se via algumas ondas. O jeito que ele a respeitava. O modo como ele era cuidadoso ao comentar certas coisas. Era seu melhor amigo de 6 anos.
– Vou voltar a dormir, mamãe. — Ele bocejou, coçando o peitoral. — Não perca o horário da sua reunião, viu?!
– A mamãe vai ficar atenta, querido. — Ela deu uma piscadela.
Ele saiu correndo pelas escadas. Preocupado!, pensou. Assim como o pai dele.
– Percy, você não pode carregar o peso desta missão toda. É impossível. É por isso que há sete de nós. E você vai ter que me deixar procurar a Atena Partenos sozinha.
– Senti sua falta — Percy disse. — durante meses. Um grande pedaço de nossas vidas foi levado. Se eu a perder de novo...
Preocupado. Annabeth sorriu. O silêncio profundo em que a casa se encontrava a tirou de seus devaneios. Ela tinha se esquecido que foi na cozinha para beber um gole de café. Se levantou e esquentou uma xícara com pouca quantidade do líquido no microondas. Esperou 15 segundos. Tirou a xícara de dentro do aparelho e saboreou. Annabeth adorava café. Mas esse café romano merecia muito mais do que adoração. Desde que se casou e veio morar em Nova Roma com Percy, tinha aprendido a apreciar mais certas coisas. O líquido desceu preenchendo toda a extensão de seu corpo. Ela se sentiu viva. Os romanos são bons em muitas coisas. Ela ainda não tinha se acostumado com aquilo.
Quando terminou, deixou sua xícara na pia e saiu da cozinha. Viu o relógio novamente, era 07:21. Ela nem reparou que o tempo tinha passado tão rápido. Ia ter uma reunião as 09:00. Ela odiava essas reuniões. Ser dona de uma empresa de arquitetura era doloroso às vezes. Foi para o seu quarto através da escada, pisando devagar. Ao passar pela porta, tirou o pijama e o colocou em cima da cama, torcendo para Percy não se acomodar em cima dele e amassá-lo. Foi até o closet, seminua, e pegou algumas roupas para a ocasião. Ela não gostava de usar a palavra closet. Assim como o café romano, ela não tinha se acostumado com o fato de ter um closet. Pelo menos o café era para o lado bom. Annabeth passou anos de sua vida morando num chalé com um monte de meio-irmãos. Ter um quarto enorme com acesso a um closet era quase um sonho.
– Não devo me sentir mal. — Murmurou para si mesma. — Eu batalhei para isso.
Annabeth se olhou no espelho. Provando roupas sem animação. O que houve?, se perguntou em pensamento. Eu tinha apenas 16 anos!, continuou. Ela havia mudado muito. As curvas já eram mais aparentes. Ela não tinha mais um rosto redondinho de garota. Seus cachos eram tratados toda semana no cabelereiro, deixando de lado o velho rabo de cavalo. A camisa do Acampamento Meio-Sangue era substituída por blazers de seda. Nas suas mãos não haviam mais nenhuma adaga, apenas sua aliança de casamento. Nos seus punhos não tinham quaisquer tipos de escudos, e sim uma linda pulseira da Cartier. Se bem que, apesar das mudanças, ela ainda era a mesma, gostava de fazer as mesmas coisas, saia com as mesmas pessoas, era só uma versão UP dela. Era o resultado da batalha que travou a vida inteira, aquela batalha sem monstros e armas, somente aquela que ela tentava ganhar para poder ser alguém na vida, ir a lugares que nunca foi, ter em casa coisas que nunca teve, não se preocupar em correr de estranhezas mitológicas o tempo todo. Depois de uma infância e adolescência inteira sendo vítima de guerras, talvez ela merecesse um final feliz. Uma vida tranquila com Percy, seu filho e os outros que eles planejavam ter mais para frente. É, definitivamente ela merecia.
– Gostei mais da azul. — Uma voz masculina disse mais atrás dela.
– O quê? — Annabeth se virou. Era Percy, um Percy com olhos sonolentos e cabelos amassados.
– A camisa azul. — Reforçou. — Ficou linda nela.
Annabeth chegou mais perto dele e lhe deu um beijo. Percy retribuiu com entusiasmo. Segurou os cabelos da moça delicadamente, que por sua vez tinha as pernas entrelaçadas nas dele. Quando se separaram, Annabeth começou a rir.
– Você está com bafo, Cabeça de Alga!
– Eu acabei de acordar. — Ele deu de ombros. — Além do mais, você adora meu bafo.
– Nojento. — Ela mostrou a língua para ele.
– Qual é?! — Percy deu um empurrão de leve em seu braço. — Cabeça de Alga?! Já faz tempo que não me chama assim, Sabidinha.
– Eu estava esperando há muito tempo por uma missão, Cabeça de Alga — disse ela. — Atena não é fã de Poseidon, mas se você vai salvar o mundo, sou a melhor pessoa para impedir que estrague tudo.
– Se é você quem diz. Tem algum plano, Sabidinha?
As bochechas de Annabeth coraram. Era a primeira vez que eles se chamavam assim.
– Eu preciso tomar banho. — Ela pegou suas roupas e foi saindo do closet. — Tchau.
– Eu vou com você. — Ele sorriu.
– Eu tenho uma reunião cansativa hoje, Percy. — Ela deu um pequeno soco em seu ombro. — Preciso relaxar.
