Ainda assim, Amar
1 Prólogo — O Que Ele Nunca Deixou Para Trás
Notas iniciais
Edward Cullen não se lembrava do próprio nascimento.
Mas lembrava do cheiro.
Gasolina misturada com sabão barato.
O som da chuva batendo no teto fino do trailer.
A voz da mãe cantando baixinho enquanto lavava os pratos.
Ele tinha quatro anos quando suas memórias começaram. E nelas, sua mãe, Rachel, ainda sorria.
O trailer era pequeno, antigo, com ferrugem nas bordas da porta. Mas estava sempre limpo. Rachel esfregava o chão ajoelhada, dizia que pobreza não era desculpa para sujeira. Edward acreditava nela como se acreditava no céu.
Rafael, seu irmãozinho de dois anos, tinha o riso mais fácil do mundo. Corria pelo espaço apertado, tropeçava, levantava, voltava a rir. Edward o seguia como um pequeno guardião.
Eles não tinham muito. Mas tinham rotina.
E rotina é uma forma de segurança para uma criança.
Até Travis.
Edward tinha cinco anos quando viu o homem pela primeira vez. E algo dentro dele enrijeceu.
Não era algo que pudesse explicar. Era instinto. O mesmo instinto que faz um animal pequeno se esconder ao ouvir um galho quebrar na floresta.
Travis sorria demais.
Tocava demais.
Olhava demais.
Rachel começou a chegar mais tarde. O jantar já não era garantido. O chão já não brilhava. O cabelo dela já não tinha cheiro de sabão — tinha um cheiro estranho, doce e químico.
Edward não sabia o que era vício.
Mas sabia que sua mãe estava desaparecendo aos poucos.
Aos seis anos, ele já sabia procurar comida.
Sabia quais lixeiras de restaurante eram descartadas primeiro.
Sabia sorrir para desconhecidos na esperança de ganhar moedas.
Sabia mentir dizendo que a mãe estava doente para que alguém lhe desse um pão.
Ele não chorava.
Rafael chorava por ele.
Naquela tarde, o céu estava pesado, quase roxo. Edward voltou correndo com meio sanduíche amassado dentro do casaco.
Quando abriu a porta do trailer, o som o atingiu primeiro.
O choro.
Desesperado.
Rafael estava no quarto, vermelho, suado, faminto.
Na sala, Rachel estava caída no sofá, uma agulha ainda presa ao braço. Os olhos semicerrados, vazios.
E Travis estava ali.
Preparando outra dose.
Ele olhou para Edward como quem olha para algo inconveniente.
— Se você não calar a boca desse moleque, eu mesmo calo.
Edward tentou.
Deus, como ele tentou.
Ele cantou.
Ele balançou o irmão.
Ele implorou para que Rafael dormisse.
Mas fome não se convence.
A porta do quarto foi aberta com violência.
O empurrão foi forte demais para o corpo pequeno de uma criança de seis anos. A cabeça de Edward bateu na parede e o mundo girou.
Ele tentou levantar. Tentou correr.
Mas o som que veio a seguir…
É o som que ele ouve até hoje quando fecha os olhos.
Um som seco.
Um choro interrompido.
Silêncio.
O tipo de silêncio que nunca mais vai embora.
Travis foi preso.
Rachel também.
Edward não chorou no tribunal.
Não chorou no enterro simbólico.
Não chorou no orfanato.
Ele só parou de dormir.
Porque toda vez que dormia, o silêncio voltava.
Três anos depois, um casal apareceu.
Eles não fizeram perguntas invasivas.
Não forçaram abraços.
Não disseram “vai ficar tudo bem”.
Disseram apenas:
— Você está seguro.
Edward não acreditou.
Mas ficou.
A casa era grande demais. O quarto era silencioso demais. A cama era macia demais. Tudo parecia provisório.
Ele dormia vestido.
Guardava comida no bolso.
Contava as saídas da casa.
Esperava o inferno começar de novo.
Mas ele nunca começou.
Havia discussões. Havia diferenças. Havia risadas altas demais.
Mas não havia medo.
E isso o desarmava mais do que qualquer ameaça.
O problema do amor é que ele cria vínculo.
E vínculo cria vulnerabilidade.
Ele já tinha perdido demais.
Não perderia de novo.
Então ele se tornou excelente.
Excelente aluno.
Excelente estrategista.
Excelente controlador.
Controle era segurança.
Sentimentos não.
Anos depois, Edward Cullen era um dos empresários mais bem-sucedidos do país.
Frio em negociações.
Implacável em decisões.
Respeitado. Temido.
Ele possuía prédios, ações, empresas.
Mas ainda não dormia bem.
Às vezes acordava com a sensação de que algo estava errado. Como se precisasse correr para um quarto pequeno e salvar alguém.
Mas não havia mais ninguém para salvar.
Ou era o que ele pensava.
A noite estava pesada depois de um dia exaustivo de reuniões quando ele entrou em um bar discreto, procurando apenas silêncio e um copo de algo forte.
Foi quando a viu.
Isabella Swan.
Cabelos presos de qualquer jeito. Olheiras suaves. Um olhar que parecia carregar histórias demais para alguém tão jovem.
Ela era garçonete.
E estava sendo encurralada.
Três homens. Rindo alto demais. Tocando onde não deveriam. Dizendo coisas que fariam qualquer pessoa querer desaparecer.
Edward sentiu algo diferente do controle.
Sentiu fúria.
Não aquela fria e calculada.
Uma fúria antiga. Instintiva. Protetora.
Ele se levantou.
Não precisou gritar.
Não precisou ameaçar.
Bastou o tom firme. O olhar que não aceitava resposta.
— Ela disse não.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Mas os homens recuaram.
Quando o bar se acalmou, Isabella se aproximou da mesa dele.
— Eu podia ter lidado com isso.
Ele ergueu o olhar.
— Eu sei.
E pela primeira vez em anos, Edward não sentiu que estava salvando alguém.
Sentiu que estava reconhecendo algo.
Sobrevivência.
Ela não era frágil.
Ela era forte.
Mas estava cansada.
Assim como ele.
E naquele instante — silencioso, quase imperceptível — algo começou.
Não paixão imediata.
Não conto de fadas.
Mas a possibilidade.
E para um homem que passou a vida acreditando que amar era perder…
Possibilidade já era um milagre.
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