Agouro
1 Agouro
Notas iniciais
Abraxas não conhecia o trouxa. Na verdade, apenas o conhecia de longe, ao vê-lo andando pela praia de Hornsea nos dias cinzentos, volte meia arriscando molhar os pés na água e voltando para casa com as barras das calças molhadas pela água salgada do mar. Ele era uma figura estranha e um tanto triste que fazia Malfoy pensar nos espíritos que perambulavam sem rumo e naqueles que anunciavam a morte.
Mas aquele homem, o trouxa, não era um espírito e nem uma banshee e nem qualquer outro tipo de mau agouro. Ele estava vivo, apesar da palidez e das olheiras. Ele tinha uma vida, apesar das horas perdidas na praia, olhando o mar como se esperasse algo vindo dali. Ele de certo voltava para uma casa e não um túmulo, depois de dar as costas para Hornsea.
E Abraxas sempre o observava, quando podia. Sempre acompanhava, da sua janela ou de seu jardim (tudo muito bem escondido por trás de um feitiço de ilusão, é claro), enquanto o homem atravessava a praia, procurava por conchas e pedras, olhava o mar ou simplesmente ficava parado. De vez em quando, o rapaz se perguntava se o trouxa conseguia perceber algo que ele próprio não percebia... Ele sentia a magia da casa de verão dos Malfoy? Havia algo diferente vindo do mar que o deixava tão fixo na água? A Sra. Malfoy certa vez lhe contara sobre como alguns bruxos conseguiam ouvir ou ver a magia dos outros ou das coisas da natureza... Será que o trouxa via ou ouvia algo que nem mesmo ele, um bruxo, percebia?
Malfoy se perguntava se ele conseguia sentir algo diferente agora, com uma varinha apontada para ele enquanto Tom o amaldiçoava e o lembrava pela décima vez o quão inútil ele era. Qualquer um sentia o poder de Tom de longe, mas será que o trouxa conseguia sentir algo diferente? Bom, sentindo ou não, o homem não demonstrava muito isso, afinal, ele tinha coisas mais importantes com as quais se preocupar no momento. A morte iminente, por exemplo.
Quando Riddle apareceu em sua casa e disse que eles tinham coisas a fazer, Abraxas não imaginou que essas coisas incluíssem encontrar o homem da praia e assassinar a família dele. Ele não devia ter ficado surpreso, no entanto, afinal, aquele era Tom Riddle e todos sabiam que desde o incidente da Câmara Secreta, o rapaz havia ficado muito mais instável do que o normal.
Mas ele não podia fazer nada. Ele havia devotado a sua magia à Riddle, assim como a sua confiança e a sua amizade. Ele sabia dos planos do rapaz, sabia muito mais do que os outros, e ele sabia que tudo aquilo fazia parte do grande futuro que eles queriam construir.
Então, tudo o que Abraxas Malfoy podia fazer era tentar manter a própria mente focada na maldição Imperius que havia lançado no jardineiro da casa para ajudar o homem a resistir a tentação de sair de sua casinha e ir ver o que estava acontecendo na casa dos Riddle. Tudo isso enquanto, do canto da sala de visitas, assistia o teatro que seu colega (Tom era seu amigo e Lord Voldemort era seu mestre, mas, naquele momento, ele não sabia quem estava ali) fazia. Tudo para lançar uma maldição da morte em um trouxa.
Na opinião de Malfoy, o outro devia acabar com isso de uma vez. O homem (o pai desgraçado de Riddle, o trouxa inútil que abandonara a mãe bruxa dele, a mancha na linhagem pura dos Slytherin, entre outros títulos que o pobre homem já havia ganhado) já havia visto seus pais serem mortos na sua frente e agora nem tentava conter os soluços e as lágrimas e as súplicas que escapavam de sua boca. Ele nem tentava fingir alguma compostura enquanto fixava o olhar nos olhos frios de Tom enquanto murmurava incansavelmente: “Por favor, por favor, por favor...”
Abraxas não pôde deixar de pensar que, no fundo, Tom apenas ajudou aquele homem a se tornar o espírito perdido que ele já parecia ser em vida. Talvez fosse isso que o trouxa estava pedindo em seus momentos finais. Talvez ele só quisesse que a eternidade perambulando à beira do mar chegasse logo.
E Tom, sendo um bruxo misericordioso, atendeu a esse pedido.
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