Adão e Eva no berço dos anjos. Terceira parte
5 O mundo dos sete reinos
Notas iniciais
No dia em que Manon e Pierre começaram a namorar, em outro lugar do mundo Mirelle já não era mais virgem. Havia engravidado precocemente, e James estava dando uma bronca no filho James Júnior e obrigando-o a se casar com ela.
E com os amigos vivenciando uma vida plena e feliz, Adão ordenou a partida geral. Deu seu último abraço em seus cunhados Paul e George, enquanto Ada-Eva chorava que nem menina, aos prantos, repetindo sem parar: — Vamos vernos novamente, irmãozinhos...
Como Ênio já estava na frente, marcando o rumo que os levaria para casa, Adão e Ada-Eva foram os últimos a entrar nessa fila de anjos, que foram embora desse planeta quais cometas. Mal Adão conseguiu fechar sua capa, que um corredor apareceu na sua frente. Foram tomados pela sonolência, e cruzaram o Universo de ponta a ponta, como um raio de luz.
Quando o túnel ficou para trás, Ênio deu uma olhava em redor estranhado, pois em lugar da luz ofuscante do centro do Universo estavam numa Galáxia desconhecida. Quando Madalena gritou no seu ouvido: — Amor, é a Via Láctea! Ele ficou ainda mais encabulado, pois ainda estavam na Quinta Dimensão. Só haviam girado em torno do Universo. Um giro de nada. Mas, como é que ele foi se perder?
Em seguida escutou Adão, Moisés, Gautama, José, Jesus, Paulo e Adão com as esposas gritarem em coro: — Estamos perto da Terra!
Só então Ênio entendeu que um “sujeito esperto” os havia enviado num passeio para o passado. Madalena já começava a lacrimejar só de pensar de ver novamente a amada Terra. Pior, Ada-Eva chorava que nem garota, aliás, nunca a vira choramingar tanto. Nossa! Nem parecia um anjo justiceiro, apenas uma guria que soluçara ao ver os pais, os irmãos, os amigos, enfim. Lagrimou até com um ramo de flores. Flores que carregava junto tempo todo. E que foram trazidas desde o planeta dos iguanas.
Tiago e Mário examinaram tudo e falaram em coro:
— Mas aqui também está nosso mundo, “V de BETHA”...
Adão respondeu-lhe:
— Mas é claro! Nestor e eu viajamos para os dois mundos juntos! Ele para o teu, e eu para a Terra...
Tiago perguntou:
— Vai me disser que Nestor é teu irmão?
— E vai me disser que ainda não o surraste?
— Várias vezes! Ele é do time de futebol dos anjos velhos, e cada vez que eles desafiam os novos, nós demos patada nele que dá gosto. Só não sabia do por quê. Nossa! Foi ele que nos enviou para o Inferno? Vou surrar feio, desta vez...
Adão começou a gargalhar, e lembrou-se de algo a mais:
— Antes de esquecer, lembras-te do Guilherme? Está no teu planeta também! Foi nosso Espião na guerra contra os iguanas e ele é primo de meu irmão Viktor. E eu li na sua cabeça que um dia foi condenado a nascer cobra. Só pode ter sido teu soldado de guerra...
— Lembro! Acreditas que esse patife foi convertido em Deus no planeta das cobras? As cobras rezavam para ele nos templos! Até eu tive que rezar para ele. Dá para acreditar? E Alberta? Está ainda casada com ele?
— Está! Essa ali é mesmo uma deusa, cara. É o anjo mais belo desse planeta, depois da minha filha Diana, é claro...
— Puxa, cara, regressar vai ser uma farra. Vamos fazer uma festa para nos vermos todos juntos. Faz pouco tempo que sou anjo. Minha mãe Filomena fala que tenho uns oito irmãos, mas, eles ainda não chegaram. Lembram-se dela, foi também à mãe da Mônica.
— Nossa! Nem a Mônica sabe disso! Vai ser mesmo uma farra, cara!
E gargalharam alto novamente. Lembravam-se das partidas de futebol, das brigas da Mônica com Fernando, e estavam mais do que decididos a uma eternidade de jogos.
Em seguida Adão marcou o rumo para a Terra. Depois davam uma espionada em “V”, onde Jesus e Paulo também viveram algumas encarnações. Enquanto viajavam Tiago perguntava para Jesus:
— Vocês participaram da última guerra mundial, em “V de BETA”? Mas porque não foram condenados como nós?
