Adorável Estranha

18 Horas, minutos, segundos


Notas iniciais
Música: November rain – Guns and roses

O tic-tac do relógio era enervante, mas nem mesmo aquele som me tiraria do meu torpor. A boca estava seca, o corpo protestava em cansaço, mas nada nem ninguém me tirariam daquela cadeira dobrável na sala de espera do hospital.

De minuto em minuto eu olhava para a sala do médico responsável por Yuuki, esperando por qualquer movimento do mesmo que denunciasse alguma noticia, de preferência boa, mas nada ocorreu durante muito tempo. Doze horas haviam se passado desde que encontrei Yuuki desacordada em uma cadeira de balanço na pousada onde estávamos hospedados. Sai às pressas até o hospital local, mas Yuuki acabou sendo transferida de ambulância para o hospital na capital onde era tratada. Apenas tive tempo de fechar a conta na pousada e recolher nossos pertences para seguir a ambulância. Nem ao menos tinha ido para casa ou comido algo. Nossas coisas ainda em meu carro que estava no estacionamento do hospital. Eu estava em um estado deplorável, mas ainda sim eu permaneceria naquele hospital a espera de noticias. De uma coisa eu sabia: Yuuki estava no CTI.

Eu estava em pedaços, mesmo que seu estado de saúde estivesse estável, eu ainda não conseguia tirar da minha cabeça sua imagem frágil e debilitada que encontrei na cadeira de balanço. O tipo de imagem que me atormentaria durante toda a minha vida. O pior é que eu sabia que era culpado pelo seu atual estado. Eu não deveria ter fugido quando soube da verdade ou ter discutido com Yuuki, mas eu o fiz. Por minha culpa Yuuki quase morreu. Esse pensamento era o suficiente para me sentir uma criatura detestável, nojenta. Eu me permiti ficar mergulhado naquela autodepreciação enquanto sentia meu corpo protestar por ficar tanto tempo sentado em uma cadeira desconfortável. Uma voz me chamou a atenção.

-Zero? –Olhei para cima e vi Kaien Cross de pé olhando-me com curiosidade. Estaquei de surpresa.

-Diretor Cross? O que faz aqui? –Perguntei verdadeiramente surpreso.

-O médico de Yuuki avisou-me que ela passou mal e foi internada por isso estou aqui. A muito tempo, quando descobri seu problema de saúde e soube que Yuuki estava só no mundo, pedi ao médico que me mantivesse informado sobre seu estado de saúde para eu ajudá-la quando possível. Assim que Yuuki deu entrada ele me ligou. Sei que pode parecer um pouco estranho, mas eu meio que me responsabilizei por ela. –Kaien disse sentando em uma cadeira ao meu lado. –Não me interprete mal Zero. Eu só...

-Eu entendo e agradeço por isso. –Falei num fio de voz.

-Você estava com Yuuki quando ela passou mal? –Kaien perguntou, eu assenti. –Então estão realmente juntos?

-Sim, nós estamos. Nós estávamos no litoral quando ela passou mal. Veio transferida de ambulância do hospital onde eu havia levado ela. –Falei mecanicamente, ainda alheio a tudo na tentativa de esquecer um pouco a dor que me consumia. Senti a mão de Kaien em meu ombro.

-Vai ficar tudo bem, Zero. Yuuki é forte. Ela já passou por situações complicadas e triunfou. –Ele disse numa voz afável, mas eu sabia que desta vez seria diferente. Por que desta vez Yuuki passou mal não pela complicação de sua saúde, mas por que eu agi da pior forma. Eu temia que isso fosse o suficiente para matá-la, para que Yuuki não lutasse pela sua vida. Eu estremecia toda vez que eu pensava nessa desastrosa possibilidade.

-Não vai ficar nada bem Kaien. Por minha culpa Yuuki está assim. Se acontecer algo a ela eu não vou me perdoar. –Acabei dando vazão às lagrimas que, no meu desespero em salva-la, reprimi até aquele momento.

