Addicted to Love
1 Capítulo único
Notas iniciais
‘’And when I’m lost and can tell nothing of this earth
you will give me hope.
And my voice you will always hear.
And my hand you will always have.
For I will shelter you.
And I will comfort you.
And even when we are nothing left,
not even in death,
I will remember you.”
Mark Z. Danielewski (House of Leaves)
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O dia 14 de fevereiro havia amanhecido extremamente frio. O inverno naquele ano estava mais rígido do que o costume, o que consequentemente, deixava as pessoas mais preguiçosas. Se fosse um dia comum, Murasakibara estaria deitado em sua cama, coberto e aquecido com pelo menos duas camadas de edredom. Mas bem, aquele não era um dia comum.
Seus pés não faziam barulho ao pisar no asfalto devido ao gelo acumulado, e o trajeto até o apartamento foi feito entre diversas tentativas de não cair e deixar as comprar intactas. Até o prédio entrar em eu campo de visão, o rapaz de cabelos roxos havia ido de encontro ao chão pelo menos umas três vezes, tal fato contribuindo para que o seu humor se tornasse infinitamente pior.
Murasakibara anunciou sua presença e subiu ao sétimo andar após o porteiro avisar que sua entrada havia sido autorizada. O rapaz não fazia o mínimo esforço para adiantar seu encontro com aquela pessoa, e os passos que eram normalmente arrastados, naquele momento eram feitos com o dobro de lentidão.
Os olhos roxos observavam o entorno com desinteresse e seu cérebro tentava a todo custo focalizar em seu objetivo, a frase ‘’ Tudo pelo Muro-chin’’ ecoando em sua mente diversas vezes. A tática funcionou, visto que ele estava mais calmo quando tocou a campainha do apartamento de número 35, entretanto, todos os seus esforços se mostraram inúteis quando a porta foi aberta e o morador do local apareceu à sua frente.
O que eu estou fazendo aqui mesmo?
– Yo. – Kagami foi o primeiro a se manifestar. Sua expressão não demonstrava nenhum traço de felicidade, deixando claro que aquele encontro também não lhe animava nem um pouco.
Murasakibara limitou-se a um aceno de mão, esperando pacientemente que sua companhia lhe deixasse entrar. Ambos se encaravam como se fossem arqui-inimigos, o que não deixava de ser verdade. Kagami permitiu que o rapaz de cabelos roxo entrasse após alguns segundos, e novamente Murasakibara repetiu o mantra em sua mente. ‘’ Tudo pelo Muro-chin’’.
Às vésperas do Dia dos Namorados, Murasakibara gostaria de dar um presente especial para Himuro. Porém, tal tarefa seria quase impossível de ser realizada sozinha, principalmente depois que ele tomou conhecimento de uma informação não muito agradável. Após reunir muita coragem e força de vontade, o Pivô havia decidido perguntar à Kuroko o número de celular do ruivo. Pedir para Himuro seria bem menos trabalhoso, mas as chances do moreno suspeitar de suas ações eram extremamente altas, principalmente devido ao fato do rapaz de cabelos roxo não suportar a existência do ser humano chamado Kagami Taiga.
[Dois dias atrás]
Murasakibara estava voltando do colégio, um dos poucos dias em que ele não estava na companhia do moreno. Na verdade, o Pivô havia inventado uma desculpa qualquer para voltar sozinho e poder conversar com o ruivo à vontade (o que indicava desentendimentos e discussões). Seus dedos digitaram o número sem pressa, escutando o característico som de espera e engolindo seco ao escutar a voz do ruivo soar pelo aparelho celular.
‘’ – Alô?
– Kagami... Murasakibara aqui~
– Murasakibara? O que diabos você quer comigo?! – A voz do outro lado da linha soou irritada.
O Pivô jamais imaginou que pedir um favor à outra pessoa poderia ser tão penoso, mas lá estava ele, prestes a se humilhar perante a pessoa que menos suportava.
