After The Rain

2 01. Green


01.Green

Rachel conhecia bem aquela sensação aflitiva em seu peito, era como se uma corrente de energia se espalhasse de forma lenta e, aparentemente, inofensiva por todo seu corpo, como se seu coração aumentasse de tamanho e conseguisse bombear seu sangue com uma velocidade sobre-humana. E ela não conseguia parar de sorrir. Mesmo que se policiasse para não parecer uma completa idiota em seu primeiro dia na faculdade, a garota sabia que exibia o sorriso de uma criança para quem o Natal havia sido adiantado.

Quando criança, Rachel não sorria muito, então, lhe parecia justo.

Ao observar o campus ao seu redor, no meio da cidade em que havia nascido e que, de forma conflituosa, era capaz de amar, Rachel sentia-se esperançosa. E a garota sabia que esse era um sentimento traiçoeiro, que poderia se transformar em decepção em um piscar de olhos.

Rachel descobriu isso quando ainda era criança. Ela sentia seu coração batendo mais rápido desde que seus pais mentiam em sua infância, falando sobre como eles iriam em sua apresentação de teatro ou sobre como não sairiam da mesa rapidamente após o jantar de Ação de Graças. E, em todas as vezes, a garota sentiu seu coração se despedaçando em pequenos pedacinhos e caindo como caquinhos pelo chão, mas, como a maioria dos pais fariam, os seus não se preocupavam em recolhê-los.

Porém, ela não conseguia evitar se sentir daquela forma. Esperança era um sentimento viciante, e Rachel sempre se sentira mais confortável na imaginação e no “e se...” do que enfrentando a realidade. Infelizmente, os pesadelos e as profecias não a deixavam se esquecer dentro de sua própria cabeça há um tempo, não que Rachel ainda considerasse sua mente um local seguro.

Após três anos trancafiada na Clarion Lady Acadamy e com o fim da Guerra de Gaia, Rachel conseguia se sentir livre pela primeira vez em muitos anos. A Faculdade de Artes e Ciências de Nova Iorque não era sua universidade dos sonhos, para ser franca, a garota gostaria de estar em outro estado, provavelmente em uma cidade próxima à praia. Mas o Acampamento impedia que ela se afastasse e nem a própria queria ter uma grande distância dos seus amigos.

Um dia, a Faculdade de Nova Iorque havia sido a universidade de seu pai, e mais uma vez, ele havia a convencido de seguir todas as suas vontades. O pai de Rachel estava cada vez mais doente, enfrentando um tratamento complicado contra o câncer no fígado, e a garota não poderia dizer “não” para ele em uma cama de hospital, não depois de ter perdido sua mãe.

De qualquer forma, a “CAS”, como os alunos mais velhos carinhosamente tinham apelidado a instituição de ensino, era uma universidade que se preocupava bastante com as artes e a liberdade de expressão dos jovens, além disso, sempre esteve muito envolvida com causas sociais. Rachel se sentia aceita ali dentro e fascinada ao mesmo tempo. Por mais que ainda invejasse o curso de Artes de outras faculdades, estava contente em passar alguns anos naquele lugar, adorava observar a diversidade de culturas ali dentro, que sempre se mantinha presente em uma cidade como Nova Iorque. Ela nem conseguia imaginar como seu pai, tão ranzinza e mal-humorado, havia se graduado em um local como aqueles.

— Elizabeth Dare? – Rachel ouviu uma voz grossa e sonora perguntar por ela. Também percebeu um pouco de sotaque na fala... Seria britânico?

A vontade da garota era não responder quem quer que estivesse a importunando. Ela estava sentada em um banco no campus, enquanto desenhava a paisagem e os jovens que havia observado a tarde toda. Os adolescentes corriam apressados de um lado para outro, alguns com várias malas, enquanto outros levavam um sermão dos pais sobre drogas, muitos já haviam feito amizades e passavam rindo, falando animados sobre fraternidades. No entanto, todos pareciam igualmente assustados e entusiasmados, como a própria Rachel.

— É Rachel Dare, na verdade – respondeu, mal-humorada. Elizabeth era o nome da sua avó, que ela nunca havia conhecido, e era o nome que sua mãe usava para dar gigantescas broncas na garota quando era mais nova.

– Pode me dar um minuto de sua atenção, por favor, Elizabeth?

