Adão e Eva no berço dos anjos. Segunda parte
1 1. O mundo dos anjos
Notas iniciais
Adão e Eva faleceram abraçados, beijando-se na boca, como quem está morrendo de amor. E quando seus espíritos saíram rumo à escuridão a nave desintegrou-se. Tentaram se localizar em meio do mapa estelar, analisando constelações, e assim que descobriram o conjunto mais luminoso da imensidão, começaram a se locomover naquela direção.
E o tempo, que não existe quando se está morto, tomou conta deles. À medida que se passavam as noites eternas, seus espíritos recebiam uma grande velocidade. Era como se de repente um imã gigantesco os sugasse em direção daquela luz, que ficava mais e mais luminosa.
E de repente, estavam em meio de um clarão!
Era tanta luz, que sequer conseguiam mais abrir seus olhos.
Quando conseguiram enxergar alguma coisa, manchas difusas começaram a tomar forma humana. E muitas almas os rodearam dando bronca, pois eram seus filhos, genros, noras, netos, bisnetos, tataranetos, bravos por terem desviado o caminho e tê-los feito esperar por tanto tempo assim. E entre abraços e beijos, Adão indagou:
— Mas, eu achava que todos vocês já estavam nascidos com assas de anjinhos...
Jesus respondeu-lhe:
— Claro que não, pai! No centro do Universo as famílias têm que entrar quando estão completas, quando chega o patriarca! O avô João já está lá embaixo, com todos os tios vivos, só falta à mãe encarnar!
Adão falou:
— Centro do Universo?
Paulo respondeu-lhe:
— Isso ali! Chegamos ao fim do caminho, pai! E tem uma surpresa para nós, acho que “00” quer nos receber em pessoa.
Mal Paulo terminara de falar, que um caminho de pedras de cristais se materializou nos pés de todos. A seguir um anjinho pequenino tomou Eva e Adão das mãos, e caminhou entre ambos, indicando o lugar para o qual estavam se dirigindo. Jesus e seus irmãos formaram fila trás deles, sem falar mais nada, também rodeados de seus filhos, netos, formando um grande clã. Pouco a pouco um castelo estilo medieval da Terra ficou em destaque ao longe, de pedregulhos translúcidos, de cores lilases, celeste pálido, e rosa claro. Cruzaram os portões, e uma sala gigante ficou a mostra. No centro daquele luxo esplendoroso, esperavam-nos os donos de casa, “00” com sua esposa, e uma centena de filhos, netos, bisnetos, tataranetos, que entravam e saiam dali em meio a uma bagunça generalizada.
Mas, assim que os anjos viram chegando Adão com sua numerosa descendência, todos eles ficaram quietos, esticando o pescoço, pois a curiosidade tomou conta de todos. Eles sabiam das aventuras de Adão e seus filhos nos mundos inferiores, e finalmente os guerreiros estavam chegando a ocupar seu lugar entre os anjos.
Eva, que estava muda desde que entrou nesse castelo, quando viu a esposa de “00”, uma mulher como ela, e que já conhecera através do espelho, começou a chorar. Adão, com um nó na garganta, cercou “00” sem ter o que disser. Depois “00” fez a mágica de esticar os braços abraçando-os em conjunto, e ao mesmo tempo, rindo, pois teve os menores que se assustaram.
Em seguida todos os anjos começaram a bater palmas, enquanto Adão, ainda mudo, escutava “00” explicar que dali em diante ele seria o senhor de si mesmo. Se bem que de vez em quando um anjo tinha que fazer algum serviço para manter o equilíbrio universal, mas, Adão faria alguma coisa se ele desejasse. Só, pois ele seria dono do seu destino pela eternidade.
Adão começou a rir finalmente. Estava começando a ser enrolado. O trapaceiro na sua frente dava gosto de ver. Com certeza já lhe tinha planejado mil coisas para fazer no futuro. Mas se abraçou nele, e lhe disse emocionado: — Eu vim para servir! E “00” respondeu-lhe num cochicho bem baixinho: — Mas eu sei disso! E caiu na mais escandalosa gargalhada.
E uma festa apareceu do nada.
Anjos carregavam copos de suco de cereja, docinhos de néctar, e delicadas pétalas de flores comestíveis. Era a primeira vez que Adão comia como espírito. E foi engolindo de tudo. Depois dançaram, pois estava cheio de músicos tocando flautas, harpas, violoncelos, e melodias belíssimas.
