Ainda é cedo.

8 Capítulo 8: Uma carona não é só uma carona


Notas iniciais
Parte I - Só queríamos estar ali

Manuela

As férias estavam chegando e as coisas estavam andando muito bem. Até a semana de provas chegar. Eu estava pirando! Estudava umas três horas de cada matéria depois que chegava da aula. Nunca tive o sono muito regular, e pelo nervosismo, quase não dormia mais. Fiz a primeira prova e tinha certeza de que ia levar um zero.

O Edu estudava em outra faculdade e a sua semana de prova foi na semana anterior à minha, então ele estava me ajudando bastante. Me deixava usar ele de cobaia quando era preciso, fazia pratinhos de comida e levava pra mim quando eu perdia a hora das refeições e sempre dizia que podia chamar se precisasse de algo. Ele era um ótimo amigo.

Falando em amigo, o Rodrigo estava se saindo muito bem nesse posto. Soltava algumas indiretas, mas nada que não desse pra me fingir de surda. Marcamos sempre de ir estudar em grupo e revisar as matérias antes da aula. Até que chegou o dia que eu não tive como negar mais que fosse lá em casa. E pra melhorar, éramos só nós dois porque o restante do pessoal não apareceu.

-Ta prestando atenção, Manu?

Eu não conseguia focar na matéria, minha mente estava cansada. Meu cérebro era incapaz de somar 1+1 sem dizer que era 5.

-To sim.

-Então qual a resposta?

Ele estava com o gabarito de outras provas que eu tinha tirado da internet. Eu não aguentava mais. E ele parecia estar de saco cheio também.

-Não podemos parar um pouco?

-Manu, nossas provas são classificatórias pros estágios, lembra?

Óbvio que lembrava. Uma ótima vantagem da minha faculdade era que você realmente era reconhecido se fosse um bom aluno. Todas as nossas notas eram computadas e analisadas na hora dos estágios. Os melhores campos iam pros melhores alunos. Nem sempre era justo, mas facilitava em grande parte a distribuição. Se você fosse bem em ginecologia, não tinha porque ir pra um hospital referência em trauma.

Todos passariam em todas as especialidades, claro! Mas como toda nota era válida e fazia diferença, eu sempre ficava apavorada.

-PARA DE ME LEMBRAR DISSO A CADA CINCO MINUTOS, RODRIGO!

É isso! Oficialmente perdi o controle. Eu não queria ter gritado. Juntei as mãos tampando o rosto e cerrei os dentes pra não chorar. Eu amava tudo aquilo, mas quando eu podia controlar! Com alguém me falando a cada cinco minutos que eu precisava daquilo pra ter MINHA vida... Não dava, simplesmente não dava. Eu estava exausta, com sono, sem me alimentar direito — coisa que afetava diretamente meu humor — e a pressão que ele colocava não ajudava. Já bastava a minha pressão de sempre achar que não era suficiente.

E foi nessa hora, que pra minha sorte, o Edu chegou. Ouvi as chaves sendo jogadas no aparador e o barulho da mochila no chão.

-Vai cara, eu cuido dela.

A voz dele tava baixinha. Eu não abri os olhos e nem descobri o rosto. Ouvi o barulho das folhas e cadernos sendo fechados e senti o Rodrigo se afastar. A porta bateu e eu comecei a chorar.

Edu era um dos poucos que já tinha me visto desse jeito. Com quase seis meses de convivência, muita coisa aconteceu.

-Ei, olha pra mim.

Balancei a cabeça de forma negativa.

-Por favor.

Ele segurou minhas mãos e tirou do rosto, puxando meu corpo para perto, me aninhando como uma criança assustada. Apoiou sua cabeça nos meu cabelos, fazendo um carinho de leve enquanto dava alguns beijos no topo. Eu podia sentir seus lábios movendo enquanto falava.

-Semana passada eu tinha uns três trabalhos que valeram metade da nota, todos enormes e extremamente detalhistas. Quando você chegou e me viu querendo jogar tudo pro alto, o que fez?

Tive que rir ao lembrar.

-Falei pra parar de frescura e te chamei pra comer, porque eu tava faminta.

-Exatamente, e o que eu fiz?

-Me chamou de doida e saiu com raiva pro quarto.

