Quem entrou no vestiário era Jussanara. A evangélica Jussanara. A mulher que não admitia pecadores, e admoestava todos a se arrependerem antes que Deus mandasse seu castigo.

E por que ela se intrometeria na briga das duas mocinhas?

Ela entrou no vestiário minúsculo da firma. Não, não é uma sala enorme como nos filmes, com espaço para dezenas de mulheres. Era um escritório pequeno e portanto, com vestiário pequeno. Suficiente para duas mulheres se trocarem, mas não para três mulheres sentirem-se confortáveis.

Jussanara entrou assim mesmo. Entrou no cubículo do vaso, fechou a tampa, e sentou-se.

E fitou as duas moças sentadas as duas únicas cadeiras que cabiam no espaço. Fitou as longamente, fitou as suas próprias mãos.

E então cobriu rosto com essas mesmas mãos apoiando-se nos joelhos.

Chorava. Um choro baixinho, que somente quem estava ali podia ouvir.

Maricleide e Alineide logo assumiam uma automática reação feminina, de empatia ao sofrimento. Parece ser algo quase impossível de controlar, de ver o sofrimento alheio e tentar consolar.

Só não sabiam exatamente como ou porque motivo deveriam consolar.

A única coisa que sabiam — e isso foi Jane quem as informou — é que Jussanara "estava na fila".

E por fila, obviamente elas sabiam que era para agarrar o seu Júlio.

Então porque sentiam necessidade de confortar essa mulher, que claramente era mais um obstáculo para elas?

Não sabiam, mas sentiam a necessidade.

E então Jussanara parou de chorar. Enxugou a última lágrima teimosa e deu uma risadinha: — Heh. Desculpe. É que agora lembrei de uma coisa engraçada.

– O que houve, Nara? — Maricleide antecipou-se a Alineide.

Nara apertou os lábios. Não era choro, mas algo abria caminho pela mente da mulher. Algo que lutava para emergir, e que Nara percebia não seria agradável.

– Eu ouvi a briga — Nara respondeu finalmente — Não queria vir, não queria ver. Mas tive de vir. Tinha de ver.

–E agora entendo — ela completou a frase quase como que cansada. Como se tivesse lutado pela vida, e percebesse que não adiantou nada.

Alineide ficou confusa: — Ver o quê, Nara? E entender o quê?

A mulher mais velha respondeu num murmúrio: — O que Soraia sentiu há sete anos atrás. Finalmente entendi...

Dona Soraia. Alineide sabia que também teria de confrontar a mais velha uma hora. Teria de descobrir onde elas falharam, para conseguir o que elas fracassaram em obter.

Mas ainda estava surpresa que Jussanara tenha vindo conversar com ela — e ali ao lado de Maricleide! — sem ter de puxar ela para conversar em algum canto.

– Sabe, gente — Nara falou baixinho, e as duas moças aproximaram-se um pouco as cadeiras para ouvir — um tempinho atrás, no vestiário do prédio do escritório anterior, eu também briguei feio com a Elenileia. E nesse dia, depois da bronca do seu Júlio, Soraia apareceu. Sentou e começou a chorar. Como eu agora.

–E agora eu entendo — ela concluiu num murmúrio — Entendo porque ela chorou. Pois eu vejo vocês, e vejo que ainda são meninas. Eu chamei a Elenileia de velha. Mas agora eu vejo aquele espelho e vejo eu e vejo vocês. Eu disse para ela que ela não tinha chance. E agora... agora contra vocês. Eu vejo que eu não tenho chance. Como ela.

Maricleia quase abriu a boca para comentar que Nara não era velha, mas Alineide deu uma cotovelada. Seus olhos diziam "agora não, deixa ela falar". E Alineide perguntou: — Mas o que tem a dona Soraide?

Jussanara sorriu: — Não percebe? Soraia era mais velha que Elenileia. E eu mais nova. Ela chorou porque todas as esperanças que tinha em conquistar o seu Júlio viraram poeira.

– E eu... e vocês — Nara continuou — estou vendo a mesma cena, só que agora eu sou a Soraia. Há que engraçado... Agora eu sou a Soraia.

