Afterlife
23 Claire – Ruínas
06 de agosto de 2023
Eu estava com muita raiva. Lembro-me de me sentir cansada, mas também de sentir raiva. Acabara de chegar em casa, e andava um pouco rápida até a cozinha. Minha mãe, que acordara com a minha chegada, descia as escadas a tempo de me ver passar pelo corredor com um ar de irritada.
Embora eu devesse estar feliz por ter acabado de voltar de uma comemoração do dia do meu aniversário, não estava. Minha mãe chamou meu nome, mas eu a ignorei enquanto enchia um copo com água. Ela me chamou mais uma vez, mas eu já entornava o copo em minha boca, e não podia respondê-la. Na verdade, não queria.
O relógio marcava quatro da manhã, e os minutos não me interessavam. O que me interessava era toda aquela raiva que eu estava sentindo. Tudo aquilo era por causa de Lisa. Minha irmã saiu da minha festa para ir a outra e ainda levou meu amigo, Michael. Era óbvio que aquela raiva que eu sentia era ligada à vontade que sempre tive de tê-la por perto. Mas eram poucas as vezes que ela desejava a mesma coisa. Eu não a entendia, não conseguia compreender o porquê de ela ser tão... irritante.
Minha mãe chegou à cozinha, seu rosto “amassado”, olhos semicerrados de sono, e um semblante de preocupação. “O que aconteceu?” ela perguntou. Podia-se perceber o grande aborrecimento em minha face facilmente.
Eu não queria falar com ela, não queria respondê-la. Estava muito irritada para aquilo. Ela perguntou mais uma vez, logo depois de ter se aproximado, e passou sua mão em meu rosto. Eu a expeli, virei de uma vez, bufando de raiva, e falei bem alto:
— Eu a odeio! Eu queria que ela sumisse!
Os acontecimentos que se seguiram próximos àquilo eu não recordava. Mas eu me lembrava do que veio um pouco depois. Um telefonema. Minha mãe atendendo-o. Sua expressão de desespero. Aflição. Ela desmoronou em lágrimas. O telefone desprendeu de sua mão, espatifando-se no chão.
Atônita, comecei a sentir meu coração se apertar. Minha garganta começou a dar um nó. Foi quando ela virou para mim e, ao meio de seus soluços, deu a notícia mais infeliz que já tive a oportunidade de receber. A mais agonizante. Eu fiquei em ruínas.
***
Acordei abruptamente do pesadelo que estava tendo, dando-me conta mais uma vez do lugar horrendo em que me encontrava. Aaron já estava lá, e mexia em algumas coisas que eu não me importei de prestar atenção. Na verdade, assim que notei mais uma vez onde estava voltei a fitar o “nada”.
— Estava tendo um pesadelo? — ele perguntou.
Continuei sem nada dizer.
— Sobre o que era, hein? — Ele começou a se aproximar, com um sorrisinho malicioso de lado. — Você perdeu seu gatinho no sonho? — Ele riu, zombando de mim.
Eu ergui minha cabeça, minha expressão mortificada. Olhei em seus olhos.
— Não — respondi, minha voz fraca e serena — Na verdade, estava sonhando com algo que aconteceu há algum tempo.
— O que de tão ruim poderia ter acontecido a uma garotinha tão mimada como você? — ele retrucou.
Aqueles seus ataques não me atingiam, simplesmente pelo fato de eu estar exausta demais para tudo aquilo. Mas voltei a falar:
— Eu nunca tive um relacionamento bom com minha irmã — Pude vê-lo revirar os olhos e voltar a fazer o que fazia antes. — Algumas vezes ela demonstrava gostar da minha companhia, outras vezes simplesmente não queria me ver por perto. Eu não a entendia. Ela me fazia sentir muita raiva.
Eu começava a recordar de tudo aquilo que me destruía mais uma vez. Aquele dia do qual eu fazia de tudo para não pensar sobre. Depois de uma pausa, continuei:
— Um dia, há um ano, logo após meu aniversário, eu senti um ódio muito grande por ela. Eu... — engoli em seco — Desejei que ela sumisse.
