Ai Nanka Kowakunai?!

9 A filha do traidor


Os jornais do dia seguinte diziam todos a mesma coisa em suas páginas iniciais; \"Escâncalo no noivado do mais jovem dos Evans. Problemas na familia ideal?\". Jogou o terceiro jornal no lixo, indignado após ler a enésima matéria que também citava o aparente motivo da briga.

- Quem era aquela garota? — perguntou irritado ao filho que estava encostado na beira da porta do escritório do pai.

- Maka Albarn. — Wes fechou os olhos por um segundo, passando um dedo perto do band-aid depositado sobre o canto de sua boca — Eu acho que ela é o último joguinho daqueles dois.

- E eu que queria dar uma chance para Soul fazer algo na vida. Ele simplesmente precisava casar com aquela Nakatsukasa e aumentar nossos horizontes. — o homem virou a cadeira para trás, intencionado a admirar o panorama cheio de prédios que a vidraça daquele lugar lhe mostrava — Eu preciso ter uma conversa muito séria com ele. E... Encontre tudo o que puder sobre essa menina.


Um dia tinha se passado desde a festa desastrosa. O Evans se sentia traido, mas sabia muito bem que para Maka seria melhor ficar bem longe dele. Realmente, Kid era a melhor escolha que ela poderia fazer.

Soul olhou para aquela folha em suas mãos mais uma vez; só podia ser uma brincadeira de mal gosto, pensou. Todavia, aquela era a dura verdade que ele perseguiu por tanto tempo. Chegava a ser ironico o modo em que o destino brincava com seus sentimentos já destruidos pelo ciúme quase doentio.

Bateu a mão contra a parede com toda a força que tinha, acabando por raxá-la. Ele realmente não queria fazer aquilo; mas era o único modo, pois a maior fraqueza de Spirit... Era sua filha Maka Albarn.

- Tsubaki-chan... ? — Maka sussurrou, não totalmente acordada, ouvindo alguém abrir a porta de seu quarto em plena madrugada. Limpou o rosto com uma mão, mas antes mesmo que pudesse ver o que era, algo se aproximou e tomou seu rosto. Se debateu por um tempo, porém acabou inalando algo de tóxico e desmaiando imediatamente.

Quando reabriu os olhos, não pôde ver nada — estava com algo sobre os mesmos. Quis gritar, mas sua boca não se abria. Tentou se mexer e notou os braços amarrados atrás das costas e os pés também sem uso.

- Eu acho que ela acordou, boss. — ouviu uma voz muito grossa vir de seu lado esquerdo — Ela começou a se mexer, viu?

- Vi. — ela reconheceu aquela pessoa. \"Soul?\", se perguntou, mas sem esperar qualquer resposta — Peguem a câmera.

Maka ouviu passos cansados se encaminharem para fora do recinto, e sentiu alguém se aproximar para retirar a benda que lhe cobria os olhos. Os abriu com dificuldade, não acostumada com a luz forte que tomava conta daquele lugar.


- Olá, Maka. — Soul abriu um sorriso quase forçado.

Ela quis dizer algo, mas o que se ouviu foram simples ruídos sem significado algum. Segundos depois ela viu entrarem dois homens altos e estranhos trazerendo um aparelho de filmagem. Os dois deveriam estar por volta dos 20 anos: um era loiro e de olhos azuis; escutava uma música alta o bastante para se ouvir de onde ela se encontrava. Já o outro tinha um ar de gangster, com brincos nas duas orelhas e um corte estranho — mesmo se a cor de seus cabelos e olhos era normal; castanho claro.


- Chefe. — o loiro proferiu, sério — Tem certeza que quer fazer isso?

- Que pergunta. — Soul colocou as mãos nos bolsos, ainda com o sorriso estampado sobre a boca curva — Eu quero esse video pronto ainda hoje.

Ela se debatia, contudo sabia que era inútil. Olhou-se em volta; aquele lugar era totalmente branco e bem luxuoso, talvez fosse um quarto de hotel. Todavia ela se viu jogada em um canto qualquer com uma câmera sendo-lhe apontada.

