Afterlife

8 Michael – Pequenas Semelhanças


Depois do que acontecera no dia anterior, eu não havia mais visto Claire nem Rick. Até o procurei antes de dormir, pois queria conversar sobre sua “explosão”, mas não o encontrei. No outro dia, fiz o mesmo. Dessa vez não mais somente para falar com ele. Eu estava preocupado, e simultâneo a isso me chutava mentalmente por estar assim.

Quando voltei ao quarto, após já estar acordado há algumas horas — pelo menos era o que acreditava, já que não fazia ideia de que horas eram —, pude vê-lo. Rick estava sentado no chão, próximo à sua cama, com sua cabeça virada para o lado contrário ao meu. Naquele momento me senti aliviado. E, provavelmente por não aceitar ter sentido aquilo, minha reação foi a de falar alguns tons mais alto:

— Ei, o que foi aquilo com Claire?! Você não pode falar com ela desse jeito.

Enquanto me aproximava, ele se virou para mim. Sua expressão estava horrível, e ele respirava de forma descompassada. Percebi de imediato que ele acabara de ter passado por experimentos, e subitamente me lembrei pelo que passei quando estava na mesma situação. Senti-me mal pela forma como o abordei e como ele estava.

— O que foi? Não vai mais brigar comigo? — ele perguntou, sua voz fraca.

Eu não sabia o que dizer, então apenas fiquei olhando-o.

— Por favor, não olhe pra mim como se eu estivesse morrendo — ele disse, e eu notei que estava fazendo uma feição de pena.

— Mas isso é uma merda — eu disse.

Ele deu de ombros.

— Estou acostumado — ele disse, tossindo em seguida.

— Precisa de alguma ajuda? — perguntei.

— Não — ele respondeu, levantando-se vagarosamente.

Rick, enquanto se erguia, desequilibrou-se, e eu o segurei. Ele, que estava bem fraco, agradeceu, e, quase sem conseguir, olhou para cima, fitando meus olhos. Rick é mais baixo que eu, mas aquela foi a primeira vez que realmente observei esse aspecto nele. Ele fazia-me lembrar de alguém, e naquele momento eu definitivamente sabia quem: Ryan, quem um dia eu pude genuinamente definir como meu melhor amigo, porém que há muito não via.

***

— Não conseguiu dormir? — Ryan perguntou após ver-me aproximar.

Ele estava deitado na areia. Havia tido uma festa na casa de praia de um conhecido do colégio, com música, bebida, etc. Tinha tantas pessoas que muitas trouxeram suas próprias tendas para dormirem no gramado da casa.

— Não. Não estou com sono — respondi, sentando-me ao seu lado.

— E Lila?

— Bebeu demais e já foi dormir — Estávamos falando sobre a garota com quem eu tinha ficado aquela noite, que, aliás, era linda.

— Ela parece ser legal — ele disse.

Senti algo estranho com ele. Logo perguntei:

— Há algo de errado?

— Não — ele respondeu prontamente.

— Tem certeza?

— Não é lindo? — ele indagou poucos segundos depois, e logo mostrou um sorriso em sua face. Ele olhava para cima.

— O quê? O céu? — repliquei, e me deitei, repousando minha cabeça sobre minha mão.

— Sim. Não importa pelo que esteja passando, o que esteja sentindo... Sempre que olho para o céu... — Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de continuar — Sinto-me bem.

Virei minha cabeça para ele. Seu sorriso já não estava mais lá, e lágrimas começavam a escorrer de seus olhos, fazendo-me ficar preocupado.

— Ryan...

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele se levantou de uma vez, e eu fiz o mesmo.

— Vou para a cama — ele disse, afastando-se. — Mas se prepare — Virou para mim, sorrindo — Amanhã irei acabar com você no jogo!

Ryan, então, tornou a seguir seu caminho. Aquela foi a primeira vez que o percebi sorrindo forçadamente. Mas não foi a última.

***

— Você está bem? — Rick perguntou, franzindo a testa.

— Sim — respondi após ressurgir de meus pensamentos.

— Ok — ele disse, não mais precisando de minha ajuda para ficar de pé.

“Por que me lembrei disso agora?” — perguntei a mim mesmo. Rick não tinha nada a ver com Ryan, a não ser a altura. E, às vezes, o seu jeito. Seu cabelo era escuro e curto, e seus olhos eram castanhos. Ryan tinha cabelos loiros, lisos e não tão curtos, os quais às vezes eram usados para baixo e outras vezes para cima, e tinha olhos azuis. “Azuis como o céu” — pensei instantaneamente. E ao me defrontar com esse pensamento, julguei-me interiormente. Tentei tirá-lo de minha cabeça.

Pouco tempo depois, a porta do quarto abriu. Um homem de cabelos grisalhos vestindo roupa social entrou. Ele indagou:

— Seu nome é Michael? — Apontou para mim.

— Sim — respondi.

— Venha comigo — ordenou — É sobre Claire.

Senti uma pontada no coração.

— O que aconteceu?! — Eu estava atônito.

— Apenas me siga.

“É bom que porra nenhuma tenha acontecido com ela” — pensei, começando a ficar furioso ao mesmo tempo que aflito.

— E eu? — Rick perguntou.

Depois de alguns segundos em silêncio, olhando para o outro, o que eu achei esquisito, o homem de cabelos grisalhos respondeu:

— Você pode vir também.

Notas finais
Por favor, deixem comentários (críticas são bem vindas, porém por favor as façam direito, não somente "tá ruim" ou algo do tipo)! Ajudarão muito! Obrigado!