– Você vai me ajudar. – Não foi sua intenção, mas o pedido soou mais como uma ordem.
– O QUÊ? Vai ver se eu estou na esquina, seu maldito!
– É um presente para o Muro-chin – Murasakibara tentou se explicar, mas a ideia se mostrou terrivelmente infeliz.
– Presente? Pro Tatsuya? Mas o aniversário dele é só em out- Oi! Não me diga que... Você só pode estar de brincadeira!
Provavelmente a conversa seria mais longa do que o estimado, então o rapaz de cabelos roxo retirou de sua sacola uma guloseima qualquer, sentindo-se acalmar conforme o gosto doce tomava conta de seu paladar.
– Você... vai me... ajudar ou não? – O ex-jogador da Teiko perguntou entre uma mordida e outra.
– Murasakibara, seu maldito! Para de comer e conversa direito comigo!
– Hmm? Não quero ~
– Então não temos mais nada para conversar.
– Espera! ... – Murasakibara devorou o doce em apenas duas mordidas – Pronto~
– Por que você acha que eu vou te ajudar? – A voz de Kagami estava mais suave, aparentemente o ruivo havia se recuperado do choque inicial.
– Pelo Muro-chin – Murasakibara sabia que o jogador do Seirin não poderia contra argumentar, não após o nome do moreno ser citado.
– Merda, isso é golpe baixo... O que você quer?
Eu venci~ O Pivô explicou resumidamente sobre o que estava planejando, ocultando uma ou duas partes, o diálogo por diversas vezes sendo substituído por tolas discussões. Sendo assim, o que poderia ter sido facilmente dito em menos de cinco minutos, havia demorado quase o triplo do tempo. Quando não havia mais nada a ser explicado, o silêncio reinou novamente, e Murasakibara sabia que o ruivo estava ponderando suas opções.
– Eu ainda não entendo. Por que você não o presenteia com chocolates, como uma pessoa normal faria?
– Porque o Muro-chin é especial – Murasakibara parou de andar, olhando para os próprios pés e sentindo-se estranhamente confortável ao dizer aquelas palavras. Não era mentira, afinal, por que ele pediria ajuda ao ‘’ inimigo’’ se não fosse por uma pessoa especial?
[Flash back off]
Derrotado, o ruivo havia concordado em ajudar Murasakibara, mas somente caso ele cumprisse algumas condições. A primeira era que o rapaz de cabelos roxo teria de ir ao apartamento de Kagami, o que culminava em sua presente situação.
– Por quanto tempo você pretende ficar parado aí na entrada? – A voz do ruivo despertou o Pivô de seus devaneios.
– Com licença~ – Murasakibara retirou seus tênis e seguiu o ruivo em direção ao que provavelmente era a cozinha, visto que o seu objetivo só poderia ser realizado naquele cômodo em específico.
Diferentemente do que o jogador do Yosen havia imaginado, a cozinha estava impecavelmente arrumada e chegava a brilhar em certas partes. Os ingredientes foram deixados em cima da larga bancada, e Murasakibara sentou-se um dos diversos banquinhos, observando sua companhia retirar panelas e potes dos armários.
– Você tem algum doce, Bakagami? ¹
A segunda condição era que Murasakibara deveria levar os ingredientes necessários, e devido à enorme quantidade de sacolas, ele não foi capaz de levar seu estoque pessoal de guloseimas. Embora as balas estivessem fielmente no bolso de sua calça, o rapaz de cabelos roxo sabia que elas não seriam o suficiente para suprir seu desejo por doces.
– Hãah? Para de dizer asneiras e vem aqui ajudar – Kagami nem se deu ao trabalho de encarar sua companhia, visto que estava ocupado demais tentando alcançar uma panela no fundo da prateleira.
– Tsk. Mão de vaca. – Murasakibara resmungou baixinho, levantando-se e pegando o utensílio que o ruivo tanto penava para alcançar – Não sei como fui perder para alguém como você.
