Adão e Eva no berço dos anjos. Terceira parte
3 O julgamento
Notas iniciais
No outro lado da vida, no âmbito espiritual, Ada-Eva chorava de emoção, pois descobrira seus pais Manon e Pierre e seus irmãozinhos Paul e Georges, de um passado muito longínquo na Terra. E os coitadinhos sofriam, pois caminhavam ainda com dificuldades. E sua amiga Mirelle estava apaixonada por uma copia de James, que fosse seu marido quando Ada-Eva confundiu-o com Adão. E todos estavam unidos pelo destino, mais uma vez.
Enquanto Ada-Eva contava para Séfora como fora sua vida na Terra durante o século XX, longe delas Adão acompanhado de Jesus caminhava entre as almas a procura do verdadeiro James. E durante essa peregrinação se depararam com um hospital espiritual, com milhares de doentes com feridas abertas, cheias de pus fétido. Mas James, não estava lá. A seguir acompanharam a trilha dos mártires, num campo inferior, nas camadas intermediárias. Mas, não o acharam. E finalmente, eles foram bisbilhotar o mundo das trevas.
As cavernas dos infernos se dividiam em vários patamares.
As crateras que estavam perto do planeta eram lúgubres, escuras, sujas, com cheiro de podridão. Havia os homens maus, ferozes, raivosos, que viviam em brigas constantes. Os mais fortes surravam os mais fracos, geralmente para fazê-los trabalhar e extrair-lhes energias. Eram homens vampirizados. Quando esses espíritos davam um giro entre os vivos costumavam cheirar os vinhos, aspirar a fumaça dos cigarros, pois os vícios, que não conseguiam mais ter, os atormentavam como um castigo. Na verdade para essas almas a morte significava um sofrimento sem fim. Principalmente para os mais débeis, que eram chicotados, mordidos, ou espancados sem motivos. Havia cegos, paraplégicos, corcundas, era um mundo de terror. Espíritos tão feios, que Adão se falava a si mesmo, que onde quer que fossem, iam infernizar a vida dos seres em evolução. E se arrepiava ao imaginar que podiam nascer de Belzier.
Depois dessa visão infernal, Adão entrou nas cavernas superiores do Averno, sempre acompanhado de Jesus. E foi ali que eles encontraram seus arqui-inimigos da Terra com surpresa. Generais de exército, homens de negócios desonestos, assassinos, velhos conhecidos. Homens que estavam sentados sobre tronos de poder absoluto. Eram soberanos, chefes dos habitantes de todas as cavernas, que cada vez que encarnavam era para uma única coisa: dominar o mundo! Fazer da humanidade seus súbditos, seus servos, geradores de riquezas, fortunas que iam para suas mãos, vida após vida. E como a beleza física era unânime, eles tinham o poder de cativar a humanidade com seu charme, seu sorriso sorrateiro, e suas promessas enganadoras. E muitos deles eram militares do antigo Império Romano.
Jesus estava petrificado, pois as lembranças das atrocidades dessa turma ele as havia vivenciado duas vezes, em “V de BETHA” quando desmantelaram esse mundo com uma guerra nuclear, e durante o Império Romano quando o condenaram a morrer na cruz. Adão abraçou-o com doçura, e falou-lhe:
— Não é engraçado, filho? Você vai decidir o destino de todos eles! Vai ser o que você quiser! Pois neste mundo eles não ficam mais.
— Mas eles já estão mortos, pai! Eu queria mesmo, é dar-lhes uma surra até matá-los.
Depois começaram a rir, e saíram desse lugar tenebroso.
Paulo Paulina e Malaqui apareceram do nada. Paulo gritou-lhes:
— Achamos as almas dos clones, pai! É a coisa mais estranha, eles são todos espíritos de luz! Dá para acreditar?
Adão perguntou-lhes:
— E James? Viram-no em algum lugar?
E Paulo respondeu-lhe rindo:
— Bem, assim que ele nos descubra, vai saber que vocês dois o mataram na França... Com certeza vai querer se vingar... Deveria estar com medo, pai...
E gargalharam com gosto, lembrando-se desses dias malucos em que Ada-Eva e Adão se perderam um do outro.
E se espalharam indo para lados diferentes.
