Adorável Estranha
3 Pistas
Notas iniciais
Estava um pouco atordoado. Folheei o livro de Maquiavel que Yuuki lia com afinco e só dormi às duas e meia da manhã. Enquanto seguia com o carro para o estacionamento destinado aos professores lembrava-se de uma determinada parte da obra que Yuuki grifou.
“O príncipe deve inspirar temor de forma que, se lhe for impossível ganhar o amor do povo, consiga evitar o ódio, porque pode se combinar perfeitamente o fato de ser temido com o de não ser odiado. O príncipe deve evitar tudo aquilo que possa torná-lo odioso ou desprezível”.
Yuuki estudava minhas táticas certamente, eu tinha certeza disso. Ou talvez estivesse pegando os ensinamentos de Maquiavel para se dar bem com os professores, evitar conflitos para que ninguém a prejudicasse. Era difícil saber, a garota era uma incógnita. Adentrei a sala com seu livro e teste na mão. Eu realmente queria vê-la, mas seu lugar estava vazio. Eu estranhei. Ela me parecia ser muito responsável para cabular aulas. Enquanto transcorria com minha aula na primeira turma senti uma pontada de decepção. Ela era a coisa mais interessante daquela escola. Senti uma forte inquietação para saber o porquê de ter faltado e aproveitei o momento da chamada dos alunos.
-Yuuki Kuran? –Olhei para sua carteira, não havia ninguém. –Alguém sabe por que a aluna faltou? –Todos ficaram calados. Olhei fixamente para um rapaz que sentava ao lado da carteira de Yuuki. Tinha certeza que ele sabia por que a garota faltara.
-Você. –Apontei para o aluno, ele empalideceu. –Sabe o que aconteceu com Yuuki?
-Quem é Yuuki, professor?
-A garota que senta ao seu lado.
-Eu nem sabia que o seu nome era esse. –Eu fiquei pasmo por que, apesar do absurdo que dizia, o rapaz parecia estar sendo sincero.
-Alguém sabe o porquê da falta de Yuuki Kuran? –Esperei alguém se manifestar, ela devia ter um amigo na sala. Ninguém. A garota parecia um fantasma, ninguém parecia notá-la... A não ser eu.
...
Na sala dos professores havia um computador um pouco obsoleto que poderíamos usar para consultar as notas de nossas turmas. Precisávamos apenas do código que acompanha o nome de cada aluno. Ao digitar o código que decorara pude ver o nome completo e todas as informações disponíveis dela. Notas excepcionais, nenhuma observação de seus professores. Nada de tão impressionante. O que me impressionou foram suas faltas. Como uma garota pode faltar tanto e não ser prejudicada? Houve época em que Yuuki passou três meses sem ir à aula, ainda sim suas notas continuavam perfeitas. Todas as faltas foram justificadas e eu me perguntei como ela poderia faltar tanto sem mais problemas? Que desculpa ela usava para tanto?
...
-Então eu acho que ficarei mais uma semana aqui. –Shizuka falou pesarosa do outro lado da linha. Eu já havia chegado em casa a duas horas.
-Não tem problema. –Eu disse tentando ser um pouco mais cortês com ela ao telefone, não queria mostrar frieza, mas isso era algo que Shizuka já esperava de mim.
-Farei o possível para chegar o quanto antes. Terei que desligar Zero. Um beijo. Eu amo você. Comprei algo para levar para você.
-Não precisava Shizuka.
-Mas eu comprei mesmo assim. Um beijo Zero. Amo você.
-Eu também. –Desliguei o celular e deitei na cama, finalmente meu merecido descanso. Em minhas mãos o livro de Maquiavel, o Príncipe. Eu o olhei varias vezes olhando as partes grifadas por Yuuki.
-Vamos ver qual é a sua tática, Yuuki. –Eu disse sorrindo. Adormeci em pouco tempo.
...
Ela tinha vindo para a escola. Eu a vi passar pelo corredor e seguir para a aula. Fiquei bem em seu encalço, ela estava sempre sorrindo. Cumprimentava a todos os funcionários que encontrava, mas não falava com mais ninguém. Ela parecia invisível para os outros alunos. Ela era anti-social, mas não parecia se importar. Entrei depois de Yuuki.
-Bom dia. –Cumprimentei os alunos, Yuuki olhou para mim e sorriu. Comecei minha aula como em todos os outros dias sendo sempre ríspido com os alunos. Eu tinha que manter minha postura e garantir ser respeitado. Volta e meia eu a fitava e lá estava Yuuki olhando para mim, sorrindo.
...
-Bem a aula acabou. –Disse e os alunos saíram da sala. Ela ficou arrumando suas coisas para sair.
-A propósito... –Eu comecei e peguei em minha pasta seu teste e o livro. -... Essas são suas coisas.
-Ah! Meu livro! Eu o estava procurando. Obrigada professor. –Ela veio em minha direção pegando o livro e o teste. Suas mãos tocaram as minhas por algum tempo, um tempo estranhamente demorado. Eu a fitei tentando entender por que ela não havia se afastado. Yuuki ainda me fitava sorrindo. Larguei suas coisas.
-Obrigada por me devolver meu livro. E obrigada pelo teste. –Ele os colocou na bolsa e moveu seu corpo com o intuito de partir.
-Espere! –Eu disse sem saber o que iria dizer.
-Sim? –Ela se virou, um sorriso nos lábios.
-Por que faltou ontem?
-Problemas pessoais, mas minha falta já foi justificada. –Ela continuava sorrindo.
-E qual seria esse problema? Eu olhei sua ficha e vi que você falta com muita freqüência.
-Eu preciso ir professor. Tem a próxima aula. –Ela pegou a maçaneta da porta. –Ah, professor?
-Sim?
-Vá até o parque Tóquio esta noite. Pode fazer isso?
Eu fiquei em choque. Ela estava me pedindo para sair para algum lugar com ela?
-Por quê? –Eu devia estar em choque, meu rosto certamente mostrava isso.
-O senhor parece muito tenso. Acho que deveria relaxar. Eu conheço uma boa forma de fazer isso. Basta ir ao parque Tóquio as sete e meia.
-Aquele parque está fechado. Não há nada lá. –Eu nem conseguia pensar coerentemente.
-Eu sei, mas ainda sim peço que vá. –E com estas palavras Yuuki deixa minha sala.
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