Ainda é cedo.
18 Capítulo 18: O primeiro porre a gente não esquece
Notas iniciais
Eduardo
Se você tem uma namorada, acorde ela e peça para cozinhar de pijama! Jogue uma camiseta sua nela e pronto, só com essa imagem você já vai ter ganhado o dia.
Almoçamos – ou pelo menos tentei engolir uma mistura que ela tinha feito – e ela voltou para o quarto para ligar para a mãe. Pelo que ela já tinha me dito, a mãe dela parecia ser bem legal, mas sem ligações constantes havia grandes chances dela aparecer batendo na porta.
Tomei um banho e troquei de roupa. Tinha fisioterapia em meia hora.
A Anne não foi a mais receptiva. E parecia que descontava nos exercícios. Eu preferia ter encarado outra briga do que aguentar aqueles exercícios dela.
-Pronto, eu vou anotar aqui...
-Anne, para!
Ela levantou os olhos das anotações e me olhou. Parecia exausta.
-Não precisa ser assim... Não to aqui por acaso. Realmente preciso de ajuda. Isso tudo não é porque a gente saiu, é?
-Pra você foi só um encontro né?
Ah não...
-Quer dizer, foi só um encontro pra mim também. Mas Edu... Pela primeira vez, um cara saiu comigo, me levou pra casa dele e não me agarrou. Não se encantou só pelo meu cabelo chamativo ou pelo meu decote. Você olhou no meu olho durante toda a noite... Você me surpreendeu! Entende isso? Eu não posso deixar passar disso, e continuar te vendo sempre, mesmo que seja só pra esse acompanhamento... Eu não quero! Eu não consigo, então por favor... Não insiste nisso. Eu disse que fazia as sessões pra você, e só! Depois acabou e acabou!
Ela abriu a porta, os olhos marejados, evitando me olhar.
Meu deus, o que eu fiz?
-Onde você tá?
-To saindo do trabalho, por quê?
-Tô indo te pegar agora!
-Como assim cara?
-Não questiona Gus, só me espera na entrada do prédio.
Eu já estava virando a rua. Ele não demorou pra aparecer.
-Que foi? Que cagada fez dessa vez para até vir me buscar?
-Tá com fome?
-Eu estou sempre com fome!
Estacionei em uma lanchonete qualquer e entramos. Ele foi fazer o pedido e eu fiquei esperando. Meu estômago estava embrulhado e me sentia horrível!
Ele colocou a bandeja do meu lado e começou a abrir a embalagem do sanduíche.
-Agora fala, qual o problema?
-É a Anne...
-Anne? A fisioterapeuta? Você voltou nela? Pera, e a Manu?
-O que a Manu tem com isso?
-Pensei que...
-Ai esquece Gus... É o seguinte: eu sai com a Anne e ela... Ela gostou entende?
-Ela tá encantada por você? O que essas mulheres têm na cabeça?
-Acabei de sair do consultório dela, e ela disse que não queria continuar as sessões comigo porque tinha se envolvido, porque eu tinha tratado ela de uma forma diferente. Nessas horas eu percebo que mesmo sendo um idiota, tem babaca pior que eu por ai. Disse que a surpreendi e ela não podia ir além do que já estava sentindo. Disse que não conseguia... Eu não queria que fosse assim. Todas as minhas ações com ela foram no momento errado, pra mim e pra ela. Eu tava puto com a Manu... E agora me ferrei com a Anne.
-O que quer que eu faça?
-Arranje uma solução! Você sempre sabe o que fazer quando eu me meto em furada.
-Sabe qual o problema? – ele enfiou um punhado de batata na boca – oce é gloso.
-O que?
Ele engoliu as batatas e repetiu.
-Você é guloso!
-Isso é meio irônico vindo de você.
-Eu to dizendo – ele mordeu o sanduíche – que você estava enrolado com uma e foi atrás da outra. Por puro luxo, ego, tesão acumulado, eu sei lá! Quis duas e vai acabar sem nenhuma. Só sei que foi errado e continua sendo errado.
-Não foi assim! – tentei me defender.
-Você sempre fala isso... – ele revirou os olhos balançando uma batata molenga entre os dedos – Então como foi?
Eu não sabia. Só sabia que não era assim como ele falava. Não fui atrás de ninguém na intenção de magoar ou enganar.
