Agora e Para Sempre
2 Capítulo Dois
Notas iniciais
A escola de Claremont era o apice da cultura americana em seu esplendor. Armários, jogadores de Lacrosse, Líderes de torcida, bullying, e círculos sociais divididos com uma hierarquia bem estabelecida pelos corredores. Músicos, esportistas, CDF’s, gastronômicos e os VilasBoas, que quase representavam um grupo distinto de pessoas gananciosas, idiotas e com tendências bem sugestivas de psicopatia. Ainda que somente formado pela garota de cabelos pintados com uma coloração vermelha que grosseiramente não chegavam até a raiz, Debora, e seu irmão incongruentemente bonito para os parâmetros de um nerd, Arthur, a presença de ambos era capaz de acender uma faísca nada discreta de confusão.
Irradiando a centenária rivalidade com os Lacerdas.
Nossos tataravós dividiram feitos históricos na cidade, os bisavós uma briga por terras, nossos pais uma traição, e nós, os presentes atuais na humanidade, uma inimizade escolar e de vizinhos que anualmente destruíam decorações de feriados um do outro, como uma tradição boba que nos perseguia por gerações. Entretanto, ainda que estivesse no sangue odiar o lado oposto do nosso gramado, não vinha disso a raiva discrepante que eu sentia por Debora e seu aliado. Ambos, sem excessão, eram irritantemente bons nesse teatrinho que todos ao nosso redor ansiavam por mais uma cena, um capítulo recheado de provocações e competição que eu nem sempre estava afim de interpretar.
— Me enoja como ela consegue ser tão atirada.
Gabriele, minha confidente, e eu encaramos a ruiva de farmácia e seus amados jogadores de Lacrosse da arquibancada quando a morena ao meu lado observou. Fazia mais de uma hora, quem sabe, que Debora se aninhava nos braços fortes e às vezes peludos dos jogadores, como se fossem um grande e confortável casaco e ela estivesse morrendo de frio no meio do deserto gelado do Polo Norte.
— Nada tira da minha cabeça que ela quer engravidar aos dezessete para ser uma mãe gostosa nas reuniões de escola dos filhos. — Guilherme se acomodou ao lado de Gabriele, sugando com veemência o canudinho do Milkshake, dividindo com ela o sorvete aparentemente remexido e cheio de saliva dos parceiros de Lacrosse.
— Não vai ser difícil, o que ela tem de irritante, ela tem de gostosa. Ai!
Acertei o cotovelo nas costelas de Gabriel, sua reclamação chamando a atenção dos demais que se espalharam em pequenos montinhos pela arquibancada, seja para estudarem, fofocarem, ou somente suspirarem a cada parte exposta do corpo dos jogadores. Atrás de nós, por sua vez, como uma base de fãs assíduas, as meninas da equipe competitiva de matemática davam risadinhas e sorrisinhos a cada palavra que soasse sexy da boca dos meus irmãos.
Se é que existiam.
— O que? Você achava Arthur um pitelzinho quando crianças, o que foi que mudou? — Rebateu, alisando a parte acertada como se tivesse levado uma facada no lugar de um cotovelo bem mirado.
— Quando crianças. — Pontuei, erguendo um dedo. — Tudo mudou. Você mudou, eu mudei, todos nós mudamos. O que acha disso?
Ouvi Gabriele rir e os olhos de Gabriel se reviraram com força, o que desencadearia algum problema em sua visão se ele continuasse a fazer isso com tanta frequência. Foi Guilherme quem respondeu dessa vez:
— Não faz muito tempo desde que te vimos reparando na mala que ele guarda, Lena. Deveria parar de fingir que desgosta tanto daquele nerdzinho, não é tão ruim quanto faz parecer.
Dessa vez, não só eles riram, como as meninas da matemática e dois montinhos de estudos próximos a nós. Guilherme não era bem o melhor em reconhecer o perímetro e falar baixo o suficiente para que só seu grupo de amigos — quem deveria ouvir, aliás — escutasse seus devaneios.
Espalmei as mãos sobre a perna cruzada, deixando à mostra a tornozeleira fina e com pingentes de bolinha. Bufei, causando ainda mais risos em Gabi e Guilherme que, repentinamente, estavam ainda mais próximos com o braço dele sobre os ombros dela. Me levantei de uma só vez, o que silenciou as risadinhas inconvenientes.
— Olhem aqui. Foi um caso isolado e eu definitivamente não sinto nenhum tipo de atração por caras que sejam tão… tão… — Minhas mãos denunciaram a proporção que eu buscava descrever. — tão repletos de egocentrismo, arrogância e prepotência. Se Arthur é um homem, certamente é o pior, se um humano, eu tenho vergonha de dizer que faço parte da mesma espécie, o que eu não acredito que seja, ele é um primata que sequer aprendeu o bipedalismo e seu cérebro jamais seria tão grande quanto…
Uma presença alta e robusta atrás de mim calou-me com um salto, quase me fazendo cair da arquibancada se não fosse pela mão firme do responsável que agarrou minha cintura. Meus olhos arregalaram e as gargalhadas se tornaram uníssono, então pude ouvir Guilherme repetir “tão grande” de maneira afetada.
