Affection

1 Visão Periférica


Notas iniciais
Não tenho muito a declarar... Só espero que gostem!
Boa Leitura!

Visão Periférica é a propriedade ocular usada para perceber o que está fora do foco principal de visão. Trata-se de uma visão pouco rica em detalhes, onde o indivíduo percebe a presença de objetos e movimentos, mas nada nítido.

Mesmo nessas condições, Ava sabia muito bem quem era o dono da silhueta escura que contrastava com as paredes branco gelo do enorme quarto de hospital. Mesmo sabendo quem era, teve que controlar o desejo de rolar os olhos para esquerda e olhar o rosto dele, mas não o fez. Decidiu observá-lo só uma vez “de rabo de olho” como diz tia Elif, e viu um Loki quieto, olhando para os pés. Agradeceu mentalmente por ele não tê-la visto olhar.

O silêncio predominava de forma tensa. Ava, entediada de olhar para o teto branco, lembrou-se da janela à direita, que tinha vista para o corredor. Ignorar Loki se tornaria uma tarefa mais fácil se ela se distraísse com as pessoas que passavam. Mas a garota esqueceu-se de que era justamente sua perna direita que estava cheia de pontos, e o movimento brusco que fez para dar as costas ao deus das travessuras e mirar a janela lhe encheu de dor, fazendo-a voltar à posição inicial suprimindo um gemido, quebrando o silêncio e finalmente trazendo Loki para perto da maca.

-Qual a extensão dos seus ferimentos? – A primeira frase proferida entre os dois, veio surpreendentemente de Loki. Ava era sempre a que iniciava o assunto, mas dessa vez, ela se manteve calada, como ele fazia quando ela ficava sem ter o que fazer e ia importuná-lo na cela de segurança máxima da agora destruída S.H.I.E.L.D. Mas o silêncio dela não era tão astuto quanto o dele. Os sentimentos dela eram notáveis, não precisava ser um leitor de mentes. Bastava observar o peito subir e descer rapidamente, e tremer com as quase sonoras batidas do coração. Mas mesmo assim, tendo plena consciência de que ele podia lê-la e saber de tudo que ela sentia, ela se recusava a olhá-lo, e muito menos respondê-lo.

Então o deus deu a volta na maca, sendo seguido discretamente pelo olhar minucioso de Ava, atenta a qualquer movimento. Ela podia sentir os dedos dele tamborilando na maca até chegarem à barra da coberta. Sem pedir permissão, descobriu Ava com um só movimento, deixando a coberta cair no chão alguns segundos depois.

O corpo dela estava coberto pela bata do hospital, mas a metade das coxas ainda podia ser vista.

-Você fez isso, idiota. – Ava tentou carregar sua voz de mágoa ao máximo, queria fazê-lo se sentir culpado, não só pelos ferimentos da perna cobertos parcialmente pela bata, mas sim por toda destruição que causou novamente. Mas não tinha certeza de que iria conseguir.

Sem pedir permissão novamente, puxou a barra da bata um pouco pra cima, a fim de revelar toda a extensão dos pontos e hematomas da coxa direita.

-Você só está fazendo isso porque eu não tenho força para bater na sua cara.

O deus riu.

-Você nunca teve força para bater na minha cara. E mesmo que tivesse, não iria agora. – Dito isso, Loki deslizou a mão extremamente fria no maior dos cortes, que ia da raiz da coxa até o joelho. – Bom?

-Mais ou menos – Ela não admitiria que sim, jamais admitiria que aqueles dedos gelados eram aliviantes. Ele começou a dar atenção às outras áreas, quase como uma massagem. – Porque você está fazendo isso? – Ava indagou-o, tentando se levantar com muito custo, usando só uma das mãos.

-Porque você não pediu ajuda para sentar? – Ava percebeu que ele quis desviar o assunto, mas fingiu que não. – E o que tem na mão?

-Todos os dedos quebrados. Ah, e o pulso também. E pare de mexer na minha perna, já estou bem. E por que você veio aqui? Você estava aqui quando eu estava dormindo? Por que não falou nada? E ah, antes que... – Nesse momento, Loki pôs uma mão na frente do rosto de Ava, como fazia sempre quando queria que ela parasse com a faladeira, sendo ela verbal ou telepática. E respirou fundo pra começar a falar de novo. Na verdade já tinha começado a sentir falta da faladeira.

-Eu vim porque estou partindo para Asgard amanhã.

-Hm. Punição?

-Talvez.

-Redenção?

-Nunca.

