Adeus
1 Adeus
Notas iniciais
É difícil acreditar.
Não posso aceitar.
Quando você foi levado daqui numa ambulância meu coração se encheu de dor, se tornou negro como a noite e todos os meus dias se tornaram mais sombrios, mas a cada visita ao hospital eu carregava comigo uma dose de esperança.
Cada parte de mim queria, precisava acreditar que você voltaria para casa, que sorriria para mim de novo, que brincaríamos outra vez, que eu reviraria os olhos para mais uma das suas piadas bobas, mas naquele dia algo mudou.
UTI.
Mais maquinas do que posso me lembrar, você estava inconsciente, eu não podia mais ver a cor dos seus olhos, ou o quão amarelados os seus dentes eram devido ao cigarro.
Nunca vou me esquecer daquele bip insuportável que a cada soar me lembrava o quão frágil você estava. Não parecia em nada com a pessoa forte, quase indestrutível, que eu acreditava que você era.
Eu não queria desabar, não ainda. Eu precisava desesperadamente me agarrar a pouca esperança que me sobrara, mas se tornava mais difícil dia a pós dia e então quando anoitecia e eu me fechava no meu quarto e chorava.
Chorava até dormir.
Eu precisava tanto de você, do seu amor, da sua fé em mim.
—*-*-*-*-*-*-*-*
Outro final de semana, outra visita.
As coisas estavam piores agora do que antes. Os médicos nos disseram que a infecção se espalhara muito, e que ao final da noite anterior você tivera uma parada cardíaca e que por sorte conseguiram te trazer de volta; eles não acreditavam mais na sua recuperação. Eu também não!
Eu nunca havia chorado tanto até aquela noite depois de voltar da visita. Eu finalmente desabei. Naquele dia eu tive a certeza de que você não voltaria mais, nunca mais. E foi devastador.
Na manhã seguinte eu vesti a "armadura" que você me ajudou a construir, e fui para o que seria a última visita.
A caminho do hospital eu senti, senti uma dor forte, um aperto, uma agonia devastadora e soube: você partira. Ao chegar no hospital houve a confirmação, você teve outra parada esta manhã e dessa vez a equipe médica não pôde salva-lo.
Eu tentei, eu tentei muito não chorar, mas não consegui. Era doloroso demais, devastador demais, desesperador demais.
Você morreu.
Como eu poderia acreditar nisso?
Há poucas semanas atrás estávamos em casa, tudo estava bem.... Nós riamos, eu ainda podia ouvir o som na minha cabeça.
Você não se foi.
Não pode ter ido.
Você nunca me abandonaria.
Ou abandonaria?
*-*-*-*-*-*
Dias se passaram e eu fingia que tudo estava bem, eu fingia que nada acontecera, que não doía.
Eu não falava sobre você.
Eu fugia quando outra pessoa tocava no assunto.
Eu larguei todas as coisas que fazíamos juntos.
Não assisti nem mais um episódio sequer da nossa série favorita.
Não ouvi nenhuma música das bandas que gostávamos.
Eu me distanciei de tudo que me lembrava que você não estava mais aqui.
Não foi o suficiente.
Ao final de cada dia, quando colocava minha cabeça sobre o travesseiro as lagrimas vinham, rápidas, fortes, implacáveis e ficavam até eu adormecer.
Eu sentia tanto a sua falta.
As vezes acreditava, ou tentava acreditar, que tudo não passava de um pesadelo horrível, e que no dia seguinte quando eu acordasse você estaria na cozinha tomando seu copo enorme de leite como sempre.
Mas você não estava.
Não mais.
Nunca mais.
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