-Não se culpe Zero. Não é culpa sua se Yuuki passou mal. Ela...

-Não Kaien... A culpa é minha. Nós discutimos eu... Eu não sabia que ela estava doente.

-Não? Então Yuuki não tinha contado a você ainda? –Kaien mostrou-se surpreso.

-Não, não tinha. Eu descobri ao acaso. Kaien, você sabia de tudo isso então eu me pergunto... Por que não me contou? –Eu o olhei derrotado. Se Kaien tivesse dito desde o inicio as coisas poderiam ter sido diferentes, ou não.

-Zero, Yuuki não queria que ninguém soubesse. Eu só soube por que ela precisava justificar suas faltas. Ela me pediu para não contar por que não queria que ninguém sentisse pena dela. Lamento Zero. –Kaien disse com pesar. Eu fixei meus olhos no chão.

Naquele momento o médico responsável por Yuuki finalmente apareceu. Eu quase saltei da cadeira quando vi sua aproximação.

-Doutor, como ela está? –Perguntei com a voz falha sabendo que teria um ataque se ele dissesse algo negativo. Kaien colocou a mão no meu ombro praticamente obrigando-me a sentar na cadeira.

-Bem a paciente Yuuki está sedada tomando seus medicamentos intravenosos. Seu estado de saúde é estável. Infelizmente seus batimentos cardíacos e respiração estão muito lentos por isso estamos administrando adrenalina em seu sistema circulatório para manter um ritmo saudável de seu coração...

A voz do médico soava longe. Mesmo sendo tão polido em sua fala e utilizando termos tipicamente médicos eu sabia o que ele queria dizer: Yuuki não estava nada bem. Coloquei minha cabeça entre as mãos e tentei respirar normalmente. Idéias bizarras varriam minha mente, idéias como de perdê-la, coisa que nunca havia passado por mim, estavam vindo à tona. Eu não queria pensar em como seria sem Yuuki, era insuportável pensar! Apenas acordei daquele pesadelo temporário quando ouvi os passos do médico se afastaram. Kaien olhava-me agoniado.

-Zero, acho melhor ir para casa. Yuuki está no CTI e não receberá visitas por um tempo e...

-Não, eu quero ficar aqui. Eu só saio quando Yuuki estiver boa. –Murmurei. Kaien olhava-me com compaixão.

-Zero, vai ficar doente desse jeito e isso não pode acontecer. Yuuki precisa de você.

As palavras de Kaien tiveram seu efeito. Yuuki precisava de mim, ela precisava de mim 100%. Aquilo foi o suficiente para eu me levantar e seguir junto a Kaien para casa.

...

Eu não tinha dormido bem e comia muito pouco. O celular nas mãos para quando o médico ligasse. Consegui de Kaien me dispensasse por uns dias com a promessa de repor as aulas. Claro que ele foi compreensivo, nem todos os patrões teriam a sua conduta. E então eu comecei a freqüentar o hospital na esperança de que Yuuki se recuperasse e pudéssemos retomar nossa vida a dois. Então eu esperei passando boa parte do dia no hospital, irracionalmente ansioso para o momento em que poderia ver Yuuki, e assim passaram-se três dias até que Yuuki fosse transferida para um apartamento. Três dias em que estive de vigília importunando o médico para visitá-la, para ter noticias. Nada. Como se ficasse feliz em me ver em agonia, como se não quisesse me deixar infeliz com a verdade, o médico travou a língua e, utilizando de termos técnicos, apenas dizia o que eu já sabia: Yuuki não estava nada bem. Ainda sim, naquela manhã de quarta, Yuuki foi transferida para um apartamento.

Eu havia sido informado pelo médico através do celular e prontamente me arrumei e rumei para o hospital. Avisei a Kaien e ele ficou feliz, iria visitá-la ao final do dia.

