Notas iniciais
E o grande dia finalmente chegou. A “Arca da aliança”, com as tábuas, e os papiros com o nome de cada homem dessa expedição, foi colocada na frente da caravana carregada por uma mula. Moisés lhes fez um discurso, falando das virtudes humanas, enfatizando que a má conduta impediria o sucesso da longa travessia. Ele cruzaria o deserto em busca da terra onde o mel cresce e as frutas abundam, mas com as pessoas de bom coração. Os que entrassem na senda da maldade seriam abandonados, desterrados, isolados em meio das areias escaldantes do deserto.

Moisés começou a rir.

Lembrou-se de seus professores, que o acolheram em casa e criaram como filho, eles só podiam ser seus verdadeiros pais. Chorou um pouco, emocionado, abraçou Adão, e voltou para Agarta cheio de fé. Nada podia dar errado. Salvaria os escravos egípcios do sofrimento e construiria com eles uma grande nação. Como fizera Abraão.

Chegando a casa, foi direto para o dormitório, com mais fome de sexo do que nunca, e como era um imortal, fez amor com sua mulher por 30 dias seguidos.

Depois foi se despedir de seus pais. Levou flores para sua mãe, e a seu pai lhe deu um abraço forte, entre lágrimas, e lhe prometeu voltar para dar-lhe muitos netos.

Mas viajar para o Egito foi complicado para Moisés, desde o início.

Séfora fez cirurgia de cabelos. Ficaram brancos como a neve. Em seguida, foram-lhe feitas duas rugas nos olhos, e uma sombra marrom. Boca sem batom. Vestido de acordo com a moda desse tempo. Moisés implantou cabelos no rosto, e deixou crescer os cabelos da cabeça até os ombros. Vestido como semita, passava despercebido em qualquer lugar da Terra.

Enquanto sobrevoavam o deserto durante a noite, Séfora achava que primeiro deveriam ver sua mãe Thermuthis no Palácio do Faraó, pois ela os protegeria. Moisés queria se misturar entre os escravos e entrar sorrateiramente no Egito. E resolveram fazer as duas coisas. Séfora iria ver a princesa vestida com elegância, e ele entrava nos barracos imundos vestido com roupas velhas.

Moisés entrou na cidade dos escravos, onde pessoas dormiam dentro e fora dos casebres. Tinha os que se protegiam do frio noturno com panos sujos e dormiam embaixo de uma tamareira, ou, por baixo de um vinhedo, pois o Egito continuava verde e alimentava todos os homens. Frutos os havia em toda parte. A farinha a faziam eles mesmos e tinham direito de ficar com uma parte para fazer o pão. Na verdade, os escravos não passavam fome, eles só morriam por excesso de trabalhos, maus tratos e doenças decorrentes de tudo isso.

Quem o reconheceu primeiro foi Miriam, que uma vez no passado o deixou no rio, numa cesta de taquara trançada. Ela era membro de uma família de semitas, originários da Mesopotâmia, com muitos irmãos, cujo irmão mais velho era Aarão, um homem forte, e líder de seu povo.

Moisés entrou no casebre humilde da família de Miriam, contando uma história falsa. Havia casado com uma filha de uma tribo de Midiã e estava de regresso para libertar uma parte dos escravos. Falava que conhecia terras além do mar Vermelho, onde se podia levantar uma cidade de homens livres.

Aarão ficou empolgado de imediato.

Mas, Moisés foi claro também desde o início. A liberdade seria para escravos independendo de etnias. Não haveria a libertação só para os semitas, não. Teriam que aprender a conviver com outros povos. Quem odiava o vizinho, não poderia ser incluído nessa viagem. Depois, mostrou os códigos gravados na pedra, leu em voz alta, e se comprometeu a ensinar Aarão a ler e escrever. Para que houvesse um compromisso sério, quem fosse migrar do Egito teria que escrever seu nome, selando com isso que cumpriria com os mandamentos, e quem não soubesse escrever imprimiria sua mão numa folha de papiro. Aarão guardou as tábuas de pedra numa arca, e apertou a mão dele. Seria tudo dessa maneira.

