Adão e Eva, na guerra dos iguanas. Parte II
7 Capítulo VI. Roteiro interespacial
Notas iniciais
Desde o dia em que os guerreiros se infiltraram no mundo dos iguanas, as naves das cobras encontravam-se desocupadas e os robôs limpavam corredores, regavam plantas, recolhiam frutas da horta, as desidratando para não estragarem, e as despensas estavam lotadas de produtos em conservas. Todas as lojas estavam abarrotadas de roupas, adereços, bem diferentes da nave de Fernando, que estava quase vazia. E foi nessas naves, que Fernando convidou a todos diplomatas do Senado Internacional a viajar em busca dos prisioneiros iguanas, numa reunião solene.
A seguir, houve um alvoroço, pois todos aceitaram ir. Diplomatas chamavam ao telefone as esposas, ou os maridos, no outro lado do mundo, pedindo para fazer as malas e chegar o quanto antes possível, pois Fernando fora enfático no número dos viajantes, metade homem e metade mulher, como mandava o código de navegação interestelar. Por esse motivo, quem era solteiro teve que levar um acompanhante do sexo oposto.
Marcou-se a data da partida, e o Senado Internacional ficou com membros substitutos, com Jesus como Secretário Geral, pois ele alegou que sua esposa não tivera permissão para abandonar o trabalho nas fábricas de Benjamim.
No dia dessa viagem, as sábias cobras chamaram os robôs com telepatia, e ela desceu perto da nave de Fernando, esticando os pés metálicos, e lançando uma luz branca para subir.
Quando os robôs sentiram os visitantes entrando, organizaram uma fila dupla, para os humanos atravessar pelo meio. As sábias cobras os abraçaram, como se fossem filhos, e os enviaram a preparar um banquete especial e ligar os motores, com destino ao Planeta 2. Depois, foram mostrando aos presentes os dormitórios, os corredores com jardins, os bancos para observar o universo, em frente de janelas gigantescas, e o lugar onde se jantaria três vezes por dia. Um espaço gigante em meio de flores, passarinhos, borboletas, piscinas térmicas, chafariz, que mais parecia uma praça de alimentação de um shopping elegante. Um ambiente aconchegante que convidava ao lazer.
Entre os anfitriões estavam sem disfarce desta vez, Nohiki com Fernando Júnior, Tiago, Mário, Guilherme, Abelardo, Reginaldo, com as respectivas esposas, Olaf e China, 5.000 cobras casadas com guerreiros de “L”, e todos os sábios. Entre os iguanas, viajavam Bernardinho e Evita, com os filhinhos, Vitor Plaza e Mirim, com mais três guris, e uns 200 emissários de países diferentes junto de 200 acompanhantes.
De última hora, Fernando Júnior aceitou incluir repórteres, 25 homens e 25 jornalistas, todos solteiros, mas com o compromisso de respeitar a cultura das cobras, e fotografar com discrição. O sensacionalismo e a fofoca, o próprio Fernando Júnior se encarregaria de punir. Só não disse como.
O mais feliz dos convocados era Vitor.
Parecia que havia renascido de novo. Olhava para Mirim apaixonadíssimo, e falava para si mesmo, que nunca mais, pelo resto da vida, olharia sequer para outra senhora. Jurava que a amava, a cada momento. Pegou o costume de sentar com ela no colo, como faziam todos os seus amigos alienígenas. Também concordou que usasse vestidos mais arrojados, como faziam Nohiki e China, que mostravam a perna ao caminhar, por cima de sapatos altíssimos. Deixou-a soltar o cabelo em forma sensual. Pelo menos dentro dessa nave, ela podia tudo.
E essa viagem foi um barco do amor.
Em roda de amigos, a China contava para todos, que Vitor era o iguana mais ciumento do mundo, e que a coitada da Mirim estava falando suas primeiras palavras em público. Rosa ria com histeria. Depois, Evita falou que em Alubiavam, pelo contrário, as mulheres casadas trabalhavam que nem homens e tinha as que gritavam com os maridos por tudo. Marlene acrescentava que sentia pena porque elas namoravam seus maridos uma vez a cada três dias. Tadinhas.
