Agar e o Livro-lei
2 Enquanto há secas e enchentes
Dos 12 até o fim dos seus 13 anos, Agar pensou que seu pequeno povoado não teria futuro, pois seus habitantes eram moralmente ignorantes em vários pontos. Aos 14, Agar ficou sabendo da importância da tolerância e da paciência e, aos 15, que poderia convencer qualquer pessoa desde que tivesse paciência, tolerância e bons argumentos.
Para mudar o jeito como as pessoas de seu povoado viam as coisas, Agar leu várias e várias vezes o seu livro-lei, encontrando muitas e muitas falhas morais e lógicas – assim como vários pontos que ele usaria como argumento sem precisar ofender a crença das pessoas.
Certo dia, na glória de seus 16 anos, teve seus estudos interrompidos por sua mãe, Celina, a atual parceira de Geni, a qual queria avisar que estava na hora de partir para o conselho semanal realizado em sua vizinhança.
O povoado de Agar era bem organizado, ele não podia negar. Não progredia muito, mas definitivamente era organizado. Todo dia havia algum conselho com os cidadãos em alguma parte do povoado e tudo que era decidido lá ia para os ouvidos do rei – ou pelo menos o que interessava à maioria.
Seu rei era um homem já de idade, muito sabido e vivido. O povoado não era sua única propriedade e ele estava feliz em não viver entre aqueles caipiras, por isso não aparecia muito por lá.
Agar achou que no caminho era uma boa hora para falar de algo que elas estavam fazendo de errado na criação dele — como um típico adolescente em idade de provocação dos pais. Não era a primeira vez que levantava aquele assunto, gostava de insistir nele há uns meses: perguntou se não deveria ter um pai para criá-lo já que era um filho homem e estes não deveriam ser criados por mulheres. Elas não responderam, ignoraram.
Na reunião Agar se lembrou de sua amiga, a velhinha do hospital, já que falaram sobre esperança. A única coisa boa que o livro-lei trazia: esperança de que os maus seriam castigados eternamente (embora isso fosse um erro moral) e que os bons e crentes seriam recompensados, também eternamente.
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