After Midnight
2 Solidão
Notas iniciais
“Solidão: Um ´lugar´ bom para se visitar em muitos momentos, mas perigoso para se adotar como morada”
Quando terminei de me aprontar, faltava uns 30 minutos para o início da festa. Estava vestida com um vestidinho preto de alça fina, um pouco acima de meus joelhos e para completar um scarpan, também, da cor preto.
Resolvi ir caminhando mesmo, já que Julia morava só à alguns quarteirões da minha rua.
Chegando na esquina, pude perceber a presença da minha amiga, a qual me esperava em frente à sua casa, assim que me viu, veio em minha direção e me abraçou.
— Que pontualidade! Estou surpresa.
— Deveria era ter me agradecido por ter vindo. – Ela riu.
Quando chegamos à festa, o som deveria estar mais do que no máximo, se é que possível, pois aquele barulho estava fazendo com que meus ouvidos doessem.
Julia instantaneamente me puxou para a pista de dança. Porém, havia muita gente naquele lugar, o que fez com que eu me separasse dela. Resolvi então, sair dali e acabei por ir a uma varanda no segundo andar. Era uma varanda enorme, que dava para frente de um jardim ainda maior.
Mas, com certeza o que mais me chamou atenção não foi o tamanho do jardim e sim quem estava ali; Dean, alguns meninos, provavelmente seus amigos, pude perceber também minha irmã e o grupinho dela. Eu apenas fiquei debruçada na cerca escutando a conversa.
— O treinador está acabando com a gente! – O moreno disse e as meninas forçaram uma risada, vê-las me dava nojo.
— Tenho certeza que vocês vão ir muito bem no jogo de basquete, a propósito – Avril olhou para Dean – Soube que você entrou no time.
— Sim, entre, estou melhorando aos poucos, mas ainda não cheguei aos pés deles. – Dean respondeu indiferente.
— Ele está sendo apenas modesto, ele é muito bom. – Seu amigo disse dando tapinhas em seu ombro.
Dean percebeu minha presença e sorriu discretamente.
Por fim, decidi sair dali antes que alguém mais me percebesse.
Era, exatamente 1 da manhã, e eu já estava cansada daquela festa. O barulho estava irritante de tão alto que estava, além das pessoas já estarem fora de si.
Eu me sentei em um banquinho, longe daquela bagunça toda. Fechei os olhos por alguns segundos, inspirei com força e soltei o ar. Estava me perguntando o porquê de eu ter aceitado vir nesta festa. Um frio intenso atingiu a madrugada, o que me deixava com sono.
Naquele instante, senti pingos de chuva molharem meus ombros, e numa velocidade incrível, os pingos d’agua engrossaram.
Corri rapidamente para dentro da casa. Procurei por um banheiro e encontrei um no segundo andar; sequei meu rosto e cabelo com uma toalha, a qual estava pendurada por um gancho.
Não estava com a mínima vontade de voltar para baixo. Havia mais uma escada no segundo andar, que provavelmente seria o terraço, então subi.
Bingo!
Era realmente o terraço, porém quando me dei conta, percebi que havia uma menina de pé no parapeito, ela me olhou assustada. A menina estava completamente ‘ensopada’ e fios de seu cabelo estavam colados em seu rosto. Percebi que tinha sido em vão me secar, já que estaria como ela daqui a poucos segundos.
O silêncio se instalou no local por alguns décimos segundos, porém parecia mais uma eternidade e o único som que se ouvia era da música abafada e o som das gotas de chuva caindo.
Tirei meus saltos, me sentei no parapeito e a encarei.
— Tem certeza?
Ela me encarou de volta confusa. Provavelmente se perguntando se eu era louca. E por fim, resolveu dizer algo.
— Eu estou apenas cansada. As pessoas tentam me ajudar mas eu mesma não consigo me ajudar. Meus pais se separaram recentemente, e ele acha que álcool vai resolver tudo, minha mãe? Ela acha que depressão é frescura. – Ela deu uma pausa pois estava soluçando de tanto chorar, lágrimas caiam sem cessar de seus olhos – E meus amigos, eles tentaram, sabe? Mas sempre achei que guardar a dor para si mesma era o certo. Não há muitos motivos para viver.