Quando o anjinho os pegou mais uma vez da mão, Adão e Eva tiveram que partir. Deram um último abraço em “00” e sua esposa, aos filhos, aos netinhos, e desceram as escadas em meio de anjos que os aplaudiam como heróis. Jesus e seus irmãos ficaram por ali mesmo, estendidos em sofás aconchegantes, em salões gigantes, na longa espera de serem levados para encarnarem.
À medida que saiam da morada dos anjos, alguns planetas começaram a se distinguir ao longe e a tomarem forma. Uns cinco deles, que giravam em redor da Luz maior, e em cuja superfície viviam os anjos encarnados.
Adão e Eva escolheram o Mundo da arte para nascerem. Um planeta onde a atividade principal de todos os seres viventes era a prática dos seus talentos. Embora Adão jamais fosse artista em encarnação nenhuma, sabia que nesse mundo Eva e seus filhos seriam felizes, além do que, sua sogra era uma cantante excepcional, e João só podia estar ali. Além do mais, João o mataria se Eva não fosse sua filha pela eternidade.
E encontrar João e Dina foi fácil.
Dina era cantadora lírica, e João o instalador das luzes do palco. Adão começou a gargalhar. Até nos mundos dos anjos havia opções de não fazer coisa alguma, além de acompanhar a esposa enquanto cantava. E dando um beijo em Eva, falou:
— Finalmente vou seguir o exemplo do meu sogro! Amor, não vou fazer nada em vida, além de olhar como você pinta...
— Mas eu quero ser bailarina, meu amor...
— Mas, do quê? Aqui não há boates noturnas para mexer os quadris...
— E a companhia de balé? O que acha?
— Gostei! Eu poderia limpar o teatro, o que me diz? Finalmente vou ser um bom faxineiro.
— Você vai achar algo, você é gênio! Olha amor, o pai tá levando a mãe para um esconderijo! Eles vão transar...
— E você vai correndo! Encontro-te com cinco anos! Seja lá onde for...
E se beijaram emocionados. Depois Adão deu-lhe uma palmada nas costas. Afinal, ela estava maravilhosa. Luminosa. Havia-se morto velho e feio, mas como espíritos Eva jamais fosse tão bela. Cabelos além da cintura, encaracolados, boca carnuda, nossa, seria o anjo mais belo desse planeta. E ela seria infinitamente sua. Uma lágrima escorregou. Só teria felicidade sem fim, pela eternidade. Por toda a existência. Nem dava para acreditar que uns cinco milhões de anos, ou quem sabe quantos anos atrás, ele era apenas um gorila correndo pela mata da Terra. Nossa! E desta vez, sendo anjos poderiam dar as caras na Terra. Ou, visitar os Iguanas, ou as cobras. Poderia TUDO desta vez. A eternidade afinal parecia ser maravilhosa.
A seguir Adão começou a buscar seu pai Sergei. Ele deveria estar por ali perto, pois com certeza João o carregara junto. Percorreu a cidade, os parques, até que viu ao longe Ênio e Viktor, em busca de pais que nem ele. Estavam com cara amarrada. Por que seria? E correu ao abraço.
— Nossa! Quando chegaram?
— Faz tempo, cara! Madalena e Mirim já estão nascidas. Não encontramos pais, cara! Os machos se esterilizam a si mesmos, por milênios...
— E eu não encontro meu pai Sergei! Eu não gostaria nascer longe de Eva! Têm caras que não desistem! O Alain vai tentar a última cartada. Algo me disse que ele já deve estar nascido... Já espionaram os solteiros?
— Já! Mas ali é que existe algo esquisito. Os anjos solteiros não transam. Dançam e se divertem, mas ninguém tem presa de se apaixonar. E não achamos escolas em lugar algum. Nem Universidades. Onde será que estão os adolescentes?
Adão lhes disse:
— Vamos rastrear! Os anjos casados fazem o quê, afinal?
— Amor, mais nada de filhos. É lua de mel eterna, cara. Pelo menos neste lugar.
— Então chegamos ao paraíso! Já imaginaram? Viver a eternidade namorando a mulher a toda hora?
Ênio respondeu-lhe:
— E por que achas que estou a ponto de dar patadas nestes caras?
E enquanto Adão ria as gargalhadas, pois Ênio era um apaixonado pela mulher e o seria pela eternidade. E a procura dos moleques daquele lugar começou. Voaram em direção ao mato, onde descobriram um acampamento juvenil, com garotos que escutavam as palavras de um mestre sentado na grama. Os examinaram um a um, e Adão finalmente sorriu feliz. Sergei estava um belo rapaz, e sua mãe Ludmila já menstruava e podia engravidar. E fazia alguns dias, eles já namoravam de beijos nesse acampamento. Nasceriam trigêmeos. Estava encontrada a solução.
