Affected
2 Fevereiro I
Notas iniciais
Ela está morta. Eu sabia que isso não a impediria de voltar, mas foi o máximo que pude fazer.
Só isso passava em minha mente enquanto dirigia pra fora daquela cidade esquecida por Deus... A chuva caia forte, nuvens carregadas cicatrizaram o céu naquele momento, olhando por um lado, aquela estrada me levaria até minha antiga casa. Era uma cabana na floresta, meus avós a deixaram pra mim, e até agora não a tenho visitado.
As crianças já quase não falavam mais. Não posso as culpar, elas tem razão em estarem tristes. Em meu carro, as crianças olhavam pela janela, observando as gotas d’água deslizarem pelo vidro.
—Estão com fome? —Esperei uma resposta, em vão, as crianças apenas sinalizaram com a cabeça em negação.
— Papai! Olha! — Repentinamente apontou Clarice, para o céu.
Ao olhar, vi uma Criatura, mas... Era como um pássaro. Tinha em volta de dois metros de largura. Estava planando próximo as árvores, pude ver seu corpo, era o de uma águia, suas costelas estavam do lado de fora e na sua cabeça havia o crânio exposto até próximo aos olhos, onde a pele negra começava a aparecer. Era totalmente negro, tinha olhos vermelhos e suas patas estavam fossilizadas. Sobrevoou rapidamente acima da estrada, e seguiu em linha reta até eu não poder mais vê-la. Eu havia percebido enquanto a criatura sobrevoava, caíra de si algo estranho, no meio da estrada. Parei o carro próximo ao local.
Eu e as crianças fomos investigar oque era aquilo. Chegamos perto, aparentava ser uma pena, estava cravada no solo, era um tanto grande, havia quase meio metro de comprimento. Era totalmente negra, refletia luz, e era extremamente cortante. Não tinha mesmo o formato de uma pena, era mais como uma folha.
— Pai, oque era aquela coisa? — Perguntou Frank
— Eu não sei filho. Provavelmente uma Criatura também.
— Oque vamos fazer com isso? Podemos levar? —Clarice olhava pra mim com rosto de pedido.
— Podemos pai? Por favor? — Complementou Frank, olhando pra mim do mesmo modo
O rosto deles parecia esculpido por anjos. Havia puxado os olhos azuis da mãe e o cabelo loiro dela, mas, seu cabelo era cacheado como o meu. Frank tinha cabelo castanho, da minha cor, e olhos azuis. Eu não gostaria de levar aquela coisa, mas já se passaram dias que eles quase não falaram comigo, e eu não queria decepcioná-los mais ainda.
—Tudo bem crianças, vamos colocar no porta-malas.
— Oba! – Gritaram em uníssono. — Papai, estou com fome... — Disse Clarice logo depois.
Realmente, a chuva havia começado pela manhã e ainda está caindo, e eles não comeram nada desde então.
– Vão para o carro, peguem seus lanches e esperem lá, eu já estou indo meus anjos... – Eles obedeceram. Antes de sairmos de casa, naquela terrível noite, peguei uma grande bolsa de viagem para mim, e as mochilas escolares deles e as enchi com os mantimentos que havia pegado do mercado. No porta-malas estaria a bolsa e duas sacolas que haviam restado, ainda cheias. Foi complicado tirar aquela lâmina sem me cortar, mas consegui. Era bem leve, a coloquei no porta-malas, com cuidado para que não cortasse a bolsa ou as sacolas.
Entrei no carro, as crianças estavam comendo salgadinhos com suco. O bom desses alimentos é que demoram muito a perecer, assim como as comidas enlatadas.
— Vai demorar muito para chegarmos, pai? — Clarice parecia cansada.
— Não muito filha, chegaremos a Gate City daqui a pouco.
Gate City é a cidade onde cresci, se localiza no condado de Scott, aqui em Virginia mesmo. É uma cidade tranquila e sem muitos habitantes, o frio pode ser um problema, estamos no inverno.
—Não se preocupem crianças, logo vamos chegar, eu me lembro de ter uma lareira quentinha lá, que tal chocolate quente? – Falei animado
—Beleza! — Novamente em uníssono.
— E também podem—
— Cuidado! — Gritaram as crianças
Olhei pra frente, havia uma mulher parada na estrada, desviei dela, por pouco. Era uma ruiva, estava com um vestido longo azul, com maquiagem borrada e descalça. Parei o carro, e desci.
— Fiquem no carro crianças. — Estava levando comigo uma faca atrás, na cintura, a jaqueta de couro que usava era bem útil para proteger-me do frio e também pra esconder. A garota estava um pouco distante.
— Me ajude! Eu me chamo Kate, minha moto perdeu o controle, eu cai dela ainda na estrada, mas meu namorado foi para dentro da floresta e não voltou até agora.
—Bem, não há muito que eu possa fazer — Falei desconfiado.