A veia na testa do ruivo era visível, mas ele agradeceu a gentileza da maneira mais agradável que conseguiu, avisando em seguida de que a aula começaria e que papo furado não seria permitido.
O restante da manhã foi passado entre panelas, comidas e calorosas discussões. Graças à uma força maior desconhecida, a cozinha não havia virado um campo de guerra e estava praticamente intacta. O prejuízo final foram apenas dois pratos quebrados, o que era inevitável, visto que dois adolescentes altos e encorpados ocupavam um espaço limitado como a cozinha. Os dois jogadores arrumaram o cômodo e se serviram da refeição que haviam acabado de preparar.
– Até que você cozinha bem... Muro-chin estava certo. – Embora as palavras fossem positivas, o tom de voz usado por Murasakibara possuía uma surpresa incrivelmente irritante, tom este que o ruivo preferiu ignorar.
– Eu não sabia que Tatsuya gostava assim do que eu cozinho.
– Você não sabe muitas coisas sobre o Muro-chin – Diferente de outrora, o rapaz de cabelos roxo estava sério naquele momento, e caso ele não se policiasse, acabaria dizendo coisas que não deveriam ser ditas.
– O que você quer dizer com isso? – Kagami também havia se tornado sério. O ar em torno dos dois se tornava cada vez mais pesado e o silêncio só piorava a atmosfera vigente. Murasakibara terminou sua refeição primeiro, agradecendo baixo e colocando a louça na pia, sentando-se novamente de frente para o ruivo. Desculpa Muro-chin, mas eu não posso ficar quieto.
– Às vezes ele chama pelo seu nome enquanto dorme, e eu sei que aquilo machuca o Muro-chin. – Seu coração se tornou apertado ao relembrar daquelas noites. Himuro era muito que provavelmente, a única pessoa que conseguia tirar o rapaz de cabelos roxo de seu estado natural de inércia, portanto, o fato de Murasakibara não conseguir lidar com o jogador do Seirin não era uma nenhuma surpresa.
– Eu não acredito que estou tendo esse tipo de conversa com você... – Os olhos escarlates desviaram-se para um canto qualquer do apartamento, porque ele não conseguiria dizer as palavras seguintes se continuasse olhando para um Murasakibara sério e intimidador – Você já deve saber, mas a nossa história é um pouco complicada. Eu fui estúpido e fiz Tatsuya sofrer, e eu nunca me perdoarei por isso. Porém, nós reatamos nossa antiga amizade e eu achei que estava tudo ok. – Kagami suspirou – Eu realmente não sabia que ele ainda sofre desse jeito.
– Muro-chin me diz que está tudo bem e que o desentendimento que aconteceu entre vocês está enterrado no passado, mas eu sei que não é bem assim.
Aquela situação chegava a ser engraçada, de tão surreal e bizarra que era. Lá estavam Kagami e Murasakibara, passado e presente, falando sobre sentimentos como se fossem amigos de longa data. Eles sabiam que era exatamente o oposto, mas o moreno os unia de uma estranha maneira, e a pessoa em questão era importante demais na vida de ambos – de maneiras diferente, claro – para ter seus sentimentos ignorados.
– Mas isso só prova que o Muro-chin te considera alguém importante. – Falar aquilo foi o estopim para o Pivô. Ele havia ultrapassado sua cota de sinceridade há muito tempo, o que significava que aquele desastroso encontro havia chegado ao seu fim – Eu vou embora. Obrigado pela ajuda, Bakagami~
– Kagami pra você. – Irritado, o ruivo guiou o rapaz de cabelos roxo em direção à saída do apartamento, deixando que sua companhia tomasse o tempo necessário para colocar o tênis e pegar seus pertences – Eu tenho medo de que você cometa alguma burrice e machuque Tatsuya assim como eu o fiz.