Jesus e Malaqui ficaram num hospital do espaço, ajudando os médicos espirituais no atendimento aos sofredores. Eram tantas almas falecidas em acidentes de carro! Às vezes em grupos de 1000 almas enfileiradas, deitadas, gritando as dores da morte. E esses médicos espirituais os curavam um a um num trabalho interminável. Jesus ampliou sua luz até abraçá-los a todos, e as feridas esfumaçaram como por encanto. Afinal, como anjo tinha esse poder! Jesus podia curar mil almas desta vez. Mas, quando entrou na sala das cirurgias, ele ficou com um desafio maior, pois havia metades de corpos, às vezes cortados na cintura, outras na metade esquerda, era algo que desafiava todo o conhecimento em medicina, acumulado durante milhares de encarnações.
Adão esperou seus filhos se dispersarem para descer a terra a caminhar, pois a carga que tinha pela frente estava pesada. Encontrara seus piores inimigos do passado, que neste mundo repetiram tudo igual. Os clones eram a novidade, pois na Terra Adão conseguiu os impedir. Mas aqui os gênios do mal haviam se superado. Criaram clones soldados, em seguida os clones operários, pois era mais fácil fazer uma cópia humana que construir um robô. Mais barato. Gerava riquezas sem limites. E com os clones trabalhando quais escravos, a humanidade adentrara na orgia geral. E os vírus, filhos da promiscuidade, tomaram conta do planeta. Analisando por cima, não existiam pessoas sadias. O mundo todo estava contaminado com câncer, COVID, AIDS, seguida de todas as doenças venéreas.
E peregrinou sozinho pelo mundo, tentando compreender aquilo que se chama justiça. O que é que ia fazer com os romanos? E foi assim que se deparou com algumas almas que trafegavam pela terra por motivos diferentes.
Havia grupos de espíritos pensativos, conversando entre eles, se perguntando o que é que havia dado errado com essas pessoas doentes. Eram espíritos com alto conhecimento. Cientistas que olhavam os espíritos abordando pela porta dos crematórios, desfigurados, vítimas de suas experiências “in vitro”. Era como um castigo ver o fruto de seus próprios erros.
Adão ficou com tanto ódio desses médicos, que lançou uma corda em redor deles e como um homem dos rodeios os balançou no ar, e enviou para o espaço, direto para uma Lua desabitada. Eles bateram contra o orbe lunar com tanta força, que os espíritos ficaram grudados, sem poderem se mexer, nem falar. Ficaram quais rochas desse terreno inóspito. Elevou as ondas telepáticas e pediu para os homens de sua equipe fazerem o mesmo. Estava na hora de separar os espíritos. E começariam pelos psicopatas dos laboratórios.
Adão encontrou James em meio do mato, na sua antiga fazenda, com seus clones quatro e cinco. Os três examinavam a terra arrasada pelo fogo, o laboratório destruído, mas no fundo estavam felizes. James oito com Mirelle iam mudar a história desse planeta, e James contava para seus clones sobre o passado, quando Mirelle lhe apresentasse a única mulher que amou, Êve. Quando viu Adão caminhando ao seu encontro, uma nuvem de ódio cegou seus olhos, e se perguntou como é que ia massacrar um homem que já estava morto. Um espírito cor vermelha. Com certeza Adão era um demônio dos infernos.
E Adão falou-lhe com um cínico sorriso na boca:
— Bem, se fosse possível fazer um clone de minha mulher, eu até te deixaria... Mas como vás fazer isso? Aqui não tem laboratórios, cara...
James quatro e James cinco começaram a gargalhar. Abraçaram James, tentando o conter, pois o amor era assim mesmo. Sua mulher do passado tinha outro dono. E ele havia perdido essa guerra. James finalmente perguntou-lhe:
— E cadê, Êve?
— Ajudando Mirelle em tudo! Não vais me disser que ainda não a viste, ela está com Mirelle o tempo todo.
— Não, só vi ao lado de Mirelle duas loiras sem graça nenhuma...
— Uma delas é Êve, a outra é Séfora, um gênio da medicina que sabe tudo sobre mistura de genes. Elas estão soprando no ouvido de Mirelle tudo o que podem.
