Afterlife

15 Michael – Mudança


Havia se passado três dias desde que fugimos daquela prisão subterrânea. Três dias desde que aquele rombo em meu coração, o qual sempre esteve comigo durante boa parte de minha vida, tornara a crescer. Três dias desde que Ryan morrera.

A verdade é que desde que o conheci ele fora como um alicerce para mim. E assentir isso me causava um certo sentimento de estranheza, talvez comigo mesmo por estar admitindo isso em relação a outro homem. Mas é a verdade. Ryan esteve nos momentos mais sombrios de minha vida, iluminando-os como podia.

Nós havíamos nos estabelecido em um lugar seguro — alegado por Leon, que era dono daquele apartamento. A única pessoa ali que teria de fato um local para voltar com pessoas que provavelmente estavam extremamente preocupadas com ela era Claire, porém seria muito perigoso, e por isso teríamos de ficar ali. E já havia três dias de nossa estadia naquele lugar. Três dias desde que Ryan se fora, e que eu não fazia mais nada além de pensar nele.

Naquele terceiro dia, porém, decidi passar menos tempo deitado, pois do jeito que estava parecia quase ignorar completamente a existência dos outros, até mesmo de Claire, embora ela e eu dividíssemos a mesma cama.

Eu tentava me sentir melhor. Apenas tentava. Mas, de fato, teria que pelo menos me comportar como se estivesse melhor. Precisaria seguir em frente. "Pelo bem de Claire", peguei-me pensando, e notei que aquilo passava muito pela minha cabeça. "Como viemos parar aqui...?"

— Michael! — Karen se mostrou não só surpresa mas também animada por me ver.

Ela definitivamente se demonstrava melhor que eu. Não sabia se era real, ou se ela era apenas muito boa em esconder seus sentimentos. Bom, naquele momento eu pude me sentir um pouco melhor, e sabia que era pela mera presença de Karen.

Todos nós já havíamos conversado um pouco sobre nossas habilidades, e a loira deixara claro que, se pudéssemos nos chamar de algo que existe em mitos, etc., ela seria um tipo de fada. Possuía uma força maior do que aparentava ter (mas não era algo absurdo) e liberava raios impactantes de luz sobre suas mãos, os quais também podiam ser usados como escudos e cura. Karen era mais forte durante o dia, e sua luz era capaz de fazer qualquer um se sentir melhor.

Garry, por sua vez, podia detectar mentiras nas palavras das pessoas. Se contássemos algo falso, ele saberia.

O outro, que não sabíamos nem o nome, pois não falava nada, continuou na sua, quieto. Se fosse por Garry, ele provavelmente já teria sido expulso dali. Mas o lugar era de Leon, o qual não era somente uma fera, mas também um hacker muito bom — não que estivesse ligado a suas habilidades, mas extremamente útil, já que estava utilizando aquele período para descobrir qualquer informação possível sobre nossos captores.

— Oi — eu disse, tentando não parecer muito frio, mas sem muito sucesso.
Karen estava do lado de trás do balcão da cozinha, de frente ao fogão, preparando algo que era realmente muito cheiroso e me deixara com água na boca. Leon, sentado ao balcão, teclava sem parar em seu notebook, porém ainda conversava com Karen, e ao me ver deu um "bom dia". O lugar estava bem iluminado, já que as janelas não estavam cobertas pelas cortinas.

— Você deve estar com fome — a loira presumiu.

— Sim — eu disse, tentando esboçar um leve sorriso.

— Ela tá fazendo algo delicioso! — Leon disse, sua voz empolgada.

Karen riu suavemente.

— Imagino — eu disse.

Pela primeira vez naqueles dias eu realmente estava com vontade de comer.

— Onde está Claire? — perguntei, após olhar para os lados.

Karen suspirou. Leon parou de teclar, e logo se virou para mim.

— Saiu.

"Saiu?!". Eu quase enlouqueci momentaneamente.

— Como assim?! — indaguei sem querer acreditar.

— A gente tentou dizer que era perigoso, mas ela é teimosa — Leon disse.

— Aham... — Garry aparecera, soltando uma confirmação com um tom irônico extremamente perceptível.

