Agora mais Rápido, Ser Desprezível
10 Afundar
Notas iniciais
Os trechos citados nese capítulo são da música drown, do three days grace
Fim de tarde chuvoso.
Alta do hospital.
Ir pra casa.
Apagar Frank da mente.
Mikey e Ray viriam dormir comigo hoje. De repente ninguém me deixa mais sozinho.
Estava jogado no sofá, com um sentimento que fazia tentativas constantes de me sufocar. Frank saiu da minha vida deixando-me da mesma situação na qual estava quando nos conhecemos. Mas, agora, faltava algo.
_Princesa! – Miks chegara acompanhado do garoto cabeludo que devorava um saco enorme de balas.
_Oi, gente. – me ajeitei no sofá para que eles pudessem sentar também.
_Que programa é esse? – Ray.
Mais de uma hora parado na frente da televisão e acho que nem percebi a mesma ligada.
_Sei lá.
_Quer bala? – continuou, colocando o pacote na minha cara. – Pega aí!
_Ele nunca para de comer, Gerard. – Mikey – Puta que pariu!
_MICHAEL JAMES WAY! Olha o vocabulário! – a voz da mãe atravessou a sala.
_DESCULPA, MAMÃE. – começou a sussurrar – Puta que pariu, Ray Toro.
_Estou mantendo o corpanzil, ok? – Ray piscou de um olho só.
_Corpanzil rima com barriu. – Mikey provocou e riu.
_Você devia tentar, sabia? Quando respira, consigo ver suas tripas. Esqueleto!
_O pior é que é verdade, Moik. – Ri.
_Gerard! Até você? Bom saber... Bom mesmo. E quanto ao Ray – meu irmão o cutucou –, sei onde ele mora.
_Que medo. – ironizou – Vai fazer cosplay de Olívia Palito lá, Michael?
O garoto tirou os óculos e os entregou pra mim.
_Quer brigar? – Ray colocou o cabelo atrás da orelha. – Vem.
_Ô, MÃE! OLHA O RAY ME CHAMANDO PRA BRIGA.
_Ray, num bate nele, não. Ele é muito miudinho. – mamãe falou, me causando um ataque de risos.
_MÃE? – Mikey indignou-se.
_Sim, querido.
_Era pra me defender, né!
_Então, tá... RAY, PODE BATER QUE ELE AGUENTA!
Num vulto, ele pulou sobre Miks, dando tapas em seu rosto.
_Me rendo. – se apressou.
Ray simplesmente saiu de cima do garoto magricela, dando-lhe uma mordida no pescoço. Então percebi que eles se olhavam, apontando pra mim.
_Não, gente! – tentei, mas os garotos me atacaram com cócegas.
Não sai do lugar, nem ri.
_Não sinto cócegas, lembram?
_Estraga-prazeres. – Ray sentou-se fazendo bico.
_GEE, — levei um susto com o grito do meu irmão – O que a galinha fez pra... Ah... espera, porque não é assim, não.
_Não sabe contar a piada da galinha, pode morrer! – Ray voltou para suas balas coloridas.
Estar com aqueles dois era bom, me sentia “feliz”, eu acho. Mas nada, nem ninguém, conseguia fazer com que eu esquecesse o garoto que ainda estava no hospital por minha culpa. Frank poderia dizer o que quisesse, terminar comigo das formas mais ríspidas e inesperadas que encontrasse, eu nunca deixaria de amá-lo.
“Olha onde você foi parar, Gerard.” Pensava sozinho.
Fomos para o quarto logo depois do jantar.
_Agente não vai dormir na mesma cama, né? – perguntei – Mikey, seu quarto ainda existe e o Ray pode dormir no de hóspedes.
_Nossa, Gee. Obrigado! É ótimo ser seu amigo também.
Moiks e Ray ocuparam as laterais, deixando o meio pra mim.
_Agora deita aqui.
_Eu saio. – disse, mas enquanto pegava um travesseiro, fui puxado por eles e caí na cama.
Conformei-me com aquela superproteção.
_Sabe o que eu trouxe? – Ray sussurrou sorrindo.
_O que? – Miks.
_Jack Daniels.
_Foda, gordo! Bate aqui! – mãos colidiram acima do meu rosto.
_Mas, infelizmente, não vai dar, porque o Gerard tem que tomar os remédios... – olhou para o relógio da parede – Agora.
_Ah, é! – Mikey pegou dois comprimidos do seu lado da cabeceira e os passou pra mim. – Vou pegar água.
_Não precisa – falei.
Esperei uma boa quantidade de saliva se formasse em minha boca pra engolir as pílulas sem frescura.
_Pronto, gente. Eba! Eu não vou tentar me matar. Agora vamos dormir? – fui amargamente irônico.
_Antipático. – meu irmão me beliscou por debaixo do edredom.