Bernardinho se defendia. Apesar de suas múltiplas obrigações, Evita não tinha queixas ao respeito, pois Jorge lhe preparava ao fim do dia um coquetel especial. Como Evita ficara vermelha quem nem pimentão, as amigas aproveitaram para rir sem dó e fazer caretas.
Entre a fofoca geral, Abelardo falava para Vitor:
— Se tua mulher fala pouco, que inveja, cara! Em nosso mundo nos batem, dão patadas, e tu te apaixonas... Minha linda mulher me conquistou com o primeiro gol de cabeçada que me fez... Ah, depois me chutou na canela e nós caímos de joelhos. Até hoje estou ajoelhado aos seus pés...
E as gargalhadas continuavam. Reginaldo disse:
— E vou lhes contar uma fofoca. Lembram-se do Fernando, o grandão? O nosso patrão? Sua mulher deu-lhe uma patada nos testículos, tão forte cara, que ele foi parar no hospital... Apaixonou-se na hora! Pediu-a em casamento, e nasceu este aqui...
As risadas eram escandalosas desta vez, pois Fernando Júnior mexia a cabeça, sem acreditar.
Vitor não conseguia entender tanta semelhança entre iguanas e guerreiros. Eram bagunceiros, riam do próximo, faziam piadas, bebiam cervejas geladinhas, e eram homens tão puros de coração, que mais pareciam crianças. Não conseguia entender a confiança que havia entre os casais. Nohiki podia deambular sozinha pelo mundo, em festas e mais festas, pois Fernando Júnior confiava plenamente nela. Olaf e Nohiki dormiam até no mesmo dormitório nos dias de espionagem, e nunca, jamais, Fernando Júnior perguntou ou questionou uma atitude dela. Enquanto que em seu mundo, o ciúme corroía a alma dos homens como doenças. Nunca ele deixaria Mirim longe de seus olhos, sem empregados que garantissem que ela era fiel. Era aí, onde estava a diferença. Era nisso que estava a inferioridade de sua raça.
Guilherme, que lia os pensamentos de seu primo, falou-lhe:
— Esse ciúme tem história, primo. Na nossa última encarnação, Mirim já era escrava... Tinha que te acompanhar ao trabalho como secretária, e tu deves ter surrado uns 15 machos que olharam para ela...
Mirim perguntou timidamente:
— E eu era muito linda, primo?
— Lindíssima! Mas Alberta é maravilhosa, e eu nunca surrei ninguém! Amor, você acha que eu não a amo?
— Mas que pergunta boba... Estamos casados pela eternidade...
Vitor ficou intrigado:
— Como assim, pela eternidade? Depois da morte não vai cada um para um lado, mais uma vez?
— Não, primo. Fomos casamos por “00”, o grande espírito. Quem casa na frente dele, fica ligado pela eternidade... No Planeta das cobras, vocês podem conhecê-lo. Se casarem em frente dele, Mirim nunca mais vai poder fugir... Vão ficar unidos pela corda mística. Amarrados. Grudados na imortalidade.
Sozinhos entre quatro paredes, Vitor perguntou para sua mulher se ela casaria com ele em frente de esse grande espírito.
— Claro que sim... Eu amo você... Adoro você...
E não falou mais nada. Sua boca foi afogada em beijos fogosos e ela derreteu-se inteira. Ficaram no chamego dias a fio, pois um robô os servia com bandejas na porta a cada 5 horas, conforme o horário fictício dessa nave.
No começo dessa viagem, os homens-iguanas saíam das suítes todos os dias. Almoçavam, passeavam com os filhos, jogavam um boliche, um carteado, brindavam com vinho, ou cervejas, enquanto os alienígenas só o faziam a cada três ou quatro dias. Bernardinho, que não acreditava que eles ficavam fazendo amor esse tempo todo, tentou fazer o mesmo. Conseguiu ficarem fechados dois dias. Vitor conseguiu ficar mais tempo.