-E ai?

-Ai eu te segui e disse que se desistisse, era um babaca, porque tinha que tentar até não aguentar mais. E que eu não era amiga de nenhum babaca.

-Você é um babaca, Manuela?

Fiz que sim com a cabeça.

-Não sei se minha cabeça aguenta absorver mais alguma informação, mas essa eu posso te dizer com certeza.

Ele me puxou me sacudindo pelos ombros.

-Não! Não é! Porque eu não tenho nenhuma amiga babaca. Agora levanta que eu to com fome, vamos comer. Sua cabeça precisa de um hambúrguer para processar todas essas informações e empurrar o conteúdo dentro de você.

Levantou e estendeu a mão para mim. Olhei incrédula pra ele.

-Eu te odeio!

Ele voltou e se abaixou, olhando diretamente nos meus olhos:

-E quem foi que disse que eu te amo?


Resultado final do semestre: aprovada! No fim das contas, a tal prova que eu pensei que tinha zerado tinha sido uma das minhas melhores notas. Isso significa que continuo com minha vida e melhor: posso me inscrever nas aulas de dança.

Mandei uma cópia das minhas notas finais para minha mãe e ela ficou tão feliz que me senti completa. As coisas não tinham como melhorar!


Eduardo

Eu sou um idiota. Um completo idiota.

Como eu posso estar gostando de uma garota que sei que odeia compromisso e relacionamentos? Uma garota que foge de qualquer coisa que envolva algo com sentimentos.

Eu não tinha me tocado do que estava sentindo por ela até o dia que escutei ela gritando com o Rodrigo. Eu ainda estava no corredor e acelerei o passo. Quando entrei meu coração se apertou ao ver ela ali, encolhida. Quando me toquei que nem tinha me incomodado com a presença do príncipe da Disney, percebi que estava ferrado. Eu só me importei em ajudar ela pelo resto do dia. Já dizia a falecida banda Soulstripper:

"Tem gente que me irrita fácil, tem gente que me faz bem fácil

E tem você, que faz os dois".

Ela sentia prazer em me irritar! E nem me faça falar de todas as vezes que veio toda atirada para cima de mim, e depois saiu. Eu a odiava nessas horas!

Odiava o fato de gostar de odiar ela. Odiava como saía com pressa passando perfume, deixando seu cheiro doce por toda a casa. Odiava como já conhecia sua rotina e odiava todos aqueles shorts jeans que ela sempre usava. Odiava como ela conseguia me envolver de forma leve, sem nenhuma cobrança ou peso. Odiava como ela tinha visto o pior de mim naquele dia e mesmo assim estava ali como se não importasse. Odiava como eu podia ser eu sem ter que me polir ou mudar perto dela. Odiava como estava dando certo a gente morar junto e como a gente se cuidava sem nem perceber. Odiava que já sabia que ela demorava umas horas para realmente se ligar depois de ter acordado. Odiava que ela cozinhava mal mas se esforçava para fazer outras coisas que não fosse macarrão, porque era realmente o único prato gostoso dela. Odiava como cantarolava no chuveiro enquanto tomava banho. Odiava como mexia no cabelo quando estava concentrada. Odiava como meu peito reagia quando a via arrumada para algum compromisso.

Eu simplesmente odiava tudo que vinha dela desde que percebi que ela era parecida com a... Pera, ela se parecia com quem mesmo?

Manuela

Depois que gritei com o Rodrigo, ele não falou mais comigo. Não parecia magoado ou com raiva, mas simplesmente evitava esbarrar comigo. Acho que ele precisava desse tempo. E eu respeitei.

Meu voo saía amanhã de noite e não queria ir pra casa me sentindo mal pelo que tinha feito.

Tocou uma vez. Duas. Três. Quatro.

Ele atendeu no quinto toque.

-Alo?

-Rodrigo, é a Manu.

-Eu sei.

Nossa, que seco!

-Então... Acho que te devo desculpas.

Apesar do meu orgulho ser bem grande, sei pedir desculpas quando sei que não estou certa, não é algo que me incomode.

-Tá tudo bem.

-Não, não tá. Me evitou a semana inteira... Eu não devia ter gritado, você só queria me ajudar. É só que eu tava uma pilha de nervos e precisava respirar um pouco. Acabei descontando em você, foi errado. Me desculpa?