Eu estava ansioso, o coração martelando no peito. Os dias em que Yuuki esteve internada foram o inferno! Eu não comi ou dormi direito, tive pesadelos horríveis quando conseguia dormir. Cheguei cedo ao hospital, duas horas mais cedo do que o que o médico havia estipulado. Eu o encontrei em frente ao seu consultório.

-Doutor, eu sou Zero Kiryuu. Vim ver a paciente Yuuki Kuran. –Falei tentando contr a ansiedade que grasnava dentro de mim.

-Bem senhor Kiryuu, o horário de visitas é daqui a duas horas e...

-Doutor, por favor, eu estou fazendo vigília no hospital desde que minha mulher se internou aqui. Eu preciso vê-la a qualquer custo! –Disse e algo em como estava agindo degelou o coração daquele profissional. Com um suspiro resignado ele disse:

-Senhor Kiryuu, permitirei que veja a senhorita Kuran, claro. No entanto eu devo lhe advertir que Yuuki está muito fraca e não pode sofrer nenhum tipo de aborrecimento. Além disso, devo informá-lo que para a proteção de Yuuki terá de vestir roupas para evitar que ela se contamine com algo, Yuuki está realmente debilitada.

Suas palavras me assustaram. Eu recuei involuntariamente um passo. Yuuki estava realmente mal? Temi encontrá-la e me deparar com uma cena terrível. Ainda sim...

-Farei o que for possível para vê-la, doutor. –Disse com falsa firmeza. O médico conduziu-me até um local onde tive de vestir luvas, um avental, máscara e uma touca. Senti-me desconfortável com as vestimentas, mas estava disposto a tudo para vê-la e quem sabe falar com ela. O médico indicou-me o quarto, entrei e me deparei com uma enfermeira na ante-sala.

-Bom dia doutor. Bom dia senhor. –Nos cumprimentou. Eu sussurrei um bom dia e caminhei até a entrada de seu apartamento sendo seguido discretamente pelo médico. Quando entrei completamente no aposento eu estaquei violentamente.

Uma garota incrivelmente branca deitada em uma cama com um tubo intravenoso preso ao pulso esquerdo e com fios colados em seu peito com adesivos medindo sua pressão arterial. Um tubo preso a narina para facilitar a respiração, uma jovem incrivelmente pálida.

Aquele cadáver em cima de uma maca era a minha Yuuki. Ela estava tão pálida e fraca! Eu caminhei debilmente tentando conter o desespero e sentei-me a beira da cama.

-Yuuki... –Murmurei fracamente dando vazão as lágrimas. Eu sabia que tinha que manter uma distancia segura de Yuuki, mas não consegui me conter. Inclinei-me e a abracei gentilmente. Chorei copiosamente em seus braços ignorando a presença do médico ou de quem quer que esteja nos olhando. Ela estava tão frágil, tão fria, um sopro de vida prestes a se extinguir e a culpa era minha, só minha!

-Me perdoa meu amor. Eu sou o culpado por tudo. –Eu disse em seu ouvido incapaz de deixar de abraçá-la. –Yuuki... –Senti algo me envolver pela cintura e afastei-me minimamente para ver o que era, para constatar que Yuuki me abraçava. Eu a vi abrir seus belos orbes castanhos vagarosamente e sorrir para mim de forma a dissipar meus medos temporariamente.

-Hmmm... Meu príncipe finalmente chegou. Vai me livrar do dragão que me ameaça agora? –Falou num fio de voz. Eu fiquei num silencio pasmo. Yuuki fez por nós. Com uma mão, afastou a máscara cirúrgica que estava usando, ergueu minimamente sua cabeça e beijou-me. Eu sabia que aquilo, aquele simples ato, era a maior felicidade para nós dois, mas também sabia que algo estava errado no seu beijo. Aquilo era muito mais do que um simples beijo, era um ato de despedida.

Notas finais
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