-Vai fugir? – Loki puxou ar para iniciar uma resposta, mas Ava mesmo tratou de responder — Espero que não. Vai que você erra o caminho de novo! Não tenho certeza de que cairá no quintal de pessoas legais como eu e tia Elif. – Nesse momento, Ava parou de olhar diretamente para ele e começou a brincar com os cordões da bata, e riu sozinha, lembrando da confusão que foi aquele dia. – Ah, e a tia Elif ainda te odeia. – O deus assentiu, mostrando que essa informação não lhe afetava de forma alguma.

-Eu “entrei” – Sim, ele fez aspas com as mãos, como Ava ensinou. — aqui assim que Stark saiu. Não sabia que você estava dormindo, e resolvi esperar. Você também bateu a cabeça?

-Não... Acho que não. Se bati, não foi nada que causasse dano. – falou tateando a cabeça com a mão sadia – nenhum canto dói. Por quê?

-Lhe enviei um monte de pensamentos. Não leu nenhum? – Loki terminou a pergunta franzindo os lábios, coisa que Ava achava adorável.

-Não, não li... É que me mandaram parar de fazer isso por um tempo. Mas não parei porque me mandaram, é claro. É que dói como da primeira vez quando eu tento ler alguém.

-Ah, sim. – Havia alguma coisa muito estranha nesse “Ah, sim.” do Loki. Ava percebeu isso de pronto. Tinha um tom muito pesaroso, sentido. Como se estivesse angustiado e frustrado com algo.

Daí, o silêncio reinou novamente. Ava ficava analisando cada expressão de Loki, a procura de uma pista. Sem mais agüentar de curiosidade com um toque de preocupação, perguntou por fim:

-O que foi?

-O que foi o que?

-Loki, eu não posso ler sua mente. Colabore.

Mais outro momento de silêncio. Ava estava ficando realmente preocupada, afinal, Loki nunca havia ficado estranho desse jeito, não perto dela, pelo menos. Tão quieto... Ava imaginava que se ele viesse visitá-la, os dois fariam aquele teatrinho de sempre: “eu nem me importo tanto assim com você” e ele ficaria naquela pose altiva de sempre. Mas lá estava o deus do caos, sentado com as costas curvadas numa maca de hospital.

-Você está muito estranho. Veio todo quieto, me esperou acordar, fez massagem na minha coxa! – Ava deu uma ênfase enorme a essa parte. Para Loki foi como se ele tivesse massageado um braço. — E perguntou se eu estava bem, e agora fica todo muxoxo não sei por quê. Você é uma daquelas cópias do Loki, não é? – Ela perguntou, cutucando repetidamente o ombro dele. – Cópia, você não sabe fingir que é o Loki. O Loki não é legal comigo. O Loki não responde tudo que eu pergunto. – E continuou cutucando o ombro do deus.

É claro que ela sabia que aquele era o Loki real. Ele podia parecer estranho nas ações conscientes, mas ela continuava a prestar atenção nos detalhes. Ele estava igual, só estava aparentemente triste. E aquelas baboseiras sobre a cópia, foram tentativas fadadas ao insucesso para fazê-lo rir. Tudo estava meio parecido com antes, Ava era a falante de novo, e Loki, o calado. Mas dessa vez, ele não estava calado porque queria ignorar a presença dela, como antes. Ele só não sabia o que dizer. Ou melhor, como dizer.

Ava teve uma idéia, talvez tão estúpida como tentar fazer Loki rir por bobagens. Mas ele estava triste, e apesar de tudo, Ava não gostava de vê-lo assim. Era aquela coisa da afeição sobrepondo tudo.

-Senhor Odinson? – Ava sabia — e como sabia — que Loki não gostava muito de ser chamado assim. Mas ele também não gostava de ser chamado de Laufeyson. E essa coisa de sobrenomes sempre originava uma discussão telepática infindável entre os dois. Na verdade nem tinha fundamento. Mas era divertido, pelo menos para Ava. Era como uma vingança por ele ser sempre o mais veloz na leitura de pensamentos e também por saber trancar melhor a mente. Como o esperado, Loki girou os olhos. – Venha cá.

-Eu já estou aqui. – Que bom, Ava tinha despertado o Loki implicante novamente. Ficaria mais difícil de pôr em prática a idéia que ela havia tido.

-Eu quero sua ajuda pra ficar sentada com os pés pra fora da maca... Cadê a preocupação e o cavalheirismo de meia hora atrás? – Ava sorriu, não podia ler a mente dele, mas tinha absoluta certeza que ele havia xingado-a mentalmente, como eles sempre faziam.

Loki levantou-a pelo tronco e tomou cuidado com a perna direita, e pôs Ava na posição que ela queria sem dificuldade alguma.