O Pivô estava pronto para ir embora quando as palavras chegaram ao seus ouvidos. Ele estava de costas e não conseguia ver a expressão do ruivo, mas seu tom de voz triste e arrependido o denunciavam. Suas mãos apertaram a maçaneta com força, e o rapaz de cabelos roxo pensou que, se fosse para terminar como Kagami, ele jamais faria o moreno sofrer.
– Muro-chin é a pessoa mais importante na minha vida... – A porta foi aberta, e o vento gelado machucou seu rosto desprotegido – Eu posso garantir que não cometerei o mesmo erro que o seu. – E sem olhar para trás, Murasakibara fechou a porta.
Ah... Eu quero ver o Muro-chin logo.
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Sem precisar se preocupar com comidas e ruivos, o caminho de volta para a sua residência foi bem menos penoso. O celular foi retirado de seu bolso, e os olhos violetas arregalaram-se com a quantidade de mensagens e ligações perdidas de Himuro. Uma parte de si estava feliz com a preocupação de seu amante, mas a culpa de não ter avisado antecipadamente que faltaria à escola ainda estava presente. Murasakibara mandou uma mensagem dizendo que estava resfriado e que faltaria na escola. O Pivô se sentia mal por mentir daquela maneira descarada, mas ele não poderia deixar que Himuro descobrisse sobre o presente. A resposta do moreno coincidiu com a sua chegada no largo sobrado em que morava. O moreno aparentava extrema preocupação, garantindo que o visitaria depois das aulas, o que era basicamente o plano inicial dos amantes.
Os pais de Murasakibara, assim como seus quatro irmãos mais velhos, não estariam em casa naquele dia, e por aquilo ele seria eternamente grato. O Pivô passou grande parte da tarde nas imediações da cozinha, sentindo grandes dificuldades em preparar o jantar. Era difícil de acreditar que aquela mesma pessoa que estava prestes a colocar fogo na casa era a mesma que preparava deliciosas sobremesas. ² Parecia mais fácil com o Kagami. Era extremamente doloroso admitir que o ruivo realmente sabia cozinhar receitas saborosas.
O sol já estava quase se pondo quando Murasakibara terminou de preparar o último prato, coincidindo com o som estridente da campainha, que anunciava a chegada de Himuro. O rapaz de cabelos roxo não se preocupou em arrumar a bagunça que a cozinha e sua pessoa estavam, naquela altura do campeonato já não havia mais nenhum motivo para esconder a verdade do moreno.
– Muro-ch... – Murasakibara mal teve tempo de abrir a porta, visto que a sua mais nova visita empurrara o pedaço de madeira com brutalidade, fazendo com que a mesma batesse em sua testa. – Isso dói, Muro-chin!
– D-Desculpa, Atsushi. – O Lançador largou as sacolas e levou ambas as mãos ao rosto do rapaz à sua frente, enquanto o observava com feições preocupadas. – Como você está? Se sentindo melhor?
Ah! Eu disse que estava resfriado.
– Eu menti, Muro-chin – Murasakibara inclinou o rosto em direção ao toque do moreno, sentindo seu peito tornar-se aquecido com aquela proximidade familiar. – Minha saúde está ótima e eu estou me sentindo bem.
– Atsushi! Por que você mentiu? – Himuro estava visivelmente contrariado. Seus olhos agora o observavam com seriedade. – Você não pode faltar às aulas por causa de seus caprichos.
– Não foi por capricho. – Murasakibara deu às costas e andou em direção ao longo corredor, sabendo que sua visita o seguiria – Eu estava preparando seu presente, Muro-chin~
– P-Presente? Mas Atsushi, você não é uma garota, não precisava ter se dado ao trabalho.
– Eu sei, mas nós somos namorados. – Murasakibara arrumava a mesa de jantar que ficava logo ao lado da cozinha. Ele estava sendo inteiramente verdadeiro ao dizer aquelas palavras. Apesar de ser embaraçoso para um rapaz verbalizar seus sentimentos, o Pivô sentia que aquilo era o mínimo que ele poderia fazer pelo moreno.