Enquanto isso, no Palácio, Séfora encontrou sua sogra num mar de lágrimas. Ramsés, que agora era o Faraó do Egito, estava aos prantos chorando a morte de seu primeiro filho. Séfora examinou o cadáver, mas era tarde demais para uma ressurreição. Abraçou sua sogra, acalmando-a e soprou em seu ouvido que Moisés estava de regresso.

Nos dias seguintes, Moisés foi o consolo para a família do Faraó. Ramsés convidou-o para ficar no Palácio, e Thermuthis queria que ficassem ali “para sempre”. Moisés preferiu escutar antes de falar, pois Ramsés estava desesperado, à beira de um ataque de nervos. Além de sofrer com a morte de seu filho, os gafanhotos estavam comendo o trigo, pragas de sapos beiravam o Nilo, tempestades de areia invadiam a cidade, e ele não sabia como parar com tudo isso. Moisés ofereceu sua ajuda para tudo, e como prêmio pediu a libertação de um terço dos escravos. Podia ser os menos produtivos, mulher com filho menor, velhos, doentes, pois ele os recuperava. Séfora era médica, sabia cuidar dos corpos, e Moisés estava cheio de conhecimentos para deter as pragas.

Ramsés riu alto, às gargalhadas. Se Moisés terminasse com a praga dos gafanhotos, e as tempestades, podia levar metade dos escravos. Eles comiam demais e trabalhavam pouco. Seria uma economia se livrar de bocas famintas. Ele mesmo ajudaria na seleção, enviando para longe do Egito os mais ociosos.

Durante um ano, Moisés cuidou da agricultura, da bicharada, multiplicando a riqueza do Império. Acabou com as pragas, fazendo algo que estudara em Agarta. Escolhia gafanhotos machos, para deixá-los inférteis. Sugava-os em bando para uma caixa, onde os envolvia de energia, até tirar-lhes a capacidade de gerar filhotes. Depois os soltava ao vento, famintos de sexo. As fêmeas os teriam como companheiros ciumentos, impedindo que elas aceitassem machos férteis, e cruzariam só com eles até perecer. Os gafanhotos foram diminuindo aos poucos, enquanto o milho crescia novamente, ao lado do Nilo, em cultivos cheios de estrume, e com sementes mais fortes.

Com os sapos Moisés fez coisa parecida. Recolheu-os em tarrafas, e deixou-os soltos ao Sul do Egito, em lugares desertos, com abundância de insetos. Aos sapos peçonhentos lhes tirou o veneno e fabricou um antídoto. Depois, vacinou todos os meninos do reino, que morriam infetados aos centos. Fez uma vacina contra veneno de cobra, contra mosquito da dengue, da febre amarela e em seguida ensinou aos médicos do Império a misturar os componentes, pois a medicina egípcia era muito avançada. Bastava procurar uma veia, e lacerar o remédio com a ponta de um pauzinho de madeira afiado. Uma gota era suficiente.

Em meio aos escravos, Séfora ensinou a desidratar frutos, secar carne, escolher sementes, preparando-os para a grande travessia. Também construíram carroças simples, puxadas por cavalos, para carregar suprimentos, mulheres velhas, e crianças menores de 8 anos.

E Aarão cumpria sua parte, da forma mais complicada. Nos escravos autorizados por Ramsés, famílias numerosas com muitas bocas para alimentar, Aarão escolhia os semitas em primeiro lugar, e todos os homens que não os odiavam, para evitar futuras confusões. Acadianos, caldeus, sírios, sodomitas, hititas, filisteus, cassitas, iam pouco a pouco se inscrevendo, assinando a aliança de “não agressão”, e fazendo um juramento de obediência a Aarão, como líder dessa expedição. Os homens escutavam os mandamentos de Moisés, e juravam segui-lo ao pé da letra. Principalmente a que ponderava “não matarei meu irmão”. Como juramento, eles passavam tinta preta na mão esquerda, e colocavam-na sobre uma folha de papiro. Os que sabiam escrever assinalavam seu nome com hieróglifos egípcios.

E o grande dia finalmente chegou. A “Arca da aliança”, com as tábuas, e os papiros com o nome de cada homem dessa expedição, foi colocada na frente da caravana carregada por uma mula.