Com toda sua força de vontade e um alto suspiro, Rachel levantou a cabeça lentamente, fazendo com que vários cachos caíssem sobre o seu rosto. O garoto à sua frente tinha um sorriso presunçoso nos lábios, o que fazia com que as suas covinhas se afirmassem, e seus óculos escorregavam pelo nariz pontudo enquanto observava Rachel. Ele vestia uma camisa da NYU, tinha um chamativo lápis vermelho em sua orelha e estava com uma espécie de prancheta em mãos, no pulso, seu relógio prateado gigantesco fez os olhos da garota doerem quando o objeto refletiu com o Sol. Aquela era a faculdade de seu pai, afinal, não demoraria muito tempo para que os babacas viessem a cavalo

– Estou ouvindo – disse, tentando imitar o sorriso do garoto enquanto tirava o cabelo de seus olhos.

— Eu sou Andrew Matters, seu monitor, college leader. – Ele franziu os lábios, enquanto verificava algo na sua prancheta, uma ruguinha surgiu entre suas sobrancelhas quando o fez. – Percebi que você faltou no tour pelo campus, houve algum imprevisto?

Após alguns segundos observando suas linhas faciais e seu rosto oval, já sentindo uma estranha vontade de desenhá-lo, Rachel negou com a cabeça, perguntando-se como, entre tantos calouros, Matters sabia se tinha algum faltando, ou pior, quem não tinha aparecido.

— Não penso em ficar muito tempo aqui, para falar a verdade, então, estou tentando me apegar o mínimo possível – explicou calmamente, mas Andrew não parecia ter ficado muito satisfeito com a resposta. – Pretendo me transferir para a The Cooper Union assim que completar minha general education*.

– Posso me sentar? – A garota estava pronta para ouvir um sermão sobre como aquela faculdade era a melhor de Nova Iorque, que ela não deveria trocar essa chance por nada e que tinham milhares de pessoas que matariam o presidente para estar em seu lugar, logo, ficou surpresa com a pergunta simples de seu monitor.

Rachel não respondeu, apenas deu espaço para o garoto sentar ao seu lado no banco, guardando seu caderno de desenhos e seu lápis em sua bolsa. Andrew rapidamente sentou, espreguiçando as pernas compridas e o corpo esguio.

– Imagino que queira cursar Artes? – questionou, parecendo bastante interessado, o que fez a garota franzir a sobrancelha, já que ouvia a pergunta apenas com tom de decepção por parte da família e de escárnio por parte das suas colegas no Ensino Médio.

Andrew virou o rosto em sua direção, erguendo ambas sobrancelhas como quem espera uma resposta. Quando olhou diretamente para ela, a garota percebeu que o Sol atrapalhou sua visão, fazendo com que ele tivesse que fechar um pouco seus olhos cor de mel, e com que seu cabelo castanho adquirisse um tom mais claro. No entanto, Rachel deduziu que o estudante estava acostumado com aquele clima ensolarado, devido ao seu bronzeado invejável sem muitas manchas vermelhas.

— Sempre foi meu sonho. E você faz...?

– Matemática.

A garota revirou os olhos de forma sutil, mesmo assim, Andrew percebeu seu ato.

– Pode caçoar agora, mas muitas das suas preciosas técnicas de desenho e pintura não existiriam se não fosse pelos números. Provavelmente, nem essa faculdade estaria aqui.

— O mais importante na arte é o sentimento. – Rachel sorriu de forma provocante. – Nos seus números, onde entra todo o sentimentalismo?

— Entra na parte de eu querer te derrubar desse banco aqui e agora, se continuar falando mal do meu curso.

A caloura revirou os olhos, esforçando-se para também não cair na risada.

— Podemos concordar que ambos são importantes? Momentos de racionalidade e momentos de sentimentalismo? Não quero passar meu dia discutindo com uma pessoa que nem conheço, então, prefiro declarar um empate, é justo.

– Não costumo perder em discussões, especialmente para os calouros.

Rachel o encarou com desdém.

— Se vai ser meu college leader por muito tempo, é melhor ir se acostumando a perder em discussões comigo. – Andrew tem uma risada gostosa, bem mais controlada e rouca do que a de Rachel, mas ainda assim contagiante. – Pode rir agora, Matthews, mas eu consigo falar por horas, mais cedo ou mais tarde, você vai acabar se cansando e desistindo como todos os outros. – Rachel deu de ombros. – Falando nisso, que tipos de responsabilidade você tem comigo?

O garoto bufou, bagunçando seus próprios cabelos cacheados.

