Só a atmosfera limpa da igreja, arejada com paredes bem pintadas, já transmitia paz a dona Silvana. As palavras da amiga Maria Lúcia, serenas e pausadas, no mesmo tom do sermão que ela acabara de pronunciar havia pouco, entravam como um jato de luz.

— Você está fazendo muito bem, Silvana! Mas é preciso não confundir castigo com disciplina!

O olhar de interrogação de dona Silvana foi prontamente respondido.

— Castigo é o método, disciplina é o objetivo! O que corrige o caráter do pecador não é o castigo, e sim a disciplina! Então, o castigo solto, desvinculado de uma disciplina, é prejudicial. Você antes procurava dar os mesmos castigos para as mesmas infrações, igualmente para todos os seus filhos, não era assim?

— Pois é, eu sempre procurei ser justa...

— Mas a justiça é tratar os iguais com igualdade, e os desiguais com desigualdade! Cada um tem seu caráter, e a disciplina é para ser moldada conforme o caráter de cada um. A bíblia diz: aquele que retêm a vara, odeia seu filho, tu o fustigará com a vara e livrará sua alma do inferno! Mas o castigo não precisa ser necessariamente no corpo. Tem que ser medido conforme a pessoa e conforme o que ela fez, para que se torne disciplina, e não seja apenas um castigo que você dá hoje e amanhã já se esqueceu!

Dona Maria Lúcia fez uma pausa, notou bem os olhos atentos e fixos nela de dona Silvana, e prosseguiu:

— Você pode tirar um objeto ou um privilégio, caso ela tenha abusado do uso daquele objeto ou daquele privilégio, para ela aprender a dar valor ao que perdeu. Assim é passada uma mensagem. Você pode mandar ela reparar algum dano que causou a si própria ou aos outros, por exemplo, mandar ela pedir desculpas a alguém que ofendeu, fazer algum trabalho em casa ou ficar estudando em vez de sair caso esteja fraca na escola, assim passa a mensagem de que tudo tem um retorno.

Dona Silvana assentiu com a cabeça. A amiga fez outra pausa, e prosseguiu:

— O castigo pode ser no corpo também, mas a disciplina é sempre um ato de amor, que visa a correção. Algumas pessoas têm mais cabeça, outras são dominadas pelo corpo, então paga com o corpo. Eu considero a disciplina no corpo a mais indicada para a adolescente que se prostitui!

Dona Silvana assentiu novamente com a cabeça, sentindo-se fortalecida por dentro com aquelas palavras, e agradeceu à amiga:

— Muito obrigado por tudo, Maria!

— Disponha! E vê se traz a menina aqui, que vai fazer bem a ela!

Bia continuava presa ao roteiro estipulado pela mãe adotiva, ainda fazendo um balanço da situação e sem saber bem o que pensar. Ia e voltava da escola, fazia as tarefas domésticas do dia, pedia licença para usar o celular e o computador, mas sentia-se sem muito assunto para conversar com as amigas. Nem sabia se ainda as podia chamar de amigas, queria que uma lufada de vento a varresse por dentro e levasse embora tudo o que não prestava. Assim, concordou de imediato quando a mãe a convidou para irem na igreja no dia seguinte, tal como se houvesse recebido uma ordem para encerar a sala ou limpar as vidraças. Por dentro surpreendeu-se, pois sempre abominara tudo o que se referisse a igrejas, mas estava mesmo a fim de coisas novas.

Achou tudo lá muito limpo e comportado, mas o pessoal parecia-lhe perfeitamente normal. Havia muita gente jovem, vestiam com simplicidade mas sem exageros, e conversavam sobre todos os assuntos comuns naquela idade. O pastor era novo e muito agradável, usava uma linguagem perfeitamente inteligível para s jovens, assim o sermão não lhe pareceu tão maçante. Ao final, saíram para o pátio exterior e a mãe apontou-lhe uma senhora que estava sentada em um banco, tomando um refresco ao lado de uma menina da idade dela.

— Essa é a dona Lígia, e essa é a Marcela! Disse a mãe, com jeito de quem queria que ela conversasse com as duas.

— Oi, que prazer, já tinha ouvido muito falar em você! Essa é Marcela, minha filha! — Cumprimentou a mulher, virando-se depois para dona Silvana — Vamos ali na barraquinha e deixar as duas à vontade!

Bia sentou-se no banco e ficou olhando para a menina, que lhe pareceu bem simpática. Ela sorriu e disse-lhe:

— Oi, sou a Marcela! Eu também sou adotada, igual a você!