Adão e Eva, na guerra dos iguanas. Parte II
1 Capítulo 1. Isabela e Benjamim
Notas iniciais
??” Mas você vai para onde? Eu quero continuar namorando...
??” Pirou? Acha que sou uma mundana? Procure outra para suas orgias...
??” Está me pedindo para ser infiel?
??” Eu sou moderna e quero que nosso casamento seja sem ciúmes... Pode ter uma amante de vez em quando...
??” Ou seja, nosso casamento é apenas arranjo de negócios, entre famílias ricas?
??” Que seja! Já falei que sou moderna... Nada de ciúmes, meu amor...
O iguana Benjamim terminou de ajeitar seu turbante na cabeça, com euforia.
Estava prestes a casar na igreja com Isabela, o amor de sua vida, e grávida de seu primeiro filho. Sentia-se feliz, pois amava essa mulher com paixão e Isabela, sua noiva, era manteiga derretida nos seus braços. A única coisa que perturbava sua felicidade eram os generais do “Alertse, o exército de seu mundo”. Suas empresas de robótica eram muito avançadas e o último protótipo era um xodó. Um mimo da engenharia moderna. Um robozinho que sabia limpar a casa, cozinhar, balançar bebês para dormir, e que estava sendo estudado pelo Alertse, para transformá-lo num explorador de petróleo e um soldado de guerra.
Benjamim não tirava esse pesadelo da cabeça.
Transformar seus robôs em petroleiros significava economia para o Alertse, pois os gastos destinados as viagens dos astronautas eram estratosféricos. Os iguanas viajavam pelo espaço com suprimentos médicos, alimentos, que geravam grandes despesas. Agora, um robozinho não gastava nada. E bem instruído, poderia ser capaz de tudo, cavar poços em busca de petróleo, perfurar a terra em busca de diamantes, e matar sem dó.
Enquanto seu veículo cruzava a cidade a caminho da igreja, uma voz vinda do espaço lhe disse: — Podemos ajudá-lo contra o Alertse, amigo! Levou um susto. Olhou pela janela do carro, tentando ver algum helicóptero, ou aviãozinho de passeio, mas o céu estava limpo. Novamente, a voz lhe chegou nítida: — Vou entrar em contato com você e meu nome é Adão.
Finalmente desceu do carro em frente a uma gigantesca basílica, orgulho da arquitetura moderna, e ficou esperando sua noiva, que chegaria com um vestido azul, como sinal de virgindade. Benjamim sorriu. Ou o sacerdote era cego, ou ladrão, pois a barriga de Isabela estava nítida. Afinal, havia pago por esse casamento uma fortuna. Só para dar gosto a sua mãe, que transformara seu dia mais sagrado num acontecimento social. Havia nessa igreja três príncipes, cinco bilionários, 10 artistas de cinema famosíssimos, todos os empresários de Alubiavam, sua cidade, e os generais de costume do Alertse.
Mas o que mais o incomodava nesse dia, era a mídia.
Isabela entrou entre flashes de luzes de máquinas fotográficas, fotos que sairiam em todas as revistas desse mundo, analisando a beleza do vestido. A excentricidade desse momento era a roupa, quem era o estilista, ou, o quanto haviam pago por isso tudo. Isabela não interessava a ninguém. Bem, analisando, esse vestido fora mais caro do que o casamento na igreja, mas Benjamim havia saldado a conta com gosto. Era uma relíquia da alta costura. Como Isabela merecia.
Em seguida, suportou o discurso do sacerdote, trocou alianças, fez juramento de amor e fidelidade, e saiu a enfrentar os fotógrafos. Eram centenas, praticando a pior de todas as profissões inventadas pela estupidez iguana. Com certeza o seguiriam na sua viagem pelo mar, com lentes de longa distância, para fotografar sua bunda pelada. E não podia ceder ao luxo da grosseria, por causa de sua posição social.
Benjamim ficou o mínimo de tempo possível nessa festança.
O suficiente para sua mãe não ficar ofendida. Depois, subiu no helicóptero e voou para seu iate em alto mar. Entrou na suíte de bordo, e caiu por cima da cama com vontade de ficar perdido do mundo para sempre.
Isabela puxou seu vestido maravilhoso bamboleando os quadris. Depois mexeu os cabelos, e pouco a pouco, foi chegando perto. Ele a puxou por cima, rindo, feliz, depois deram cambalhotas por sobre essa cama brincando, enquanto o amor os envolvia com sua nuvem mágica. Nada importava mais, só esses dias de namoro em meio das ondas do mar.
