— Trabalhar, mulher! Agora você está na vida bandida!

Bia já esperava por aquilo. Após despertar da noite mal dormida que ainda cheirava ao bafo de cachaça de André e ainda sentia a dor das maneiras brutas dele no amor, Bia vestiu de novo a única roupa que trouxera, e acompanhou André. Subiram por vielas íngremes da favela, cruzando com crianças brincando em meio ao mau cheiro do esgoto que escorria a céu aberto. Levou um susto quando viu o primeiro homem armado com metralhadora, mas depois do quinto, acostumou-se.

Na boca de fumo, percebeu que André não era o chefe ali, a julgar pelo nervosismo dele ao apresenta-la a tipos mal encarados e o cuidado dele para que ela não visse certos compartimentos ali. Foi logo confinada em uma salinha de teto baixo com outras mulheres jovens.

— Vai fazer trouxinha!

As mulheres ensinaram-na a enrolar trouxinhas de pó e maconha na quantidade certa. Bia repetia mecanicamente a operação, nervosa demais para avaliar a situação em que se encontrava. De vez em quando pensava na mãe, nos irmãos e no pessoal da igreja, e vinha-lhe na memória as palavras de dona Maria Lúcia. Mas agora estava independente, como queria, estava na vida bandida.

Rindo, André colocou em suas mãos o maço de notas, velhas mas cuidadosamente embaladas, pois tudo ali era feito com disciplina e esmero. Nem acreditou na quantidade de dinheiro em suas mãos. A vida bandida compensava, sem dúvida. De pronto, saiu para comprar roupas novas, que era o que mais necessitava no momento. André saiu para festejar qualquer coisa com os amigos que ela não conhecia sem pensar nela, como era de seu hábito. Quando Bia regressou, ele já estava em casa, e olhou-a zangado.

— Não é para sair assim sem me avisar!

Bia ficou meio sem jeito, e mostrou-lhe as roupas que comprara. Ele deu um trago na garrafa de cachaça e jogou-a na cama, querendo mais sexo.

Os dias se passavam, e Bia se acostumou à rotina de fazer trouxinhas na boca de fumo. Por vezes sentia-se angustiada e voltava a lembrar da família e das palavras de dona Maria Lúcia, mas o maço de dinheiro que recebia como pagamento compensava. Só não conseguia se enturmar com as colegas ali, achava-as muito esquisitas e não confiava nelas. Ofereciam-lhe drogas e ela provava, mas sempre passava mal depois. Ansiava por farrear, divertir-se, mas ressentia-se da indiferença de André, que só a procurava para saciar-se no sexo e para fazê-la trabalhar, e às vezes sumia sem avisar. Vida bandida.