O garoto dos cabelos grisalhos olhou para baixo, então voltando a contemplar os orbes confusos e repletos de lágrimas da menina. Suspirou, coçou a cabeça. Aquilo estava começando a se tornar mais dificil que o previsto. Se sentia no dever de ao menos lhe dizer o motivo de tudo aquilo.

Abaixou-se, e ela fitou o carmim apagado de seus olhos com a pouca força que tinha — ela não sabia dizer se eles refletim dor ou culpa, mas talvez os dois sentimentos estivessem se confundindo. Soul tirou a mordarça da boca da loira, a qual agradeceu pois já não suportava aquele gosto de ferrugem.

- O que é tudo isso? — ela perguntou assim que se sentiu pronta, olhando para o rapaz ali na sua frente — Soul... Quem são esses homens?

- Maka. — ele suspirou mais uma vez, levantando-se — Sabe... Eu descobri quem é o cara que acabou com a minha mãe. — ele deu sorriso mais falso que o anterior, e a Albarn notou imediatamente.

Ficou quieta, esperando uma explicação plausivel.

- Vou te dizer a ficha do desgraçado. — ele olhou pro lustre ao centro do teto, então logo fechou os olhos, pois a luz irritava — Olhos; verde-água, cabelos; ruivos, idade; 35 anos, coisa mais importante; sua filha. Nome... — Ele voltou-se para Maka, fitando-a sem nem mesmo piscar — Spirit Albarn.

- N-Não pode ser... — Ela começou a chorar, sentindo-se um lixo por ser filha de um mulherengo como seu pai.

- Maka. Como acha que seu pai vai ficar depois que ver um video em que alguém machuca sua preciosa filha? — Soul falou lentamente, encaminhando-se para a saída, tentando não olhar o rosto triste da loira — Eu irei pagar com a mesma moeda. Irei mostrar-lhe como é doloroso ver a pessoa que é mais importante para você ser ferida sem poder fazer nada. — prosseguiu, pegando na maçaneta da porta, pronto para fechá-la — Giriko, Justin. Vocês sabem o que fazer. — completou, já saindo dali, quando foi interrompido por um grito da loira.

- Eu sinto muito!

- Hã? — Soul voltou-se para trás, olhando a garota derramar mais e mais lágrimas.

- Meu pai não vale absolutamente nada... Ele traiu a mamãe também... — sua voz estava trêmula, e o Evans a observava com um aperto no coração que queria com todas as forças afastar — Eu sempre o odiei, eu também acho que ele merece uma lição! — gritou — Eu sinto muito por ser a filha de um maldito traidor como ele... Perdão, Soul! eu realmente não me importo... Faça o que quiser comigo se servir para se vingar dele!

Flash Back


- Ei, pai. Porque a mamãe tá chorando e fazendo as malas? — eu disse, sonolenta. Tinha acabado de me levantar depois de ouvir os gritos dos dois. Meu pai estava sentado do topo das escadas que davam para a sala de estar, e eu pude ver minha mãe atrás da porta entreaberta com as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido.

- Porque o papai é um idiota. — ele respondeu simplesmente, segurando sua cabeça com as duas mãos.

Eu sabia daquilo desde o principio. Mas nunca iria pensar que por causa dele a minha vida também seria um inferno. Ele realmente é o pior pai que alguém pode ter.

Flash Back


- Droga. — o rapaz atravessou a sala com passos pesados e incertos, jogando todos os acessórios de filmagem no chão, e segundos depois abaixando-se para a abraçar — Eu simplesmente não posso fazer isso. — falou, apertando-a.

- P-por que? — ela sussurrou confusa, sem poder responder ao abraço pois ainda se encontrava naquele estado de cativeiro.

- Por que, você me pergunta? — ele riu, derrotado. Esconder de si mesmo aquele sentimento por tanto tempo tinha feito de Soul um fraco — Porque eu te amo, Maka Albarn.

A loira arregalou os olhos, sentindo-se aquecer por dentro. As cordas apertadas não doiam mais, seu pranto tinha parado, e o frio do chão parecia ter deixado de existir. Acabou mordendo a própria lingua para ficar calada.

...Por um instante pensou que seria capaz de responder \'Eu também\'.