Na manhã do dia seguinte, Isabela saiu de biquíni para a cobertura, e Benjamim de bermuda. Estenderam-se por sobre uma toalha felpuda, se beijaram, enquanto o cozinheiro de bordo lhes trazia um banquete. Do ar, um helicóptero com fotógrafos ficou esperando uma cena erótica em vão. Os fotografaram se beijando, bebendo drinques, mas não conseguiram uma cena de nudez. Benjamim tomou sua amada nos braços e voltaram para a suíte, a dar continuidade ao amor sem fim, pois ali dentro existia tudo, banheira, bar com bebidas, televisão, mesa de jogos, podiam até dançar ao compasso de músicas lentas.
No meio da noite, Benjamim saiu para a cobertura para fumar um cigarro. Mais tarde, Isabela juntou-se a ele, com bebidas refrescantes na mão. Sentaram abraçados, olhando para o caminho prateado sobre o mar, ambos enfeitiçados com a beleza da paisagem noturna. Além do fulgor da Lua, as estrelas estavam enormes, gigantes, e pareciam que estavam ao alcance da mão. Maravilhosas. Beijaram-se docemente, peito calmo, ternura os rodeando como um mantra invisível. Isabela tentava descobrir os anjos, nas alturas, para lhes agradecer a felicidade dessa união. Desse casamento de princesa. Dessa bênção que era o amor de Benjamim.
Mas a voz vinda do espaço chamou mais uma vez, interrompendo o beijo. E Benjamim respondeu um sim, para essa voz que desejava um encontro. Isabela perguntou-lhe:
— Está falando sozinho, meu amor?
— Acredita se eu disser que estou falando, com um homem, com telepatia?
— Sério? Mas que legal, me ensina, como se faz isso?
— Hum... Tem que parar de pensar... Depois deve tentar ouvir...
E Isabela recebeu nitidamente a voz de uma mulher que ria muito. Levou um susto. Quem eram eles? E Isabela teve uma ideia.
— Amor e se essas vozes são de outro mundo? Já pensou? E se esses alienígenas estão para nos invadir?
— Se for para melhorar esta porcaria de vida, eu vou topar... Estou cheio de tanta estupidez, desses militares burros que mandam em todo mundo, eles só querem morte.
— Estou com medo... Você pode morrer... O que vai ser de mim?
Benjamim a beijou, pois ela estava certa. O que seria dela e de seu filho, se ele morresse?
E começou a lembrar do dia em que a conhecera nesse bar, depois de um encontro terrível com membros do Alertse. Haviam-no ameaçado com cancelamento de patentes se não entregasse um protótipo desse robô para análise. E nas suas empresas, Benjamim não determinava nada. A Diretoria morria de medo do Alertse. Para acalmar os nervos, Benjamim chamara por telefone sua noiva, a mais rica herdeira de hotéis de luxo de Alubiavam, para consolar-se de sua desgraça administrativa. Pediu para ela visitá-lo em seu apartamento, assim que chegasse a casa. Mas ela deu milhares de desculpas, pois não podia sair com ele nessa noite, não. Nossa! Isso tinha cara de galhos na testa. Será que estava ganhando chifres antecipados? E saiu caminhando sem destino pela rua, desesperado, pois nesse planeta ser rico não significava ser feliz. Sua vida era um desgosto constante. Quando achava que tudo estava ótimo, empregados satisfeitos, ações na Bolsa subindo, sempre aparecia algo para azucrinar sua existência.
E optou por ingressar nesse bar, para encher a cara.
Assim que Benjamim entrou, viu Isabela sentada no balcão bebendo um drinque. Nádegas altas, firmes, pernas perfeitas, e um peito que dava gosto de ver. Cabelos além da cintura, maravilhosa. Foi chegando perto, sentou junto, e começou a puxar conversa. Ela era professora, vivia numa quitinete em frente, e estava chegando do trabalho, chateada como nunca. Benjamim disse que era empresário, e estafado que nem ela. Beberam, e ele convidou-a a jantar.
Num restaurante perto desse bar, Isabela comeu caracóis, purê de batatas, saladas, e uma sobremesa de panquecas com doce de leite por cima. Ela ria e falava que estava a ponto de arrebentar, e que não pensava em rachar a conta, não. Benjamim riu, enquanto devorava seus caracóis com saladas com maionese, cebolas, azeitonas, tomates, na verdade, estava também faminto. Ela era simpática, culta, inteligente, além de linda.
Depois de três horas, ambos sabiam tudo sobre a vida do outro, e estavam levemente bêbados. E para finalizar a noite, Benjamim foi deixá-la na sua quitinete. Um quarto onde havia uma cama, uma mesa, uma cadeira, e uma cozinha adjunta. Um banheiro, um lavabo de roupas, tudo dentro de um espaço igual ao saguão de sua casa.
Assim que Isabela abriu a porta, Benjamim beijou-a num impulso repentino. Isabela recebeu o beijo, e se deixou seduzir, pois Benjamim era um príncipe encantado, e contos de fadas aconteciam só uma vez, numa vida toda. E fizeram amor muitas e muitas vezes.