Ele riu.

-Te desculpar? Eu tava pegando muito no seu pé, nem eu estava me aguentando, sério, tá tudo bem... Te evitei só pra te dar um tempo pra se acalmar mesmo, não estou com raiva.

Por alguma razão, a resposta dele parecia mentira. Mas me forcei a acreditar.

-Obrigada Rodrigo, você é... – extremamente compreensível de uma forma que nem parece humana — Incrível.

-Em que sentido?

Bufei.

-É um amigo incrível.

-Droga... Um dia eu ainda mudo isso – ele estava mesmo disposto – Vamos fazer o seguinte: ficamos quites, ok?

-Quites? – por que não? – Certo. Pode ser.

-Então me deixa te levar pro aeroporto amanhã?

Como ele sabia que eu ia amanhã?

-A Laura me falou que vai voltar pra casa durante as férias amanhã. Sei que não sou um príncipe no cavalo branco, mas tenho um carro que pode te levar até o aeroporto...

Vou me arrepender até mesmo de ter pensado sobre isso, e não admito nem sob tortura que isso passou pela minha cabeça, mas fiquei um pouco triste por não ser o Edu a me levar.

Eu parei pra perceber, que mesmo que a gente já tenha se estranhado tanto desde o primeiro dia que nos vimos, nós tínhamos uma boa relação. O Sam me ligou a alguns dias, querendo saber se ia ter que começar a juntar dinheiro para pagar um apartamento pra mim, conforme o prometido. Eu não tinha uma resposta clara ou concreta para lhe dar. Eu senti medo de saber a resposta no final. A verdade era que, mesmo odiando ter que mentir para minha mãe por no mínimo mais cinco anos – era melhor ela não saber que eu morava com um cara e que o Sam não só concordou com isso como me enfiou nessa situação – eu não queria mais sair dali. Até mesmo o simples pensamento parecia algo tão... Estúpido. Era algo com ele... Algo com o jeito que ele "penteava" o cabelo e como me agarrava. Com ele não era só corpo no corpo como com os outros, não me fazia ter que ter vontade de ir além com ele no primeiro momento, e digo isso de uma forma positiva porque Deus sabe quantas vezes já me senti constrangida pela pressão de ter que transar sendo que não queria. E pra deixar claro: eu nunca cedi! Tanto que continuávamos apenas nos pegas, sem chegar em nenhum finalmente. Ele só, sei lá. Só me fazia ter vontade de não sair dali. Pela primeira vez na vida, parecia que eu tinha conhecido alguém que realmente valia a pena estar junto.

Ai meu deus, tô pensando como uma menininha de 12 anos!

Eu não queria concluir esse pensamento com medo de se tornar algo real pra mim, indo além desses pensamentos inúteis.

Talvez eu nunca entenda isso que to tentando explicar, mas é que por mais que fossem três semanas só, eu ia sentir falta do que tava vivendo agora. Era MINHA vida pela primeira vez! Lógico que eu sentia falta da casa limpa e da roupa lavada, sentia saudade do Sam, da minha mãe e da minha irmã, mas acho que eu tinha medo de voltar e ver aquilo tudo escapando pelos meus dedos, me fazendo voltar tudo de novo e de novo. Todas as minhas conquistas ainda seriam válidas quando eu voltasse pra minha antiga vida? Eu ainda teria a independência que estava tendo em poder errar sem afetar ninguém além de mim mesma? De enfim agir como uma pessoa de 18 anos?

Quer dizer, tudo isso se resumia ao meu medo.

Pela primeira vez na vida, conheci alguém que valia a pena conhecer, alguém que não exigia nada de mim, por simplesmente não querer nada em troca. Eu nunca tinha pensado nesse tipo de coisa por nunca ter acreditado em nada disso. Eu já não tenho juízo e o Edu ainda vem chegando com aquele sorriso torto...

Tá vendo só?

Arrrrrrgh! Que raiva!

Acho que esse tempo em casa vai me fazer bem, botar a cabeça no lugar...

-Então que horas sai o seu voo?

Fechei os olhos, sabendo do quanto iria me arrepender de dar essa resposta.

