Adotada!
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Na sede do conselho tutelar, sentada na cadeira, Bia escutava dona Maria Lúcia falar. Observava as roupas sóbrias que ela usava, ela que tinha acabado de vir da igreja onde era pastora, e admirava a maneira articulada com que ela desfiava os argumentos, destacando bem as palavras, porém sem raiva, confiante em sua própria eloquência.
— Você decidiu sair de casa por vontade própria, e com o seu procedimento você desonrou sua mãe, contrariando os mandamentos de Deus nosso senhor, que manda honrar pai e mãe! Agora você deve fazer o que for devido para merecer o perdão de sua mãe, pois você não está em posição de colocar condições. A sua mãe é que vai ditar as condições!
Bia não tinha quase nada para dizer. Sentia-se caída do céu, em meio aos escombros de suas ilusões. Agora era aguardar o que desse e viesse.
Rumando em direção ao conselho tutelar, dona Silvana não tremia os braços no volante, apesar do engarrafamento. Estava muito calma. As conversas que tinha tido com as amigas evangélicas haviam calado fundo em sua mente e mudado bastante seus pontos de vista. Agora sabia exatamente o que fazer.
Quando Bia viu a mãe entrando na sala da conselheira, sentiu um ligeiro arrepio na espinha, mas aquietou-se ao notar a serenidade dela. O olhar de dona Silvana cruzou o seu sem raiva nem mágoa, e Bia não se animou a cumprimentá-la. Sem perder o ar de quem prega em um púlpito, dona Maria Lúcia convidou a amiga a sentar-se, e lhe deu a palavra.
— Bia, no seu último telefonema, você me chamou de mãe, não foi?
— Foi.
— Então eu posso te chamar de filha. Você quer voltar para casa, minha filha?
— Quero, mas...
— Não tem mas. Isso sou eu que digo. Você não estava satisfeita com as coisas do jeito que estavam lá em casa, por isso que saiu, não foi?
— É...
— Então as coisas não podem continuar como estavam. O regime agora vai ser outro. E se você saiu, quer dizer que não deu valor às prerrogativas que tinha. Então essas prerrogativas serão tiradas. Você entende, minha filha?
Bia baixou os olhos. Queria ter alguma coisa para dizer, mas não tinha. A calma da mãe a deixava desconcertada, diferente dos dias passados, quando os gritos da mãe despertavam a sua adrenalina, e ela se punha a gritar também, cheia de razão.
— Mas eu não posso dizer mais sem antes consultar seus irmãos. Eles também moram na casa, e eles também foram atingidos pela desfeita que você fez. Então eu tenho que escutar as condições deles para te aceitarem de volta. Eles estão lá te esperando. Vamos lá agora, e lá que tudo vai ser decidido!
Dona Silvana despediu-se da amiga, agradecida pela ajuda que ela havia prestado. Dona Maria Lúcia disse mais umas palavras de ânimo tiradas da bíblia, e acenou em despedida. Entraram no carro, e Bia ficou calada durante todo o trajeto. Quando entraram na casa, Bia teve uma sensação estanha. Parecia que nunca estivera ali, e que entrava pela primeira vez. Os irmãos aguardavam-na sentados, ar magoado. Bia não teve ânimo para cumprimentá-los. Sabia que estava ali para ouvir, e não para falar.
— Eu já conversei com a irmã de vocês, e já dei uma ideia de como vai ser daqui para diante, e agora queria ouvir a opinião de vocês dois. Conforme eu disse a ela, a desfeita que ela fez não foi só contra mim, mas contra vocês também. O que vocês dizem, vocês acham que eu devo aceitar sua irmã de volta?
Ambos sacudiram a cabeça, parecendo pensar. Fernando, o mais velho, respondeu:
— Eu acho que a senhora deve perdoar, mas perdoar não quer dizer que não vai ter castigo.
— E que castigo vocês acham que eu devo dar?
— Ah, uma coça da boa! – Disse Rosana, a mais nova.
— Seja qual for, tem que ser um castigo para valer! – Completou o mais velho.
— E você, minha filha, o que diz?
Bia sentiu que tinha que falar alguma coisa, mas tinha um nó na garganta. Seria bom se tudo terminasse com uma coça e depois voltasse ao normal, mas sabia que não seria assim. Quando o nó se destravou, replicou:
— Mãe... eu queria que a senhora me perdoasse...
— Filha, isso você não precisa me pedir. Você já está perdoada, do contrário não estaria aqui, neste momento. O castigo que eu vou te dar vai ser para te corrigir, não para você obter o meu perdão.
Bia percebeu naquele momento que as palavras não iam salvá-la do destino que a mãe lhe reservava. Dona Silvana prosseguiu:
— Então você concorda que fez errado, e está arrependida?
— Estou...
— Então sabe que merece o castigo. Você não deu valor às prerrogativas que eu te concedi, então eu vou tirá-las. Você reprovou na escola particular boa que eu paguei. O Estado diz que eu tenho obrigação de te dar educação, mas não diz que tem que ser em escola particular. Então você vai estudar agora em escola pública.
Bia novamente não teve o que dizer. A mãe prosseguiu:
— Eu te dei um quarto só seu, enquanto seus irmãos dividiam outro quarto. Agora o sua irmã vai ficar com seu antigo quarto só para ela, e você vai ficar no quartinho de costura lá em baixo!
Bia agora arrependia-se bastante de tudo o que fizera, mas não conseguia manifestar nenhuma revolta, pois as palavras da mãe eram claras e cheias de lógica.
— Eu te dei roupas, e o seu quarto tinha um armário. Mas agora não vai ter armário no seu quarto, e as suas roupas vão ficar fechadas no meu armário, sob minha guarda. Eu vou dar para você as roupas que você vai vestir.
Bia só queria que a mãe terminasse, mas ela não parava de ditar mais sentenças.
— Você sempre pôde dispor à vontade de tudo aqui em casa, da televisão, do som, do computador. Mas agora você vai precisar da licença dos seus irmãos para poder usar! Eu vou dar senhas para eles!
Os irmãos assentiram com a cabeça. A mãe continuou:
— Você não tinha obrigações aqui em casa. Mas agora você está encarregada dos serviços, vai ter que arrumar a casa todos os dias, fazer faxina, passar roupa, varrer quintal. Eu vou deixar todo dia uma lista das tarefas que você vai ter que fazer! Vai ser assim agora. Muito bem, o que você me diz?
Bia só pôde baixar a cabeça e concordar. A mãe concluiu:
— Muito bem, minha filha! Agora, eu vou ficar com a sua mala de roupas, e você vai me devolver o seu celular. Fui eu que te dei esse celular, agora estou tomando de volta, e só vou te entregar quando você precisar. Você vai agora para o seu quarto novo, ficar lá um tempo para pensar em tudo o que você fez, e pensar em tudo isso que conversamos.
Bia entregou a mala e o celular à mãe, e rumou para o quartinho de costura, onde agora havia uma cama e uma mesinha para estudo. A mãe girou a chave na fechadura, e escutou a queixa de Rosana.
— Mas ela não vai tomar uma coça?
— Hoje não, mas sempre que precisar, vai tomar uma. Como o seu irmão disse, perdoar não significa que não vai ter castigo.
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