Moisés lhes fez um discurso, falando das virtudes humanas, enfatizando que a má conduta impediria o sucesso da longa travessia. Ele cruzaria o deserto em busca da terra onde o mel cresce e as frutas abundam, mas com as pessoas de bom coração. Os que entrassem na senda da maldade seriam abandonados, desterrados, isolados em meio das areias escaldantes do deserto.

Ramsés abraçou seu sobrinho, com orgulho, deu-lhe seu melhor cavalo, e fez os soldados acompanhá-lo até o mar Vermelho, pois ninguém acreditava que ele ia abrir as águas e cruzar o leito. Deram seu último abraço, e Moisés partiu com mais ou menos cinco mil pessoas, cada tribo com um chefe, e cada chefe subordinado a Moisés, líder máximo dessa caminhada.

Quando as águas do Mar Vermelho abriram, Séfora cruzou em primeiro lugar, correndo em seu cavalo, roupas esvoaçando, cabelos brancos ondulando no ar, numa miragem fantástica. Ela parecia a “deusa das águas”, ordenando que elas se afastassem e abrissem passagem. Parou no outro lado do Golfo, e se concentrou olhando em sentido contrário para abrir o canal mais ainda. Aarão avançou com os semitas, os outros chefes com suas tribos, e Moisés em último lugar, correndo a cavalo. No outro lado, ficou Ramsés, Thermuthis e seu esposo, seu pai, que desta vez era um homem livre, e os soldados, ficaram acenando para eles e dizendo adeus.

Andaram até o anoitecer, ergueram as tendas, se alimentaram, e ao raiar do Sol, a caminhada continuou.

Quando se chegou ao primeiro oásis, Aarão parou a caravana. Moisés e os chefes de todas as tribos analisaram os mapas, para marcar a próxima permanência, e decidiram esperar um tempo entre cada estação, para alimentar os carneiros, bodes, cavalos, camelos, pois nos oásis sempre havia frutos maduros para os meninos. Moisés dizia que um “Deus” lá no alto os protegia e que jamais passariam fome.

Durante mais de dois anos, cruzaram a Península do Sinai, o Istmo de Suez, e desceram para Sul e Oeste, em busca de Canaã, sempre serpenteando entre terras onde encontravam água fresca, tempo agradável, para as mulheres parir seus filhos e para os velhos reporem as energias. Séfora cuidava dos partos, dos recém-nascidos, e Moisés da convivência entre os homens.

Mas, pouco a pouco, rixas entre vizinhos começaram a aparecer.

O primeiro cadáver que foi encontrado estendido no chão, foi de um cassita, morto durante a noite por causa da disputa por um carneiro. Moises foi drástico, condenou o assassino a fazer o caminho de volta. Deu-lhe carne seca, e o homem partiu, perdendo-se no deserto.

Depois foi uma mulher hitita, adúltera, que morreu a facadas vítima do próprio marido.

Moisés desta vez expulsou o marido e o amante da mulher, que se perderam no caminho, se odiando, sem armas, para que se matassem com as mãos, ou, morressem castigados pela fúria das tormentas de pó.

Além de crimes com morte, apareceram casos de adultério, de homens pulando a cerca entre eles mesmos, pois a homossexualidade estava em toda parte. Também iniciaram os estupros a menores, roubos, e o que era pior do que tudo, a veneração a “Deuses imaginários”. Havia os que adoravam bodes, os que idolatravam o demônio, os que veneravam gatos, pássaros, e a lista ia longe. O triste do fato era que os “Deuses imaginários” pediam “bacanais”, com muito sexo e com “sacrifícios de bichos”. Carneiros que sangravam, morriam, apodreciam em vão, pois depois desses bacanais, eram abandonados aos abutres.

E cada vez que acontecia um fato desagradável, Moisés parava a caminhada, lia as tábuas, fazia discursos ardentes, falava das virtudes humanas, e os homens juravam arrependimentos, e por um tempo a tranquilidade tomava conta. Mas, tudo voltava, sempre em surdina, escondidos, enquanto Moisés e Séfora se perdiam dentro de sua barraca, onde Séfora limpava o corpo com um pano perfumado. Em seguida lavava o marido com uma esponja molhada, faziam amor, e se perdiam em meio ao prazer noturno. Só que desta vez dormiam 5 horas para repor o cansaço da caminhada.