– O que eu faço com você? – Himuro suspirou baixo, abraçando seu amante por trás.
– Nada, porque nós vamos jantar agora. – O rapaz de cabelos roxo retirou as mãos que estavam em volta de sua cintura com delicadeza, beijando a ponta dos dedos de Himuro em um gesto carinhoso e respeitoso.
A atmosfera vergonhosa aos poucos deu lugar à intimidade que eles experimentavam somente na companhia um do outro. O ex-jogador da Teiko ficou responsável por terminar os preparativos, deixando claro que o moreno estava estritamente proibido de se levantar do seu lugar na mesa. Quando não havia mais nada a ser arrumado, Murasakibara sentou-se do outro lado do mesa, servindo ambos os pratos com uma porção generosa de macarronada e outras misturas. O rapaz de cabelos roxo esperou o Lançador dar a primeira garfada, não podendo evitar de sentir-se ansioso quanto à opinião dele.
– Está delicioso, Atsushi. E esse tempero me parece familiar...
– Eu tive aulas de culinária com o Kagami. – Murasakibara suspirou aliviado. Se o sabor de seu tempero estava parecido com o do ruivo, significava que seu dever estava cumprido. Seus lábios estavam prestes a provar da refeição, quando um som peculiar o fez levantar os olhos. Himuro gargalhava gostoso e lágrimas teimavam em escapar de seus olhos, tamanho era o seu divertimento. – O que é tão engraçado?
– Você e... Taiga. – O moreno precisou segurar a borda da mesa para se controlar. – Cozinhando juntos... Eu gostaria de ter visto isso... – A crise do Lançador durou mais algum tempo, e o próprio rapaz de cabelos roxo não conseguiu deixar de sorrir. Muro-chin parece feliz.
– Aquele idiota só serve pra cozinhar.
– Não diga isso de Taiga. – Himuro respondeu divertido. – Você deveria tentar se dar bem com ele. – A simples menção dos dois convivendo pacificamente fez com que o moreno risse mais uma vez.
Murasakibara permaneceu em silêncio, sua boca ocupada demais para fazer qualquer coisa além de degustar da deliciosa refeição. O silêncio perdurou durante quase o jantar inteiro, entretanto, nenhum dos dois estavam desconfortáveis. Principalmente o moreno, que não retirou o sorriso dos lábios um instante sequer.
Quando os pratos se tornaram vazios, o Lançador se prontificou a lavar as louças, alegando que se sentiria inútil caso permanecesse parado enquanto Murasakibara realizava todo o trabalho pesado. Dessa vez, o rapaz de cabelos roxo não negou a ajuda, avisando que estaria o esperando na sala. Tentando ser o mais discreto que um rapaz com seus 208 cm conseguia ser, ele abriu a geladeira e cortou duas fatias do bolo de frutas (o preferido de Himuro) que havia preparado, espiando por cima do ombro uma vez ou outra para se certificar de que sua companhia estava mesmo lavando a louça. Percebendo que não havia sido descoberto, o rapaz de cabelos roxo dirigiu-se à sala de estar, depositando os dois pratinhos sobre a mesa de centro, só agora reparando que havia dois pacotes logo abaixo do móvel. Curioso como era, o Pivô vasculhou seu conteúdo, surpreendendo-se ao encontrar uma quantidade considerável de bombons.
Seus olhos brilharam com o prospeto de devorar todas aquelas delícias, contudo, Murasakibara não se surpreenderia caso os chocolates tivessem sido entregues ao moreno, mimos cheio de sentimentos mascarados, e aquele pensamento não o agradava nem um pouco. Perdido em pensamentos, o rapaz não percebeu que tinha companhia até sentir um gentil toque em seu ombro.
