Afterlife

35 O passado de Karen


Notas iniciais
Infelizmente tive que passar um tempo sem postar nada, pois o tempo já não me permitia isso (faculdade, estágio e etc). Mas na medida do possível estarei voltando a postar o/ (pra quem lê, haha).

Sua respiração seguia o nível de descontrole de seu coração, que palpitava fortemente. De pés descalços, ela corria o mais rápido que podia naquela calçada fresca por conta do clima frio daquela noite. Embora houvesse pouca iluminação naquela rua de um bairro desfavorável, a garotinha tentava checar se ainda a perseguiam.

Ela vestia um vestidinho sujo e rasgado naquele corpinho magérrimo. Sua pele era tão imunda quanto sua roupa. Em uma mão, carregava um ursinho de pelúcia que não possuía uma orelha e tinha apenas um dos olhos. Na outra, um pedaço de pão que havia acabado de comprar com alguns trocados que conseguira durante o dia.

Ao retomar seu olhar para frente, a garotinha se esbarrou em um homem alto e gordo. Ela caiu no chão, e logo depois percebeu que ele não estava só.

— Pensou que iria fugir da gente pra sempre, idiota? — O homem perguntou em tom de deboche e ira.

A garotinha, com seus longos fios claros e belos incompreendidos olhos azuis, começou a chorar. Ela já sabia o que iria acontecer, e não havia nada mais o que fazer. Aquilo acabara se tornando comum.

Aqueles monstros atrozes começaram a agredi-la. Chutaram-na, puxaram seu cabelo, e, ainda, tomaram o pão de sua mão e comeram em sua frente. Depois, jogaram-na em um beco qualquer e foram embora. A garotinha, deitada no chão, encolheu-se, abraçou seu ursinho, e começou a chorar. Ela sentia tanta fome... Tanto frio... E não havia ninguém.

*

Ela ouviu uma voz. Alguém falara algo, mas ela se perguntava se era com ela. Pensou que provavelmente não, afinal, quem se importava com sua situação? “Ninguém”.

A garotinha continuou ouvindo, e, ainda encolhida, virou sua cabeça para a entrada do beco. Havia alguém ali do seu lado. Ela prestou um pouco mais de atenção, e conseguiu entender o que diziam:

— Você está bem?

A menina não disse nada. Mas era claro que ela não estava bem. O rapaz, então, perguntou se ela queria ajuda. Ao aproximar sua mão, ela se encolheu ainda mais, o que fez com que ele desistisse. Após isso, o garoto foi embora. “Tão sozinha...”, ela pensava. Mais uma vez alguém não se importara.

Alguns minutos depois, porém, o mesmo rapaz se abaixara perto da garotinha. Ele não tentara tocá-la dessa vez, mas fizera algo diferente: trouxera um saco com vários pães dentro, e um copo cheio de leite.

Os olhos dela brilharam. Ela estava literalmente morrendo de fome. Ergueu-se rapidamente, mas não pegou nada. Ela salivava, mas apenas olhava com afinco a comida à sua frente.

O rapaz, então, colocou o copo e o saco de pães no chão, pertinho da garota. Foi aí que ela voou em cima da comida. Sua fome era descomunal, e fazia tempo que ela não tinha uma refeição tão deliciosa como aquela.

— Como é seu nome? — o rapaz perguntou.

A garotinha terminou de mastigar, olhou para o garoto e, embora hesitante, respondeu:

— Karen.

— Que nome mais lindo! — ele disse, sorrindo. — Eu me chamo Max.

— Max — ela repetiu.

— Isso! — ele riu levemente. — Você me lembra da minha irmã...

Karen voltou a comer, ainda olhando para o homem, mas de maneira curiosa e meio defensiva.

— Eu não tenho irmãos — ela disse, desanimada, com seus olhinhos baixos.

Max subitamente demonstrou um sorriso enorme. Com ternura, disse:

— Você tem a mim agora!

Os olhos da garotinha se encheram de lágrimas.

***

Os feixes de luz brilhavam em sua mão. Ela os contemplava, enquanto seus pensamentos giravam em torno de uma única pessoa: Max. As cenas de sua morte passavam várias e várias vezes em sua cabeça. As lágrimas caiam descontroladamente.

Juntamente ao aperto no peito, Karen podia sentir, naquele momento, como se sua luz já não a acalentasse mais. Foi quando, mesmo sem querer, a claridade pura que esvaía de sua mão começou a se extinguir.

Naquele momento... Foi como se uma estrela morresse e o sol congelasse. Sua luz se apagou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.