-Eduardo, encare o fato: você nunca foi santo. Depois que perdeu a Rachel então... Não é de se estranhar que não ia ficar quieto por muito tempo...
-Não é assim... Eu to bem do jeito que to.
-Do jeito que tá como? Se envolvendo com uma e iludindo outra? Eduardo, vai vir falar isso pra mim? Tá bom, digamos que a situação não é uma grande merda e você tá bem, mas vamos lá: você e a Manu não estão em uma relação, mas também não estão 100% livres. Complicado mas vamos prosseguir! Então quando você tava puto com ela, chamou a Anne pra sair. Jogou todo seu charminho barato nela e depois a ignorou quando recebeu a ligação da Manu. Então só pra esclarecer, você dá toda a atenção para menina, e depois vira a cara. A Manu volta, vocês brigam, você machuca ainda mais o braço numa merda de briga, volta pra Anne e quer fingir que tá tudo bem? Não quer que a menina fique chateada? Você tá cozinhando as duas.
-Vendo assim...
-Porra, tu é pior do que eu pensei... Qual é o seu problema?
-É claro que foi minha culpa, chamei ela pra sair, mas... Como eu podia saber que isso ia acontecer? Ela é interessante, não tem como negar. Mas eu só fui legal, Gus. Que tipo de cara ela saía pra ter um parâmetro tão baixo assim? Bastou não ser agarrada à força? Não é o mínimo?
-Eduardo, seu papo já é tão velho pra mim que até eu já sabia que ia dar nisso. Sempre dá! Esse negócio de falar olhando no olho, ficar falando elogio... Tu tem que se controlar. Dá um jeito nesse teu charme de loja de R$ 1,99 porque alguma hora vai dar ruim.
-É o meu jeito, o que eu posso fazer?
-Sabe com quem você não faz isso? – eu não respondi, ele deu um gole no refri e enfim respondeu – M-A-N-U-E-L-A.
Ele soletrou o nome dela de uma forma completamente estúpida.
-Ta falando do que?
-To falando garanhão, na verdade, repetindo: ELA É DIFERENTE!
-Ah Gus...
-Presta atenção: você queria chamar a Anne pra sair, e fez isso! Porque como você disse, ela é incrível! Só que parece que tuuuudo isso sumiu na hora que o telefone tocou, né? Você só se dava conta disso quando não tava com a Manu por perto... E sabe por que? Porque você não quer alguém incrível! Você já teve esse alguém e se chamava Rachel! Você quer alguém normal, que te surpreende de vez em quando, que não exija de você nenhuma perfeição e que te cative pelas coisas mais simples e essa pessoa se chama Manuela. Com ela você é verdadeiro e não esse galanteador vagabundo.
-Tudo pra você tem haver com ela?
-Eu estou errado por acaso?
Não, infelizmente ele tava certo. Parecia que sempre era assim, ele sempre tava certo.
-Aceita Edu. Com ela, eu não te vejo de charme, só vejo... Você! Vocês falam besteira, se batem, xingam, e depois estão se agarrando felizes da vida! É o seu sonho virando realidade!
-Cala boca, Gus!
Ele terminou de comer e fomos embora, comigo fingindo que tinha engolido tudo.
Manuela
-Ah, então lembrou que tem mãe, né?
Minha mãe: rainha do drama!
-Oi mãe, tudo bem?
-Sim sim, mas como vão as coisas?
-Vão bem... Mas liguei pra te perguntar: pode me passar o telefone da Laís? Queria falar sobre a Suzy diretamente com ela...
-Por que?
-Porque o casamento é dela, mãe!
-Não precisa brigar também, né?
Ela me passou o numero e eu liguei.
-Laís? É a Manu.
-Manu, como você tá? Você vem pro casamento né? Eu to tão animada e tá uma correria só...
-Aham Laís, eu imagino como deve ser, mas eu queria falar...
-E sua mãe me disse que você ia trazer uma amiga, e eu ficaria muito agradecida se você passasse o nome dela...
-Olha Laís – sempre adorei minha prima, mas nunca tive muita paciência com ela, porque era do tipo que não te deixa falar! – eu vou levar alguém mas não sei se é a Suzy, não dá pra colocar na lista "Manuela e acompanhante"?
-Bem, eu posso ver se dá...
-Obrigada.