Entrou no quarto pela primeira vez em três dias. Estava estranhamente desarrumado, naquela manhã Maka deveria ter saido correndo e deixado tudo pra arrumar depois. Olhou-se mais uma vez em volta. Ué, ela também tinha deixado o uniforme para trás? Aquilo sim era estranho.

Ela sabia que Soul gostava da melhor amiga dela. Porém não sentia ciúmes de qualquer tipo — entendeu que o que sentia por ele era mera atração fisica.

As palavras de Black Star ainda rodeavam sua mente sem parar. Tsubaki realmente se sentia pronta para jogar tudo para o alto e sumir, sem deixar rastros. Mas aí vinham os problemas. Sabia muito bem que sua tutora, Azusa, iria procurá-la em todos os lugares até trazê-la de volta.


Seu mordomo a estava esperando para o lado de fora. Não tinha participado da festa de noivado — seria humilhante e doloroso demais até mesmo para alguém como ele. De onde vinha toda aquela insegurança? Do amor que sentia pela jovem, obviamente. E irritava, ele simplesmente não queria ter se tornado tão fraco.

Ouviu a maçaneta se mexer e desencostou-se da parede, vendo-a sair com o uniforme da escola. Black Star não compreendia porque a Nakatsukasa queria ir para a aula mesmo sabendo que aquilo que aconteceu na noite anterior só iria ser jogado na cara dela mais uma vez.

Desceram as escadas em silêncio; ele que a olhava de lado com os braços por trás da nuca e ela fingindo que não se lembrava de nada — Tsubaki nunca foi uma boa atriz.

Chegaram no pátio do dormitório, quando uma menininha de cabelos castanhos e olhos vermelhos veio correndo na direção dos dois, acabando por esbarrar contra Tsubaki e cair.

- Tsubaki-sama! — Black Star falou, tirando do bolso da calça uma espada curta e preparando-se para proteger sua superior. Porém a Nakatsukasa se limitou a levantar o braço direito avisando-o que não era nada.

- Pequenina. — A garota abaixou-se, pegando na pequena mão da garotinha, fazendo-se se levantar. Assim acabaram praticamente do mesmo tamanho — Qual o seu nome?

- A-Angela... — sussurrou, limpando uma gota que escapou de seus olhos.

- Angela-chan, né? — sorriu Tsubaki, afagando sua cabeça com uma mão — O que faz aqui?

- Eu estou procurando o nii-chan Mifune... Ele está atrasado... — soluçou a garotinha, com uma cara de quem iria chorar.

- Tudo bem. Eu vou procurar o nii-chan com você. — Levantou-se, estendendo a mão para Angela — Certo? — A menina assentiu, segurando dois dedos de Tsubaki timidamente. — Black, deixa que eu me viro. Por hoje está dispensado. — falou, caminhando.

\"Ela é gentil.\", Black Star viu os contornos de Tsubaki desaparecerem por trás da porta sendo fechada \"Não somente comigo, e sim com todos.\", prosseguiu com seu fio de pensamento, olhando para o lado oposto \"E mesmo assim, eu... Me apaixonei por essa gentileza.\"

O garoto prensou os olhos por um segundo. Olhou para o emblema das empresas Nakatsukasa no blazer meio amassado — ele já não sabia se poderia esperar pra sempre. Ela escolheu o Evans, afinal. Ela tinha decidido seguir seu dever como última integrante de seu clã.

Black Star tirou aquela peça de roupa e a jogou no chão com certa raiva nos olhos. Ele tinha desistido. Não havia mais motivo para ficar rodando em circulos como um idiota.

- Adeus... Tsubaki. — falou, sorrindo. Aquele nunca passou de um amor não correspondido.

Notas finais
Esse ficou meio curtinho.
As coisas começam a se arrumar, finalmente. XD
Nossa, essa fic ficou maior do que eu pensava que ficaria. No começo eu queria fazer algo de bem simples e cliche, mas olha no que deu. Fazia tempo que não escrevia uma fic com mais de um capitulo (podem ver que eu só postei one-shots além dessa). Sinto-me feliz por ter feito esse progeto.
Obrigada a quem estiver seguindo essa coisa sem pé nem cabeça!
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