Notas iniciais
Para variar, uma música me inspirou, mas não só ela.
Quem gosta de ler com música, Back to Black foi a dita cuja...
Até as notas finais.

Adeus, minha pequena.

Ela não acreditava em quanto as palavras, assim, gravadas na mente, poderiam simplesmente se fazer arder, mesmo que em clima tão frio. Não cria naquela terrível verdade, tampouco conseguia conceber a cena a sua frente. Queria que seus joelhos dobrassem, que seu peito abrisse, que o fôlego lhe faltasse e então apenas caísse, inerte, ao lado do homem que no dia anterior tinha lhe dado um sorriso tenro, repleto de ternura e carinho.

Porém ela estava ali, viva, bela, com o mesmo rosto de anos atrás — quando o conheceu — com o mesmo corpo esbelto e aqueles seios pequenos que ele dizia ser, em raros momentos, bonitos por caberem exatamente em suas mãos. A pequena estatura que lhe dava a aparência tão delicada, tão doce, completada pelos cabelos louros e cacheados. E aqueles olhos grandes, os quais ele encarava, nas manhãs, de maneira contemplativa.

E os olhos, antes vivazes e espertos, encaravam a madeira negra em um vazio permeado por lágrimas que não se jogam ao chão, ninguém a notava, nunca a notaram, mas ela queria ser esquecida e permitir-se esquecer. Desejava ficar jogada em um canto qualquer como a boneca velha, gasta e usada que era. Seria feliz se vivesse apenas das lembranças que tinha.

As lembranças dele.

Como queria que fosse como os doces contos, aqueles onde em um beijo, um mero tocar de lábios, a vida voltasse aos corpos rijos. Dando alegria e esperança.

Seria de se esperar que após tantos anos ela tivesse acostumada com a morte, mas aquela não era uma simples morte, um sorrateiro último suspiro do qual se via o fio da vida se partir.

É sempre mais difícil encarar a morte quando ela está próxima.

No caixão, não via as rugas que permeavam os olhos dele, sequer via os fios brancos. Sua mente ardia na lembrança dos olhos cinzentos, repletos de uma sabedoria não dita, do rosto oval, do cabelo com covas laterais que sempre riam-se por sua aparência de mais velho. Via a barba negra, contrastando com a pele branca, os músculos doutrora — não os flácidos que a velhice tinha dado.

Era tão sábio que sentira a Velha Senhora se aproximar com seu manto negro, soubera exatamente quando receberia a infortuna visita. Ainda assim, foi feliz, foi breve.

E a fez sentir amada, como jamais nenhum mortal tinha feito.

Quis gritar, sabendo que não seria ouvida, sabendo que ninguém sabia sequer de sua existência. Então foi obrigada a assistir de longe, ver seu rosto em um vislumbre flácido do que tinha sido um dia. Porém, o pior foi ouvir os comentários.

— É uma pena que não tenha deixado herdeiros...

— Sim, realmente, toda a sua fortuna se perderá.

Aquilo a machucou, tanto quanto saber que não ouviria mais a risada rouca ou a voz grave dele, fez uma ferida profunda em si. Que importava a fortuna? Herdeiros? Um legado não poderia ser julgado pelos bens ou pela prole, deveria ser julgado pelo conhecimento, pelo bem exercido.

Tudo era demais para a sua mente.

Ela não entendia, não conseguia compreender.

Queria aproximar-se, beijar-lhe a fronte, prometer ficar bem — mesmo que ambos soubessem que era uma mentira — porém todo o povo naquele velório não a deixaria se aproximar. Não era conhecida, tampouco era nobre, sequer humana.

Ela era uma criatura imortal, dessas tantas sem nome que caminham pela Terra com dons únicos, vivia de observar os homens, apaixonava-se ocasionalmente, os acompanhava, então os via perecer. Sempre era doloroso, sempre a partia em infinitos pedaços, parecendo que eles levavam para o túmulo algo de si, um pedaço ínfimo que a deixava incompleta, até o próximo aparecer.

Mas ele era diferente, ele trazia vida a sua risada, punha música em seus passos, fazia-a se sentir completa de forma que nenhum dos outros fora capaz.

Sua mão se estendeu numa súplica, enquanto a tampa do caixão era erguida, a lágrima solitária finalmente escapou por seus olhos, então a chuva pranteou sobre seus ombros.

— Adeus, minha vida.

E mais tarde se arrependeria de somente ter falado. Mais tarde.

Por hora se jogaria ao relento, deixando morrer mais uma de suas incontáveis vidas. Suspirando pesadamente por aquela não ser a última.

Notas finais
Esse é o momento em que eu peço opiniões. Pois é, chegou até aqui? Comente! Gosto de saber o que acharam... Consegui despertar reações?
Quaisquer erros, me avisem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!