Ela passou mais uns vinte minutos me contando de como estava se sentindo com a festa chegando e que o vestido era maravilhoso e bla bla bla. Eu basicamente só concordava e ria durante a ligação inteira.
Depois de muita luta para desligar, resolvi me dar um dia de folga. Depois de um semestre e meio de puro estudo e antes de uma semana de prova, era tudo que eu precisava.
O sol tava começando a baixar quando recebi a mensagem da Laura.
"Party \o/"
"????"
"Te pego em duas horas, esteja bem gata :*"
Eu podia questionar mesmo sabendo que ela acabava me convencendo, mas acho que eu merecia uma festa. Afinal, eu ainda tenho 18 anos e deveria viver como alguém dessa idade.
Tomei um banho, vesti a roupa de baixo e comecei a procurar alguma peça mais arrumadinha no meu guarda roupas, o que foi bem difícil já que ele se resumia a jeans, camiseta e vestidinhos simples. Por fim, achei uma blusa preta larguinha e um pouco mais longa e minha adorável e amada saia de couro.
Passei o secador rapidinho, só tirando a umidade, e amassei os fios. Prendi em um rabo de cavalo com o maior cuidado pra não desmanchar o efeito do secador, peguei uma mecha e prendi com um grampo, escondendo a liguinha. Passei meu tradicional batom vermelho e mil camadas de rímel. Olhei no relógio e tinha passado quarenta minutos. Meu estômago roncou, e eu lembrei que ainda estava com o almoço.
Vesti a blusa e a saia, me preocupando em não esconder todo o couro e ajeitei a parte de trás para cobrir meu bumbum. Separei o sapato e deixei no cantinho, perto do espelho. Um saltinho simples e confortável, preto básico.
Fui até a geladeira procurar alguma coisa. Tinham vários potinhos com sobras mas nenhum me atraiu. Me abaixei vendo o que tinha em cada prateleira na esperança de achar algo atrativo no fundinho da geladeira.
-É, Manu...
Virei minha cabeça pra ver então entendi o motivo do Edu estar com um tom constrangido. Eu nem tinha visto eles entrando e me toquei da pose que estava. A blusa que estava longuinha tinha subido com o movimento que fiz mexendo nas prateleiras. Meu corpo estava inclinado, o quadril voltado para cima. Meu bumbum, com a saia de couro, que antes estava coberto pela blusa, se apresentava dando oi pros dois caras que estavam na sala. Uma cena sem dúvidas constrangedora.
Me endireitei na hora, sentindo minhas bochechas corarem. O Gus estava logo atrás, prendendo o riso.
-Bela saia.
O Edu lhe deu um cutucão e ele resmungou.
-Couro? – ele questionou erguendo a sobrancelha.
-Vou sair com a Laura... Aliás, fica com o telefone ligado.
-Pra que?
-Se eu precisar que me busque, porque a Laura... Bem, você sabe.
-Pera – ele me interrompeu – E quem disse que eu ia te buscar ou ficar disponível pra você?
O Edu tenta controlar isso, mandar em tudo... Mas não consegue.
-Ah, então tudo bem, se você prefere me deixar por ai sozinha com essa roupa...
Ele bufou, fez bico e saiu, se dando por vencido.
-Me liga se precisar.
Os dois foram pro quarto do Edu e eu voltei pro meu. Calcei os sapatos, coloquei o dinheiro, a carteira de motorista — a Laura bebia tipo, muito, e mesmo que eu não pegasse o carro de ninguém, era melhor do que deixar ela dirigir — e o celular no bolso da saia. Passei o batom uma última vez e coloquei no bolso também.
-Tô indo.
Gritei já no corredor, avisando pro Edu. Como em uma cena dos filmes, ele e o Gus colocaram só a cabeça para fora do quarto, sobrepondo as posições.
-Uol! – o Gus disse entre as mordidas em uma maçã – Tenho que falar novamente que é uma bela saia.
-Cala a boca Gus – escutei o Edu resmungar.
Eu sabia que essa saia era meio assim. Era justa no meu corpo, realçava as minhas pernas e aumentava meu bumbum. Por isso eu usava com uma blusa soltinha e mais longa. Eu não costumava usar coisas justas então não era algo tão comum de me ver mesmo.
-Obrigada Gus – respondi parando no corredor.
-Fica ai – ouvi o Edu resmungar de novo e empurrar o Gus – É... — Ele apoiou as mãos na nuca, meio sem jeito – Juízo com essa saia.