Estava terminando de pegar as coisas e por na mala, quando ouvi os passos dele.

-Ei – como sempre, estava escorado na minha porta. Tinha acabado de levantar, com cara de sono e os cabelos completamente desgrenhados. Usava uma camiseta preta larga e moletom cinza – que horas é seu voo mesmo?

Eu havia decidido que era melhor assim. Imagine só? Eu não saberia como reagir ao me despedir.

"Para de inventar desculpa Manuela...".

Respondi sem olhar.

-Não vai precisar me levar não, obrigada.

-Não? E como você vai? Não precisa gastar com táxi, eu não tenho compromisso hoje...

Fechei os olhos e respondi rápido até demais:

-ORodrigovailevar.

-O que? Eu ouvi Rodrigo?

Não respondi e não tive coragem de olhar para ele.

-Ok, já entendi.

Droga, ele ficou com raiva. Ouvi os passos pesados se afastando e fui atrás.

-Edu...

Ele se virou no meio do corredor, me fazendo parar também para não cairmos.

-Tá tudo bem. Sem compromisso, lembra?

Despejou aquilo em mim como se dissesse "você quis assim!".

-Edu, escuta...

-Não, escuta você! Eu não ligo! Quer que ele te leve, por mim tudo bem, não faz diferença. Vai embora com o Rodrigo!

Isso era um "vai lá com seu amiguinho!"? Que coisa mais ridícula!

-Ir embora com ele? Isso ainda é sobre quem vai me levar pro aeroporto? Por que se não for é bobagem, eu volto em três semanas...

-Não Manuela, sabe o que é bobagem? O seu péssimo hábito de pensar tanto nos outros e não pensar no que realmente está fazendo. Não entende que ele gosta mesmo de você? Pra ele não é só uma carona! Mas quer saber de qual Manuela ele gosta? Dessa que você tanto se esforça para estampar! Ele não te conhece, e nós dois sabemos disso!

-Então quem me conhece? Você?

Ele se mexeu impaciente e me encarou, me engolindo com aqueles olhos, como sempre fazia. Mas hoje era diferente, me transmitiam algo... Não sei, parecia raiva e mágoa. Não, não era só sobre a carona.

Ele apoiou uma das mãos na parede do corredor. Coçou o rosto com a mão livre, totalmente impaciente. Segurou a ponte do nariz e sem me olhar, falou entredentes.

-Eu já te vi chorar.

Vamos esclarecer uma coisa: eu não choro na frente das pessoas. Não gosto! É o simples fato de odiar o jeito que elas vão me olhar. Então, são raras as pessoas que já me viram assim realmente porque só de pensar no olhar de pena que vou receber, meus olhos secam instantaneamente.

Ele respirou fundo, olhou pro teto e me encarou.

-Já te vi dançar solta pela casa, cantar com uma voz tão doce no chuveiro, que na primeira vez nem acreditei que saía de você... Sei que não suporta o cheiro de canela porque cheguei da padaria com rosquinhas e você quase me matou. Já te vi cair de cara nos livros, e dormir sobre eles porque ia ficar lendo até não aguentar mais... Você é mais do que esse ser superficial que tenta mostrar, você sabe, e eu sei! E não digo que sei de tudo isso porque moro com você, mas porque é a verdade, porque VOCÊ vai além do decote do jaleco. Mas se prefere que ele te leve, ok.

Virou as costas pra mim sem me dar chance de defesa. Pegou as chaves do carro e saiu, batendo a porta atrás de si. Não demorou muito tempo para ouvir uma batida na parede. Esperei ouvir outra, mas não teve mais nenhum barulho.

Alô papai do céu, por favor me diga que isso só foi realmente pela carona!

Cada palavra me atingiu de forma estúpida, como se jogasse tudo aquilo na minha cara, como um tapa que doía da forma mais indireta possível.

A campainha tocou e eu olhei no relógio do micro-ondas. Faltavam duas horas pro meu voo, era melhor me apressar.

Gritei um "já vou" abafado e fui para o quarto. Fechei a mala do jeito que estava mesmo, sem fazer ideia do que estava levando. Tranquei com o cadeado, me olhei no espelho e forcei o sorriso mais animado que consegui.

O pior? O sorriso convenceu o Rodrigo.