Notas iniciais
Música: Maná – lábios compartidos

Eu a tinha em meus braços, a cada dia mais bela. O que mais eu poderia querer? Era isso o que eu queria para mim, para todo o sempre. Eu iria fazer isso. Mesmo sabendo que poderia me atrasar para o trabalho, eu permaneci ali vendo Yuuki dormir, a minha Yuuki. E sorri ao pensar que todos os dias seriam assim. O despertador tocou e eu rapidamente cessei seu barulho. Foi naquele momento que notei algo em cima da mesinha, perto do despertador. Uma pequena chave. Eu a peguei, notei que ela era pequena e que talvez abrisse o armário localizado no banheiro. Vesti um hobby e fui para lá.

Remédios, remédios de tarja preta no armário do banheiro. Yuuki havia dito que o armário era da mãe, certamente eram os remédios que ela tomou. Remédios fortíssimos que só pessoas com sérios problemas cardíacos deveriam tomar. Eu fechei o armário, mas não o tranquei. Deixei a chave no lugar e fui me arrumar para o trabalho.

...

Aquela escola não era a mesma sem Yuuki. Tudo era sem graça. Ainda sim eu fiz o meu trabalho com perfeição. Perguntei-me como estava sendo o dia de Yuuki em outra escola. Algo me preocupou. Sem mim para protegê-la, como Yuuki se viraria? E se houvessem professores de conduta duvidosa na outra escola? Senti um ciúme injustificado de qualquer um que se aproximasse de Yuuki. Eu era egoísta, reconhecia isso. Eu queria Yuuki para mim, só para mim. Fiquei envergonhado pelo rumo dos meus pensamentos. E assim transcorreu o dia. Decidi que buscaria Yuuki todos os dias na nova escola.

...

Yuuki, ao me ver em frente a escola, ficou radiante.

-Nossa! Não pensei que viria me buscar. –Ela falou abraçando-me.

-Virei buscá-la todos os dias, Yuuki. Se você não se importar, é claro.

-Jamais me importarei com isso. Sabe, acho que devemos ir ao supermercado agora. Vou preparar um jantar delicioso para nós dois.

-E eu irei ajudar, meu amor. –Yuuki pareceu estacar com minhas palavras.

-Fala de novo.

-O que? –Eu falei passando o polegar suavemente em meu rosto.

-“Meu amor.”. –Ela falou risonha. –Gosto de como isso soa.

Eu me inclinei e sussurrei em seu ouvido.

-Meu amor... –Yuuki se arrepiou com o meu ato.

-Vamos pra casa. –Ela disse. Beijou-me nos lábios rapidamente e logo estávamos no supermercado.

Eu olhei para Yuuki enquanto a mesma fazia o jantar. Ela cantarolava uma música americana que tocava no rádio em cima da geladeira. Aquela cena era bela, assim como tudo o que ela fazia. Então algo passou pela minha cabeça. Eu iria compartilhar com Yuuki.

-Yuuki, eu a faço feliz?

-Que tipo de pergunta é essa Zero? Claro que faz! –Ela falou enquanto cortava legumes.

-Se é assim... Gostaria de oficializar isso? –Yuuki estacou.

-Como assim? –Ela virou-se para mim. Eu levantei da cadeira e caminhei até estar diante dela. Ajoelhei-me e segurei sua mão. Yuuki já estava chorando antes mesmo de eu dizer algo. Eu sustentei meu olhar sobre o dela e sorri. Yuuki ajoelhou-se diante de mim e me abraçou chorando mais do que eu previa. Mesmo atordoado, eu correspondi ao seu abraço. A afastei vendo o quão deprimida Yuuki parecia estar, aquilo me preocupou profundamente.

-Yuuki, tudo bem chorar de felicidade, mas isso é um pouco demais, não é? –Eu falei em um tom brincalhão, mas Yuuki continuou a me olhar tristemente enquanto soluçava. Eu esfreguei sua costa com minhas mãos. –Hei, o que houve? Disse alguma coisa que a desagradou? –Yuuki me abraçou fortemente. Ouvi ela sussurrar bem baixinho algo, não ouvi bem, mas eu poderia jurar que ouvi “nós não temos um futuro”. Ficamos abraçados por um tempo. Eu a beijei na testa, nas bochechas, nas pálpebras, ponta do nariz e nos lábios.

-Então? Devo interpretar sua reação como um sim? –Eu falei divertido e Yuuki riu. Ela beijou-me avidamente.

-Vamos fazer diferente. Quer casar comigo, Zero Kiryuu?