-Edu, vai fazer isso toda vez que eu for sair? Eu não bebo e sou completamente responsável então... Relaxa.
Ele só assentiu, contrariado.
Ta, pode ser uma gracinha ele ser cuidadoso e bla bla bla. Mas já me bastava o Sam sendo super protetor então tudo que eu não precisava agora era de outra super proteção.
O Edu sabe exatamente como me derreter, o que não é fácil. Mas que sei lá, eu me frustro muito por não conseguir fazer o mesmo, corresponder. E meio que me sinto na obrigação de ter esse cuidado em troca. Parece que nunca vai ser o suficiente. E ao mesmo tempo, me sinto tão idiota ao pensar essas coisas, porque eu sei que ele não exige nada disso de mim.
Ai Manuela, que saco!
Me concentrei em afastar esses devaneios enquanto o elevador descia. A festa era longe, e eu e a Laura fomos cantando o caminho inteiro, acompanhando a rádio. Só consegui ver a roupa dela quando descemos, e uau!
O vestido era preto, naquele estilo tubinho. Os ombros ficavam expostos com o decote ombro a ombro que formava uma linha reta acima do busto. As mangas iam até os punhos mas a saia era curtíssima.
-Pra que tudo isso?
-Só uma palavra: ex!
Ah não... Lá vinha ela!
-Não acredito que me carregou pra uma festa só por vingancinha de ex.
-A festa é dele.
-O que?
Quase tropeço e caio de cara no chão.
-Seguinte: ele terminou comigo pra ficar com a nojenta da minha prima – mais um sinal de que ela e a família não se dão bem – e depois teve a ousadia de vir me chamar pra festa. Acha que eu ia perder a chance de esfregar na cara dele que ele perdeu isso – ele apontou pro próprio corpo – pra ficar com aquela vara pau da Beatriz? Ah não minha querida... Não no meu turno!
Ela não me deu tempo para protestar e saiu andando reclamando e fazendo gestos estranhos.
Ela não me esperou pra entrar.
O caminho de pedras até a entrada da festa terminava em uma curva com um arbusto. Quando virei, soube que estava ferrada nessa noite porque teria que cuidar da Laura. Eu não sabia identificar se era uma casa ou um daqueles espaços que você alugava para eventos porque logo de cara tinha uma piscina belíssima com cascata e luzes. As paredes que contornam o espaço interno eram basicamente de vidro, mas não conseguia ver nada que acontecia lá dentro, então tive que entrar. O som estava extremamente alto e pelos casais que estavam se engolindo e algumas meninas que choravam por alguns cantos, tinha muuuuita bebida rolando.
O que pensei que não fazia diferença pra mim já que eu não bebo.
Ou pelo menos não bebia até essa noite.
Já estava lá dentro mas não conseguia encontrar a Laura. Sabia que era melhor não ficar muito tempo longe dela para garantir que nada acontecesse.
Estava um pouco aflita com tanta gente bêbada junta num lugar tão barulhento. A música tocava alta, as pessoas dançavam e se agarravam. As que estavam com as bocas desocupadas cantavam em plenos pulmões. Para o meu azar, todas as músicas que tocavam eram boas e estavam na minha playlist. Acompanhava as partes de algumas letras cantando baixinho. Um bar tinha sido montado lá dentro e eu já estava morrendo de sede. Estava abafado demais e mesmo depois de umas cinco voltas pelo espaço, não achei a Laura.
Tocava Clarity e eu me segurava para não dançar também porque no fundo tava super irritada e queria me permitir aproveitar. Me encostei no balcão do bar e continuei cantarolando a música, acompanhando com movimentos discretos do corpo.
"Cause you are the piece of me
I wish didn't need
Chasing relentlessly
Still fight and I don't know why
If our love is tragedy, why are you my remedy?
If our love's insanity, why you are my clarity?"
Eu nunca tinha prestado atenção de verdade na letra da música, e me amaldiçoei por ter reparado agora. Maldito curso de inglês!
-Mas que merda!
-Quer alguma coisa?
Era o barman. Ele falava comigo e batia as bebidas ao mesmo tempo, servindo e sorrindo o tempo todo.
Apenas neguei com a cabeça.
-Sem querer me meter, mas tá tudo bem moça?