Enquanto eles se amavam, os homens se odiavam entre si. Os semitas eram os mais detestados. Apareciam com feridas, surrados em surdina, com medo de denunciar os agressores. Ou, o que era pior, eles mesmos se vingavam na calada da noite.

E Moisés terminou se transformando em carrasco. Todos os dias, alguém era deixado para trás por transgredir o pacto da aliança. Eram estupradores, ladrões, assassinos, condenados ao desterro, sem dó nem piedade. As mulheres ficavam chorando, pois eram sempre os homens fortes os que faziam as atrocidades.

O fato mais terrível aconteceu, quando Aarão foi assassinado por um chefe caldeu, que odiava sua influência e sua autoridade entre o povo. Eleazar tomou seu lugar, e Moisés desta vez enviou de regresso 30 pessoas.

Quando Moisés subiu o Monte Hor, para ver o horizonte com lentes de longa distância, viu Canaã como um ponto impossível, pois se chegasse com esses homens sem honra, nem virtudes, Isaque mataria metade deles. Escolheu outro lugar, um manto verde na beira do rio Jordan, e desceu para instruir todos os chefes da nova rota. Rumou para a Palestina, onde existiam algumas tribos de cananeus e filisteus, em convívio pacífico.

Foi a vez de Moisés assinalar seu próprio destino, pois a revolta por baixo dos panos pouco a pouco se iniciou. A intriga entre chefes de várias etnias começou a ser articulada. Mudar a rota significava castigo. Homens apavorados de medo começaram a difamar que Moisés estava levando-os para a “morte”.

Séfora espionava as cabeças desses conspiradores, hipnotizava-os, deixava-os amnésicos, e conseguia salvar seu marido da morte, dia após dia. Para piorar a situação, uma planície verde, gigantesca, maravilhosa, entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Morto, onde se levantaria uma nova nação, estava na frente, e o povo começava a correr com euforia, depois de mais de oito anos de caminhada árdua e cansativa.

Foi olhando para esse Paraíso, que Moisés começou a morrer.

No maior desespero, Séfora deu um berro telepático para Adão, quando não conseguiu antídoto para esse veneno, que Moisés ingeriu durante um banquete. Ela deu para seu marido todos os chás possíveis em meio desse deserto, mas Moisés começou a se apagar como uma chama. A nave de Adão parou por cima da caravana, levitou Moisés e Séfora, e deixaram na tenda um cadáver bem parecido com ele.

Não houve condenados desta vez, pois para todos os chefes Moisés morrera de doença desconhecida.

Após a cremação do falso Moisés, Eleazar alcançou a “Terra prometida” cansado, cheio de inimigos, cujas tribos se dividiram, formando grupos separados. A Palestina foi desmembrada entre todas as etnias como fatias de um bolo, dando origem a doze povos diferentes, que passaram a cuidar de seus territórios sem deixar que vizinhos os visitassem. Como um cão vigia seu osso.

A única coisa que sobreviveu do sonho de Moisés foi a “Arca da Aliança”, que se tornou um cofre sagrado e um símbolo de sabedoria. O primeiro rei dos semitas, Saul, levantou um templo, em cujo lugar foi guardada essa Arca. Na morte dele, governou Davi, e, em seguida, assumiu o poder Salomão, que construiu o mais lindo templo da antiguidade, e cujo rei aclamou as tábuas de pedra como as “Leis de Moisés”. Leis sagradas, escritas por um Messias. Um profeta. Um iluminado. Uma filosofia que cruzaria mais de três milênios.

Notas finais
A única coisa que sobreviveu do sonho de Moisés foi a “Arca da Aliança”, que se tornou um cofre sagrado e um símbolo de sabedoria. O primeiro rei dos semitas, Saul, levantou um templo, em cujo lugar foi guardada essa Arca. Na morte dele, governou Davi, e, em seguida, assumiu o poder Salomão, que construiu o mais lindo templo da antiguidade, e cujo rei aclamou as tábuas de pedra como as “Leis de Moisés”. Leis sagradas, escritas por um Messias. Um profeta. Um iluminado. Uma filosofia que cruzaria mais de três milênios.