Para que os filhos não separassem seu pais no chamego, Fernando Júnior reuniu os guris e os hipnotizou. Os guris passaram a dormir em companhia das cobras pequenas, numa sala especial, aos cuidados de 6 robôs babás. Algo assim como uma creche. Em vez de dar pontapés nas suítes, ao levantar pelas manhãs berrando como índios, os guris iam para a piscina, ou liam livros numa sala especial.
Como nessa nave não existiam pílulas anticoncepcionais, nem camisinhas, todas as esposas dos diplomatas iguanas engravidaram durante essa viagem, assim que o estoque pessoal esgotou. As barrigas de Evita e Mirim também começaram a crescer, e as piadas entre os amigos redobraram.
Entre os solteiros aconteceu exatamente o contrário. Tiago lhes ofereceu a todos os homens uma cirurgia temporária de esterilidade, e contou-lhes que Mônica, esposa de Fernando era médica, e lhes faria a cirurgia de reversão quando voltassem desse giro espacial. Podiam namorar as solteiras, sem perigo de ser pai de um filho indesejado. O que foi maravilhoso.
Os jornalistas e os acompanhantes solteiros, que entraram nessa aventura por acaso, começaram a convivência nas danceterias, onde havia luzes excitantes, bebidas afrodisíacas, e danças, que convidavam ao início da sedução. Pouco a pouco, as mais belas mulheres estavam com namorados. Numa matemática perfeita foram sobrando os mais velhos, ou os mais gordos, ou os mais baixinhos, que de tanto dançar foram ficando a cada vez mais desinibidos e ousados. Afinal, depois que um casal experimentava os assentos eróticos, onde se adormecia balançando e se acordava da mesma maneira, fazer amor era delicioso.
Quando a nave parou em meio do espaço, os homens-iguanas observaram ao longe um mundo cor de rosa, com várias Luas que giravam em redor. Avançaram lentamente para admirar a paisagem cósmica, e atravessaram o manto rosa para ver milhares de ilhas, e uns três continentes pequenos.
No maior dos continentes, eles voaram por cima de montanhas majestosas, onde havia vales com moradias e palácios gigantes no cimo mais alto. Além das montanhas, o verde nos vales se difundia em todo lugar. Onde existia cor, era consequência das grandes obras da engenharia humana. Castelos de telhados cor de cobre, ou dourados, ou amarelos, chamava a atenção das alturas. Em redor das moradias, os jardins coloridos eram obra de artistas magistrais. Somente na beira do mar, se observavam dunas de areias brancas, finíssimas, que adentravam em águas cristalinas, e em cujo lugar os homens corriam em cavalos pela beira do mar, ou faziam acampamentos para namorar.
Os edifícios em meio das florestas apareciam nas clareiras naturais.
E o que era mais chamativo, nenhuma residência encostava-se ao chão. Todas possuíam pés metálicos que se adentravam na terra até ser enterradas nas camadas sólidas. Os andares para morar se amontoavam com criatividade um acima do outro, e por cima da altura das árvores. As ruas desta maneira eram aéreas, unindo todos os edifícios como uma teia de aranha suspensa. As pessoas podiam percorrer a vizinhança caminhando ou se deslocando de carro, de bicicletas, ou patins, motos, e outros veículos esquisitos. Quem gostava de correr no chão, o fazia em chão batido, arenoso, caminho inventado pelas bestas. Corredores onde a bicharada peregrinava e se confundia com os humanos. Estradas onde somente carros especiais se aventuravam, numa peripécia cheia de pó, lama, pedras, e carros envelhecidos pelo mau trato. Também se observavam helicópteros no ar, como mosquitinhos borboleteando. Eram lindos.
Mas o melhor de se ver era a bicharada. As havia em todo lugar. No ar, se confundiam aos helicópteros, em bandos gigantes, com pássaros cujas asas possuíam até três metros cada uma. Eram assustadoras. Berravam, caíam em picada em busca de um rato para se deliciar, e voltavam aos ninhos das maiores árvores, que eram tão altas, que nada as atingia. Sequer as cobras subiam até lá. Preferiam se enroscar nos galhos baixos, em agrupamentos enormes.