Quando Isabela dormiu extenuada, Benjamim sentou na cama, duvidando se ela seria realmente uma professora. Nunca havia conhecido uma mulher tão ardente. Abriu uma gaveta e viu uma caixa cheia de preservativos. Ao lado, uma agenda com mais ou menos 50 nomes de homens e mulheres, com seus telefones e e-mails. Riu com ele mesmo. Era a primeira garota de programa de sua vida. Fez um cheque generoso, e saiu dali às pressas.
Ao meio dia, do dia seguinte, almoçou com sua noiva. Imediatamente lhe pediu para adiantar o casório. E ela disse:
— Impossível! Meu vestido azul não está finalizado, e a decoração do apartamento está atrasada. Qual é a pressa?
— Eu preciso de namoro, beijos, carícias, todos os dias, e não só quando você não pode frequentar alguma bobagem social...
— Hum... Guloso... Esta noite, eu estou toda disponível... Mas me leve num lugar muito chique...
Depois, se beijaram e voltaram a seus afazeres.
E nessa noite, Benjamim jogou-se em cima de sua noiva, como a noite anterior. Como um leão. Só que sua noiva depois de meia hora, começou a se vestir.
— Mas você vai para onde? Eu quero continuar namorando você...
— Pirou? Acha que sou uma mundana? Procure outra para suas orgias...
— Está me pedindo para ser infiel?
— Eu sou moderna e quero que nosso casamento seja sem ciúmes... Pode ter uma amante de vez em quando...
— Ou seja, nosso casamento é apenas arranjo de negócios, entre famílias ricas?
— Que seja! Já falei que sou moderna... Nada de ciúmes, meu amor...
Furioso, Benjamim levou sua noiva para casa, deu-lhe um beijo frio de despedida, e voltou triste para seu apartamento. Tudo que havia planejado estava ruindo na sua frente. Os planos industriais, e seu projeto de vida. Construir uma família era algo que sua noiva nem sequer estava para conceber. Tentou imaginá-la carregando um filho seu, dando-lhe amor e carinho e riu com ele mesmo. Isso jamais ocorreria. Os meninos cresceriam nos braços de uma dúzia de empregados.
No dia seguinte, mal esperava as horas passarem.
Saiu ansioso para rua e foi mais uma vez até esse bar, a esperar por sua amante, mais foi em vão. Jantou sozinho, e começou a se perguntar se não a teria julgado errado. Regressou todos os dias, na esperança dela aparecer mais uma vez para fazê-lo feliz. Lembrava-se de seus beijos, e um calor esquentava sua alma.
E finalmente, após 6 dias, a viu através das vidraças desse bar. Caminhando no outro lado dessa rua.
Benjamim teve que atravessar entre os carros, correndo atrás dela. Bateu a porta pedindo desculpas desde fora, e uma vez dentro explicou que se havia enganado. Que essa agenda com nome de homens havia bagunçado sua cabeça. O ciúme tinha nevoado sua mente. E é claro, ele também tinha uma agenda com nome de mulheres em casa, e não havia nada de estranho nisso. Enquanto falava, ia ficando cada vez mais perto, abraçando-a, como um mendigo pede comida. Desta vez, alimento para sua alma. Ela abriu a boca, deu-lhe um beijo longo, com rosto molhado pela humilhação passada, e mais uma vez se derreteu nos braços dele.
Nos dias subsequentes, Benjamim começou a levá-la a lugares elegantes, onde entravam em banheira de hidromassagem, faziam amor com luzes excitantes, olhavam televisores gigantes, e comiam banquetes requintados. Ao amanhecer, saíam em direção da Escola, onde Isabela descia radiante desse carro de milionário. Finalmente, ele percorria as ruas caminho à sua empresa, assobiando feliz.
Depois de 15 dias, Benjamim viu sua noiva entrar no seu escritório convertida numa fera, olhos escancarados, como quem vai matar alguém.
— Você me esqueceu, queridinho?
— SIM! Não há mais casamento, nem festas, nem lua de mel, nada de nada...
— E pode me falar por qual de suas vadias me trocou?
— Pela mais gostosa!
— Você vai pagar caro, ouviu bem? Eu não sou dispensada dessa forma por ninguém... Se prepare meu bem...
Depois desse dia, namorar foi um pesadelo para Benjamim.
Sua noiva falou para imprensa que ele era gay, e que ela desmanchara o casamento ao descobri-lo na cama com outro homem. A pior parte foi a conversa com seu pai, que desejava deserdá-lo pela vergonha pública. Mas quando Benjamin confessou que era apaixonado por uma professora primária, seu pai mudou de ideia. Preferia que fosse gay solteiro a vê-lo casado com uma pobre. Favelada. Com certeza de mãe alcoólatra. Ou quem sabe coisa pior. Mas quem fez o maior escândalo foi sua mãe, que surtou, teve infarto, quando ele foi sincero e falou que não ia terminar o namoro, e preferia ser deserdado.