_Se quiserem, podem beber sem mim.
_Claro que não! – Ray começou – Estamos deitados na mesma cama que um gay, imagine se a gente fica bêbado. Sabe como é... Tem que dormir com um olho aberto.
_Então tomara que seja o olho do cu, aí fica mais fácil pra mim, seu gostoso. – tentei encontrar os glúteos do garoto para apertá-los.
_Mikey Way, seu irmão quer me molestar!
Olhamos pra o lado. O garoto magrelo já dormia, com a boca aberta e um dos braços sobre os olhos.
_Dormiu... – falei – agora você não tem a quem recorrer, Raymond.
_Gerd? Falando sério agora, me garante uma coisa? – se virou pra mim, olhando fundo em meus olhos.
_Garantir? Tipo uma promessa?
_Mais ou menos.
_Ray, eu não acredito em promessas. – suspirei, abaixando as pálpebras – Frank me prometeu um monte de coisas e... Olha aí o que aconteceu.
Senti uma mão quentinha em meu rosto. Aquele carinho era tão bom, que não senti vontade de abrir os olhos.
_Não precisa me explicar nada, seu idiota. Sei o que está sentindo.
_Tomara que não.
_Só queria que você me dissesse que nunca mais vai fazer nada parecido com aquilo.
_Ray... O que aconteceu aquele dia comigo? Eu não me lembro. – abri os olhos quando o garoto afastou sua mão do meu rosto.
_Não sei direito... Tinha muito sangue na cama, pelo corredor, no banheiro... E você estava lá, desmaiado perto da banheira. Nem sei como alguém conseguiria fazer aquilo consigo mesmo. Eu pensei que o Frank tivesse feito, mas ele também foi encontrado machucado perto da entrada da cidade, então...
Tom: o grande filho da puta.
_Hum. Quem o levou para o hospital foi o Tomas, né?
_Foi sim. O médico falou que se demorassem mais um pouquinho...
Fechei os olhos outra vez.
_Gee, desculpa. Você perguntou, pensei que não se importaria.
_Estou legal, Ray.
_É mentira.
_... Tem razão. Mas não vou admitir mais do que isso, ok?
_Abra os olhos. – sussurrou.
O fiz. Meu amigo estava com seu rosto a um palmo do meu.
_Ray...?
_Fecha de novo. – ainda sem entender, obedeci – Agora pensa no Frank.
Senti algo pressionar minha boca. Algo quente. Eram os lábios de Ray, leves e tímidos sobre os meus. Depois de alguns segundos, nos soltamos.
Abri os olhos, confuso.
_Sou seu amigo, tá? Mesmo você sendo viado e pá... Te amo. – ele disse.
O garoto virou as costas pra mim. E, depois de alguns minutos, caiu em sono profundo.
Levantei-me devagar para não acordá-los.
Meia noite.
Abri uma fresta na janela, apoiando-me no parapeito e sentindo algumas gotas da chuva fina em meu rosto.
A palheta pendurada em meu pescoço pareceu... pesada demais. Era como se pedisse pra passear entre meus dedos.
“It's hard to fly when you can't even run.
Once I had the world, but now I've got no one.”
Queria livrar-me de Frank.
Quando era criança, despistava minha solidão com os desenhos. Talvez funcione agora.
Peguei algumas folhas, um lápis, me trancando no banheiro e acendendo a luz.
Sentado no chão, fiz alguns traços no papel. E, sem precisar de muito, um rosto se formou ali.
“Merda”
Rasguei o desenho no máximo de pedaços que consegui. Depois, os joguei na pia, ligando a torneira para que eles se desmanchassem.
Eu odiava o espelho que me sugava sempre quando passava por ali. Tinha raiva da minha imagem. Eu não conseguia olhar meu próprio reflexo sem sentir nojo do que via. Frank me deixara e eu fui obrigado a aceitar isso tão facilmente.
“Eu me odeio.”
Fechei a torneira da pia e abri a da banheira, a enchendo com água mais gelada possível.
Mergulhei um dos pés e senti o calafrio percorrer pelo resto do meu corpo. Sem rodeios, deitei-me ali, anestesiando meu corpo nu naquela água muito fria.
Isso não me mataria, mas, mesmo assim, era bom.
“It's hard to walk when you can't even crawl.
Once I had this world, but now I've lost it all.”
No amontoado de roupas ao meu lado, uma melodia irritante me acordou do transe. Com medo de acordar os garotos, peguei o celular com as mãos molhadas.
Frank.
Era quase uma da manhã, ele estava no hospital. Por que e como ligava pra mim? Talvez precisasse de algo e eu fosse sua última opção.
_Alô? – disse mais frio que a água ao meu redor.
_Gerard? – a voz estava rouca e fraca.
_Eu.
_Soube que teve alta e fiquei esperando que você ligasse... Mas não ligou. Aí, – suspirou – eu esperei minha mãe dormir pra ligar eu mesmo.