— Porque éramos pacifistas! Desfilávamos com flores na cabeça cantando pela paz, e as mulheres carregavam velas acessas e incensos. Terminávamos sempre fugindo das balas dos milicos como vocês... Nós fomos fuzilados. Mas morremos cantando...
Tiago perguntou:
— Mas vocês eram machos? Ou eram gays?
E saiu correndo, pois o soco de Jesus passou perto dele. Fernanda e Malaqui riam como nunca. Seus maridos mais pareciam crianças chacoteando.
As brincadeiras pararam assim que a Lua da Terra ficou a vista, pequenina, branca, mas totalmente iluminada pelo Sol. Haviam chegado numa noite de Lua cheia. Viram uma cúpula de vidro com uma cidade branca no interior, mas preferiram ignorá-la, pois a ansiedade de ver a Terra de perto era demais.
E como meteoritos candentes entraram na atmosfera, e viajaram direto para África.
Desceram aos pés do monte Kilimanjaro, onde o verde do mato subia as encostas mostrando gorilas gigantes em bandos, correndo como guris. Adão sentiu emoções tão controversas, pois uma vez ele fora uma besta peluda como esses, correndo entre essas árvores. Fora nessa selva que engravidara sua mulher de dez filhos negros e bem peludos. Como Ada-Eva o beijava com os mesmos pensamentos, eles foram deixados a sós, para que revivessem essas vidas. Correram montanha para cima, entraram em cavernas, olhando tudo com coração palpitante. Depois deambularam pelo mato em busca das panteras pretas. Encontraram-nas vivas, e em forma de espíritos. Em bando. Milhares delas. E os bichos os rodeavam, lambendo-os, como quem dá as boas vindas.
E de repente, espíritos humanos os rodearam. Afinal, os anjos e os homens se falavam com naturalidade na espiritualidade, fazia milênios. E conversaram de tudo, pois nessa altura também havia duas classes sociais na Terra, os ricos e os supérrimos.
Enquanto isso, Madalena arrastava Ênio para o deserto ver os camelos. E ele adorou. Sentou Madalena por cima, olhando em redor. O deserto estava cheio de Oasis, e mais Oasis, com gente sobre os camelos. Havia naves voando muito alto como também carros cruzando o planeta para todo lado. Mas, na vida espiritual, eram os únicos sobre um camelo. E ficaram apreciando a caminhada, por longo tempo, enquanto Madalena contava do passado.
Já Fernanda, Nina, Marlene e Rosa foram conhecer os hipopótamos, levadas por Maria e Sêfora. Os maridos os montavam, fazendo palhaçadas, pois haviam chegado numa época de procriação. Havia uma orgia dentro dessa lagoa. Depois voaram ver os elefantes, as girafas, pois nessa selva somente acharam animais em todo lugar, pois os homens haviam abandonado a selva definitivamente. Toda a África era uma mancha verde intocada pelo homem. Somente os veterinários entravam na selva para cuidar a saúde dos bichos e controlar espécies em desequilíbrio.
Enquanto isso, Adão não parava de fazer perguntas, pois os terráqueos lhes mostravam desde longe o deserto, o qual estava cheio de cidades agrupadas em edifícios de sonhos, numa civilização superior. E todas as pequenas urbes do deserto compunha o Reino africano, o qual se estendia através de todo o continente, até o Mar Mediterrâneo. E limitava ao Leste com o Reino Árabe.
E Adão e Ada-Eva fizeram um percurso com esses homens para ver os sete reinos da Terra. Curiosos como nunca. E chamaram todo mundo para os acompanharem.
O Reino Árabe compreendia a atual Israel, Palestina, Arábia Saudita, Turquia, Síria, Paquistão, Irã, Afeganistão, alcançando a Índia. E todas essas antigas nações haviam perdido os nomes. Eram todos árabes e falavam a mesma língua. O palácio do rei ficava no lugar que hoje é Dubai. E em Dubai, encontraram um museu, com maquetes dos primeiros edifícios levantados no deserto por um príncipe do século XX. Um visionário que transformou a areia em floresta, e levantou num mundo encantado. Exemplo que foi copiado pelo Reino Africano quando decidiu deixar o mato para as bestas, e ergueu metrópoles para os homens sobre as areias do Saara.
Moisés e Séfora percorreram o Reino árabe sem falar nada, pois todos eram tataranetos deles, de alguma maneira. Mudos com sentimentos profundos, foram reconhecendo lugares do deserto, por onde cruzaram na fuga do Egito.