Maricleide não se conteve: — Olha Nara, se você é a Soraia, não me diga que eu sou Elenileia e só porque essa biscate aqui é dois anos mais nova que eu, ela tá fazendo seu papel, porque...

– Meu papel, seu papel, Fabiana de penetra — Nara deu de ombros e encolheu-se abraçando a si mesma como se fosse uma criança — Não importa, não importa, e não vai importar. Nada importa, nada deu certo.

Certo, agora as coisas estavam ficando muito esquisitas. Se as duas pareciam rejeitos de filme de boxing, Nara parecia que estava se tornando protagonista de filme sobre autistas.

– Olha Nara — Alineide precisava fazer alguma coisa para fazer a mulher mais velha sentir-se melhor — Você precisa se recompor, mulher. O seu marido vai chegar daqui a pouco pra te buscar e...

– Meu marido — Nara repetiu de forma mecânica — eu pensei que meu casamento foi o dia mais feliz de minha vida. E foi, porque depois não tive dia mais feliz que aquele... Não que meu marido seja ruim. Ele é um bom marido. Ele cuida de mim, das crianças, sim, ele cuida... mas nunca mais tive um dia tão feliz como aquele.

– Nem quando seu bebê nasceu? — Maricleide desafiou um pouco irritada — Cristo, não tem vergonha, com filho que ainda nem completou dois anos e fica correndo atrás de homem casado.

Alineide deu um cutucão mais feroz: — Fica quieta!

– Ah vá! — Maricleide reclamou zombeteira — Ela se finge de santinha, falando de Deus o tempo todo, enche o saco de todo mundo. E fica na cara dura correndo atrás de homem casado, e tentando colocar chifre no marido. E quer que eu fique com pena?

Alineide puxou o ouvido: — Tá, eu sei eu sei e eu sei. O que eu quero ouvir é o que eu não sei. Se você não percebeu, tem algo esquisito nisso tudo. A esposa dele também te ligou, não negue. Ela não te ameaçou, não te xingou, e até dá o maior apoio pro seu Júlio pular a cerca. E mesmo assim... então o que deu errado? Por que deu errado? Por que não é possível com tanta gente...!

– Meu bebê — Nara interrompeu os cochichos depois de alguns minutos — Os médicos disseram era depressão pós-parto. Meu marido entendeu, minha família entendeu... E então eu me agarrei a Deus ainda mais. Agarrei, com todas as forças. Olhava para Elenileia e olhava para seu Júlio, e me agarrava mais a qualquer coisa que me dissesse que eu era feliz, que eu tinha tudo que uma mulher precisava na vida. Que era jovem, que era bonita, que eu podia... que eu podia, que eu posso se quisesse...

Ela olhou de novo para as duas: — Mas não posso, não é? Não adianta nada. Não consigo e não vou conseguir. Nem Júlio, nem ninguém...

– Nem meu marido! — ela sufocou o grito com as próprias mãos.

"Oh Nara!?" uma voz masculina (do Nivaldo?) gritou do lado de fora "você tá aí? Seu marido chegou. Nara??"

Ela sufocou mais alguns soluços. E confessou: — É sou casada e corro atrás do Júlio. Casei e fui feliz por alguns meses. E acabou. Então pra me animar, resolvi voltar a trabalhar. Aí me contrataram, e me botaram pra trabalhar com o Júlio. E ele é diferente de todos os homens que eu conheci. Mesmo casada, eu tentei chamar a atenção. Ele não aceitou. Eu me desesperei. Me apeguei mais na igreja, antes não ia com o marido mas comecei a ir. Depois achei que um filho me faria feliz. Não adiantou. Tentei parecer mais bonita — dizem que mulher que vira mãe fica mais bonita — e isso também não adiantou.

– E agora vendo vocês — ela completou lavando o rosto e olhando no espelho — vendo eu. Eu tenho de aceitar. Não adianta mais lutar e gritar. Eu tenho de aceitar.

E saiu do vestiário sorrindo. E Alineide e Maricléia sabiam que o sorriso no rosto não era sincero, mas sim uma máscara que a mulher mais velha usava para suportar.

Só que Alineide ainda não sabia bem o que.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.