Agora mais Rápido, Ser Desprezível
3 "Idiota, Idiota Way"
Notas iniciais
“Deixei ela estraçalhada.”
Dá pra ouvir todas as porcarias que os meninos falam do lado de fora. E as revelações só pioravam com o andar da conversa. Mas se era o tempo que tinha pra falar com meu irmão... Respirei fundo e entrei no quartinho. Era tão apertado que, ao abrir a porta, bati com força na cabeça de Tom, interrompendo-o de continuar sua narrativa erótica.
_Senta rápido, Gee. – Mikey me puxou para baixo – Como é matar aula pela primeira vez na vida?
_Eu estou muito ferrado.
_Escuta, você já é o melhor do nosso ano, o mais popular e o melhor filho, pode parar de se importar agora, tá? Relaxe, bonitão. É só uma aula. – ele me abraçou pelo ombro – Agora conta aí como é a Gabrielle.
O lugar estava muito escuro, os raios de sol que escapuliam pela janelinha eram o bastante pra iluminar o centro do quarto, onde estava um pacote enorme de pipocas. Fora isso, os rostos se mergulhavam no escuro. Ao julgar pelas vozes que ouvi do lado de fora, Ray estava lá, também, pude ver suas mãos buscando a pipoca a cada cinco segundos. Vi Tom quando abri a porta, batendo-a na cabeça dele. Mikey foi quem me puxou para o chão. Eram os mesmos rostos de sempre.
_Que Gabrielle?
_Porra! Quantas você pegou na festa? – reconheci a voz debochada de Tom.
_Não peguei ninguém na festa.
_Ele estava drogado? – Ray.
_Com certeza estava chapado. – Tom.
_Desde quando você usa drogas? – Mik.
_E a gente achando que você é um anjo. – Tom – Que vergonha, Gerard. Que decepção!
_Fiquem calados, por favor. – Disse, mas ninguém pareceu ouvir.
_É sério, Gee, quem te vendeu essas porcarias? – Mik.
_E você nem conta pra nós! Pensei que v... – Ray.
_TODO MUNDO CALA A BOCA. CALADOS!
A escola inteira deve ter escutado meus gritos. Eu. Vou. Me. Fuder.
_Gerard Way sabe gritar? Olha aí uma coisa que ninguém sabia. – Tom sussurrou.
_Eu fiquei com alguém na festa?
_Como assim? Ela arrancou sua roupa no meio da sala. E vocês estavam se beijando com muita vontade. – Alguém disse com a boca cheia. Ray, claro.
_Arrancou minha roupa? Toda? – Tentei parecer indiferente pegando pipoca no centro ensolarado, mas alguém teve a mesma idéia e nossas mãos se colidiram. Estava preocupado demais pra perceber quem era, porque se eu fiquei sem roupa na frente de todo mundo... Eles viram minhas cicatrizes.
_Mas tava meio escuro, ninguém viu seu corpo bronzeado. – Moik brincou.
Ufa.
_Eu não me bronzeio. – suspirei de alívio.
_Jura, irmão? Então esse corpo da cor-do-pecado é natural? É assim que a Gabrielle fica louca, hein? — riram — Vai pegar ela de novo? Vê se não fica chapado dessa vez.
Eu nem lembro. Claro que não. Não, mesmo. Não!
_Acho que não. E olha... Já vou pra sala. É física e eu estou com a média baixa.
_Vou também. Te encontro lá, Mikey? – Tom.
Ray saiu da salinha comigo, se espreguiçando. Me deu um empurrão. Depois me puxou de volta:
_97 não é média baixa, ok?
_Agora fala isso pro meu pai.
_Ok, Gerard?
_Mas, se v...
_Ok? – ele me virou e olhou nos meus olhos.
_Ok, Ray.
Ele olhou ao redor e pulou na minha frete sorrindo com todos os dentes:
_Grita outra vez?
_Quê? — dei a volta e ele correu pra me alcançar.
_Você nunca fez isso antes e nem deu pra ver sua cara porque lá tava escuro. Por favor? Por favor.
_Não.
_Faz de conta que eu sou a Gabrielle – Ray fez uma voz sexy – e grita comigo, GeeGee.
Fiquei mesmo com ela, então. E na frente de todo mundo? Eu devia cortar meu pau e enfiar minha cabeça num buraco.
_Nem um gritinhozinho?
Cadê o Mikey? Olhei pra trás e nada. O que ele fazia sozinho no quartinho? Masturbação?
Logo chegamos no corredor. Tom saia da sala do diretor com cara de deboche. Levantou uma folha de papel verde pra mim. “Duas semanas”, consegui ler em seus lábios. Suspensão.
Mikey apareceu correndo e abraçou Tom. Que segurava o papel verde como um troféu.
_Agradeço ao Mikey por todo o apoio, sem ele eu não poderia vencer. Obrigado, Way!
Ri. Atrás de mim, Frank entrou na sala. Entrei também.
Com Ray, estávamos só nós três na sala.
Sentei no meu canto. Minha garganta estava queimando e eu queria muito conversar com o baixinho. Mas só lembrando de sua voz, eu tremia. Meu corpo não me obedecia mais.
Num impulso, o menino se levantou. Trajava calça e blusa pretas, all star vermelho... Tudo lhe caia muito bem e todas as suas atitudes eram impulsivas. Lindo e intenso. E eu, eu estou virando gay. Mas enquanto tivesse Gabrielle como álibi, ninguém perceberia.
“Se controla, Gerard Way”
Gerard Way.
Gerard gay! Isso sim.
Tá tudo errado nessa merda. “Minha bolsa era a única coisa desarrumada na minha vida e lá dentro tem uma faca.” Tinha mesmo.
Ray estava dormindo com fones de ouvido. Saí da sala. Eu achei mesmo que ia conseguir parar de me machucar?
“Idiota.” – disse pra mim.
Coloquei a faca no bolso e empurrei a porta do banheiro masculino. Não estava vazio, e o que eu vi me chocou:
Dois garotos estavam em pé, de mãos dadas. Eu os reconheci e não pude evitar.
_Mikey? – saiu meio sussurrado dos meus lábios.
Ele se virou pra mim:
_Você ouviu alguma coisa?
_Não...
O menor olhou pra ele, acariciou seu rosto e nos deixou.
Meu irmão se permitia ser tão livre, tão feliz. Mas ele precisava mesmo de Frank?
“A culpa não é do Mikey.Eu que sou idiota mesmo.” Tanto que poderia começar a chorar agora, na frete dele.
_Estão namorando. – pra minha surpresa, pareci não me importar.
_Não, né, Gee!
Bagunçou meu cabelo e saiu. Ainda bem.
“Em fim sós.” Disse para a faca. De algum modo ela me correspondeu e me deixou feliz, como sempre. Dessa vez rasguei meu braço, ali mesmo sobre a pia. Só por cinco minutos, daí voltei pra sala, guardando a faca na mochila e caindo na realidade. Olhar pra ele, mesmo cheio de dúvidas, era tão bom. E agora doia pra caralho. Eu olho, só porque a dor do braço não me sustenta, mas a do peito sim. Dor nova, forte e boa. Eu mereço sentir prazer as vezes.
Eu preciso gritar, afinal de contas eu sei, não?
Notas finais
Obrigada. Apartir de agora não vou decepcionar vcs. vai pegar fogo kkkkkkk *--*
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