— Me ajuda, por favor... —Disse em lágrimas, era uma jovem garota apenas, acho que não faz mal ajuda-la.
— Tudo bem, me mostre o caminho. — Eu a segui até o início das florestas, algumas árvores estavam arranhadas e pedaços de metal estavam no chão.
Entrei na floresta com ela, sempre a minha frente, me deparei com uma moto caída no chão, as árvores eram densas, atrapalhavam a visão em volta. Ela se ajoelhou perto aos destroços, quando me aproximei, não havia nada na moto.
— Muito bem Kate! Você o enganou direitinho...
Disse uma voz atrás de mim. Já sabia oque havia acontecido, fui enganado. Virei-me, eram três jovens, um aparentava ser um adolescente ainda, segurava um pé de cabra, outro era loiro e segurava um taco de baseball, o líder deles tinha um moicano e uma aparência punk, não estava segurando nada.
— Eu sei amor, eu sou boa nisso – Ela pulou em seus braços e o beijou. – Agora, vamos ver oque ele tem pra nós.
— Não tenho nada a dar a vocês, me deixem ir. – Sabia que era inútil, havia visto essa cena milhares de vezes, e ainda assim, cai.
— Olha aqui – Havia soltado Kate, agora vinha para perto de mim. – Vai nos dar tudo oque tem, aquele seu carro, oque tem nele?
— Nada do seu interesse. – Respondi, não estava assustado, embora devesse estar, trabalhei sendo segurança por algum tempo, quando estava desempregado, bem, naquela época eu era como um mercenário, apenas fazendo tudo por dinheiro.
— Iih, ele tá te tirando! – Disse o loiro, provocando o líder.
— Cale a boca, John! – Retrucou em raiva – Então você é engraçadinho, né? Vou te dar um motivo pra rir.
Puxou um canivete de sua jaqueta e me empurrou com força contra uma árvore, apenas esperei, coloquei uma mão atrás, tocando a árvore, iria puxar minha faca assim que defendesse o golpe. Ele veio, com força segurou o canivete e tentou furar minha barriga, fui para o lado, segurando seu antebraço com a mão e puxando contra a árvore, fazendo o canivete prender nela. Ao mesmo momento, puxei a faca e a coloquei na parte na frente de seu cotovelo, ou seja, a área entre seu braço e antebraço.
Puxei com força, cortando esse tendão, pude ver a carne se desfiando aos poucos até chegar ao ligamento e nas veias. O sangue começou a descer. Eu estava do seu lado, não havia soltado o canivete. Logo após puxar a faca, a enfiei debaixo do braço, a região próxima à áxila, senti a faca atravessando seu osso, a retirei com força total. Ele gritava, agonizava de dor enquanto caia no chão. Os outros vieram, o loiro balançou seu taco de baseball com toda a força, quase fui atingido no rosto, seria meu fim, mas consegui desviar e voltar alguns passos.
Tinha que planejar, um estava a minha esquerda, e o outro a minha direita, a jovem Kate estava com o líder nos braços. Pensei e decidi usar as árvores ao meu favor, eram muitas onde eu estava. Armas grandes não teriam efeito ali. Novamente, o primeiro atacou com seu taco de baseball, como se estivesse rebatendo uma bola, ele não havia percebido a árvore que estava do lado dele, e acabou acertando ela. Com o taco travado, ganhei um segundo, e o usei muito bem, corri e enfiei a faca em sua barriga depressa. O jovem do pé de cabra vinha até mim, ele atacava e balançava aquela ferramenta sem nenhum cuidado, quase acertando a si próprio. Fui andando para trás, estava esperando se cansar e acabar falhando em técnica, mas a sorte não estava ao meu favor.
Tropecei em um galho e cai de costas, ele continuou vindo e preparou o golpe, ia descer aquele pé-de-cabra com toda força em mim, antes disso, entretanto, chutei seu joelho com toda a força quando ele deu um passo. Quebrei-o, e segurei minha faca na direção normal, com a lâmina apontando na mesma direção do meu polegar. Ele caiu em cima de mim, minha faca estava acima do meu rosto, e a garganta dele caiu em cheio onde eu queria, na lâmina, o pé-de-cabra caiu no chão e eu simplesmente puxei a faca, degolando sua garganta enquanto o sangue todo espirrava sobre meu rosto, o encharcando completamente. O empurrei de cima de mim, peguei o pé-de-cabra e o taco de baseball, limpei o rosto em suas roupas. Voltei até Kate, ela ainda estava assustada. O líder deles havia sangrado até a morte, mesmo sem ter sido minha intenção.
— Oque você vai fazer comigo? – Kate chorava e estava com cara de preocupação.
— Nada, não preciso. – O cadáver de seu amado se levantou em um único movimento e a mordeu no pescoço, ela se deitou enquanto o banquete estava servido á aquela mais nova criatura. Segui o caminho de volta até a estrada olhei pro meu carro, vi Frank e Clarice, de pé, abraçados, ambos olhando na mesma direção... Frank segurava o meu martelo e Clarice uma pedra. Uma Criatura estava deitada no chão, com a cabeça esmagada. Corri até lá muito apressado.
