Adeus, Carolina do Sul
4 CAPÍTulo 04
Durante o crepúsculo do dia Sam Evans reuniu-se com a esposa e sua hóspede Lucy Quinn em volta de uma bela mesa para tomarem chá. Era um costume herdado pelos primeiros patriarcas da família Evans. Um costume que Sam mantinha com pouca frequência, e pensou que seria um bom momento para tal.
Sam e a esposa estavam em uma conversa descontraída sobre onde o filho que esperavam nasceria. A mulher insistia que seu filho nasceria na espanha. O homem negava-se por implicância (estava muito mais inclinado a submeter-se ao desejo da esposa.)
Quinn observava-os. Feliz, bebia de seu chá fervilhante, vendo como os dois completavam-se perfeitamente. Eram pessoas que emanavam cumplicidade. Não tinha dúvidas que a criança que viria ao mundo seria plenamente feliz com os pais que teria.
Um homem mulato bem vestido apareceu vindo do jardim interrompendo a conversa entre o casal. Acenou de forma efusiva para Santana; Que ao vê-lo pediu licença para retirar-se.
Logo que os dois sumiram pelas portas do casarão, Sam Evans direcionou sua atenção para a hóspede:
— Então, Quinn, Santana contou-me que você adquiriu recentemente um Teatro em estado de falência.
Ela olhou levemente intrigada para onde Santana havia sumido com o mulato, mas rapidamente desviou os olhos. Com um gesto de cabeça confirmou ao homem a informação.
— Agora sou dona de um Teatro localizado na avenida Broadway. Um teatro bastante desgastado pelo tempo, requer uma reforma na estrutura, enfim... Mas não deixa de ser um bom investimento. Tenho percebido que os Estados Unidos têm avançado muito industrialmente, mas permanece estagnado quando trata-se de cultura artística. Os artistas de Nova York têm tentado mudar isso, mas com tão pouco investimento tem sido difícil. O que considero um grande erro. Não é somente através das ciências exatas que desenvolve-se uma sociedade economicamente.
Sam Evans considerou. Depois balançou a cabeça levemente em concordância. Então fez uma observação:
— Quando olho essa cidade panoramicamente, preciso lhe dar razão. O que os cidadãos tem aqui para divertirem-se? Foi necessário que um Circo itinerante viesse para entrete-lôs. Essas pessoas são carentes de cultura. Não são como nós que pudemos conhecer o que de melhor o mundo das artes pode mostrar.
Quinn sentiu-se aliviada. Felizmente o homem, diferente de tantos outros na socidade em que vivia, compreendia seu raciocínio e concordava com ele. Era o primeiro homem realmente disposto a ouvir suas ideias sem importar-se com quem ela era.
— A Broadway é uma grande praça de entretenimento em Nova York. — Explicou a mulher, e menos entusiasmada acrescentou: — Mas ainda existe um amadorismo experimental. Por essa razão é necessário apoio financeiro e principalmente, apoio moral aos artistas, com divulgação em nível nacional, para que haja produção profissional. Para que possamos desenvolver o interesse do público americano. Podemos ser um país em desenvolvimento através da arte se pudermos compreendê-la.
Sam Evans nunca fora um homem de negócios, era péssimo com números. Mas ainda assim sabia identificar uma boa oportunidade quando ela surgia. E depois de ouvir Quinn, ele viu um futuro promissor. Se Finn Hudson estivesse ali, o xingaria por uma hora pelo que o homem faria.
De volta e só, Santana tornou à companhia dos dois. Beijou levemente os lábios do marido e falou algo ao ouvido do homem antes de olhá-lo nos olhos. Ouviu um "Sim", baixinho de Sam Evans e sorriu largamente para o marido.
Após o breve momento de intimidade, a espanhola virou-se para a hóspede e convidou-a para uma caminhada pelo jardim. Quinn aceitou. Despediu-se de Sam para então acompanhar os passos da esposa do homem.
Caminharam a passos lentos através do grande jardim por entre as flores até o limite das primeiras árvores que davam início à outros caminhos pelo arvoredo.
Quinn observou ao redor e não havia ninguém por perto, nem os empregados que costumavam estar ali cuidando das flores. "Ela quer privacidade", pensou consigo. Sabia que havia uma intensão para Santana tê-la levado para tão longe de quem pudesse ouvi-las. Fosse o que fosse, a espanhola estava sendo sorrateira. Decidiu que assumiria uma prostura diferente. Foi direta:
— Há algo que quer me dizer? Por exemplo, por qual razão contou ao seu marido sobre um projeto pessoal meu. Creio que fui bastante clara quando pedi que você não contasse a ninguém sobre meus planos.
