Addispiratu
2 Capítulo 1.
Notas iniciais
Meus pés faziam um barulho engraçado no piso de pedra da Cottom Rose Street, mas já que era final da manhã de um domingo preguiçoso, ninguém repararia na garota ruiva andando às margens do rio Doe como se não tivesse mais o que fazer.
Bem, era verdade, não tenho mais o que fazer da vida e tendo em vista que já fui a Londres comprar meu material do próximo ano letivo, não estou mais falando com Severus e que as garotas com quem eu costumava andar antes de Hogwarts estão muito ocupadas me ignorando a mando de Petunia, então eu, Lily Evans, sou sim uma desocupada, com muito orgulho.
Cheguei na intercessão entre a Cottom com a Spinner’s e realmente fiquei na dúvida se ainda valia a pena me arriscar naquela rua escura, que minha mãe insistia em dizer que não era lugar para uma moça direita andar sozinha. Bem, eu não costumava andar sozinha lá...
Suspirei e continuei pela Cottom mesmo, afinal, eu havia resolvido finalmente colocar as pernas de fora em minha mais nova saia de franjinhas e, até onde sei, olhar sem compromisso os novos lançamentos na loja de vinil da esquina não era crime e nem era pago, a segunda informação sendo mais relevante que a primeira na atual conjuntura.
Além disso, não era como se eu ainda tivesse algo para fazer lá, estava passando da hora de eu aceitar que aqueles dias escapulindo para Spinner’s End Street haviam acabado. Minha mais longa e profunda amizade havia acabado também.
O sininho familiar tocou e me dei conta que já havia chegado ao meu destino. Dei meu melhor sorriso educado, mas o punk folgado, que deveria vir atender os clientes em potencial, só fez me dar um olhar de impaciência e logo retornou para o que quer que estivesse assistindo na televisão cheia de chuvisco atrás do seu balcão.
Dei de ombros, isso era melhor do que tê-lo pisando nos meus calcanhares, como se eu fosse colocar um dos discos debaixo da blusa e sair correndo. Bem, até dava vontade de fazer isso às vezes, mas com a minha sorte, eu acabaria pegando um disco dos Bee Gees e uns seis meses no reformatório.
Fui para a seção de rock, passando as capas com os dedos, sem procurar nada em específico. Dei mais um passo para o lado e acabei dando de cara com o álbum Virgin Killers, do Scorpions, um negócio vulgar, com uma garotinha nua em um fundo todo negro.
— Ew! — Olhei para ver se o atendente estava prestando atenção e já que permanecia grudado na TV, um luxo o qual eu não tenho a menor vontade de ter, escondi aquela capa vergonhosa atrás de um álbum qualquer dos Rolling Stones.– Devia me agradecer depois, garotinha.
— O que disse?
—Perguntei se o Bohemian Rhapsody já chegou!
Ele me encarou dos pés a cabeça, provavelmente tentando decifrar se eu tinha ou não grana para comprar um vinil do Queen, o que no caso eu não tenho, mas ele não precisa ficar sabendo disso.
—Chega na semana que vem, mas eu tenho umas camisetas dos caras aqui, se você quiser dar uma olhada .
O tom era jocoso, então sabia que ele estava me desafiando a comprar alguma coisa. Dia sim e às vezes no outro também, eu venho aqui olhar os discos, ouvir algumas faixas na vitrola velha no fim do terceiro corredor, então termino com um “Não achei o que eu queria, quem sabe da próxima vez?”.
Não tinha que dar satisfação ao garoto punk de cabelos verdes, assim como não tinha muito dinheiro sobrando depois da minha jaqueta nova, no entanto nada disso foi o suficiente para parar meus passos ou sorriso em resposta ao desafio.
—Vamos dar uma olhada nessas camisetas.
Ele seguiu para a porta que dava para o estoque da loja e eu me vi distraída, brincando com uns chaveiros bregas do ABBA, enquanto a tela cheia de chuvisco piscava suas imagens aleatórias.
“Mais notícias sobre o caso da professora desaparecida na estação Victoria Coach: a polícia nega que haja ligação com o caso das irmãs que...”
— Aqui está.
O atendente voltou tão rápido que acabei sendo tirada bruscamente das notícias pipocando na tela. A foto da moça bonita ainda pairava no canto esquerdo do vídeo, enquanto a repórter continuava a falar sobre o caso, em seu tom educadamente exasperado.