— Oque houve aqui?! Vocês estão bem?!
— Sim... – Falou Frank um pouco ofegante. – Papai, nós o matamos... — Clarice não tinha expressão.
Aquela Criatura estava deitada de bruços, um braço estava distorcido, com um osso pra fora, quebrado. O mesmo havia com sua perna, seu joelho estava totalmente dobrado para o lado, alguns ossos estavam fora, rasgando a carne apodrecida. Seu crânio estava despedaçado em três grandes pedaços e muitos outros pequenos, como um vidro estilhaçado, cérebro espalhado por vários lugares... Vi sair uma pequena coisa de dentro dele, era pequeno, menor que um rato, havia três caudas, era totalmente vermelho e gosmento. Não entendi oque era aquilo, o esmaguei como um inseto.
— Vamos embora pai... – Frank mostrava uma expressão de curiosidade.
— Vamos.
Entramos no carro e seguimos, chegamos a Gate City, a placa de ‘’População Atual’’ estava riscada com oque parecia ser sangue, dizia a placa que haviam 2204 habitantes. Não escolhi essa cidade por acaso, é uma cidade pequena. Menos infectados, porém, menos comida. Chegamos, peguei o caminho de terra até a cabana dos meus avós. Ficava estrategicamente numa colina, não muito alta, mas podia ver bem a cidade já que ficava nos limites, quase adentrando a densa floresta.
Descemos do carro aliviados, Clarice havia dormido lá dentro, decidi deixa-la, Frank me acompanhou. Subi os degraus, a madeira de carvalho resistente estava ali há décadas e ainda não havia sofrido nenhum dano. Coloquei a chave, girei a maçaneta e abri a porta.
Entrei, a lareira estava acesa e queimava impiedosamente, as cadeiras de balanço rústicas continuavam ali... Mas havia algo errado, como pode a lareira estar acesa se esta cabana está abandonada há décadas?
— Vire devagar, filho. – Escuto um som de espingarda sendo carregada. – Agora, oque está fazendo aqui?
Viro-me lentamente, Frank segurava minha mão. Era um senhor que estava apontando a arma para mim, sua barba longa branca e seu rosto enrugado o deduravam a idade avançada. Estava com uma calça de malha e uma jaqueta azul. Estava com um olho enfaixado, e ainda assim usava óculos.
—Esta cabana era dos meus avós, abaixe essa arma, estou com uma criança...
Ele abaixou a arma, relutante.
—Então filho, sente-se.
Sentamo-nos nas cadeiras em frente à lareira, não estava muito frio, mas sentir aquele calor me deixou o sentimento de segurança que há muito não sentia.
— Diga de onde você vem.
— Saímos de Lynchburg, aqui era nossa melhor opção. – O senhor pega um charuto
— Muito bem, eu estou morando nessa casa há anos, ninguém nunca reclamou
— Bem... Vamos dizer que meu avô não era muito querido nessas terras...
E era a verdade, ele foi um bêbado, estava sempre brigando em algum bar e sempre que chegava em casa costumava bater em minha avó, meu pai sempre viu aquilo e sempre o odiou por isso. Esse é o motivo de não ter ido o visitar nem mesmo em seu leito de morte.
De repente, apenas escuto um barulho lá fora, um som estridente e grotesco. Corro para observar, o senhor me acompanha para fora. Oque eu vi, oque estava lá, há metros de distância, era algo terrível. Mal pude o descrever...
Era como um gigantesco composto de múltiplos cadáveres humanos; no seu centro havia um corpo masculino usado de base principal, como se estivesse pendurado, os braços humanos estavam alongados e deformados, saiam de lá dois braços gigantescos, formados por ossos humanos e sangue, fora esses braços longos havia outro que vinha de suas pernas unidas, fazendo a criatura ficar em forma de tripé, pude identificar restos humanos ali fundidos, braços e até mesmo corpos inteiros em decomposição presos, o corpo todo estava envolto em cordas que pareciam ser intestinos, colunas vertebrais e costelas cobriam o corpo da criatura, principalmente seus braços, cotovelos eram feitos de costelas.
As suas patas eram feitas de ossos, eram longas e afiadas demais, o rosto da criatura estava totalmente deformado, havia apenas um olho no meio do rosto, sua boca estava completamente aberta, suas orelhas pareciam ter sido invertidas para dentro do crânio, caveiras estavam pendentes por entre as dobras do corpo daquela Criatura, era horrível. Ele se movimentava com os dois braços, arrastando o terceiro pelo chão, vinha rápido, e era brutal.
Como combateria esse monstro? Tudo parece estar perdido, mas, ainda assim, peguei minha espingarda no carro. Clarice havia acordado, os mandei se esconder, e me preparei.
Fale com o autor