-Acho que sim – as frases traduzidas pela minha mente pareciam voar nos meus olhos, me deixando zonza entre a música e o jogo de luz.
"Ainda luto e eu não sei por quê
Se o nosso amor é tragédia, por que você é o meu remédio?".
Amor? Não é algo forte demais para se colocar até mesmo em uma música?
-Você tem água?
-Água? – ele realmente pareceu surpreso com o pedido – Tem certeza que não quer algo mais forte?
-Eu não bebo.
Ele abriu um sorriso debochado e limpou as mãos em um pano, se virando para cortar as frutas para os drinks.
-Já ouvi muito isso.
Ele não era bonito, mas tinha uma coisa diferente. Geralmente, você imagina o barman forte, com o cabelo estiloso, um sorriso de derreter as pernas e um corpo de tirar o fôlego. Ele não. Seu cabelo estava mal cortado, era magro demais, com as mãos extremamente ágeis e os olhos eram de um verde profundo, que eu só pude ver pela própria iluminação colorida do bar. Usava uma regata, calça jeans e um coturno.
De uma hora para a outra, a Laura surgiu gritando para o barman:
-Outra dose.
Ele riu e pelo visto, reconheceu a voz. Pegou uma vasilha com pedaços de limão, um copo que reconheci ser de tequila e cobriu a borda com sal. Encheu o copo com a bebida e entregou para a Laura.
Ela não tinha me notado na lateral do bar, virou de uma vez e chupou o limão. Sacudiu a cabeça já meio tonta e saiu gritando junto com o DJ. Não me dei o trabalho de ir atrás.
-Quantos ela já pediu?
-Por quê?
-É minha amiga, preciso dela viva pelo menos pra poder ir embora.
Ele sorriu, solidário. A luz bateu e percebi que ele usava aparelho.
-Não vai mesmo querer nada?
Eu nunca gostei de beber. Aquilo descia quente pela garganta e dependendo, deixava um gosto amargo na minha boca. Mas sempre gostei desses drinques com fruta que serviam em formaturas e casamentos. Mas sempre bebi sem álcool.
Minha garganta e boca secas no meio de todo aquele calor corporal. As frutas frescas pareciam algo delicioso e refrescante. O morango principalmente.
A temperatura estava alta e o couro já justo colava ainda mais no meu corpo. Minha cabeça entre mil pensamentos com o mesmo trecho da música "Ainda luto e eu não sei por quê".
Mas que merda!
-O que você sugere então?
-Gosta de coisas doces? Morango talvez...
Ele tinha acertado.
-Como sabe?
-Só te vi de olho enquanto cortava. Vou fazer algo pra você... Provavelmente com leite condensado, pra você não ficar bêbada logo.
Fiquei grata por isso. Glicose sempre seria bem-vinda.
Ele me entregou o copo poucos minutos depois, cheio com a fruta até a borda.
-Obrigada – dei o primeiro gole.
Primeiro, como sempre, desceu ardendo na minha garganta. Mesmo sem experiência, eu sabia que ele tinha feito muito forte. Dei outro gole. A sensação de fogo na garganta não passou, mas eu sentia muito mais o gosto do morango e do leite condensado. E o melhor: a cada gole que eu dava, meus pensamentos sobre o Edu iam sumindo aos poucos e o doce da bebida ficava mais evidente.
Pedi outro, e dessa vez pedi pra ele fazer mais fraco.
Uma música eletrônica começou a tocar e eu saí para respirar um pouco. O vento batia leve, o clima estava agradável mesmo que já estivesse ficando tarde. Parei perto da piscina, vendo a iluminação que coloria a água. Me sentia leve. E tudo estava ótimo.
Até alguém esbarrar em mim e derrubar meu copo na piscina. Olhei com tristeza pros pedacinhos de morango boiando entre as luzes. Coisa típica que aconteceria comigo. Por milímetros, eu não estava boiando lá dentro também. Mas claro que eu caí e meu joelho começou a sangrar.
-Porra, não acredito!
Me arrastei até uma das cadeiras que tinha lá por perto e analisei o corte.
O corte estava um pouco mais profundo já que o chão era de pedra, e alguns novos arranhões tinham se formado.
-Desculpa, eu não...
Eu conhecia essa voz de algum canto. Levantei os olhos, furiosa, e reconheci. Era o primo da Laura, o que me pediu para tirar as fotos no casamento.