—Vou querer a preta. Aqui, fique com o troco. — Puxei a camisa, jogando a de qualquer jeito na bolsa e nem vendo a cara do rapaz atrás do balcão.
Assim que saí na rua, percebi que devia ter prestado mais atenção no que estava fazendo, pois uma garoa havia iniciado e parecia que se transformaria em uma chuva substancial logo, logo. Enrolei o cabelo e enfiei tudo que consegui dele dentro da jaqueta, na esperança boba de não ter que lavar o cabelo e disputar o secador com Petunia mais tarde.
Outro caso.
Mais um caso.
Meu pai tinha ido no Beco Diagonal comigo mês passado e dessa vez nem pudemos tomar um sorvete por lá, porque até ele, que era o ser humano mais distraído que eu conhecia, havia percebido que tinha algo errado.
Cokeworth era desafortunada em vários sentidos, desde suas casas sempre iguais e sem-graça, até o montão de gente desempregada e lixo nas vielas, mas ao menos uma coisa era certa: uma nascida-trouxa ainda podia caminhar com relativa segurança por suas ruas.
Apressei o passo, pegando um atalho pelo beco atrás da única confeitaria da cidade e só parei quando cheguei até o pórtico da nossa entrada. Bati os pés antes de entrar e soltei o cabelo, ainda seco da metade para baixo.
Não havia ninguém em casa, então subi para meu quarto realmente decidida a arrancar uma resposta das minhas amigas desnaturadas. Onde já se viu, em tempos de guerra, levar duas semanas para responder uma carta?
Alice,
Não quero saber se sua mãe está pegando no seu pé, trate de pegar uma pena e
Parei com a pena ainda sobre o pergaminho, o que me rendeu uma mancha de tinta ao redor do “e” que tinha acabado de escrever, ao notar que faltava algo. Onde estava? Onde estava meu distintivo de monitora-chefe que eu havia deixado aqui na minha escrivaninha?
Ok, Lily, Petunia não pegou seu distintivo de propósito só para lhe infernizar a vida, com certeza a mamãe apenas colocou em um lugar diferente ou você colocou dentro do malão ou... Respirei fundo, disposta a me mover ao invés de ficar planejando mil e uma maneiras de matar Petunia, porque era bem capaz de acabar colocando uma delas em prática.
Comecei por puxar meu malão de debaixo da cama, só que minha mão tocou o nada, ao invés de tocar a alça dele. Me abaixei completamente para constatar que sim, não havia sinal nenhum de malão lá, só uma meia que deveria ter caído aí no último verão.
Certo, isso era um pouco mais de esforço do que Petunia costumava fazer, o malão já estava arrumado, cheio de roupas, livros e objetos mágicos, não era o tipo de coisa em que ela colocaria a mão.
Levantei do chão e espanei meus joelhos, olhando ao redor em busca de alguma pista do paradeiro das minhas coisas, o malão sendo ainda mais necessário do que um simples distintivo recém-adquirido.
Ao me levantar acabei ficando com os olhos na altura da primeira prateleira de livros em cima da minha escrivaninha. Os títulos estavam todos inclinados e quando os arrumei em pé, o buraco óbvio, onde deveria ficar meus compêndios de Runas — única coisa suficientemente inocente para permanecer a vista, segundo minha mãe — apareceu.
—Mas o que...
Ainda bem que ouvi a porta principal abrindo, porque não estava mais conseguindo olhar para meu quarto, que obviamente havia sido mexido sem minha autorização.
—Lily, já chegou?
—Aqui em cima, mãe!
Desci as escadas de dois em dois degraus, não esquecendo que o último era levemente menor do que os outros, o que já tinha me feito quase cair de bunda mais vezes do que podia contar. Minha mãe colocava as compras em cima da mesa, provavelmente aguardando que eu fuçasse nelas em busca de algum doce, mas dessa vez apenas a observei do batente da porta.
—Estamos esperando alguém hoje?
Mamãe me olhou com o cenho franzido, enquanto começava a guardar as latas de feijão no armário do meio. Completou a expressão com uma risada curiosa.
—Desde quando só compramos comida quando temos visitas, Lily?