_Você está bem? – não consegui me controlar, aquilo era tudo o que precisava saber.
_Tô.
_Que bom. – minha voz vacilou, porque comecei a chorar.
_E você?
_...Só ligou pra isso, então?
_Lembra quando prometeu que ligaria pra mim todos os dias?
Promessas.
_Pensei que as promessas estivessem todas suspensas, Frank.
_Por que? –tossiu.
_Olha, se é pra não nos falarmos nunca mais, que comece agora, ok?
Desliguei.
Afundei minha cabeça e a deixei lá por alguns segundos. Parte de mim suplicava que ele pudesse ouvir minha mente gritando.
“Frank Iero, eu te amo.”
“Me perdoe.”
“Vamos esquecer tudo escrito naquele bilhete, ok?”
“Não me deixe sozinho. Tenho medo de mim.”
“Por favor, me busque, me resgate, me leve com você. Por favor.”
Tremendo, saí da banheira, andando de um lado para o outro em desespero. Tudo que eu mais queria... Como eu pude... Por quê?
Não sei quanto tempo me culpei, mas quando percebi, meu corpo já estava seco.
Sem hesitar, peguei o telefone e liguei.
_Ger. – a voz estava triste.
_Frank, me desculpa pelo que falei. Me desculpa... – as palavras saíram tremidas.
_O que aconteceu com você? Sua voz – percebi o esforço eu ele fazia ao falar – está diferente.
_Me desculpa, me desculpa, eu te amo.
_Dã, Gerard. Eu entendo como você está depois de tudo o que aconteceu. Eu que tenho desculpas pra pedir.
_Obrigado. – suspirei fundo.
_Por que sua voz tá tão irregular assim?
_Frio, muito... Frio.
_Gee, nem tá fazendo tanto frio hoje. Pelo menos não aqui, no hospital. Mas aí deve estar nevando, então... Vai lá agora colocar um casaco de lã.
_Ok, mas o frio não vai passar assim.
_Então veste dois casacos, ou quatro.
_Só vai passar quando você me abraçar, Fronk.
_Amo quando você me chama assim... Fronk. Dá um tesão danado. Mas minhas mãos estão meio machucadas, não consigo me masturbar. E agora? – a voz foi animada, mas diminuía o volume gradativamente.
_Quer que eu faça isso por você? – brinquei.
_Também quero um hambúrguer bem grande, porque estou cansado dessa gelatina que eles estão me dando. Quero um beijo bem quente seu, e com chantilly.
Enquanto o garoto falava, saí silenciosamente do banheiro, me vestindo.
_Mais alguma coisa?
_Sim... – tossiu.
_Frank, não é melhor desligar? Você precisa descansar.
_Não antes do meu último desejo.
_Pode pedir. – comecei a sussurrar quando me deitei na cama.
_Quando você me ligou pedindo desculpas, acho que me disse “eu te amo”...
_É... Foi alguma coisa parecida com isso. – ri.
_Fala de novo?
_Tem certeza?
_Anda rápido, seu bichinha.
_Eu te amo. Eu te amo. Gerard ama Frank. Eu amo você.
_Te amo pra sempre... Ah, olha, a minha mãe está acordando, tenho que desligar.
Sorri.
“Acho que faltou um: Eu te amo.” Enviei a mensagem.
Decido, oficialmente, não deixar nada estragar tudo que eu estou sentido agora, nem o que sinto por Frank. O resto nem existe, e, se existir, foda-se.
_GERARD? – uma voz feminina familiar apareceu no fundo.
_Mãe?
_Você já está atrasado, ACORDA!
Abri os olhos. Estava no meu quarto, minha mãe me olhava rindo.
_O que foi, Dona Donna?
_Você está muito bonito hoje, só isso.
Levantei-me.
_Cadê os meninos?
_Foram pra escola. Tem cinco minutos para se arrumar, querido.
Enquanto ela saia. Catei meu uniforme na cômoda e me vesti em menos de dois minutos.
Descendo as escadas, vi meu pai se levantar do sofá.
_Eu te levo, garoto. – ele fez sinal pra porta.
_Thau, mamãe.
_Não vai comer nada, Gee?
_Nem precisa. – dei um beijo nela e saí, abrindo a porta de trás do carro.
_Não, Gerard, senta na frente.
Um calafrio percorreu minha espinha. Enquanto ele dirigia, eu olhava pra janela.
_Você parece bem. – virei a cabeça e ele sorriu pra mim.
Que sinistro.
_É. Estou.
_Bom, acho que precisamos conversar.
Um engarrafamento surgiu. Acho que teríamos tempo suficiente pra essa “conversa”. E isso me dava muito medo.
Notas finais
Donald Way,só pq o gerard tá legal, vc vem com esses papo sério....... af vc
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