E James riu dele mesmo. Ele era apaixonado por uma miragem, um sonho, e estava totalmente incapaz de saber quais das duas loiras sem graça era seu amor, desse seu passado na Terra. Na verdade, ele nada sabia sobre o amor. Seu clone James oito descobrira essa afeição nos braços de Mirelle, mas ele tinha que principiar do começo. E enquanto divagava Adão lhe perguntou:
— O que gostarias de fazer? Encarnar aqui? Outro lugar? Teus clones vão ser teus filhos desta vez, todos eles, e irão ser muito inteligentes. James oito vai se apaixonar de novo pela Mirelle, vão te dar netos, bisnetos, e irão formar uma grande família feliz. Bem, isso se tu encontrar uma mulher que se apaixone por ti, é claro...
— Mas, o que é que tu tens a ver com tudo isso?
— Nesta vida eu sou anjo...
E os três James riram até engasgar. Afinal, eles eram cientistas que não acreditavam em reencarnações. Achavam que seriam almas pela eternidade. E nunca, jamais, nem em historias de ficção científica leram que um anjo fosse vermelho. Quando viram duas louras chegando, James vislumbrou entre névoas uma vermelha, e a outra azul piscina. Almas coloridas. Nossa!
Para quebrar o gelo Adão lhe disse:
— Se adivinhas quem é Êve, eu te deixo dar-lhe um beijo... No rosto...
E como Séfora era deslumbrante de bela, James olhou primeiro para ela. Mas só podia ser a mulher vermelha como Adão. Examinou-a e viu que Êve não possuía nada daquilo que fora no passado. Estava convertida numa outra mulher. Linda, mas diferente. Mesmo assim lhe deu um abraço de irmão, um beijo no rosto, e perguntou por Marta, a querida filha que ambos tiveram na França.
— Está maravilhosa! E nesta vida Alain é meu irmão, e eles se adoram! Ainda bem, pois ele teria morrido que nem tu.
E riram até chorar. Depois sentaram no chão, pois Adão queria saber tudo sobre os gênios do mal, e sobre os cientistas como James, que haviam usado a ciência para o bem.
No fim do dia, James falou que gostaria de reencarnar ali mesmo. Procuraram em redor, em cujo lugar os caipiras sobreviviam recolhendo vagas de café. Eram homens fortes, saudáveis, e casados com mulheres trabalhadeiras. Adão pegou James de um braço, absorveu sua alma com uma mão até deixá-lo do tamanho de uma bola de golfe, e o lançou com forças no ventre de uma recém-casada.
A seguir, ajudaram James quatro e James cinco a recuperar a fazenda.
Ada-Eva deu um sopro destruidor, e tudo o que havia queimado desapareceu. A seguir Séfora meteu a mão numa sacola e soprou sementes ao ar. Moisés, que apareceu para ajudar, fez o resto. Fez as sementes brotarem num instante, e os caules subiram no ar dançando como gente. Árvores estenderam os braços, flores desabrocharam, e frutos começaram a nascer. E enquanto isso, uma chuva delicada caia sobre a selva.
E finalmente os clones de James ficaram sós.
Deveriam esperar o pai James nascer, crescer, se apaixonar e casar. Nossa! Nasceriam homens férteis, e muito promíscuos. Adão havia-lhes dito que se podia namorar desde tenra idade. Casariam assim que engravidassem uma caipira, pois seriam obrigados pelos seus sogros. Nossa! Teriam um sogro que os faria casar sob ameaça para limpar a honra da família. Nem dava para acreditar que a felicidade lhes chegaria como castigo.
Depois Adão reuniu seu grupo de trabalho para fazer o “Grande julgamento cármico”.
Procuraram por uma Lua inóspita, sentaram no chão num semicírculo e começaram a trocar ideias. Haveriam de resolver de comum acordo, quem iria reencarnar para fazer desse planeta um mundo melhor. E em seguida fazer a contagem dos expatriados.
Jesus foi o primeiro a falar:
— Os melhores espectros, por incrível que pareça, são dos clones. Esses clones têm a alma do pardal, o pássaro que canta, é fiel e alegre. A própria natureza o escolheu para encarnar nessas criaturas hibridas, no primeiro sopro de vida. E todos possuem inteligência acima da média. Fazendo as contas entre clones machos e fêmeas, tanto os vivos quanto os espectros, somam 10 por cento da humanidade.