— Não me refiro a comidas, apenas estou tentando entender porque a senhora mexeu nas minhas coisas. — Minha mãe me deu um olhar de desentendimento e depois voltou a organizar as coisas no armário.– Está vindo alguma amiga de Petunia, um colega do papai ou...
—Não mexi em suas coisas, querida, tenho certeza que você apenas as trocou de lugar sem se dar conta.
—Acho que me daria conta se tivesse trocado um malão de lugar, mãe. — Deixei sair um riso exasperado, minha mãe às vezes tinha cada ideia.
—Malão? Como a mala de couro que você ainda não devolveu para sua avó? Por que raios você quer uma mala, Lily? Nem me invente de ir acampar para ver uma dessas suas bandas estranhas, suas aulas começam amanhã e é bom que...
—Justamente, mãe! Preciso achar meu malão, tenho que ver se coloquei meu distintivo lá! Como espera que eu viaje para Hogwarts sem minhas coisas?
Minha mãe perdeu o ar tranquilo pela primeira vez na conversa e eu a vi colocar as mãos na cintura com o temor de uma garota que sabia muito bem o que aquele gesto significava.
—Lily Evans, o que demônios é Hogwarts?— Minha mãe praguejar era coisa rara, então arregalei os olhos.– É um daqueles festivais selvagens, como aquele americano lá, o tal de Woodstock?
A encarei séria, porque aquilo era o cúmulo do absurdo.
— Mãe, eu...
—Porque a senhorita não vai! Mesmo que fosse no meio das férias, mesmo que fosse no terreno baldio atrás da fábrica, que eu pudesse levá-la pessoalmente, ainda assim você não iria a uma balbúrdia dessas!
—Mas...
— E ponto final, mocinha.
O mocinha naquele tom era capaz de me calar por uma semana, mesmo que a bobagem esteja sendo dita por ela e não por mim. O que há de errado com minha mãe? Por que ela está fingindo que não sabe nada sobre Hogwarts ou sobre as minhas coisas?
Subi indignada as escadas e fiz menção de bater a porta com toda a minha força, mas pensei melhor, que bem isso faria a mim, de todo modo? Capaz de eu ser repreendida novamente... A fechei com cuidado, me jogando irritada na cama logo depois.
—Saco! Nem ficar brava nessa casa eu posso mais!
Fiquei deitada fazendo bico emburrada com minha mãe por exatos 30 segundos, tempo que levei para perceber que eu tinha uma vingança para executar e um malão para recuperar, não necessariamente nessa ordem.
Comecei pela busca, prioridades primeiro, então fui para o sótão e depois para o porão, lugares óbvios para se esconder algo, mas ambos pareciam que não eram visitados desde a primavera de 73, quando mamãe me escreveu dizendo que meu pai tinha tido uma crise de rinite ao limpar os entulhos empoeirados que acumulamos por anos lá.
Ao menos naquela vez consegui de volta meu artesanato feito na classe da Tia Claire, quando eu realmente achava que era um prodígio das artes. Um porta-retratos de macarrão era um prêmio muito melhor do que a teia de aranha enrolada no cabelo que consegui agora.
Passei então para a abordagem menos sutil: forcei a porta de Petunia, já que não podia usar minha varinha para... Espera um minuto aí, minha varinha! Será que Petunia ousou tocar na minha varinha?
Corri de volta para o quarto, me ajoelhando e fazendo um vinco na minha bota favorita ao dobrar os tornozelos sem modo, mas isso pouco importava, porque minha varinha havia sumido e essa é a maior das atrocidades que minha futura falecida irmã poderia cometer!
Dessa vez entrei sem cerimônia no quarto dela, abri o closet enorme, cheio de roupas que pareciam ter sido feitas para donas de casa com maridos leitões para alimentar e... E nada. Revirei a penteadeira, as mesinhas de cabeceira de pés esquisitos e quando já havia me dado conta que não acharia nada meu ali, peguei um de seus perfumes na mão, com todo ódio que tinha no meu coração quase puro.
—Porque sou uma irmã boa, será o mais vagabundo de todos. — Virei o conteúdo do frasco cheio de fru-fru na cama dela, torcendo para que ela se engasgasse com seu próprio fedor logo mais.