Levemente surpresa, Santana pigarreou, mas manteve-se serena. Não desculpou-se. Preferiu esclarecer suas razões:
— Meu marido não é um homem como os outros, ele não julgaria você. E eu me senti confiante para contar a ele sobre isso. Mas acima de tudo, contei porque enxerguei em seu projeto uma oportunidade de fazer uma boa ação, ainda que indiretamente. Nós, Sam e eu obviamente, estamos dispostos a investir um montante de dinheiro para as reformas em seu teatro. E não apenas isso, mas também custear todos os gastos de produção, logística e propaganda. Assim estaremos contribuindo sutilmente para o crescimento das artes neste país.
Depois de ouvi-a, e ficar por um minuto inteiro absorta em seus próprios pensamentos, Quinn balançou a cabeça parecendo concordar com as palavras de Santana. Então disse num tom de zombaria contida:
— É um ato de nobreza, abnegar de uma parcela de sua fortuna pelo estado. No entanto, imagino que toda essa benevolência, mesmo sincera, tenha um custo. Qual?
De forma resignada, Santana soltou todo ar de seus pulmões enquanto massageava o colo (um ato instintivo de puro desconforto). As palavras sairam num fôlego só:
— Há pouco tempo, meu pai morreu. Por lepra. Anos e anos de sofrimento, e finalmente agora poderá repousar em júbilo.
Desviando o rosto para não ter de ver o olhar penalizado de Lucy Quinn. Fixou o olhar em uma folha que ameaça desprender-se um galho. Anunciar a morte do pai ainda causava-lhe dor. Dor por sua morte, e por sua miserável vida.
— Antes de partir, meu pai deixou uma coletânea de textos nos quais trabalhou nos anos em que esteve infermo. Um neles, o que era a luz de seus olhos; conta o drama que tem como cenário a Espanha, onde um jovem português boêmio apaixona-se por uma jovem espanhola de família tradicional. A história é cantada e interpretada, como uma ópera. Mas meu pai costumava chamar suas obras de Musicais.
Um sorriso melancólico atravessou o rosto da espanhola. Da mesma forma que veio, se foi. Pois logo a mulher assumiu sua postura confiante (ainda que falsa.)
— Nós pagaremos para que você inclua a obra de seu pai no projeto original que você desenvolveu para a inauguração do Teatro. Estamos dispostos a dar tudo que for pedido.
"Eu teria aceitado ainda que você não tivesse me oferecido nada em troca. Por nossa amizade", Quinn pensou consigo. Mas por fim, disse refletindo a inflexibilidade da outra:
— Que assim seja.
No caminho que faziam de volta para casa, Santana sussurrou para si em espanhol: "Isso será complicado mas precisa acontecer." Virou-se para a mulher que seguia ao seu lado parando-a bruscamente:
— Nós... podemos falar sobre Rachel Hudson?
Pega de forma inesperada, Quinn estancou. Havia uma certa urgência nas palavras da espanhola.
— O.K. Falemos sobre ela.
Pela primeira vez durante os meses da recente amizade entre as duas, Santana Lopez parecia ponderar suas palavras.
— A noite passada... Quando todos ocupavam-se com apreciação, realização de negócios, causar boa impressão ou influência por interesse, enquanto tudo isso acontecia naquela festa, eu, diferentemente, estava com minhas atenções voltadas somente para você, porque eu precisava garantir que você estivesse sentindo-se confortável. E não pude deixar de surpreender-me pela forma como você olhava para a esposa de Finn Hudson, a esposa do amigo de meu marido, durante toda a noite.
De repente a expressão antes indagativa de Quinn fechou-se em uma nada amigável.
— É melhor que PARE neste momento de falar sobre suposições, antes que você ofenda uma mulher casada.
— Uma mulher casada, tem razão. Uma mulher casada e absolutamente infeliz!
Lucy Quinn encarou-a. O rosto tenso. Santana prosseguiu:
— Finn Hudson não é um homem digno. E isso está refletido em seu casamento. Dia após dia ele sufoca a esposa, não permite que ela viva. Isso está matando-a. E você, apenas você, pode ajudá-la.
— Do que está falando?