Gautama, que regressava do hospital espacial, indagou:
— No hospital espiritual há médicos, enfermeiros, voluntários, todos inteligentes e bondosos, caridosos, pessoas que só vão fazer o bem. E este mundo vai precisar de gente que recupere não só a saúde dos homens, mas os bons costumes. Eles têm que ficar! Comando-os aos médicos vivos são mais um 10 %.
José, que acompanhara Paulo nas cavernas falou:
— Bandidos maus de verdade têm uns 800.000.000 nas cavernas, e em vida há mais uns 500.000.000 Mas, é bom lembrar que eles são poderosos em conjunto. Eu sugiro dividi-los. Esses fulanos nunca vão evoluir se forem condenados juntos. Pois é na comunhão que eles se fortalecem. Os caras quase arrasaram a Terra, e aqui quase exterminam tudo com experiências diabólicas. Se nascerem juntos mais uma vez vão causar estragos terríveis.
Mas Paulo retrucou:
— Mas se nascerem dos homens-cavalos, vão aprender a serem bonzinhos a patadas. Eu até gostaria de ver. Belzier vai surrá-los sem dó...
E riram em conjunto, pois o futuro como besta seria o inicio de uma vida sem riquezas, sem beleza, charme, nem voz.
Moisés falou:
— Não se esqueçam dos deformados. A oitava parte do mundo não tem forma de gente normal e não tem saúde. São vítimas! E os homens-cavalos lhes dariam a chance de voltar a ser alguma coisa. E esses corcundas já sofreram demais, a maioria foi assassinada ao nascerem. Eu gostaria que os bandidos, e o império romano fossem à outra direção.
Foi Ênio que falou desta vez:
— Mas, os deformados podem querer se vingar em vidas futuras. A revolta e o desejo de vingança é um convite para o lado negro. Eles poderão vir a serem ladrões, estupradores, para se vingar do sofrimento. E os homens-cavalos são almas doces que nem manteiga. Eu mandaria os soldados desse exercito romano para os lagartos.
Madalena interveio:
— Eu só vi um culpado neste mundo: a ciência maluca. A máfia romana é burra! Instituíram as empresas de clonagem só para ganhar dinheiro! Mas eles não inventaram nada, pois são estúpidos demais para planear alguma coisa. Só querem governar, e chegar ao poder. O lance deles é ser amados por uma legião de escravos. Eu os condenaria a nascer das moscas.
Séfora interveio:
— E os traficantes? São matadores profissionais! É só pagar que eles matam até bebê de berço. Esses fulanos não têm o mínimo de amor por ninguém. Em cada favela tem uns 2.000 deles. Somando o mundo todo temos uns 600.000 deles. Eu os levaria até os carneiros.
O coro falou:
— Carneiros? Mas onde fica isso?
Séfora respondeu:
— Na Sétima Dimensão! Eu estive lá semeando pasto para eles. São tão primitivos que ainda caminham com quatro pés.
Adão falou finalmente:
— Acho que os traficantes das favelas têm que ir para um planeta de leis rígidas. Matou, é preso. E morre isolado numa ilha, ou no mato, esquecido pela sociedade. Teriam que nascer em Planetas em Transição, e na Sétima Dimensão temos oito mundos que não perdoam um crime. E muito menos um roubo. Aprenderiam na marra. Agora, os deformados vão ter que renascer em mundos com uma medicina de ponta! Onde seria assistido para recobrar a beleza perdida. E temos somente um mundo que poderia fazer isso, as cobras. No Planeta das cobras há os melhores médicos da Oitava Dimensão. Eles vão saber o que fazer com os monstrinhos. Aos cientistas malucos eu enviaria aos cavalos, ou ao mundo das moscas, ou dos lagartos, pois enquanto mais feios nascerem melhor. Mas o perigo real para o futuro é a máfia romana! Eles são como ratos do Universo. Onde nascem roem tudo. Destroem tudo. Eu pediria Jesus dar uma ideia. Ele próprio foi crucificado pelos romanos.
Maria começou a chorar. José abraçou-a, beijou com doçura, pois agora o lado deles era diferente. Haviam sido enviados por “00” a condenar seus antigos inimigos. Soldados que um dia governaram metade da Terra com crueldade.