E os três esperaram pacientemente, pois ao entardecer os jovens faziam piquenique perto do mais lindo lago já visto. Parecia um espelho verde que refletia nas águas uma montanha nevada ao longe. Milhares de bestas peludas bebiam água na beirada, já os pássaros mergulhavam dia todo em voos rasantes. E o que deixou Adão emocionado foram à miragem de uma manada de cavalos gigantes, fortes, alguns unicórnios, panteras de todas as cores, e outras bestas esquisitas. Todos bem peludos. Belzier e as panteras de Eva tinham onde reencarnar.
O anjo Sergei aprendera com seu pai que o respeito pela mulher desejada era sagrado. Sergei sabia que se podia namorar, tomando a mão da amada para beijá-la com doçura. Mas os filhos deviam aumentar a felicidade do homem depois do casamento. Por tanto, havia que ser casto e perder a virgindade na noite de núpcias. Mas, nessa noite, sentados na beira desse lago, frente a frente, os beijos estavam diferentes. Ludmila respirava com dificuldades, inebriada, pois seu amado nesta encarnação era o homem mais belo do Universo, e ela estava apaixonada como nunca. E sem saber como, o amor tomou conta e os envolveu como uma nevoa. Quando a luz do amanhecer principiou a os rodearem, eles não haviam dormido nada de nada, e Ludmila estava grávida de trigêmeos.
Assim que sentaram ao redor do mestre, ele os enviou a um dia de descanso na tenda. Sempre rindo lhes gritou: — gravidez não é doença, desta vez. Anjos estudam e trabalham com os bebês no colo. E Sergei ficou louco com a notícia! Tomou Ludmila nos braços e correu com ela rumo a essa tenda. Namoraram até o amanhecer do dia seguinte, para escutar as últimas palestras desse mestre.
E um dia, os trigêmeos nasceram. Adão, cabelos castanhos escuros, olhos cinza, Ênio cabelos castanhos claros e olhos negros, e Viktor o retrato vivo de Sergei, loiro de olhos azuis. Lindíssimos!
Perto deles Eva nascia com olhos cor cinza claros, cabelos loiros e levemente avermelhados, e como a caçula de uma grande família. Quase todos os irmãos já eram casados. Em casa só havia Alain, um menino de seis anos, loiríssimo, que amou a irmãzinha com paixão. As adolescentes Tathiane e Mariuska já namoravam Adonis e Perci, e não faziam nada além de percorrer o mundo com amigos, junto aos poucos irmãos solteiros que ainda moravam em casa. Quando Eva nasceu, chegaram correndo em bando, pois sabiam que dali em diante a vida desse lar giraria em torno dela.
E nesta vida Eva cresceu no colo do papai que a carregava numa sacola pendurada no peito. Dina só a tomava nos braços na hora das mamadas e para trocar as fraldinhas. Nos dias de ensaio no teatro, Dina cantava com seus colegas de palco, enquanto João ficava passeando com Eva e Alain entre as cadeiras, ou, nos jardins desse teatro, onde havia bichinhos maravilhosos que corriam fazendo a felicidade dos filhos dos artistas. E quando havia espetáculo, Eva ficava aos cuidados das irmãs em casa.
Aos cinco anos Eva deu os primeiros passos de dança, enquanto seu irmão Alain já era exímio bailarino. Desta vez Dina e João ficavam nas cadeiras admirando o talento dos caçulas, aplaudiam, e os incentivam com carinho a continuar bailando. Os irmãos mais velhos também apareciam, uma vez, ou outra. A maioria dedicada a passear eternamente entre planetas, sem fazer nada além de ter filhos, um trás de outro. Afinal, o ócio era o ofício preferido dos anjos. Pelo menos era o que eles falavam em casa.
Como esse planeta possuía pouca força de gravidade, saltar fazendo piruetas era a coisa mais fácil de fazer. Além do que, também se costumava usar a levitação. Alain conseguia atravessar o palco de um lado a outro, enquanto girava o corpo no ar com graça de macho, e caia na ponta dos pés com leveza de gazela. E Eva imitava o irmão em tudo. Dava cambalhotas, caia de pernas abertas, e curvava o corpo com os braços estendidos, enquanto Alain corria ao lado, para puxá-la mais uma vez no ar. Alain então a fazia levitar, como borboleta graciosa, que mexia os braços, dando movimento aos tecidos, aos cabelos qual vendaval, pois era algo que Eva gostava de fazer. Cair levemente das alturas, dançando no ar, como um pássaro humano.