Embora me sentisse um pouco vingada — e bastante imatura — deixar o quarto de Petunia uma bagunça completa não me dava nenhuma pista do paradeiro dos meus pertences. Ela provavelmente deve ter posto tudo no porta-malas do carro de Vernon e só vai me devolver quando papai a obrigar.
—Por que me detesta tanto, Tuney? — Suspirei olhando pela janela, vendo apenas as nuvens escuras da chuva que cairia provavelmente por toda a tarde.
Se tivesse com minha varinha até me arriscaria a tomar uma advertência do Ministério por fazer magia fora de Hogwarts, só porque o cheiro do perfume de Petunia estava me enjoando e tenho certeza que ela vai me enjoar muito mais por isso depois.
Mas não demorou muito para Vernon deixar minha irmã em casa, sendo até cavalheiro ao levá-la até a porta. Obrigada a todos os santos pelos guarda-chuvas pretos, porque o beijo de despedida desse casalzinho não é algo que quero ter nas minhas memórias recentes.
Esperei ela cumprimentar minha mãe, se arrastar pela escada e abrir a porta despreocupadamente. Não saí de minha posição sentada no beiral de sua janela, com a testa apoiada no vidro, nem mesmo quando ela deu um ofego ultrajado.
—Sua... Sua...
—Aberração?
Ela olhava entre o meu sorriso cínico, sua cama arruinada e suas coisas bagunçadas. Onde estava, permaneci.
—Mamãe vai ficar sabendo disso.
—Mamãe já sabe. Me diz, Petunia, por quanto tempo você achou que essa brincadeirinha sem-graça sua iria durar?
— Do que é que você está falando? Ai, meu Deus, minhas maquiagens!
—Estão intactas e espero que você tenha tido a mesma deferência com as minhas coisas.
— Do que diabos está falando, garota? Eu não peguei nada seu, pelo que me consta, tudo que te pertence ficou tóxico depois que começou a andar com aqueles delinquentes e...
Ela parou de tentar colocar em ordem seus cacarecos e me olhou com um sorriso muito maníaco para um rosto tão maquiado.
— É isso, então. Vou contar a mamãe o que andou fazendo o verão inteiro com Travis Kilmartin atrás do ginásio e pouco me importa o que você me viu fazendo com Vernon mês passado, ao menos somos namorados!
— O quê? — Corri me adiantando a ela, batendo a porta antes que ela pudesse encher a cabeça de nossa mãe com mentiras.– Por que está sendo tão odiosa? Bem... Mais do que o normal de todo modo! Só preciso que você devolva minhas coisas!
— Que coisas? — Ela me olhou exasperada, ao tentar abrir a porta de novo, porque a forcei de volta ao trinco.– Não peguei nenhuma das suas tralhas, mas você, por outro lado, aprontou das suas e agora vou falar para a mamãe e... E... Me sinto desobrigada a te dar carona para a escola amanhã!
A olhei com uma sobrancelha suspensa e ela sorriu, satisfeita por finalmente ter conseguido uma reação muda minha.
—Isso mesmo que você ouviu, sua peste: vai ter que andar as vinte quadras até Paignton a pé.
Abri a porta, ouvindo a risada relinchada de Petunia ao longe. Voltei para o meu quarto, me trancando assim que meus dedos deixaram de parecer jelly beans. Me encostei na porta, contemplando o teto bege de sempre.
—Meu Merlin! Paignton? Tem alguma coisa muito errada acontecendo aqui...
***
A casa estava deserta.
Sua casa, a casa onde deveria estar sua esposa e filho estava na mais absoluta escuridão e silêncio.
James apertou ainda mais forte a varinha entre os dedos, procurando em silêncio por qualquer sinal de movimento. Tinha ficado fora mais tempo do que planejara e se isso significasse perder as pessoas mais preciosas de sua vida, ele nunca se perdoaria por isso!
Ao chegar até o quarto de casal, constatou que Lily e Harry não partiram há muito tempo, os lençóis da cama ainda estavam mornos e não havia sinal de luta. Era cedo para ter esperanças, mas ainda assim, ousou voltar a respirar, antes de conjurar seu patrono com uma mensagem para aqueles que nunca, nem em um milhão de anos, o deixariam na mão:
Marotos, eu preciso de ajuda, Harry e Lily sumiram e eu não sei o que fazer!
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