Não era a primeira vez que ele fazia aquilo. Na verdade, desde que chegamos ele esteve sempre soltando frases irônicas ou fazendo "brincadeiras" idiotas — como com o cara que não fala nada. Nos últimos dias, embora eu não estivesse interagindo muito, não tinha como não percebê-lo olhando Claire, em inúmeras situações, de forma estranha.

Naquele momento eu senti uma raiva imensa se apossando de mim. Eu queria muito esmurrar aquele filho da puta, ou até mesmo jogá-lo pela janela, e talvez grande parte daquela raiva fosse não só por ele, mas por várias outras questões as quais encontravam ali uma fonte de descarregamento inteiramente viável.

Antes que eu pudesse partir para cima dele, entretanto, a porta principal dali fora aberta. Dei alguns passos para o lado e pude avistar o corredor e a entrada para qual ele dava.

Era Claire. E, embora eu tivesse ficado aliviado, ficara surpreso também. Ela estava diferente.

— Oi! — ela disse, sorrindo. Segurava algumas sacolas em suas mãos.

— Onde você foi? — perguntei, franzindo a testa.

— O que achou? — ignorou minha pergunta completamente, e fez uma pose.

— Você... Está diferente — eu disse, fitando-a ainda surpreso.

Ela deu um sorriso e balançou o cabelo, evidenciando-o ainda mais. Estava liso, com a parte que seria a franja na altura do queixo — porém repartido ao meio, sem cobrir a face — e apontado para trás, como sempre fora. Porém, o resto estava diferente: a continuação do cabelo a partir dessa altura se dava com leves ondulações verticais, as quais ficavam mais apertadas ao se aproximarem do fim, alcançando seu torso.

— Você gostou? — ela indagou, mordendo levemente o lábio inferior.

— Está... bem bonito — respondi — Vejo que mudou de roupa também — Apontei.

— Sim — ela deu de ombros.

Eu não sabia bem o que estava diferente em sua forma de vestir, mas estava. Talvez fosse a blusa verde sem manga com um decote um pouco maior que o usual, ou a calça jeans bem justa, ou mesmo a jaqueta de couro escura. Talvez fosse a bota sem salto, mas Claire também as usava em algumas ocasiões... Talvez por estar mais sensual do que o comum. De qualquer forma, Claire estava linda, como sempre fora.

— Trouxe algumas roupas para vocês também — ela disse, depois de ter se aproximado mais, ficando no campo de visão daqueles na cozinha..

— Como sabe o nosso tamanho? — Leon perguntou.

— Não sei — ela respondeu — Então me desculpe se comprei o tamanho errado. Mas acho que estão certas — ela sorriu, depositando as sacolas sobre a mesa.

— Como você comprou essas coisas? E como mudou o cabelo? — eu ainda demonstrava um semblante de admiração e estranhamento.

— Ele me deu dinheiro — Apontou para Leon, o qual deu um tchauzinho para mim, sorridente.

— Posso falar com você? — perguntei para Claire.

Ela fez que sim, e continuou ali.

— O que está acontecendo? — indaguei com seriedade.

— Como assim?

— Você está diferente.

— Claro, eu mudei meu cabelo e as roupas.

— Não foi o que quis dizer. Você... Parece diferente.

— Eu queria mudar um pouco — ela disse.

— Você se expôs ao perigo ao ir lá fora, apenas para mudar a aparência...

Claire desviou seu olhar, e seu sorriso desmanchou, assim como o comportamento alegre que apresentava desde que entrou. Depois, voltou para mim:

— O que passamos por lá... — Ela devia estar recordando os acontecimentos. Sua expressão era de angústia. — Toda vez que me olho no espelho eu me lembro daquele lugar — Sua voz começou a fraquejar um pouco — É como se estivesse impregnado em mim. Eu estava me sentindo terrível... Suja.... Eu pensei que seria algo bom mudar. Queria deixar aquela Claire para trás, para tentar esquecer o que aconteceu... — Seus olhos começaram a lacrimejar.

Eu entendia o que ela estava sentindo, e isso me fez sentir muito mal e como um idiota por tê-la repreendido por suas mudanças.

— Desculpe — pedi, colocando minhas mãos em seus braços.

Claire olhou profundamente em meus olhos e me abraçou em seguida. Um abraço mais apertado que o usual.

Notas finais
Por favor, deixem comentários (críticas são bem vindas, porém por favor as façam direito, não somente "tá ruim" ou algo do tipo)! Ajudarão muito! Obrigado!