Gautama e Yasodhara passaram pela tormenta de emoções quando chegaram à Índia. Embora eles não fossem grandes procriadores, somente tiveram um filho, mas esse filho deu-lhes muitos netinhos. E o rio Gangues estava mais belo do que nunca. Limpo! Cheio de vida. Peixes intocáveis. Com homens que tomavam banho, nadavam, mergulhavam, em férias eternas.
Ansiosos, Paulo e Jesus percorreram a cidade de Jerusalém. Por incrível que fosse, havia um templo com uma pedra no interior, onde uma vez na pré-história morresse um fulano numa cruz. Paulo até ficou com ciúmes, pois havia uma bíblia aberta, guardada numa redoma transparente, e nela só se falava de Jesus, nada de João Batista. Mas à medida que percorriam Jerusalém, encontraram um Museu gigantesco, onde estava todo mundo. Vitrines com reproduções de Adão e Eva no Paraíso, João Batista batizando homens num rio, Moisés cruzando o deserto com o povo judeu, Madalena chorando aos pés de Jesus na cruz, e Maria e José em outras gravuras. Nossa! A História não os havia esquecido. A nenhum deles, pois na Índia existiam estátuas de Gautama, o Buda, no interior de templos milenares.
E foi então que os terráqueos anfitriões os reconheceram com respeito. Adão e Eva, os pais da raça humana da Terra. Nem dava para acreditar. E em pouco tempo uma multidão de almas chegava a conhecê-los. Toca-los. Admira-los.
Tiago e Mario junto a Abelardo e Reginaldo, abraçados às suas esposas, entendiam finalmente o tamanho dos amigos. Heróis. Antigos guerreiros que levaram esse mundo a superioridade, e que lutaram por ela durante milênios, em muitas reencarnações, sem nunca terem sido castigados ou condenados por pecado algum. Eram apenas gorilas que viraram homens, e que deram a vida pela Terra muitas vezes. Só.
E com uma galera enorme em redor, percorreram o resto do planeta para ver o que mais havia como novidades.
Encontraram o Reino Europeu que ia desde Inglaterra, até Rússia com Ucrânia no Leste, e para cima incluíam Islândia, Noruega e Groenlândia. E já não havia mais edifícios antigos. Por ser o continente mais velho do planeta, só havia maquetes do Coliseu romano, ou do templo de Afrodite. As antigas esculturas gregas, de mármore original e de bronze, resistiam ao tempo no interior de cúpulas herméticas. Sequer existia um castelo medieval em pé. Nada. Apenas maquetes dentro de museus. Tudo era novo no Reino europeu. Edifícios gigantes que pareciam cidades, pois os homens se auto abasteciam no interior delas. E nenhuma metrópole possuía mais de 500.000 habitantes. Por tanto, o Reino europeu havia construído cidades inclusive nas montanhas Suíças. Gigantes que se elevavam entre os picos nevados, aquecidas no seu interior num sistema de calefação superior. Também encontraram cidades no Mar Mediterrâneo. Muitas e muitas delas. Eram grupos habitacionais, cujos pilares de sustentação se enterravam no fundo do mar. Os primeiros andares ficavam então, embaixo das águas. Restaurantes, hotéis, escolas, eram rodeados com vidros para contemplar a beleza marinha. Pelas janelas em lugar de pássaros alados olhavam-se cardumes de peixes aos milhares, pois os homens eram vegetarianos, e os peixinhos viviam em águas limpas e translúcidas. O centro do reinado estava na França, no Palácio Versalhes o qual fora reconstruído como era nos tempos Pré-históricos.
Mas no Reino Mongol encontraram obras milenares, como trechos da Muralha da China, que era restaurada de tempos em tempos, pedra sobre pedra. E o Reino Mongol se estendia desde a Sibéria ao Norte, chegava até o Japão no Leste, com Vietnã e Camboja ao Sul. Desta maneira, Japão tinha se difundido pela Ásia continental, e a China povoado todas as estepes da antiga Mongólia. Cidades que se olhando de cima formavam um Sol, com o palácio real no lugar que hoje é o Quirguistão. Era o maior reino da terra.
América, porém, estava dividida.