– Eu estava te chamando. O que aconteceu, Atsushi?
– De quem são esses chocolates?
– Eles são seus. – Himuro sorriu, pegando um bombom a dedo, desembalando-o e entregando ao Pivô.
– Eu posso mesmo comê-los, Muro-chin?
– Até onde eu sei, os chocolates foram entregues pelas garotas da nossa sala, e todas elas alegaram que não possuíam segundas intenções. Elas estavam preocupadas e te desejaram melhoras. – A última frase foi dita em um tom levemente sarcástico.
– Então eu vou comê-los~ – Murasakibara pegou o doce das mãos do moreno, substituindo-o pelo pratinho contendo o bolo de frutas.
– Obrigado. – O moreno agradeceu, sentindo-se desconcertado por receber tamanha atenção. O primeiro pedaço da sobremesa desceu ideal por sua garganta. – Seus bolos são ótimos, Atsushi.
– Nee... Você recebeu alguma confissão? – Ele não havia escutado o elogio.
Apesar de quase sempre agir como uma criança, Murasakibara não era tolo e nem inocente a ponto de acreditar que aquele tipo de situação não aconteceria. O moreno era um rapaz extremamente belo e atraente, portanto, era redundante dizer que o que não faltava eram garotas ou até mesmo rapazes interessados em sua pessoa. Não é como se Murasakibara se sentisse confortável em conversar sobre o assunto, mas ele confiava em Himuro, e os quase um ano de relacionamento o fizeram aprender a controlar o ciúme que sentia do moreno.
– Eu recebi duas confissões, mas nem preciso dizer que as declinei, certo?
– Heeh~ O Muro-chin é popular. – Sua voz não saiu brava, contendo o costumeiro tom desinteressado e arrastado.
– Não seja bobo. – Himuro beijou de leve os lábios do rapaz de cabelos roxo, retirando os pratos vazios da mesinha. – Algumas garotas ficaram extremamente chateadas por você ter faltado ao colégio hoje. Me pergunto o motivo...
Murasakibara deu de ombros, perguntando ao moreno se ele gostaria de tomar banho. Ao ouvir a negativa, o rapaz de cabelos arroxeados avisou que estava indo primeiro e que o Lançador poderia esperar no quarto se assim quisesse. O banho foi mais longo do que o necessário, e Murasakibara cozinhou debaixo do chuveiro por quase quarenta minutos, tempo este que foi utilizado para relembrar das horas que ele havia acabado de passar com o moreno. Ele parecia feliz, e só de ver o sorriso de Himuro era mais do que suficiente para compensar o sacrifício que havia sido encontrar o ruivo logo de manhã.
Sua troca de roupas foi um confortável conjunto de moletom, apesar do aquecedor estar ligado, Murasakibara não arriscaria pegar um resfriado de verdade. O banheiro ficava no primeiro andar da residência, ao lado do quarto do Pivô, portanto, poucos passos separavam os cômodos.
– Pode ir tom...
Seus olhos reconheceram a pessoa sentada em sua cama, entretanto, havia algo extremamente errado. Himuro escondia o rosto entre as mãos, e a maneira que seu corpo tremia deixava claro o que estava acontecendo ali. Por que o Muro-chin tá chorando?!
– Muro-chin... Olha pra mim, Muro-chin! – Murasakibara sentou-se aos pés do moreno, tentando em vão afastar as mãos de seu rosto.
Sem saber o que fazer, Himuro permaneceu naquela posição, tentando veemente ignorar a voz preocupada do rapaz de cabelos roxo. Sabendo que não conseguiria escapar de Murasakibara por muito tempo, aos poucos seu rosto foi descoberto, revelando bochechas coradas e olhos que brilhavam devido às lagrimas.
– Me desculpa, Atsushi. – Sua voz soou sussurrada, como se o moreno tivesse confessando um dos seus piores pecados.