Aaron parou de mexer no que quer que fosse, prestando maior atenção. Sua expressão já não demonstrava aquele teor utilizado para me zombar.
— E então... Ela se foi — eu disse.
Aaron se virou para mim, olhando em meus olhos com um semblante sério.
— A boate em que ela estava pegou fogo. Apenas algumas pessoas sobreviveram — Foquei mais ainda nos olhos do homem à minha frente. — Ela morreu queimada.
Naquele momento eu descobri que Aaron era capaz de sentir compaixão, só de observar seu rosto. Mas eu não contara nada daquilo com essa finalidade. Eu apenas estava cansada demais para guardar tudo aquilo.
— Um amigo com quem ela foi a essa boate disse que me amava na minha comemoração — tornei a falar — Se eu tivesse dito que o amava também, ele teria ficado. E, assim, ela não teria ido para esse outro canto.
Meus olhos começavam a lacrimejar. Meu coração apertado parecia que iria rasgar meu peito. Eu sentia uma angústia colossal.
— Eu tentei aguentar essa dor. Eu tentei. Mas não consegui. Então, eu... Eu tentei me matar na minha banheira — Aaron entreabriu sua boca — Primeiramente vi os remédios de minha mãe, mas decidi que não iria assim — eu contava pausadamente — Eu senti que merecia sofrer. Enchi a banheira de água, deitei-me, e, com uma navalha, cortei meus pulsos. Eu sei que é clichê, mas foi o que eu fiz. E, então, fiquei esperando todas minhas energias sumirem até o momento em que não mais acordaria. E tudo ficou escuro. E eu morri — Soltei uma risada nasal. — Mas, depois, meus olhos se abriram. Percebi que continuava viva. Meus braços... Os cortes não estavam mais lá. Eu não entendia o que estava acontecendo. Desesperada, cortei-os novamente, e esperei mais uma vez. Só que, dessa vez, logo antes de perder a consciência, pude ver as feridas se regenerando lentamente.
No meio das várias lágrimas que desciam e molhavam meu rosto, e da aflição que eu sentia, comecei a gargalhar.
— Tudo que eu queria era me livrar de toda aquela dor, sumir desse mundo. E olha só! Eu sou especial. Eu nunca — enfatizei — poderia me matar. Eu nunca me livraria de toda aquela dor que me sufocava. Eu não podia ter minha irmã de volta. E eu não podia me matar. E, hoje, eu pergunto: por que eu tive que ser especial? Se tivesse sido minha irmã... Ela poderia estar viva.
Aaron não sabia como reagir. Ele estava claramente perplexo com tudo aquilo. Dentro de alguns segundos, ele disse:
— Eu sinto muito.
— Não preciso que sinta pena de mim — Desviei o olhar.
— Não é somente “pena”.
Ficamos em silêncio por um tempo. Mas ele logo tornou a falar:
— Eu disse que iria te desativar mais uma vez, não disse? — Olhei para ele com atenção. — Não irei mais fazer isso. Eu te deixarei ir — Franzi a testa.
— E isso não é “ter pena”? — retruquei.
— Como eu disse, não é somente isso. Eu te entendo. Eu perdi meu irmão também — ele disse, sua expressão melancólica.
Embora não sentisse que podia confiar em qualquer coisa que aquele homem dissesse, eu sabia que, naquele momento, ele falava a verdade. Eu podia ver em seus olhos. Aaron realmente compreendia pelo menos parte de minha dor, pois ele já passara por algo similar.
— Eu só preciso resolver algo. E então eu vou libertá-la.
Aaron andou até uma lata de lixo. Foi quando eu finalmente percebi que aquilo com que ele estava mexendo anteriormente era outra bolsa de sangue vazia. Porém, dessa vez, ele a jogou fora.
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