Desta maneira Eva cresceu como um anjo feliz, pois sua amada família a mimava como em todas as vidas passadas. Mãe Dina cantava-lhe belas canções antes de dormir. Papai João a carregou no colo até os oito anos, e quando João se sentava à mesa, Eva sentava nos seus joelhos, lhe fazia carinho, penteava, dava beijos, pois Eva adorava seu pai vida após vida. Era a queridinha do velho, como falavam seus irmãos ciumentos.
Mas, assim que atingiu a mocidade Eva foi levada pela sua mãe para o isolamento obrigatório. Deixou-a junto a uns guris como ela, todos desconhecidos, para receber sua educação ao lado de um mestre estelar. Eva deixou as panteras na beira do lago, enquanto um cheiro de chãs perfumado invadia o acampamento, e um pão quente saindo das brasas ficava sobre uma toalha invitando ao banquete. Ovos cozidos com casca ao lado de um queijo dava água na boca. Sentou-se entre a gurizada e comeu com gula, pois o mestre os incitava a engolir bananas, maçãs, jacas, uvas, espalhadas em toda parte.
Nos primeiros dias a turma de adolescentes caminhou pela floresta para conhecer os segredos desse mundo. Examinaram cada ser vivo que encontraram no caminho, tanto os animaizinhos conhecidos como cavalos e unicórnios, já outros bem esquisitos. Mas todos eram encantadores. Havia papagaios que pousavam nos braços e mexiam a cabeça como dando um beijo no rosto. Eva, que estava com quatro panteras em redor, se limitou a ver a papagaiada de longe, pois as pretas eram assustadoras e afugentavam os bichinhos menores. E o mestre não poupou detalhes de nada. Contou que os bichos de maior longevidade eram os mamíferos, e que os unicórnios estavam no topo dessa evolução. Eles conseguiam viverem até uns oitocentos anos, ou mais. No momento da morte, eles simplesmente adormeciam no chão, pois a mãe natureza lhes fechava o ciclo de vida com um sopro mortal. Na sequência, os repteis e as aves morriam aos cem anos. Da mesma maneira. E todos os cadáveres eram desintegrados pelos anjos com um olhar. Agora, os invertebrados eram engolidos pela mata. Flores sugavam seus corpos mortos, e a grama se abria e engolia os exoesqueletos. Nesse planeta a mãe natureza decidia quem vivia, ou quem morria, com sabedoria.
Depois de passear, fazer piqueniques, e se conhecerem entres todos, os ensinamentos começaram ao raiar do Sol. Todos sentaram embaixo de uma árvore, enquanto o mestre lhes ensinava a respirar, relaxar, para tentar se lembrar de sua última encarnação. Eva viajou com os pensamentos, e viu o mundo de “E do Sistema ALPHA” e em seguida Adão, seu esposo, sua família, sua viagem para outro mundo, e sua morte. Quando abriu os olhos, todos os alunos se entreolhavam entre si com curiosidade, tentando encontrar um amigo, um namorado, quem fosse que estava nessa retrospecção. Mas o mestre lhes falou que ninguém ali se conhecia. Teriam que encontrar as pessoas do passado de outras maneiras, pois ninguém, mais ninguém nascia com a mesma aparência. Quem fosse moreno nascia loiro, quem era loiro nascia escuro, e teriam que se descobrir através dos sentimentos e nunca através da aparência física. Sem presa, pois agora eram imortais. Podia-se demorar a eternidade para encontrar a alma-gêmea perdida.
Nos dias seguintes Eva foi mais longe, pois chegou ao início de sua existência. Viu seu primeiro nascimento entre os gorilas da Tanzânia, horrorosa, e viu Adão, um gorila que a seduziu em meio do matagal, como uma besta. A seguir viu a si mesma com um gorila bebezinho no colo, dando-lhe de mamar, depois viu a mais um, e finalmente se observou correndo no mato entre um bando familiar, velha, com Adão sempre a seu lado.
Foi a primeira vez que Eva chorou numa retrospecção.
Seus amigos sempre acordavam com rosto empapado em lágrimas, mas com ela o terremoto de emoções foi com essa existência de besta, pois ninguém, mais ninguém dessa turma era casada fazia milhões de anos com o mesmo troglodita. Aliás, havia gente solteira, que só encontrou no passado milhões de namorados, ou, concubinas. Havia amigas que tentaram contar os homens importantes de suas vivencias anteriores, para ver se reencontrava algum, mas o mestre sempre terminava as aulas dizendo que o amor os levaria até a pessoa certa. E aconselhou Eva a esperar que seu gorila a encontrasse, pois ele deveria estar louco, percorrendo todas as aldeias e cidades desse mundo em sua busca. E Eva ria as gargalhadas. Depois contava que Adão deveria estar em busca de Alain, seu irmão, para dar-lhe uma surra como nas vidas anteriores. E dava detalhes dessa encarnação, fazendo rir a todos. E o mestre terminava acrescentando que quando uma mulher amava dois homens no passado, um deles virava seu irmão pela eternidade.