– Sabe, quando eu me encontrei hoje com o Kagami, eu meio que prometi à ele que jamais faria o Muro-chin sofrer...– O Pivô apoiou a cabeça sobre os joelhos do moreno, sentindo seu peito tornar-se menos pesado ao sentir delicadas mãos acariciando seus cabelos. – Acho que eu falhei...
– Isso não é verdade! – O moreno levantou a voz, pedindo desculpas em seguida por ter perdido a compostura – Você me faz extremamente feliz. Então... Nunca mais diga que falhou, Atsushi, porque você é bom demais pra mim.
– Então por que você está chorando? – Murasakibara franziu o cenho em confusão.
A resposta propriamente dita Murasakibara só saberia algumas horas depois. O moreno limitou-se a beijar a pessoa a sua frente, e o rapaz de cabelos arroxeados demorou algum tempo para assimilar os acontecimentos, no entanto, suas mãos seguraram o rosto do moreno em um gesto automático. Suas línguas se encontravam com necessidade, e suspiros e gemidos escapavam quando suas bocas se separavam. Murasakibara percorria suas mãos livremente pelo corpo do Lançador, demorando-se nas coxas definidas por anos de treinos. Durante toda a movimentação Murasakibara havia se sentado na cama com o moreno sentado em seu colo de costas para si, e seus lábios distribuíam beijos possessivos na pele exposta de seu pescoço.
– M-Muro-chin... Você não respondeu minha pergunta... – O rapaz de cabelos arroxeados tentava manter-se são, mas digamos que ter um Himuro se movendo de uma maneira extremamente sugestiva em seu colo não ajudava muito.
– Nós vamos conversar depois, Atsushi. – O moreno retirou a parte de cima de seu uniforme e Murasakibara fez o mesmo com o seu agasalho. Agora parcialmente despido, Himuro virou-se de frente e o beijou longamente.
Se ainda existia algum resquício autocontrole no Pivô, ele havia evaporado naquele exato instante. Não contendo mais seus atos, o ex-jogador da Teiko desabotoou a calça social de seu amante, retirando-a desajeitadamente, passando assim a acariciar a ereção encoberta. A velocidade em que suas mãos se moviam aumentava conforme os gemidos do moreno se tornavam mais audíveis, ao passo que seus dentes lhe mordiscavam o mamilo direito, deixando a pele avermelhada. Sentindo uma súbita urgência em senti-lo diretamente, Murasakibara deslizou sua mão para dentro da roupa de baixo escura de seu amante, masturbando-o agora com mais facilidade devido ao pré-orgasmo.
Himuro atingiu o ápice em questão de minutos, gemendo alto enquanto os característicos espasmos de prazer tomavam conta de seu corpo. Os olhos violetas de Murasakibara brilhavam diante de tal cena. Palavras não poderiam descrever o que ele sentia ao ver Himuro tão vulnerável, gemendo e contorcendo-se entre seus braços.
O cômodo que até então ecoava gemidos e suspiros se tornara silencioso. Himuro se recuperava de seu recente orgasmo, enquanto o Pivô simplesmente lhe acariciava as bochechas rubras, esperando pacientemente para que eles pudessem prosseguir. Murasakibara soube que o moreno estava pronto assim que um pequeno sorriso brotou em sua face, no entanto, suas costas foram de encontro ao colchão antes que ele pudesse tomar a iniciativa. O moreno encostou seus lábios nos do Pivô levemente, para em seguida começar a trilhar um perigoso caminho de beijos e mordidas pelo seu peitoral e abdômen. Havia algo extremamente interessante em observar Himuro realizar aquele tipo de estimulo, e o rapaz de cabelos roxo respirava mais rapidamente conforme as carícias se aproximavam de seu baixo ventre.
