Ainda assim, Amar

2 Capítulo 1 - Fissura



O prédio continuava funcionando — telefones tocando, passos apressados no corredor, o elevador subindo e descendo como se o mundo obedecesse a uma lógica previsível. Lá fora, a cidade se movia. Aqui dentro, tudo estava sob controle.


Exceto ele.


O convite ainda estava sobre a mesa.


Creme. Elegante. Delicado demais para suas mãos.


Ele deslizou o dedo pelo relevo das letras como quem testa a temperatura de uma água perigosa.


Emmett McCarty Cullen & Rosalie Hale.


Família.


A palavra sempre lhe soara estrangeira.


*


Ele tinha oito anos quando atravessou a porta da casa dos Cullen pela primeira vez.


Não lembrava do trajeto até lá. Lembrava do cheiro.


Canela. Café fresco. Algo assando no forno.


Lembrava de ter parado na soleira, rígido, esperando que alguém gritasse. Que alguém dissesse que ele estava no lugar errado. Que aquilo era temporário. Que a gentileza tinha prazo de validade.


Mas Esme se ajoelhou na frente dele.


Não tocou. Apenas sorriu.


— Você deve estar cansado.


Não perguntou o que tinha acontecido. Não exigiu explicações. Não fez promessas impossíveis.


Só abriu espaço.


Edward odiou aquilo.


Porque não sabia o que fazer com cuidado.


Nas primeiras semanas, dormiu vestido. Guardou comida no bolso. Contou as saídas da casa. Observou padrões de voz, mudanças de humor, qualquer sinal de que o inferno pudesse começar de novo.


Mas ele nunca começou.


Carlisle conversava com ele à mesa. Rosalie implicava. Emmett ria alto demais. Havia discussões, havia diferenças — mas não havia medo.


E isso o desarmava mais do que qualquer ameaça.


O problema do amor é que ele cria vínculo.


E vínculo cria vulnerabilidade.


Ele já tinha perdido demais.


Não perderia de novo.


*


O telefone da mesa vibrou, trazendo-o de volta ao presente.


— Senhor Cullen, a reunião com o conselho começa em cinco minutos.


— Estou indo.


A voz saiu estável. Controlada. Como sempre.


Ele colocou o convite dentro da gaveta.


Fechou.


Ajustou o paletó.


Quando atravessou a sala de reuniões, todos se endireitaram nas cadeiras. Edward assumiu a cabeceira da mesa com a naturalidade de quem nasceu para comandar.


Números foram projetados. Estratégias discutidas. Decisões tomadas.


Ele era impecável.


Brilhante.


Intocável.


Mas, no meio de uma análise financeira, sua mente traiu-o novamente.


Imaginou a cerimônia.


Emmett sorrindo como se o mundo fosse simples.


Rosalie impecável.


Esme chorando discretamente.


Um lugar vazio.


O dele.


— Senhor Cullen? — alguém chamou.


Ele piscou.


— Continue.


A reunião seguiu.


Mas algo havia mudado.


Naquela noite, quando voltou para o apartamento silencioso demais para um homem de trinta anos, Edward não acendeu todas as luzes como de costume.


Ficou parado na sala escura, olhando a cidade pela janela.


A solidão era organizada. Previsível. Segura.


Ainda assim… havia uma diferença entre escolher estar sozinho e simplesmente permanecer.


Ele caminhou até o escritório particular.


Abriu a gaveta.


Pegou o convite novamente.


Ficou ali, sentado, o papel entre os dedos, como se pesasse mais do que deveria.


Ele não era mais o garoto no trailer.


Não era o menino assustado na porta da casa dos Cullen.


Era um homem que construiu tudo do zero.


Então por que a ideia de atravessar uma igreja e sentar ao lado da própria família parecia mais ameaçadora do que fechar um contrato milionário?


Edward encostou a testa na ponta dos dedos.


Talvez porque negócios não pedem seu coração.


Mas família… sempre pede.


E ele nunca soube como oferecer algo que ainda estava tentando proteger.


O convite permaneceu aberto sobre a mesa.


E, pela primeira vez em muitos anos, Edward não tinha certeza da decisão que tomaria.