Ao norte, desde Panamá até o Alasca era domínio do Reino Esquimó. Um mesmo povo, com uma única língua, e com cidades de 500.000 habitantes cada uma. Os reis viviam na atual Chicago, num palácio que era uma réplica exata da Casa Branca do século XX. E tudo era novo. Limpo. Edifícios e cidades, com ruas que se contorciam como cobras, com trem que corria através de todo o reino, pois as ruas aéreas iam desde o Oceano Pacifico até o Atlântico. E era ali também que se encontrava o único aeroporto interespacial para naves de outros mundos, especialmente de “V de BETHA”, pois eles os visitavam com frequências. Finalmente esses dois mundos haviam se unido como irmãos.
Na América do Sul acharam o Reino Guarani, que se estendia desde a Colômbia até a Antártica. E ao igual que a África, os homens haviam desocupado a Amazônia, deixando-a para os animaizinhos. A mancha verde era tão grande e tão entupida, que nem dava para ver o chão. Todas as cidades se espalhavam sobre montanhas, praias, cerrados, catingas. O centro do reinado ficava na atual cidade Brasília, que fora restaurada milênios após milênios, pois fora nesse lugar do mundo onde a revolução do século XXI acontecera, mudando esse planeta para sempre.
Madalena imediatamente se lembrou de sua chegada ao Brasil. E começou a contar para o marido em detalhes. Falou-lhe das mulheres vestidas de branco da Umbanda que rasparam sua cabeça, a vestiram com roupas esquisitas e levaram a um terreiro para escutar a voz dos Orixás. Riu com gosto desta vez. Havia escutado Adão e Paulo, e escrito na Internet tudo que sopraram para ela. Nossa! O passado voltou de repente, e só agora dava para ver o quanto valera à pena. Ênio ao seu lado, a beijou e lhe disse:
— Sabe, amor, estou com vergonha! Eu só fui numa guerra com você, e sequer recebi um soco na cara! Nem sei o porquê sou anjo.
— Por causa de sua alma iluminada. Você é branco! Um anjo do amor!
— E você é laranja, uma destruidora. Uma matadora. Morde-me!
— E prometo que vou morder, o que mais quer?
— Nada, minha querida! Você é a luz de minha vida! Só conheci o amor com você... E vamos ter uma menina desta vez, igual a você em tudo. Nossa! Eu só quero regressar logo, ser pai novamente e dormir com você. Abraçadinhos, beijando-a com paixão.
E enquanto Adão continuava a gira com um exército de almas em redor, se perderam no matagal, pois a selva brasileira estava mais bela do que nunca. Voaram até o Pantanal, cheio de bichos coloridos, e sentaram nos galhos de uma árvore para ver um pôr de Sol exuberante. Lembraram-se da vida anterior, numa paisagem parecida. Lembraram-se da fazenda na beira do lago. A beleza afinal estava em todo o Universo, dividida em milhões de planetas maravilhosos. E ficaram lá, quietinhos, nos amassos sem fim. Pois em qualquer lugar do universo que estiverem, eles fariam sempre a mesma coisa. Namorar sem descanso.
Longe deles, Adão e seu grupo chegavam ao Reino Maori. Lindo de arrasar! Era o lugar mais belo da terra.
O Reino Maori estava na Austrália, e incluía a Nova Zelândia, Polinésia, Ilhas Salomão, Indonésia, Malásia, Sumatra, Nova Guiné, Filipinas e todas as ilhas do Pacifico que existiam em redor. Neste reino todas as Ilhas conservaram seus nomes, mas o reinado falava um idioma único, e se comunicava através de embarcações que os uniam dia após dia. Hotéis flutuantes, barcos que eram cidades flutuantes, eram os preferidos pela humanidade para um fim de semana agradável. Era um paraíso fantástico. E como nessa altura da evolução os homens sabiam controlar a natureza com o poder da mente, não havia mais tsusmanis, nem vulcões jogando lava ardente, numa harmonia total entre a humanidade, o planeta, a flora e a fauna.
Ada-Eva chorava mais uma vez, mas agora junto a todo mundo, pois a Terra estava tão maravilhosa que davam vontades de voltar. Adão lhe prometia que regressariam de novo, um dia quaisquer. Voltariam todas as vezes que a saudade batesse forte. E os terráqueos em redor, falavam o mesmo: — Voltem, venham, que vamos fazer uma festa espiritual...
Ênio apareceu finalmente, com cara de quem estivera aprontando, beijando Madalena o tempo todo, e começou a examinar a rota em meio das estrelas, pois não havia mais nenhum motivo para continuar ali. Esse roteiro havia sido interminável. Louco. Esgotador.