E Jesus falou:
— Eu concordo com meu segundo pai, José, e dividi-los-ia. Nero, Calígula, Herodes, não mudaram nada. Enquanto nós evoluímos em linha reta até o centro do Universo, esses homens giraram ao redor da quinta dimensão, fazendo sempre o mesmo, conquistar civilizações. Dos 800.000 bandidos que há nas cavernas, metade são romanos. E é claro, mandam por sobre os demais. Vivos têm mais uns 100.000 romanos, os quais estão fazendo de tudo para sabotar a medicina natural. E eu os mataria imediatamente. Meu pai Adão e eu, já os matamos na Terra no final do século XX. Foi fácil, um sopro forte, e eles caiam ao chão de morte súbita!
Adão sorriu, pois a última palavra seria a dele. Mas como Ada-Eva também era justiceira pediu que desse seu veredito. E ela diz:
— Bem, eu queria matá-los assim que colocaram as bombas no hospital. E gostaria que fossem enviados onde só há gente má, ruim, e nada melhor que os lagartos. O Planeta dos lagartos é pré-histórico, os homens ainda têm um rabo no traseiro, e matam com dardos envenenados. Calígula e Nero merecem esse lar. Toda a cúpula maior deveria ir para lá. O resto pode encarnar no mundo das moscas, outros nos cavalos, uma pequena parte nos carneiros, e temos mais um mundo novo, que recuperamos na última encarnação. Quinhentos deles divididos em cinco planetas daria uns cem mil romanos junto. Seriam muito perigosos?
Jesus e Paulo riram com gosto e falaram ao mesmo tempo:
— Mais ou menos o exército de Júlio Cezar!
Gautama interveio:
— Mas deve ter outros planetas! Não dá para ir mais para cima? Quarta dimensão?
Ênio respondeu-lhe:
— Só há portas abertas para os bandidos para baixo, nunca para cima. Então eles devem ir da Sexta até a Oitava Dimensão. Mas por aqui pertinho, na Quinta, há muitos mundos civilizados. Mas, Adão teria que quebrar as normas, para enviá-los para eles. Fazer nascer um bandido num planeta evoluído seria contra as regras divinas. Mas, por outro lado teríamos uns 300 planetas só de gente boa, nesta mesma área. Nenhum assassino.
Malaqui, que estava muda, diz:
— Um, em meio de um milhão, não é nada! Como mãe, eu dava uma surra no mal criado, até aprender a ser bom.
Séfora interveio:
— Melhor! Uma sociedade evoluída vai achar que a criança está doente! Vai viver no hospital. Vai ser injetado, drogado, levado ao coma, vai ser um inferno para o coitadinho...
E gargalharam até chorar.
Existia no centro do Universo o consenso que as mulheres anjos eram mais cruéis que os homens num julgamento cármico. E Adão convenceu-se a si mesmo, que era a pura verdade. Apenas Yasodhara sentia tristeza pelos castigos. O resto da mulherada só queria matar, surrar, e enviar os homens para o tormento das drogas de hospitais, ou, para os bichos mais feios possíveis.
E Adão deu as sentenças, sem pestanejar, pois ele ia invalidar mesmo as ordens dessa missão.
Escolheu para ficarem nesse planeta a todos os clones, os casados fiéis, os cientistas bons, e os homens trabalhadores. Condenou com a extradição a máfia romana, assassino, cientista maluco, ladrão e viciado. Já os deformados iriam para o Planeta das cobras. A seguir distribuiu os estupradores na Sexta Dimensão, ladrões na Sétima e assassinos na Oitava e o exercito romano na Quinta, divididos em grupos menores.
José, Paulo, Paulina, Madalena e Jesus desceram ao planeta para eliminar todos os romanos, os assassinos, os viciados e aos cientistas malucos ainda vivos. Afinal, eles eram anjos destruidores. Matadores. Alguns caíram da bicicleta em meio de vias, ou, enquanto caminhavam pela rua. Outros sofreram parada cardíaca fulminante no trabalho. E tinha os que pararam de respirar durante o sonho. Aos ricos, Adão os hipnotizou! Todos eles fizeram o testamento antes da morte. Toda a grana foi destinada para ONGs do bem. Não sobrou nenhum herdeiro milionário sobre a terra.