— O que é grande, Lacerda?
Porra.
Deus nos abandonou mesmo.
Não poderia desconhecer a voz que falava tão próxima do meu ouvido, a altura considerável tornando fácil para que Arthur me alcançasse por cima do ombro. Desumano, muito desumano.
Me soltei do toque conveniente por ora, e me virei para ele, ajeitando a camisa colada que havia se erguido um pouco com o movimento.
— Seu atrevimento. — Respondi simplista, cruzando os braços e erguendo o queixo. — Não há nada maior que isso.
Os meninos vaiaram, criando um sorrisinho torto que nasceu nos lábios do VilasBoas, e só então reparei nas orbes azuis como diamantes, os cílios mais longos do que eu me lembrava, em como aquela expressão de um completo canalha combinava com ele. Até seus músculos pareciam mais tensos naquele casaco de camurça, o antebraço com veias tímidas porém saltadas, as mangas enroladas nos cotovelos pelos bons 23 graus que fazia naquela tarde. Ele foi à guerra e voltou? Não me surpreenderia se fosse a razão pela qual, repentinamente, ele havia ficado tão extenso e atraente.
Meu olhar pousou por tempo demais na parte superior do seu corpo e Arthur seguiu meu olhar, as mãos agora enfiadas nos bolsos.
— Pois então, devo malhar mais? Quem sabe aumentar um pouco mais o peito… Os braços… Quem sabe as coxas, ou os ombros… — Apontou para cada uma das partes, e eu ridiculamente acompanhei com afinco. No fim, o VilasBoas ainda sorriu maior do que eu poderia achar possível. — Pelas vezes que engoliu, Lacerda, acredito que eu esteja fazendo um bom trabalho.
Enrijeci os ombros e balancei um pouco a cabeça, buscando alguma resposta que soasse com rispidez e não como a garota desconcertada que eu acreditava soar caso ousasse abrir a boca. Dei um passo à frente e Arthur recuou um passo para trás, o olhar curioso me acompanhando.
— É uma pena, eu queria muito aprovar o seu corpo malhado e perfeitamente apertado nesse casaco. Mas eu prefiro caras que se garantem fazendo, e não crescendo os glúteos quando não sabem nem a maciez de um peito entre os dedos.
Deixei tapinhas sobre seu peito e agarrei a minha bolsa, dando um sorrisinho antes de esbarrar em seu ombro, descendo sem me dar o trabalho de me despedir dos rapazes ou olhar para as reações diversas daquela platéia. Ele era bom me irritando e eu boa em ser irritada. Não podia negar o quanto éramos protagonistas daquele showzinho barato que gostavam de assistir.
Arthur e eu havíamos nascido no mesmo ano, mês e hospital, por pouco não no mesmo dia devido a uma ansiedade de mamãe. Crescemos no mesmo lugar, estudamos nas mesmas escolas, e também compartilhamos de gostos e desgostos, sempre notável nas festas da cidade quando sem querer nossos olhos se esbarravam e estávamos cantando com ardor uma música de uma banda de heavy metal que jamais se passou na minha cabeça que ele pudesse gostar. Quase gêmeos univitelinos, quem sabe, e por um tempo acreditei que pudéssemos ter uma conexão maior do que as que eu tinha com os meus verdadeiros e insubstituíveis irmãos.
Não tínhamos sido rivais a vida toda, embora parecesse e fosse o certo. Houve uma época, em nossos treze anos de idade, que fomos amigos, grandes amigos por sinal, que se escondiam na casinha da árvore do parque municipal. Éramos super heróis, atores, médicos, vilões, e até lutamos pela nossa base — A humilde e decadente casa na árvore — quando a prefeitura ameaçou derrubá-la caso fosse propícia a um acidente. Desenhamos em cartazes e andamos pela praça gritando “Salvem as crianças”, em uma ameaça velada de que iríamos cometer algo contra a nossa própria vida se a casinha fosse destruída.
Então Arthur caiu de lá de cima.
Tínhamos brigado por consequência do caos que se instalou em nossas casas naquele dia, e eu o empurrei forte o suficiente para que se desequilibrasse e fosse de encontro a madeira velha que um dia serviu como parapeito para evitar acidentes. As fitas crepes e os arames que tínhamos colocado alí para gruda-las desde a última vez que quebrou não foram capazes de evitar o inevitável.
Arthur quebrou o braço e a família acusou a nossa de retaliação, o que me rendeu idas ao terapeuta e um castigo inevitável por longas semanas. Éramos nêmesis um do outro e aquela amizade que por um tempo fez sumir as angústias do começo da adolescência, desapareceu como se nunca tivesse existido.
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