Então, mais uma vez o silêncio reinou. Não consegui dizer nada, talvez porque não haja nada para ser dito.
Uma frase veio à minha mente.
“Talvez a vida não seja para todos”
Suspirei.
— Não posso dizer que tudo irá ficar bem, mas posso dizer para seguir em frente, porquê há muito o que se fazer.
A menina balançou a cabeça negativamente e encarou o chão. Ela estava realmente assustada. Podia sentir. A ideia de um fim assusta qualquer um, logicamente.
Ela recuou, e em frações de segundos tudo aconteceu.
Escorregou.
Eu consegui segurar suas mãos, as gotas de chuva molhavam nossos dedos o que dificultava com que eu conseguisse segura-la por mais tempo.
— Obrigada. – A moça sorriu enquanto caía lágrimas de seu olhos.
Ela se soltou.
Tentei novamente segura-la, mas não consegui.
...
Havia algumas ambulâncias e muito tumulto.
A menina não havia morrido, pelo menos, não ainda. Porém estava inconsciente e com alguns ossos quebrados.
Alguns paramédicos estavam colocando Bell na maca e a levando para dentro do carro.
Descobri o nome da menina recentemente, por conta de um dos seu colegas (assim eu presumi) terem gritado por seu nome quando a viu.
Por causa da confusão, não havia ninguém para acompanha-la e não sei como eu fui parar naquela ambulância como acompanhante da garota.
Eles estavam fechando a porta e a última coisa que vi foi o olhar confuso de Julia direcionado à mim.
Ela teve uma parada cardíaca alguns minutos antes de chegarmos ao hospital.
Os médicos correram com a maca enquanto um estava em cima da garota tentando reanima-la e logo entraram na sala cirúrgica.
Eu estava apenas sentada em uma cadeira não muito confortável em frente a sala à esperar alguma coisa acontecer.
Uma meia hora depois uma mulher, que deveria ter uns 30 anos, passou pelas porta central do hospital em estado drástico, seu coque loiro estava totalmente bagunçado, ela estava com roupas de casa e apenas um sapato no pé esquerdo.
A mãe da garota.
A loira começou a fazer perguntas umas atrás da outra para a enfermeira. Por fim, o médico responsável por Bell chegou.
— Como ela está, Doutor? Ela vai ficar bem? O que aconteceu? – A mulher já estava aos prantos antes mesmo do médico se quer abrir a boca.
Houve alguns segundos de silêncio até que o homem resolveu dizer algo.
— O impacto que sua filha sofreu ao cair foi muito forte, e causou um traumatismo craniano. Eu sinto muito, senhora. Nós a perdemos no caminho para cá, houve uma perda definitiva e irreversível das funções do tronco cerebral, consequentemente, morte encefálica.
A mulher caiu no chão com toda usa força, estava em choque, não chorava, não gritava. Paralisada, era como a loira estava.
Algumas enfermeiras fizeram um pequeno círculo em volta dela e a seguraram a fazendo sentar-se em umas das cadeiras.
O médico me olhou e veio até mim.
— Presumo que seja umas das amigas dela, sinto muito. – Ele sorriu e colocou uma de suas mãos em meu ombro.
— Bem, é... é, de qualquer forma, obrigada. – Eu suspirei.
...
Sai do hospital com as mãos dentre os bolsos de um casaco qualquer que peguei na festa, não é roubo, estava largado por lá.
De madrugada, as ruas de Londres costumavam ser mais frias que o normal, e hoje, especialmente, estava de congelar os nervos!
Não existia sequer uma alma naquela rua para parecer menos com um cenário de filme de terror. Mas pelo o horário, eu estava errada.
O único som existente era o dos meus saltos.
Meus pensamentos voltaram-se para o diagnóstico do médico. Não que eu estivesse triste ou abalada. Mas, de algum a forma era... estranho. Aquela garota conseguiu passar sua dor à mim. Ela estava só. E eu consegui compreender exatamente.