Adão olhava tudo feliz, enquanto Ada-Eva corria a soprar para Mirelle que ficaria rica como nunca.
Já Ênio e Moisés foram para todas as cavernas.
Eram mais ou menos cinco delas. Entravam sem pedir licenças, e lançavam o laço como quem recolhe gado. Depois os levavam desmaiados para uma Lua, onde Adão havia construído uma cela de vários cômodos para divisão de criminosos. Romanos a um lado, traficantes em outro, assassinos mais acolá, ladroes mais lá, cientista maluco em outras, com homem e mulher misturados.
Após a faxina mundial, chegou a vez de designar o destino dos expatriados.
Os primeiros evacuados foram os romanos, banidos para 300 sociedades evoluídas e dentro da Quinta Dimensão. Mas, deveriam os fazer encarnar um a um, em cidades diferentes. Como falara Malaqui, UM entre um milhão.
Eva recebeu o nome de 50 planetas maravilhosos, e foi instruída por Ênio sobre o endereço estelar. Em cada planeta deveria deixar 106 almas. Vestiu a capa com assas de Adão, pendurou uma mochila fluídica nas costas, e partiu. Afinal, Adão os convertera a todos em bolas de pingue pongue. Eram almas reduzidas, encolhidas, adormecidas, que recobrariam a consciência no ventre de uma mulher grávida.
E cruzou a imensidão.
Quando chegou num planeta com castelos lindos, como o seu, ela teve um arrepio na espinha. Mas pegou uma bola, e empurrou-a na primeira casada que encontrou na rua. Foi contando, até dar o total de cento e seis, sempre em grandes metrópoles, uma distante da outra. Continuou o caminho até chegar a mais um planeta onde fez encarnar mais cento e seis. Num mundo submarino deixou os últimos no ventre de sereias maravilhosas, em cujo lugar os romanos nasceriam embaixo dessa água.
Assim que chegou de regresso, Adão tinha um grupo com destino diferente, e com endereço pronto. Eram cientistas com destino aos cavalos. Eva levou desta vez 2.000 bolas de pingue pongue, e quando chegou ao planeta havia tantos cavalos copulando que foi fácil empurrá-los um a um nos ventres das fêmeas.
Enquanto isso o resto da equipe viajava para o Mundo das moscas, Mundo dos lagartos e assim por diante. Finalmente Adão despachou os traficantes para sociedades rígidas, dentro de Sexta Dimensão, em seguida os drogados para sociedades mais rígidas ainda, até desocupar a Lua.
Quanto tempo eles levaram realizando tudo isso, nunca se soube. Mas, sabiam que estavam cansados. Com a boca seca. Sentaram mais uma vez em círculo, Séfora repartiu sucos vermelhos, bolachas, pois foi à única que viajara com duas sacolas. Sementes numa delas, comidas na outra.
Em meio à descontração, com o sabor doce do dever cumprido, Adão invitou toda a equipe para levar os desfigurados para o Mundo das cobras. Teriam que descer a matar os corcundas ainda vivos, mas, poupariam os pacientes das clínicas de Mirelle. Só.
Desta vez Adão trouxe um trem, que lotou de meninos amontoados, dormindo, com todas as características de suas figuras desformes. Monstrinhos na maioria. Eram oitocentos mil corpinhos de crianças de variadas idades, algumas sem pernas, outras sem mãos, outras sem braços, ou sem cérebros, ou sem pulmão, tinha até os que nasciam sem coração. Aqueles que eram assassinados dentro do ventre não tinham rosto. Sem nariz, ou só com um olho em meio da testa, ou sem arcada dentária. Eram os monstrinhos que mais assustavam e difíceis de olhar, vítimas de abortos terríveis.
Adão e sua equipe de amigos se instalaram na cabine da locomotiva.
Ênio examinou o rumo, e mostrou para Adão um atalho verde. Era um túnel que unia os confins da Oitava Dimensão com a Quinta, onde se podiam encurtar distâncias. A seguir Madalena pegou o timão desse trem e cruzaram a imensidão. Como uma baleia gigantesca, ou, como um cometa muito cumprido.
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