Ainda assim, Amar

4 Capítulo 3 - A Casa Branca Demais


Notas iniciais
Neste capítulo um pouco do que a Bella passou e o encontro com Edward então será que mereço um ou dois comentários?Me esforcei muito neste capítulo espero que gostem


Casamentos têm cheiro.

Flores frescas. Champanhe. Perfume caro.

Mas naquela noite havia outro cheiro.

Chocolate quente.

Bella sentiu antes mesmo de ver.

A mesa de sobremesas estava impecável — torre de macarons, frutas cristalizadas, mini tortas delicadas… e, ao centro, uma bandeja de cookies de chocolate recém-saídos do forno.

O aroma era simples.

Doce.

Caseiro.

Errado naquele ambiente sofisticado.

Ela parou por meio segundo.

Só meio segundo.

Mas foi o suficiente.

Porque ela tinha cinco anos de novo.

A cozinha da antiga casa nunca fora grande, mas era o único lugar que parecia aquecido por algo além da luz elétrica. As janelas pequenas embaçavam quando o forno ficava ligado por muito tempo. O cheiro de chocolate se infiltrava nas cortinas, nos cabelos, nas roupas.

Sua mãe mexia a massa com calma, como se aquele gesto sustentasse o mundo.

Bella ficava sentada sobre o balcão, as pernas finas balançando no ar, observando cada movimento com atenção quase reverente.

A colher raspando a tigela.

O açúcar caindo como chuva fina.

A farinha marcando a ponta do nariz.

A voz da mãe era sempre suave quando falava de sonhos. Sempre dizia que ela era luz. Que havia algo nela que iluminaria os lugares mais escuros.

Bella não entendia o peso daquela promessa.

Até o dia em que a luz se apagou.

Uma semana depois daquela conversa, o cheiro de chocolate foi substituído pelo cheiro de flores brancas demais.

O velório foi branco demais.

A casa, depois, ficou branca demais.

Silenciosa demais.

Grande demais.

O eco dos próprios passos passou a assustá-la.

Charlie Swan transformou ausência em presentes. Cartões, caixas, embalagens caras deixadas sobre a cama perfeitamente arrumada. Ele falava pouco. Trabalhava muito. Olhava por cima do ombro quando precisava estar em casa.

Nunca perguntava sobre pesadelos.

Nunca entrava no quarto quando ela chorava baixo demais para ser ouvida.

Então Beatriz chegou.

Primeiro com sorriso treinado.

Depois com regras.

Depois com correções.

Depois com mãos.

O primeiro empurrão aconteceu na escada.

O primeiro tapa veio por responder baixo demais.

A primeira noite trancada na despensa foi silenciosa. Escura. Sem água. Sem explicação.

Bella aprendeu a não chorar alto.

Aprendeu que portas fechadas podiam significar punição.

Aprendeu que pedir ajuda não garantia resposta.

Aos treze anos, quando o lençol manchou de vermelho pela primeira vez, ela achou que estava doente.

Beatriz achou que era sujeira.

A surra veio rápida. Sem espaço para perguntas.

Três dias na cama.

O corpo doendo.

A febre subindo.

Charlie passou pelo corredor duas vezes.

Não entrou.

Naquele dia, Bella entendeu que amor podia ser condicional.

E que ela não preenchia as condições.

De volta ao salão iluminado, alguém colocou a bandeja de cookies em suas mãos.

O cheiro subiu como uma memória viva.

Exatamente o mesmo.

Não parecido.

O mesmo.

O estômago dela se contraiu.

A menina de cinco anos voltou inteira, esperando alguém sair da cozinha e dizer que estava tudo bem.

Esperando ouvir passos que nunca vinham.

Aplausos explodiram na nave quando os noivos disseram “sim”.

O som atravessou seu corpo como um disparo.

Palmas sempre a deixavam em alerta.

Pareciam portas batendo.

Pareciam gritos.

Pareciam o início de algo que terminaria em dor.

A bandeja quase escorregou de suas mãos.

Ela piscou rápido.

Respira.

Não ali.

Não agora.

Entregou os doces para outra funcionária sem explicar direito.

Precisava sair antes que o ar faltasse de vez.

O salto afundou levemente na grama úmida quando atravessou a lateral da igreja. As luzes do salão ficavam mais fracas ali. A música chegava abafada.

A noite estava fria.

Fria de um jeito bom.

Honesta.

Sem cheiro de chocolate.

Sem promessas.

Sem passado.

Ela levou a mão ao peito, tentando regular a respiração. Contou mentalmente como aprendera sozinha anos atrás. Quatro tempos para inspirar. Quatro para segurar. Quatro para soltar.

Devagar.

Devagar.

O mundo começou a estabilizar.

E ela aos poucos foi voltando a realidade

O que Isabella não sabia é que um encontro hoje de duas almas perdidas poderia salvar a inquietude da sua alma.