Afterlife

20 Quebrados


— Por que me chamaste aqui, Claire? — O homem de cabelos grisalhos e de roupa social perguntou assim que entrou no “quarto” de Claire. O plano de fuga daquela prisão ainda estava se iniciando.

Os olhos da mulher lacrimejavam, e ela logo começou a ficar com seu rosto, que expressava aflição, molhado pelas lágrimas. Aquele homem, Jerry, então, mostrou-se preocupado.

— O que aconteceu, querida? — ele perguntou, aproximando-se.

— Um dos guardas... — ela tentava dizer, mas era impedida por seus próprios soluços.

— O que fizeram agora? — Ele estava com raiva. Era óbvio que não por se preocupar realmente com a garota, mas com a fonte daquele superpoder incrível à sua frente — Eu juro que irão pagar!

A mulher de longos e lisos cabelos negros se virou como se sentisse constrangida por estar aos prantos para Jerry. Ele, então, aproximou-se mais, e colocou sua mão sobre o ombro dela.

— Você pode falar comigo — ele disse.

Ela parou de chorar. Foi quase que instantâneo. Depois, a mulher subitamente girou em direção ao homem e fincou um facão em seu abdômen, empurrando-o contra a parede.

— Mas o que... — Jerry balbuciou. Perplexo, tentava entender o que se passava. Ele sabia que Claire não faria aquilo, pelo menos não com aquele semblante petulante e superior em sua face. Ela até sorria de boca fechada.

— Garota errada — ela disse, claramente alegre — Você não sabe o quanto eu estive esperando por esse dia.

— Ri... Rick?!

— Desculpe — pediu, sarcasticamente — Adeus — ela disse, jogando Jerry ao chão.

— Por que você fez isso?! — Claire, que não mais se escondia, perguntou, espantada.

— Porque eu quis — a outra disse, abaixando-se perto do corpo — E porque ele mereceu — Vasculhava a roupa do homem caído, que ainda respirava.

— Você é um assassino...

— Você está realmente defendendo-o? — Ela riu sarcasticamente, e levantou em seguida.

— Não importa se ele era mal... Você matou alguém! — A verdadeira Claire não conseguia aceitar o que acontecera.

A outra revirou os olhos e, com uma expressão impaciente, disse:

— Meu deus, você é tão irritante...

No mesmo momento, a porta se abriu. Milo, o antigo companheiro de quarto de Ryan, entrou logo depois.

— Quem é você? — Claire perguntou.

— Esse é Milo — a outra disse, indiferente.

— Milo? Não era ele quem havia te atacado? — ela indagou.

— Como soube disso?

— Ouvi pessoas comentando... Mas esse não é o ponto!

— Oh... É verdade — confirmou — Ele dormia no mesmo local que eu, até que eu fiz com que ele me atacasse à noite para que eu pudesse ir a outro canto. Isso foi, na verdade, como acabei ficando no mesmo lugar que Michael — Sorriu maliciosamente.

Claire, boquiaberta, franziu a testa, pasma com o que acabara de ouvir. Não sabia se Ryan estava apenas brincando ou se falava a verdade.

— Você está brincando, não é? — ela perguntou.

A outra se mostrou sarcasticamente surpresa por Claire não ter acreditado, e disse:

— Oh, não querida. Essa é a mais inteira verdade.

Claire suspirou.

— Você é doente!

A outra deu de ombros.

— Talvez eu seja, talvez não...

— Você foi quem fez com que me atacassem, não foi?! — Claire indagou em um tom confrontante.

— Embora eu adoraria levar credito por isso, infelizmente não fui eu. A verdade é que isso poderia acabar me machucando mais que a você — A outra disse, deixando vago ao que se referia. — Mas não pense muito a fundo, provavelmente foi um dos guardas mesmo. Eu só lamento não ter participado. — Fez uma expressão de descontentamento.

— Você é um louco... Fica perseguindo Michael de uma maneira doentia e me odeia por ser amiga dele! — Furiosa, Claire falou bem alto.

— Louca — A outra disse, como se corrigisse a forma em que Claire pronunciara aquela palavra, percebendo a verdadeira franzir a testa ainda mais. — A partir de agora, Ryan vai deixar de existir — ela dizia com um tom sofrido e um semblante tristonho.

Claire, que se sentia cada vez mais nervosa com tudo aquilo que se apresentava frente a ela, começou a imaginar o que podia estar acontecendo naquele momento, embora não pudesse acreditar.

— Apenas Claire sairá daqui.

— Por que você não está mudando de aparência...? — Claire indagou apreensiva.

A outra sorriu de forma malévola e atrevida.

— Porque eu... serei você.

Antes que a verdadeira Claire pudesse perceber o baque daquilo tudo, Milo desferiu um golpe que quebrou sua perna. Ela gritou de dor, mas não havia ninguém ali para ajudá-la.

— A pistola — A outra pediu, erguendo a mão de maneira sensual.

Milo entregou a arma sem hesitar, como se confiasse inteiramente naquela pessoa à sua frente. Ryan, que fitava com menosprezo aquela cujo corpo copiava, logo passou a olhar para Milo. Dentro de poucos segundos, ergueu a pistola, apontando para a cabeça dele.

— O que... está fazendo? — o outro perguntou.

Milo era feio, chegando até mesmo a ser assustador, não somente por sua aparência, mas pela forma que se mantinha, por não se cuidar, dentre outros aspectos como o andar, o olhar, etc. Mas Milo era uma pessoa leal, que fizera nada menos que qualquer coisa requisitada por Ryan durante todo o tempo que estiveram juntos naquele lugar. Não se pode dizer que isso não importava para aquele que segurava a arma. Porém não iria pará-lo.

— Você foi leal a mim por todo esse tempo, e eu o agradeço. Eu o agradeço por acreditar em mim e por me seguir. Mas eu não posso deixá-lo vivo — falava seriamente.

— Eu... te a-amei... — Milo gaguejou. Ele lacrimejava.

— Eu sei. Mas você é um fardo no qual eu não posso ter. Não posso deixá-lo viver por saber o que sabe sobre mim. Sobre o que está acontecendo aqui. Desculpe.

“Eu te perd...”. As últimas palavras de Milo se perderam ao serem seguidas pelo eco do estrondoso tiro. Claire chorava em desespero, não só pelo que acontecia a ela, mas a tudo que ocorria ali.

— Como você pôde?! — Claire gritou, incrédula.

A outra se abaixou pausadamente e, frente àquela que copiava, disse:

— Com a vida que tenho levado, não posso me dar ao luxo de sentir como você sente. Não posso me dar ao luxo de ter fraquezas. O que é engraçado, já que tenho uma fraqueza da qual nunca conseguirei me livrar: meu amor por Michael.

As duas se olhavam como se houvesse um espelho no meio. A única diferença era que uma era em prantos e a outra era fria como a neve, pois ambas estavam quebradas por dentro.

— Não se preocupe. Isso não te matará, apenas a desativará — Ryan evidenciou a pistola —Você ficará enterrada sob os escombros desse lugar. Desacordada. Perdida. Esquecida. Mas eu darei sua porção de amor para Michael, assim como a minha.

Em seu desespero e dor, Claire não conseguia falar nada.

— Adeus, Claire — a outra sorriu finalmente, e, no que esperava ser seu último ato de destruição, encostou a arma na cabeça da mulher à sua frente.

Puxou o gatilho.

***