Silvana acabou aceitando o convite de dona Maria Lúcia para ir ao encontro da igreja. Não era religiosa, mas uma coisa tinha que admitir: os filhos de suas amigas evangélicas eram muito bem criados. Então, alguma coisa elas tinham a ensinar.

Foi recebida por Maria Lúcia, que a apresentou às amigas frequentadoras da igreja e ao pastor. Silvana achou todos mais simpáticos do que pareciam à primeira vista, e sentou-se em um semicírculo com os demais. O pastor fez um sermão agradável, citando passagens da bíblia que falavam de como os pais devem criar os filhos, mas sem carregar muito nas exortações, e logo passou a palavra aos fiéis. Cada uma contou os problemas que vinham tendo com seus respectivos filhos, e o pastor orientou-as como pôde. Os casos eram muito parecidos. Silvana teve a impressão de que cada uma ali tinha um medo enorme de usar a disciplina, como se fazê-lo fosse uma afronta aos filhos, e o resultado era que o comportamento deles piorava cada vez mais, mas o pastor tinha palavras muito claras para explicar como a disciplina podia ser um ato de amor, e Silvana concordava inteiramente com aquilo. Quando chegou sua vez de falar, narrou tudo o que havia acontecido entre ela e Bia, de como ela a pegara para adotar com a melhor das intenções, querendo auxiliar um pessoal pobre e desajustado que trabalhava na fazenda de sua avó, de como ela sempre lhe dera tudo na mesma medida que dava aos filhos, inclusive as repreensões, mas o que adiantava com os filhos não adiantava com Bia.

— Se você deu, e não teve em troca, então errou. Disse nosso senhor Jesus Cristo, não atireis aos cães o que é sagrado, nem deis pérolas aos porcos, pois eles destruirão tudo sob seus pés e se voltarão contra vós! Atente sobretudo a essa última frase: se voltarão contra vós! Mas por amor você a adotou, então por amor você vai disciplinar essa menina!

Silvana baixou a cabeça. Não tinha como discordar de tudo o que o pastor dissera. Querendo ajuda-la, ele a apresentou a uma obreira da igreja, dona Lígia, que também tinha uma filha adolescente que fora adotada.

— Ela vai te dar todas as dicas, confie nela!

Dona Lígia era muito simpática, e convidou Silvana para ir à casa dela naquele dia mesmo. Silvana sentiu-se confortada só de entrar lá, era um ambiente muito limpo e agradável, com uma decoração de bom gosto onde predominavam os motivos religiosos. Foi educadamente cumprimentada pelo dois filhos e dona Lígia, um deles ocupado com o computador no quarto, o outro lendo revistas na sala. Sentada no sofá, viu sair da porta da cozinha uma adolescente de cabelos encaracolados muito bonita, mas que parecia fisicamente diferente dos irmãos. Usava um vestidinho simples, e estava descalça.

— Essa é a Marcela, a que foi adotada. Marcela, vem cumprimentar a visita!

A menina cumprimentou-a educadamente, e em seguida veio da cozinha trazendo duas xícaras de café. Dona Lígia continuou a conversa.

— Eu adotei tem uns dois anos, mas foi um processo gradual. Primeiro ela veio morar uns tempos, como experiência. Mas ela não tem as mesmas regalias que os irmãos! Ela estuda no mesmo colégio, mas ela tem que fazer trabalhos domésticos aqui em casa como forma de pagar por eu haver acolhido ela, e isso ficou claro desde o princípio. As regalias eu vou concedendo aos poucos, conforme o merecimento, mas sempre deixando alguma coisa sem conceder, para que ela não perca a ambição!

— Foi esse o meu erro! — Disse Silvana, abrindo o coração — Eu concedi à Bia tudo de mão beijada desde o início, então não deixei nada para ela querer conquistar!

— Todas nós cometemos erros! — Respondeu dona Lígia — mas a religião está aí para nos encaminhar!

— Pois é, eu quis tratar igual...

— Mas você não pode tratar igual aos que são diferentes! Essas meninas que vieram de família desestruturada em geral foram criadas largadas, e não têm aquele senso de respeito à autoridade que a gente desenvolve quando os pais são presentes desde o início. Eu senti isso com a Marcela. Então eu não trato diferente, porque se com os meus filhos basta uma palavra, com ela precisa mais. A disciplina para os meus filhos é uma, a disciplina para ela é outra!

— Aquelas palavras caíram fundo em Silvana. Havia tempo sabia de tudo aquilo, mas precisava que alguém lhe dissesse na lata, e agora sentia um enorme alívio: havia enfim vencido a batalha contra seus próprios receios. Despediu-se agradecendo muito a dona Lígia, e prometeu voltar. Chegando em casa, repetiu a pergunta:

— Alguma notícia da sua irmã?

— Não.

Mas daquela vez a conversa não morreu ali. Silvana prosseguiu:

— Mas me digam, o que vocês acham que eu devo fazer com a irmã de vocês?

Fernando e Rosana menearam a cabeça. Rosana respondeu:

— Olha mãe, ela sempre teve tudo que a gente teve, não deu valor, então o negócio é largar de mão!

— Mas se não for largar de mão, então tem que tomar uma atitude! Não dá mais para ficar pondo a mão na cabeça dela! — Completou Fernando.

O olhar de Silvana estava decidido.