– Para começar, acho que não deveria ter deixado você faltar ao tour monitorado. Mas tudo bem, contanto que não espalhe aos demais monitores.... De resto, tenho que te dar dicas de como sobreviver a essa selva, ajudar com os professores, mostrar um pouco da cidade, te levar para conhecer fraternidades, os lugares escondidos do campus... Basicamente, não fazer com que você pareça uma completa idiota em seu primeiro semestre, e, agora que te conheci, confesso, acho que não será uma tarefa tão fácil.

— É, parece que eu causo essa primeira impressão nas pessoas – comentou Rachel rindo, ao se lembrar do seu primeiro encontro ácido com Annabeth. – Então, você é uma babá? Isso parece ser bastante tedioso para quem já está aqui há um tempo.

— Eu preciso do dinheiro. Universidades podem levar qualquer jovem à falência – explicou ele. – Não é todo mundo que tem um pai rico que domina metade de Nova Iorque como você.

Andrew não parecia ter falado aquilo por maldade, mas isso foi suficiente para fazer com que Rachel engolisse em seco e sentisse seu estômago se comprimindo, como se estivesse um pouco enjoada. Ela esperava que poucas pessoas soubessem sobre seu pai e que isso não afetasse o seu relacionamento com os demais aluno.

O garoto se alertou, e suas expressões mudaram rápido quando percebeu algo de errado. Ele parecia culpado e preocupado ao mesmo tempo, com os olhos arregalados e a mão casualmente descansando no ombro de Rachel.

— Eu disse algo de errado?

A caloura engoliu em seco e umedeceu os lábios, ainda encarando seus próprios pés, enquanto sentia os olhos de Andrew queimarem suas costas.

— Não, desculpa, eu só esperava que ninguém soubesse sobre o meu pai. – Ela balançou a cabeça. – Deveria imaginar que isso seria mais difícil, jovens universitários não são tão desligados do mundo como adolescentes ricos do Ensino Médio... A questão é que eu e meu pai nunca tivemos um bom relacionamento, não é como se eu concordasse com o massacre ambiental que ele promove.

— Oh, me desculpe. Como você deve saber, ele estudou aqui e ganhou alguns prêmios para a área de Ciências quando era mais novo. Por ser bem-sucedido, nossos professores costumam o usar como um exemplo. – As mãos de Andrew calmamente desceram dos ombros de Rachel para suas costas, como se ele quisesse oferecer algum conforto sem ser invasivo. A garota ainda sentia seu estômago revirar, sabia que precisava resolver todos os seus problemas com o pai agora que estava doente, apesar de tudo, era doloroso para ela vê-lo daquela forma e não poder fazer nada. – Eu não sou o melhor amigo do meu pai também, se isso ajuda, ele nunca aceitou muito bem que saí de casa e mudei para um país do outro lado do mundo.

Rachel pareceu se animar um pouco, voltando a olhar para o estudante ao seu lado.

– Sinto muito. E eu sabia que você era de fora! Inglaterra?

– Austrália.

Ela sorri, lembrando-se das fotos que havia visto dos pais no país antes de ter nascido. Pelas fotografias já amassadas e gastas, que se deterioraram principalmente após o divórcio, o lugar parecia ter uma paisagem natural abrangente e fascinante, e, pelo pouco que também sabia da Austrália, seus habitantes eram considerados muito festivos e acolhedores.

— Parece ser um país lindo.

— E realmente é, mas as oportunidades que eu buscava estavam aqui. – Andrew deu de ombros e observou seu relógio exuberante, quando Rachel estava prestes a perguntar se ele não sentia saudades de casa. – Oh, merda, eu estou atrasado para a reunião de monitores com o reitor. – Observando a expressão triste da garota desde a menção do pai, rapidamente acrescentou: – O que acha de sair comigo amanhã? Para eu poder lhe mostrar um pouco da região! Já mostrei a maioria dos lugares para os meus outros alunos no tour de hoje, então...

— Eu conheço essa cidade muito bem, acho que não preciso de...

— Por favor, Rachel. – Ele já estava se levantando, enquanto se espreguiçava novamente, e, de vez em quando, olhava para o relógio e depois retornava para a garota, ansioso. – Você já fugiu do tour, me deve essa.

Ela suspirou e balançou a cabeça, mas mesmo assim foi capaz de sorrir para o outro.

— Acho que tudo bem, não posso ficar trancada no meu dormitório até as aulas começarem, de qualquer forma.

– Ótimo! Vamos ver se, depois desse passeio, você ainda terá coragem de considerar a sua preciosa The Cooper Union.