-Claro senhora Kiryuu.

E então fomos para a cama ignorando o jantar. Eu não precisava de comida, eu só precisava estar dentro de Yuuki com meus lábios em sua pele sedosa e os fios de seu cabelos entre meus dedos. Nada mais.

...

-Yuuki? Dormiu? –Perguntei a ela. Yuuki remexeu-se em meus braços.

-Não. –Murmurou. Estava absurdamente cansada e logo sucumbiria ao cansaço.

-Sabe, eu achei a chave do armário do banheiro. Eu abri, só havia remédios lá. Deve ter sido de sua mãe.

-Provavelmente.

-Você poderia jogar os remédios fora, não é?

-Hmmm... Vou procurar alguém que precise dos medicamentos e os doarei. São caros demais para jogar fora, não acha Zero?

-Tem razão. –Infiltrei meus dedos nos cabeços sedosos e assim dormi mais rápido do que eu pretendia.

...

Os dias foram passando rapidamente quando estava sem Yuuki e lentamente quando estava com ela. Eu procurava, mesmo quando estava afastado de Yuuki, saber sobre ela. Comprei um celular para Yuuki, nos falávamos durante o intervalo de Yuuki e ela me avisava quando saia. Eu sempre pedia para que me contasse sobre sua nova escola. A vida de Yuuki estava da mesma forma quando estava na escola do diretor Kaien, mas ela não parecia se importar por não ter amigos. Enquanto Yuuki preocupava-se apenas com seus estudos e com pequenas coisas de casa, eu me preocupava com meu trabalho e com o casamento. Yuuki havia aceitado, eu queria ser seu marido o mais rápido possível. Comprei as alianças, mas o casamento não seria tão simples de ser feito. Eu queria que fosse algo mágico para Yuuki, típico de contos de fada, mas não tinha muito dinheiro disponível para isso. Eu sempre esperava Yuuki dormir para fazer o meu planejamento dos gastos da festa. As vezes eu acabava dormindo em cima da escrivaninha sob os papeis. Felizmente Yuuki não notava isso de tão exausta que dormia.

Algo me chamou a atenção. Yuuki parecia estar mais cansada. Pensei se isso se devia ao fato de que ela poderia estar grávida. Eu queria que isso fosse verdade. Já até havia pensado no nome deste filho: Ichiru, nome do meu irmão.

...

-Quer que agente vá nesse fim de semana a praia? –Eu perguntei enquanto Yuuki estava diante de mim fazendo dever de casa.

-Quero. Se importaria? Seria bom se saíssemos.

-Claro que não. Adoraria sair com você. Tem alguma praia em mente?

-Tenho e fica próxima daqui. Vamos amanhã, no sábado. Passamos o dia lá. O que você acha. Zero?

-Perfeito.

-Não vai atrapalhá-lo. Você deve ter muitas coisas para fazer e...

-Yuuki, não se preocupe. Até amanhã tudo estará resolvido e ai nós vamos despreocupados para a praia.

Então eu pensei:

“Será uma boa oportunidade para fazer novamente o pedido e oficializar com as alianças.”.

...

Trabalhei como um condenado durante a madrugada só para poder aproveitar o fim de semana com Yuuki. As alianças estavam à vista o tempo todo, eu não iria perdê-las.

Yuuki, como a pessoa zelosa que era, deixou tudo pronto, inclusive meus pertences. Após ter trabalhado e deixado tudo pronto, me recolhi. Yuuki não me esperou acordada, devia estar cansada. Não me importei. Deitei ao seu lado, a mantive em meus braços e adormeci rapidamente.

...

-Conseguiu terminar todo o seu trabalho? –Ela me perguntou. Seguíamos para Okinawa em meu carro.

-Sim. Eu lhe disse que conseguiria. –Sorri mantendo minha atenção na estrada. Yuuki abriu um pouco sua janela para deixar a brisa marítima entrar. Ela olhava pela bela paisagem fora do carro, foi difícil manter a concentração na pista. Meus planos se formavam de como a pediria em casamento, seria um pedido simples (Yuuki não gostava de extravagâncias), mas um pedido sincero e cheio de amor. Logo estávamos e uma pousada a beira mar que Yuuki conseguiu para nós dois. Yuuki alugou um chalé no complexo da pousada. Quando vi o lugar eu quis perguntar como pagou por tudo aquilo, certamente pagou sozinha visto que não pediu dinheiro para mim. Yuuki, sabendo o que perguntaria, colocou o dedo indicador em meus lábios enquanto sorria. Não fiz nenhuma pergunta sobre isso.