Após percorrer as pequenas cidades, e observar o reino animal, viajaram aos lagos. Maravilharam-se com as quebradas, os cânions, as cataratas gigantes e por último sobrevoaram por cima das ilhas, numa velocidade lenta, para ver os prisioneiros iguanas, seminus, torrados pelo Sol, e sozinhos, acenando aos recém-chegados. Nenhum robô do amor estava com eles, pois os haviam recolhido e desativado, para não escandalizar os visitantes. Afinal, as “bonecas de borracha” no mundo dos iguanas, eram usadas por pouquíssimos homens, pois os sacerdotes inculcavam que o sexo solitário era pecado.
E finalmente baixaram nesse mundo. Pousaram numa cidade perto das nuvens, onde estavam as universidades e os centros de pesquisa, além do aeródromo estelar, em cujo lugar chegavam e partiam as naves para o espaço.
Uma comitiva os esperava numa praça gigante, apinhados como cardume de peixes.
Já antes de descer, Fernanda deu show de lágrimas, junto a Rosa, Marlene, Nina, pois o passado lhe caiu por cima de súbito. Com certeza, encontrariam descendentes consanguíneos, tataranetinhos que veriam emocionados. Os maridos também começaram a lacrimejar, pois haviam regressado para casa. Para um mundo pelo qual deram a vida muitas e muitas vezes, em encarnações cheias de aventuras e sofrimentos. O lugar onde se apaixonaram pelas esposas pelo resto da existência. E agora estavam de regresso. Era incrível. Maravilhosamente incrível.
Quando a nave esticou seus pés metálicos, toda a cidade estava olhando para cima, como quem espera a descida dos anjos. Primeiro desceram os homens da mídia, com suas máquinas prontas para filmagem, os flashes para as fotografias, e desta vez não conseguiram fazer perguntas, pois nenhuma cobra olhava para eles. Telepáticos como eram, saber que um ser humano lucrava vendendo fotos sensacionalistas, os envergonhavam.
Em seguida, baixaram os sábios, junto com os diplomatas. O povo os abraçou, e lhes abriu caminho para eles andarem em direção ao Centro de convenções, parecido com um hotel de luxo, com anfiteatros para reuniões. Depois continuaram a olhar para cima, na espera de Tiago, Fernanda, Mário, Nina, Reginaldo, Rosa, Abelardo, Marlene, que desceram mudos e abraçados. Todos queriam os tocar com as mãos, beijar, se reconhecendo pela cor dos cabelos. Os morenos podiam ser descendentes de Tiago e Fernanda, ou de Reginaldo e Rosa. Os loiros e ruivos, de Mário e Nina, os de cabelos castanhos, de Abelardo e Marlene. As mulheres receberam ramos de flores, os homens apertos de mãos, e com telepatia todos falavam com todos, coisas como: — Olha, ela é igual a mim, só pode ser minha avó.
Fernando Júnior preferiu descer o resto dos convidados por outro caminho de luz e deixar que o reencontro familiar de gerações milenares ficasse ali mesmo, por tempo indefinido. Quando viu um grupo de iguanas no telhado de um edifício, acenando e gritando com telepatia e com berros histéricos: — Paizinho, estamos aqui... Fernando Júnior alastrou o raio de luz em linha reta, e tomou a todos os que restavam nessa nave pela mão, formando uma corrente.
O reencontro de Fernando Júnior com os filhos foi em meio de choradeira.
Nohiki e sua filha soluçavam. Os garotos abraçavam Fernando Júnior, gritando ao mesmo tempo, falando que os esperavam para um casamento coletivo. Em seguida, abraçaram Olaf e China, Guilherme e Alberta, e só ficaram encabulados em frente de Bernardinho e Vitor, pois eram reis no mundo deles. Enquanto se abraçavam, os filhos de Bernardinho e Vitor olharam para cima e viram carros pequeninos que voavam, com famílias como eles, lhes acenando com a mão. Os meninos cobras eram lindos. Um filho de Vitor perguntou para Guilherme:
— Será que nos acham feios, tio?
— Imagina. Os amam! Daqui para frente, poderão vir a passear aqui todos os anos... O que acham?
— Legal! Só que estamos com frio...
— É porque estamos a mais de 3 mil metros acima do mar...
Fale com o autor