-É... Loki...

-Hm?

No quarto, só se fez ouvir um suspiro alto vindo de Ava, era uma preparação para falar sem conturbar a voz com o nó que se formou na garganta, assim que ela se viu em frente a ele e prestes a fazer uma coisa meio estranha entre os dois.

-Eu vou fazer uma coisa... Que você não precisa retribuir. Eu só acho... – pausa para outro suspiro igual ao anterior – Que você anda precisando disso... E eu já ganhei um monte disso hoje... – Ava desistiu de segurar a voz. Não era a primeira vez que ele a via chorar. – Mas eu não ganhei isso de você. Você está lendo minha mente? – Ava torcia para que ele não estivesse lendo, enxugando as lágrimas.

-Não...

Então, Ava fez o que tinha em mente. Passou os braços pela cintura do deus das trapaças e juntou as mãos nas costas dele, enquanto aninhava a cabeça no peito gelado revestido de couro.

Um abraço.

-Eu também preciso fazer uma coisa... – ele falou baixinho. – Que vai exigir um pouco de esforço da sua parte.

-Que tipo de esforço?

-Eu preciso que você faça isso... – ele continuou a sussurrar, ignorando totalmente a pergunta de Ava.

-Fazer o que, Loki? – Ava começou a balançar a perna esquerda.

-Leia minha mente. – Ava tirou a cabeça do peito de Loki para olhá-lo nos olhos.

Ah, então era isso. Ele queria contá-la alguma coisa que não teria coragem de verbalizar, por isso havia ficado frustrado quando ela informou que não poderia ler mentes, porque doía.

-Certo. – Ela voltou ao abraço, tentando se aconchegar ao máximo naquele bloco de gelo vestido de couro. Ele ainda mantinha os braços dele soltos ao lado do corpo. – Eu quero que você se concentre muito no que quer me dizer, assim não vou precisar ficar vasculhando e minha cabeça dói menos.

Ava fechou os olhos com força, e começou primeiramente a tentar evitar a dor. Não conseguiu, deixando escapar um choramingo baixo. Parou um pouco, respirou. Tentou novamente, tentando não se preocupar com a dor. Dessa vez, além de fechar os olhos com força, apertou a mão que não estava quebrada na roupa de couro verde-escuro de Loki. A dor de cabeça atacou mais forte que antes.

-Eu não consigo.

-Tente de novo. Por favor. – O pedido de “por favor” foi uma surpresa. Loki nunca usou essa expressão com ela. Uma coisa tão formal e corriqueira, naquele momento, dita por aquele deus, tinha um significado tão diferente.

Um desconforto crescia no peito dos dois. Era tão injusto! O presente de despedida que Loki pensara em dar até agora só estava a fazendo sofrer, enquanto o presente que ela lhe deu, era totalmente simples e confortável, que só podia causar coisas boas. Foi aí que se deu conta de que não havia retribuído o presente dela.

Passou um braço pelas costas de Ava, e pôs uma mão nos cabelos dela, mas a deixou parada. Não era um afago, ele só pousou a mão ali.

Eram pequenos gestos, mas para Ava significavam muito.

-Quer tentar agora?

Ava limitou-se a balançar a cabeça positivamente, mesmo sem vê-la, ele pôde sentir o movimento.

E, mesmo com a dor excruciante na cabeça, ela tentou concentrar os nervos na mão gelada e de dedos finos. E, alguns segundos depois, conseguiu ler a mente dele.

-Eu tenho que ir. – Ao falar isso, Loki percebeu os braços de Ava caindo flácidos ao lado do corpo, e se a cabeça dela não estivesse apoiada na mão dele, cairia para trás. -Ava? – Não houve resposta. Então, ele a pôs de volta na posição inicial na maca, reparando na testa dela, com veias saltadas. Ela havia feito muito esforço, tinha desmaiado. Mas ficaria bem se dormisse tranquilamente, afinal, amanhã seria um dia cheio.

Notas finais
E aí? Gostaram? Desgostaram? Eu adoraria saber a opinião de vocês, seja ela qual for!
E tenho outra coisa para dizer à você que leu essa one shot. Até agora, ela está programada para ser o penultimo capítulo da história!
Se leram com atenção, perceberam que eles mencionam vários momentos passados... Querem saber desses momentos?
E a história completa terá MUITOS outros personagens da Marvel, a fanfic terá vários núcleos interagindo, alguns passageiros e outros duradouros.
E aí? Estão afim de saber porque Ava estava naquele hospital, como ela e Loki desenvolveram uma amizade (que eu prometo que não é clichê)?
Me contem no review! *-*
Beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!