– Será que tem algo que relaxa mais do que transar comigo numa banheira? — Ele perguntou, provocativo.
– E será que tem algo que os homens gostam mais do que sexo matinal? — Annabeth levou a mão no queixo. — Pelo amor..
– Talvez basquete. — Ele riu.
Annabeth revirou os olhos. Percy era insistente.
– E se Lucas acordar?
– Ele não vai. — Percy a abraçou.
Ela tinha certeza que ele não ia desistir. Apenas andou, indo para o banheiro. Percy sabia que quando ela não respondia nada, mas também não impedia, era porque ela, no fundo, queria aquilo, só não queria admitir. E Annabeth sabia que ele sabia disso.
Ela entrou no banheiro e começou tirar as roupas íntimas, enquanto Percy escovava os dentes na pia. Encheu a banheira com água quente e se deitou, só deixando os braços e a cabeça para fora.
– Eu quero dois banheiros, Percy! — Gritou.
– Temos dois. — Ele disse. — Só que um é do Lucas.
– Pensei que já que compramos uma casa nova poderíamos abusar um pouco. — Ela fez uma expressão emburrada.
– Um banheiro para nós é suficiente! — Retrucou o rapaz. — Somos um casal. Eu não vou me importar se você quiser fazer xixi enquanto eu estiver no banho.
– Eu também não vou me importar se tiver que te matar caso você deixe rastros de pasta de dente na pia. — Ela riu, irônica. — Ou se eu você não se lembrar de abaixar a tampa do vaso.
– Por que você tem que querer gastar o máximo possível, hein, Annabeth?! — Ele disparou. — Sabe quanto poderíamos economizar se não satisfizermos seu luxo?! Poderíamos viajar para a praia, quem sabe..
– Ok, sr. Como sou econômico! — Ela ergueu as mãos, se rendendo. — Mas eu vou querer uma banheira grande! Uma que cubra meus seios.
– Tudo bem, eu comprarei. — Ele rolou os olhos.
– E meus joelhos. — Completou. — Caso eu queira dobrar as pernas.
– Certo, claro. — Ele respondeu. — Se não fosse do seu jeito que seria uma novidade.
A banheira era realmente grande, pelo menos. Annabeth riu baixinho.
– O que foi? — Percy perguntou, entrando na banheira, no lado oposto ao de Annabeth.
– Nada. — Ela terminou de rir aos poucos. — Hoje estou com a cabeça nas nuvens.
Ele sorriu. Chegando mais perto dela e beijando seu pescoço. Ela sabia onde ia dar. Se segurou no tronco do marido e deixou ele fazer o trabalho.
– Percy, será que é uma boa ideia? — Ela coçou a nuca, nervosa.
– Não faça nada que não quiser. — Comentou, desconfortável. — Você falou que queria, ontem. Eu não sei muito o que fazer.
– É que.. — Ela piscou algumas vezes, nervosa. — Não sei se estou pronta.
Annabeth não mentia para Percy com facilidade. Mas quando se é jovem, não tem lingeries bonitas e está usando uma calcinha estilo vovó, a mentira poderia ser necessária.
– Eu estou nervoso também. — Admitiu o garoto. — Vamos deixar para outro dia. Alguém pode nos pegar em flagrante, não é?! Quando eu tiver dinheiro para irmos num hotel aí faremos.
Annabeth assentiu, desesperada.
No fim daquele dia, como se fosse um acaso do destino, eles tiveram sua primeira vez. Annabeth sempre achou que perder a virgindade seria como nos filmes. Com o amor da sua vida lhe acalmando e lhe dando morangos cobertos por chocolate na boca, em uma cama enorme e cheirosa e que eles pudessem beber uma quantidade de champanhe razoável, mesmo sendo proibido para menores. Grande engano o dela. Os dois tiveram crises de gargalhadas antes de começarem. Tiveram que tomar cuidado para não cair do beliche no chalé de 3. Além da parte cansativa de explicar para Percy que ela não estava tendo uma hemorragia só porque estava sangrando um pouco. Ao menos, a calcinha estilo vovó não os impediu de nada e a persistência dos dois fez que a coisa toda passasse de embaraçosa para prazerosa tempos depois. Talvez Annabeth tenha alguns pontos com Afrodite.
– Eu te amo. — Ela sussurrou a Percy.
– Eu também. — Ele falou, quase inaudível.
Ela segurou o rosto dele, afastando-o de seu pescoço. Começou a beijá-lo. Era engraçado como há a sensação de ser sempre o primeiro beijo quando você beija alguém que gosta.
– Ai, Percy. — Ela reclamou.
– O que houve? — Ele olhou para a esposa, confuso.
– Você fez eu bater a perna. Bem no meu machucado — Annabeth deu um tapa nele.
– O machucado é da semana passada, amor. — Ele disse.
– Ainda dói. — Ela cruzou os braços.
Percy riu e a puxou para mais perto.
– Você é impossível. — Ele mordeu sua orelha.
Ela tentou parar de ter flashbacks inusitados. Se entregou totalmente a Percy e deixou que o tempo os conduzisse, antes das obrigações a chamarem.
– E você é insuportável. — Ela disse, em meio aos beijos que ele distribuía nela.
Era interessante saber que quanto mais as coisas pareciam mudar, mais elas continuavam as mesmas.
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