Em um turbilhão de pensamentos e passos lentos cheguei em casa. Peguei a chave reserva, a qual ficava em baixo do carpete que dizia “Limpe os pés, não queremos ter trabalho!”, abri a porta de madeira escura cuidadosamente. Logo, a fechei novamente e subi para meu quarto. Estava um breu. Pus meu celular para carregar e me joguei na cama, adormecendo em seguida.
...
Acordei no dia seguinte um pouco depois do meio-dia. Como era sábado, não tinha o porquê de eu levantar, sendo assim, continuei ali deitada.
Resolvi checar o celular, e vi 10 ligações perdidas da Julia.
Ah, droga!
Me esqueci completamente dela.
Havia algumas mensagens também.
“Themis, você ficou louca, é? Não sei porque você entrou naquela ambulância, mas vou querer explicações!
Onde você se meteu? São 4 da manhã e você não responde!”
Respondi.
Me desculpe, meu celular descarregou.
No exato momento que enviei, ela me ligou.
— Themis, o que foi aquilo?
Suspirei.
— Há muito o que contar, podemos ir na cafeteria de sempre?
— Bem, se não há alternativa.
— Meia hora?
— Ok! Até.
Ela desligou e eu fui vestir-me. A temperatura hoje estava abaixo de zero, creio que não vai demorar para o inverno.
Pus uma roupa de frio e antes do sair do quarto peguei meu cachecol, que estava pendurado na cadeira da escrivaninha.
Desço os degraus de dois em dois.
Vejo Avril sentada no sofá assistindo Friends.
Ótimo, era o que faltava!
— Vejam só! Se não é a caridosa Themis, que até mesmo leva suas vítimas ao hospital. – Ela me olhou com um sorriso irônico em seu rosto.
— Está insinuando que a matei? – A olhei seriamente.
— O quê? Afetei você? – A peste riu.
— À mim? Jamais. – Sorri falsamente – Estava apenas pensando na minha próxima vítima, uma de suas amigas, que tal?
Se levantou bruscamente, sua feição passou de irônica para séria rapidamente.
— Diga de novo, Themis!
— Desculpe, por acaso falei baixo?
Avril já estava pronta a me dar um tapa, quando nossa mão chegou.
— Não acredito... estão brigando novamente? – Ela colocou uma de suas mãos na testa – Vão para sala de jantar, agora.
— Vou comer fora. – Disse já abrindo a porta e andando para fora.
Eu estava atrasada graças à peste. Assim, apressei meus passos.
...
Quando entrei na cafeteria, logo vi Julia em uma das mesas no fundo, sentei-me em sua frente.
— Atrasada, mocinha. – Colocou seu celular no canto da mesa.
— É, eu sei. – Dou de ombros.
Ela apoiou sua cabeça em sua mão esquerda, a qual estava encostada na mesa e ficou a me encarar.
— Ok, já vou explicar, deixa eu só pedir um sanduíche, saí de casa sem almoçar.
— E porquê?
— Briguei com Avril. – Assobiei para Jake, o meu amigo garçom do lugar.
— Por que vocês brigam tanto?
— Longa história.
Jake veio logo depois.
— O que vai querer, mocinha? – Ele perguntou sorrindo.
— O de sempre. – Pisquei meu olho esquerdo.
Ele se retirou entrando na cozinha, e alguns poucos minutos depois trouxe um sanduíche de salame e um suco de manga.
Agradeci sorrindo.
— Esse cara é um gato. – Minha amiga disse – Agora, me conte o que houve para você entrar naquela ambulância.
— Você não cansa, é?
Balançou a cabeça negativamente.
— Bem, ela estava prestes a se jogar, foi quando eu apareci e tentei convence-la a não fazer tal coisa. Ela desistiu, mas no fim escorregou e caiu, por algum tempo consegui segura-la mas depois ela se soltou. – Eu suspirei e dei uma mordida em meu lanche.
Julia passou a ter um semblante triste depois de ouvir.
— Deve ter sido difícil. Mas não consigo imaginar a dor dos pais e da própria menina.
— Sim, só conseguimos entender a dor de alguém quando sentimos a mesma.
Enquanto eu termina de comer, Julia tentava fazer com que o clima não ficasse melancólico falando de como seu irmão era um completo idiota.
E ainda assim, não consegui tirar aquele sorriso ‘triste’ de Bell de minha memória.
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