— Meu marido e Finn Hudson são grandes amigos. Se eu fizesse algo, magoaria profundamente Sam. Mas você, não. Por isso, eu peço, eu imploro, que considere esse interesse por Rachel Hudson, que dê uma chance a esse interesse. Você me falou quão complicado estava sendo encontrar alguém que coubesse no seu projeto, lembra-se? E quanto tempo você procurou essa pessoa? Tentou com Jasmine, não deu certo. Quantas outras? E se Rachel Hudson for ser essa pessoa?
Agora a expressão de Quinn era cética.
— Não posso simplesmente incluí-la nisso para livra-la do marido. Não seria correto nem comigo, menos ainda com ela. Se quiser, posso ajudá-la financeiramente, ou...
Porém, Santana ergueu as mãos com as palmas viradas para frente interrompendo qualquer outro argumento.
— Você não precisará dar a ela nada de que não mereça — garantiu — Dê uma chance, somente isso, para que ela mostre que é essa pessoa por quem você busca.
Lucy Quinn Fabray permitiu-se ser embalada pelo vento fresco da noite iluminada pela luz natural da luar, enquanto pensativa, definia sua segunda decisão no dia.
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Finn e Rachel estavam sentados à mesa. Jantavam em silêncio. Havia arrependimento naquela atitude do homem. Ele queria falar, dizer que sentia muito, porém, quando olhava para o rosto da esposa, calava-se. Para a mulher o silêncio do marido era um oasis.
Tão logo deixou a mesa e deitou-se Finn entrou em um profundo sono, entregando-se à escuridão de sua inconsciência. A mulher não conseguiu o mesmo.
Desperta, e insone esquadrinhava cada canto do rosto de Finn, buscando entender como o mesmo rapaz que conquistara sua família com gentileza e carinho, de sorriso simples, um cavalheiro, tornara-se seu maior carrasco.
Na manhã daquele dia, Finn estivera mais irritado do que de costume. E a pergunta "Por que você está assim, querido?" proferida com a mais absoluta calma pela mulher foi uma fagulha suficiente para explodir aquele barril de pólvora que era o homem.
Não houve aviso. Simplesmente aconteceu. Finn Hudson virou-se e desferiu uma bofetada no rosto da mulher. E enquanto ela estava caida ao chão sentindo dor, o homem gritou com os olhos brilhando ódio: "Você não serve para nada. É uma mulher seca. Maldito seja o dia em que te tomei como mulher!"
Então, só então, ela soube, pelas palavras do marido as razões para ter sido agredida: Sam Evans seria pai. Finn Hudson, não. O ego e a masculinidade do homem estavam feridos. Após anos de casamento, os dois nunca haviam conseguido ter um filho juntos. E para o homem, a culpa era da esposa. Causar dor em quem causava-lhe dor parecia o certo para Finn. Bater na mulher que não dava-lhe filhos era uma forma de compensar.
Ao longe, um assobio tirou Rachel Hudson das lembranças que atormentavam-lhe. Apressada, levantou-se olhando para o marido, respirou aliviada quando ele não moveu-se no sono. Desceu as escadas procurando não fazer barulho. Com certa dificuldade abriu a longa e pesada porta dos fundos.
Quando saiu, viu Noah sentado no primeiro degrau. O Mulato havia saido a mando de Rachel aquela tarde para levar um recado da muher para Santana Lopez. Uma atitude inicialmente impensada, da qual ela não arrependia-se.
— Noah...
O Mulato fez uma reverência breve para sua Senhora antes de estender a mão na qual trazia consigo um papel dobrado; estava levemente amassado e amarelado, como uma página arrancada de um livro antigo.
— A Senhora Evans pediu para que queime o papel depois de ler.
— Farei isso. Obrigada, Noah.
Noah partiu logo após pela escuridão da madrugada.
A mulher tornou a entrar. Com o papel firmemente preso em suas mãos rumou para o escritório do marido e trancou-se lá (era a única parte da casa onde estaria plenamente segura caso o homem despertasse.)
De forma afoita, abriu o papel dobrado quatro vezes e pôs-se a lê-lo. Seu coração encheu-se de esperança:
Rachel, sinto pelo ocorrido, jamais imaginei que as atitudes de Finn pudessem chegar a esse ponto.
Após a conversa que tivemos enquanto bebiamos, e depois de tudo o que contou-me, não pude me manter indiferente ao seu sofrimento. E agora, com mais esse agravante, pretendo intervir.
Você pediu-me ajuda, e ajuda lhe será dada, como forma de apoio.
Lucy, minha amiga de breve convívio quer conhecê-la. Quer ouvir sobre você através de você.
Encontre-a no domingo, no Templo da Cidade após as celebrações.
Por favor, não a decepcione.
Santana Lopez.
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