-Então, o que achou? –Ela perguntou enquanto entravamos na pequena sala. Deixei a bagagem no piso da sala.

-Um lindo lugar. Pela que ficaremos apenas nesse final de semana. –Falei. Yuuki sorriu.

-Poderemos vir aqui mais vezes se você quiser. Agora vamos explorar o chalé. –Yuuki pegou minha mão guiando-me pelo local. O chalé era pequeno, de decoração simples, mas de muito bom gosto. Feito em madeira e de arquitetura vitoriana, era composta de dois andares, o quarto era a única coisa do andar superior e no inferior uma pequena sala e uma pequena cozinha. Claro que não liguei muito para a inegável beleza do lugar, meus olhos eram todos de Yuuki. Quando por fim Yuuki nos conduziu até o nosso quarto onde deixei nossas coisas no chão, eu a beijei apaixonadamente e a empurrei levemente para a cama. Yuuki não protestou pela minha urgência em te-la, ela nunca protestava. Talvez ela sentisse o mesmo que eu. Não, era errado dizer a palavra “talvez”, até profano eu diria. Eu não tinha duvidas dos sentimentos de Yuuki, não quando eu tocava seu corpo macio, não quando eu a via me olhar daquela forma doce e erótica, não quando eu a tinha submissa a minha luxuria e paixão intensas. E enquanto minhas mãos estavam entrelaçadas as suas, meu corpo dentro do seu, eu tive mais e mais a certeza de que era com ela que queria viver, para sempre.

...

-O que achou da comida? –Yuuki perguntou enquanto servia a sobremesa. Era noite. Havíamos tomado banho juntos, comido juntos e descansávamos agora, enquanto comíamos sobremesa, na pequena sacada no quarto no segundo andar. A noite estava bela, fria e estrelada. Apesar da escuridão podíamos ouvir o mar. Yuuki sentou-se em meu colo, estávamos sentados em uma cadeira de balanço, comíamos o pudim feito por Yuuki.

-Estava ótima como tudo o que você prepara. –Eu disse.

-Você puxa meu saco demais, sabia Zero?

-Não acho que puxo seu saco. Só estou sendo sincero. –A aconcheguei em meus braços. Yuuki deu-me pudim na boca para comer. Ficamos assim por alguns minutos.

-Esse lugar é incrível, não é? –Ela comentou.

-Sim. Como descobriu esse lugar?

-Minha mãe me trouxe aqui nesse mesmo local. Foi aqui que eu descobri a sua doença, ela teve um ataque diante de mim.

-Se esse lugar trás tão más recordações, por que o escolheu? –Perguntei.

-Minha mãe adorava esse lugar pela sua beleza, eu também. Eu só quis compartilhar isso com você. Quero compartilhar tudo com você Zero.

-Fico feliz em ouvir isso por que tem algo que quero compartilhar com voce, Yuuki.

-E o que seria?

-Algo que já compartilhamos, minha vida. Quero compartilhar isso com você para sempre. Sei que já falamos sobre isso e você já até me fez o pedido, mas... –Retirei a caixa com alianças do bolso da calça moletom que eu usava. –Eu quero que seja minha esposa.

Yuuki nada disse. Apenas beijou-me sem nem ao menos responder ao meu pedido, sem nem ao menos me permitir colocar a aliança em seu dedo. Talvez não precisasse dizer nada. Eu ignorei a caixinha com alianças deixando-a cair no chão e a levei nos meus braços. Era incrível que quanto mais eu tocava seu corpo, mais eu a queria.

...

Não estava me sentindo muito bem. Acordei no meio da noite, Yuuki dormia nua em meus braços. A afastei de meu corpo a contragosto, vesti um hobby e fui em direção as malas. Estava com dor no estomago.

“Deve ter sido pelo pudim que comi, sou sensível a lactose.” –Pensei enquanto vasculhava as malas para quem sabe encontrar um remédio para dor no estomago. Claro que não encontraria o que procurava em minha mala, apelei para a mala de Yuuki. Achei uma pequena maleta preta com medicamentos, mas o medicamento que encontrei era diferente do que procurava.

Tarja preta.

Estranhei. Por que Yuuki trazia algo como aquilo? Eu li o nome do remédio, era conhecido por mim. O mesmo medicamento da mãe de Yuuki, Juuri, que atrasava sua grave doença no coração. Na pequena vasilha branca de comprimidos detectei um adesivo e um nome escrito.

Paciente: Yuuki Kuran.

Notas finais
Deixem pelo menos um review ¬¬