De repente, um anjo branco, com uma mulher ao lado, apareceu do nada. Deu um abraço em Adão, e lhes disse:
— E não levar nenhum souvenir para casa?
— Como assim?
— Recordações, coisas, nós temos um museu de energia na Lua, com milhões de esculturas, quadros, cerâmicas, cristais. E só pegar uma rede fluídica, carregar, e levar...
Ada-Eva teve um palpite. Porcelanas chinesas. Falou um adeus para os terráqueos, e correu para a Lua alucinada, seguida das mulheres, que pensaram coisas similares. Todas queriam levar uma recordação da Terra.
Enquanto os homens davam os últimos abraços para anjos e homens, os anjos-damas invadiam o Museu Lunar. Ada-Eva não só encontrara vasos da Dinastia Ming, como achara esculturas em jade verde, em terracotas, em bronze, que na sua imaginação já tinha lugar predestinado no seu castelo. Mas, quando viu um guarda roupas, ficou atônita. Roupas egípcias, gregas, medievais, modernas, quimonos japoneses, era incrível. E como uma guria desvairada começou a chamar as amigas e a provar tudo. Também existia o museu das coroas de antigos reis. Só da Inglaterra medieval havia 10.000 relíquias.
Enquanto isso, numa outra dependência, Jesus encontrava milhares de cruzes com ele mesmo, crucificado! Paulo ria até engasgar. Nunca um morto fora tão famoso como ele! Mas, Malaqui, assim que viu um presépio com esculturas de Maria e José, com Jesus bebezinho, começou a recolher e guardar numa sacola, ao lado de Maria, que recolhia pinturas com retratos dela mesma com o bebê Jesus no colo.
Paulo não parava de zombar do irmão, pois ria até sair lágrimas. Só parou quando Paulina apareceu com um quadro na mão, com o retrato de Salomé, e a cabeça de Paulo numa bandeja. Furiosa. E ela lhe falou quase gritando:
— Afinal, que é que é, esta mulher?
— Amor, isso foi depois que você se suicidou! Eu fui condenado à morte por causa dela!
Mário falou, rindo às gargalhadas:
— Com certeza ela te achou o ruim de cama, cara...
As risadas de todos os homens eram hilariantes. Briga de casados era assim mesmo. Escandalosa. Até Ada-Eva e Adão riam que dava gosto. Salomé havia sido no passado a paixão de Paulo, quando fora João Batista. E ela havia pedido ao seu tio sua cabeça numa bandeja. Lógico que Paulo se safou, mas, quase morrera de dor de cotovelo pela traição de seu grande amor. E agora, ele nem sabia o que falar. Como explicar! Sua mulher estava com tanto ciúmes, mas tanto, que seus olhos brilhavam como espadas afiadas.
Jesus abraçou sua cunhada e lhe disse:
— Cunhada, ele foi condenado porque se negou a me denunciar para Salomé. Ele foi torturado para me entregar. E você já estava morta! Acredite!
— Mas, por que é que eu morri?
— Porque você estava velha demais para viver! Só isso. E o pai não deixou o mano se matar por você... Ele e eu tínhamos que enfrentar os romanos... E Salomé era uma espiã para nos entregar... Seduziu Paulo só com um propósito, acabar com a nossa raça.
Mais calmo, Paulo foi se achegando de mansinho, deu-lhe um beijinho no rosto, e viu lágrimas rolando pela sua cara. Nossa! Ela era louca por ele. E beijou-a com paixão. Finalmente, Paulina perguntou-lhe:
— Queria mesmo se suicidar por mim?
— Queria! Eu a esperei por 2.000 anos, sabia?
— Jura?
— Pergunte ao pai! A gente só foi se reencontrar durante a “Segunda guerra mundial”. E foi então que eu lhe fiz um filho a cada ano.
Paulina abraçou-o, lembrou-se de sua ninhada em casa, e sorriu. Pela frente só haveria Paulo e seus meninos. Enquanto isso, desde longe lhes chegava outra briga de casais. Séfora queria levar a escultura de Moisés, feita por Michelangelo, e Moisés contestava: — Mas, amor, onde é que vai colocar esse trambolho tão grande?
E começaram a rir. Depois se uniram a turma que assaltava tudo. Até Fernanda, Nina, Rosa e Marlene provavam roupas, colares, coroas, mas parecia a lenda de Ali Baba descobrindo o tesouro dos 40 ladrões.
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