Depois dessa briga familiar, Benjamim foi num cartório, casou com Isabela e levou-a a viver no seu apartamento de solteiro. E pediu parar com as pílulas anticoncepcionais, pois queria ter media dúzia de filhos. E ele nunca mais apareceu nas empresas da família. Era rico o suficiente para ficar em casa até morrerem.
Mas os pais de Benjamim não tinham outro filho com a sua astúcia para os negócios. Ele era o único que sabia aumentar os lucros das companhias, e não tinha medo do Alertse. Sem ele na frente dos empreendimentos, a ruína seria iminente. Um dia, o pai de Benjamim foi falar com ele seriamente, para que retomasse à diretoria. Depois de muita conversa, Benjamim concordou que casaria na igreja, para agradar a família, e que retomaria seu cargo de diretor principal.
Hoje, nesse iate em alto mar, tudo parecia um pesadelo superado. Enquanto Isabela dormia, Benjamin saiu para a coberta, onde um iguana limpava o chão. Era o piloto do iate. E atônito, ouviu-o falando:
— E daí, Benjamim, vamos conversar? Eu sou Adão...
— É de você essa voz misteriosa? Nossa! Pensei que fosse um alienígena.
— E sou! Minha pele é falsa... Não sou verde, sou negro como carvão...
Benjamim riu alto, pensando que era piada. Depois lhe perguntou:
— O que sugere que eu faça?
— Colabore com o Alertse. Dê-lhes o robô... Na verdade, faz tempo que nenhuma nave espacial sai deste mundo, e nenhuma delas chega de regresso. Não sabia disso?
— Sabia! Eles falam que os astronautas morreram no espaço...
— Não se preocupe, pois eles não estão mortos. Esses astronautas apenas são os nossos prisioneiros. Um dia voltam para casa...
— E o que mais querem de mim?
— Emprego... Tenho engenheiros que vão lhe inventar maravilhas tecnológicas, e é claro, isso vai permitir nos infiltrar neste planeta...
— Mas o que vão fazer aqui? Porque vieram?
— Só queremos impedir essas viagens para outros mundos. Pretendemos derrubar todo o programa espacial. Vocês nunca souberam o que os exploradores iguanas realmente fazem em outros planetas? Massacram as pessoas e disseminam o horror para lhes roubar o petróleo! Temos documentários com as chacinas e tudo isto vem acontecendo há muitos anos...
— Nossa! Eu quando criança queria ser astronauta e petroleiro. Sonhava subir numas naves espaciais rumo a outros mundos... Depois que me tornei homem, eu vi que tudo não passava de invasões, roubos, e ganância desmedida. Mas, sinceramente, seria melhor mudar os governantes em primeiro lugar. Colocar no poder pessoas inteligentes... Tens competência para nos ajudar a fazer isso?
— É claro que sim! Mudar este mundo vai ser fácil para nós! Somos telepatas, mexemos com a matéria, podemos hipnotizar a humanidade inteira....
Benjamim caiu nas risadas, pois ele nunca acreditara em poderes sobrenaturais, apenas a telepatia achava interessante. Mas, falou para esse iguana engraçado:
— Então estamos combinados. Seus amigos devem dar uma senha para mim, quando chegarem à empresa... Que tal a frase: — Cheguei pra valer, mano Benjamim!
E mais uma vez Benjamim gargalhou alto, dele mesmo. De sua ousadia. A frase havia saído de sua boca sozinha, em tom de piada.
Adão riu junto, e falou-lhe:
— Agora vou deixá-lo... Não está sentindo falta dos fotógrafos? Do helicóptero?
— Pois é, cadê eles?
— Nadando para a praia mais próxima. Vai sair na televisão, no noticiário matutino...
Foi então que Benjamim viu uma luz descer do espaço, que elevou no ar esse homem de outro mundo, em décimos de segundos. Entrou na suíte e ligou a televisão. Começou a rir e acordou Isabela para olhar os fotógrafos, que saíam do mar, totalmente nus.
Notas finais
??” É claro que sim! Mudar este mundo vai ser fácil para nós! Somos telepatas, mexemos com a matéria, podemos hipnotizar a humanidade inteira....
Benjamim caiu nas risadas, pois ele nunca acreditara em poderes sobrenaturais, apenas a telepatia achava interessante. Mas, falou para esse iguana engraçado:
??” Então estamos combinados. Seus amigos devem dar uma senha para mim, quando chegarem à empresa... Que tal a frase: - Cheguei pra valer, mano Benjamim!
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