Mas recordar dos amores de todas as vidas foi delicioso. Lembrar-se do que eles estudaram em outras vidas é que foi terrível. Quem frequentou medicina viajava pelo tempo, para aprender tudo de novo, palavra por palavra. Engenheiros era a mesma coisa. Estudava livros, e mais livros, rememorando tudo que já sabia, e que estava adormecido nos esconderijos da memória. Quando o mestre os acordava, a dor na testa era mortal. Estendiam-se na grama, e o mestre lhes colocava agulhas e compressas frias para passar o tormento.
Eva recuperou seus talentos de artista plástica e seus conhecimentos de veterinária, de Espiã, junto às modalidades de luta de uma guerreira invencível.
Mas, a parte final desse acampamento foi a mais linda, e a mais gostosa.
Sentada com as mãos e planta dos pés apoiadas sobre a grama húmida do alvorecer, Eva viajou com a mente para as profundezas da terra. Chegou ao centro, onde um coração diferente acolheu-a como a uma filha. Lágrimas correram pela face. Sentiu o amor da mãe-terra, abraçando-a, e seu coração se abriu de uma paixão pelo seu mundo, nunca antes sentida em nenhuma encarnação. Ela era mulher e terra. Mulher e árvore. Mulher e flor. Tudo fazia parte de um todo maior. Assim que abriu os olhos, caiu de boca no chão beijando a grama, e abraçando as plantas em redor. Lembrou-se da Terra onde nascera. Chorou de novo, pois lutara por ela, e só agora sabia o motivo. Era filha daquele mundo. Uma filha perdida na imensidão com saudades de uma mãe que ficara para trás.
Passada essas emoções, Eva aprendeu tudo sobre os poderes de um anjo. Todos esses adolescentes que estavam ao lado dela dominavam a telepatia, premonição, desintegravam objetos, e mostravam para o mestre a magnitude dos poderes de cada um. Só que desta vez eles aprenderam, além de fazer desaparecer uma pedra, fazê-la renascer com o pensamento. Do nada. Pois da invisibilidade se podia trazer TUDO que se enviava para lá! Era magica! Pedras fortes e sementes viravam ar, e depois renasciam. Bastava um sopro, ou um movimento de mãos. Era realmente incrível!
Depois chegou o aprendizado da transformação dos elementos. Com um simples toque de mãos se podiam transmutar a natureza em redor. Um caroço podia se transformar em metal, ou, um minério em árvore, ou, o néctar das flores em bebidas, ou, a casca de uma seringueira em sacola plástica. Mas, havia que memorizar o que gerava qual coisa, pois tinha vezes que o elemento escolhido virava areia, sódio, água, ou fogo. Muita gente queimou as mãos nesses exercícios numa tentativa de algo impossível. Afinal, o mestre falava que só os sábios em física e química sabiam com exatidão como desalinhar e alinhar de novo os átomos que compunham a matéria.
A única coisa que Eva não conseguiu mudar foi a si mesma. Tentou colorir as unhas com um toque de dedos. Mas a cor esfumaçava logo. O mestre explicava que era por causa da aura. Cada anjo possuía uma aura do tamanho do planeta desta vez. O corpo era tão protegido, que a morte era improvável. Se alguém caísse de uma montanha, se podiam abrir os braços e voar usando o cabelo como contraventos, e a levitação podia se obter com a energia que saía dos pés. Nos rios nunca se afogariam, pois havia que nadar, ou flutuar e o coração jamais cansaria. E nunca poderiam esquecer que uma pedra virava madeira, e que um tronco flutuaria sob as águas levando-os a salvo através das correntezas.
Quando regressou para casa, Eva estava transformada em algo diferente. Sentia o cheiro da canela, do sândalo, do eucalipto, das flores, com tanta intensidade que parecia que viveria a eternidade banhada pelo perfume da natureza em redor. Pegou uma gota de sândalo com um dedo e passou pelo pescoço. Nossa! Faria isso para sempre. Depois correu para casa, para ensinar para Alain passos de kung-fú, que poderiam ser incluídos numa dança. E as panteras correram juntas, felizes, pois nessa retrospectiva Eva descobrira que eram suas desde a Pré-história da Terra. Elas eram bichos africanos, como ela.
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