-Ei, eu te conheço!
Meu joelho estava ardendo e eu estava brava por ter perdido meu copo que estava cheio daquela bebida deliciosa.
-Foi no casamento! Você tirou as fotos pra mim. É amiga da Laura, né?
-Dá pra pelo menos me pedir desculpas?
Ele arregalou os olhos espantado com minha reação. Toda leveza que eu tava sentindo sumiu e a irritação tomou conta.
-Desculpa, eu não queria ter te acertado. Quer que eu pegue gelo pra você?
-Por favor – foi a única coisa que saiu.
Ele não demorou e veio com outro copo igual ao meu e com um saquinho com gelo enrolado em uma flanela.
-Perguntei pro barman e ele preparou outro pra você. De novo, desculpa.
Ele estendeu a bebida e o gelo.
-Desculpa, fui grossa... E obrigada.
Apoiei o gelo no joelho e voltei a beber minha bebida de morango.
-Você é amiga da minha prima Laura, não é?
Só confirmei com a cabeça.
-Eu sou primo dela, prazer, Oliver.
Ele estendeu a mão e eu retribui.
-Manuela.
Silêncio. Tirei o gelo do joelho. Tinha parado de sangrar. Por sorte – ou costume mesmo – eu sempre carregava algum band aid comigo. Geralmente eles ficavam na minha carteira, e consegui encontrar um dentro da capinha da carteira de motorista.
Coloquei com cuidado e mexi um pouco a perna. Não era nada demais, só mais um corte.
Olhei no relógio, era pouco mais de uma da manhã. Então não era tão tarde quanto eu pensei que fosse quando sai, mas não sei como tanto tempo passou.
-Viu sua prima?
Ele fez que não com a cabeça. Me permiti observa-lo alguns segundos. Estava ainda mais bonito sem o traje chique. Sapatênis, camisa polo clara e uma calça jeans escura. Se os dicionários fossem ilustrados, ao lado da palavra "mauricinho", seria uma foto dele.
-Vou voltar lá pra dentro.
-Posso ir também?
-Claro – quem sou eu pra impedir alguém de voltar para uma festa?
Entramos e eu voltei para o meu lugar perto do bar. Ele veio atrás.
-A menina daquela hora que te pediu a tequila voltou aqui?
Ele girou uma garrafa servindo pra uma loira que agitava os braços e gritava.
-Ela já veio mais duas vezes. E logo te aviso que ela tá bem alta, e se não vi errado, ela já saiu.
-O QUE?
Peguei meu celular imediatamente e liguei pra ela. Caixa de mensagem.
Mas eu juro que mato a Laura!
Como ela pode me largar aqui? Eu tava puta da vida! Um casal chegou e pediram duas doses de tequila.
Eu nunca fazia nada por falta de coragem! E ai todo mundo decidia ligar o foda-se pra Manuela e largar ela sozinha em uma festa que ela nem sabia onde era.
Tava na minha hora de ligar o foda-se.
-Me da uma também.
Ele me olhou espantado e encheu o copo. Já que eu nunca tinha feito isso, segui o que o casal fez. Virei a dose.
Se eu achava que aquela outra bebida descia queimando eu não tinha noção do que era realmente beber fogo! Aquilo subiu pra minha cabeça na hora, tive que me apoiar no balcão pra não cair. Parecia que tinha brasa na minha garganta e tinham vários pontinhos pretos nos meus olhos.
-Epa, calma – o barman disse rindo de verdade – Dizem que só fica bom depois, que o primeiro é horrível.
-Ótimo!
Consegui responder/resmungar. Estendi o copo pra ele e novamente virei. Era verdade, na segunda vez era muito melhor. Já não parecia que eu estava bebendo gasolina. O limão ficou uma delícia, meio docinho até.
Ele estendeu um potinho com laranja.
-Dizem que com laranja é uma delícia também.
Estendi o copo de novo.
Virei.
E ai que tudo começou a desandar. Descobri que além de ser fraca pra bebida por não beber, a tequila tinha a fama que tinha com toda razão. Então depois do meu terceiro shot, eu não lembro de mais nada.
Até que acordei deitada em um gramado, de algum prédio, sem minha blusa e com um cara de cabelos cor de areia do meu lado, só de cueca e camiseta.
Ai minha nossa senhora que protege a gente nas bebedeiras, o que eu fiz?
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