Murasakibara ansiava pela continuação, desejando intimamente que seu amante acelerasse o processo. Contudo, qualquer tipo de pensamento foi afastado de sua mente quando o Lançador repentinamente capturou sua ereção com os lábios. Apoiando-se sobre seus cotovelos, o rapaz de cabelos arroxeados excitou-se ainda mais ao encarar o moreno diretamente. O único olho visível transbordava luxúria, demonstrando o quanto lhe agradava oferecer aquele tipo de serviço. Inábil a sequer pensar coerentemente, o ex-jogador da Teiko estava imerso na incrível sensação de ter sua ereção estimulada pela língua de Himuro, tanto que ele ao menos conseguiu avisar que seu orgasmo estava próximo, sentindo uma mistura de culpa e desejo ao ver o moreno engolir sua essência.
– Desculpa, Muro-chin. – O Pivô procurava algo para limpar os resquícios nas mãos e no rosto de Himuro.
– Não se preocupe, Atsushi. Você sabe que eu não me preocupo com esse tipo de coisa.
– Mas deveria...
O assunto não era inédito, portanto, Murasakibara sabia que gastar seu vocabulário sobre o assunto novamente não levaria a lugar nenhum. Quando não havia mais nada a ser dito, suas mãos empurraram o moreno fazendo com que ele se deitasse sobre o macio colchão. Com as posições invertidas, o rapaz de cabelos roxo tateou às cegas o gaveteiro à procura do pequeno pote de lubrificante enquanto beijava os lábios alheios com fome. Mesmo sem olhar, ele reconheceu o objeto entre seus dedos trêmulos, abrindo-o e despejando uma quantidade considerável do líquido transparente em sua mão direita. O primeiro dedo entrou sem resistência e, apesar de Himuro já estar acostumado com aquele tipo de estímulo, Murasakibara o movia lentamente.
– A-Atsushi. – O moreno o chamou entre gemidos – Mais rápido...
Após ouvir o pedido, Murasakibara passou a mover a penetrá-lo com insistência, adicionando um segundo dedo em seguida. Dessa vez o Lançador gemeu de dor, mas ambos sabiam que era somente uma questão de segundos para que o desconforto se transformasse em prazer. Embora o ex-jogador da Teiko desejasse estar dentro de seu amante o mais rápido possível, ele jamais se arriscaria a machucá-lo. Por trás da aparência intimidadora se escondia um amante extremamente atencioso, que não media esforços para agradar aquele que amava. Os minutos pareciam horas, e quando Murasakibara percebeu que o moreno já estava acostumado o suficiente, ele retirou seus dedos e o penetrou sem cerimônias.
Tudo o que se ouvia no quarto eram os gemidos, o ranger da cama e o barulho do ato em si. Murasakibara apertava a cintura do moreno possessivamente, e seus olhos o devoravam silenciosamente. A beleza do moreno acentuava-se naqueles momentos. Não havia nada mais belo do que Himuro Tatsuya com bochechas coradas de excitação, lábios entreabertos que proferiam doces gemidos e olhos que transbordavam luxúria. Chega a ser irritante o quão perfeito Muro-chin consegue ser.
O ritmo imposto pelo rapaz de cabelos roxos era intenso, seus quadris moviam-se com precisão, acertando a próstata do Lançador incontáveis vezes. Murasakibara não mais conseguia conter seus gemidos, que mesmo baixos, misturavam-se à voz embargada do moreno e formavam um dueto.
– M-Meu nome... Chama o meu n-nome, Atsushi...
Murasakibara não se surpreendeu ao escutar o inusitado pedido. Aparentemente, o moreno gostava de escutar seu nome sendo proferido pelo rapaz de cabelos roxo, principalmente em momentos íntimos como aquele. Quando estavam na companhia de seus colegas de time ou em público, eles não podiam se dar ao luxo de permitir tamanha intimidade, mas quando eram somente os dois não havia nenhum impedimento. A bem verdade, mesmo que Himuro não tivesse pedido, o Pivô chamaria seu nome. Bem lá no fundo o Pivô sentia-se especial por ser um dos poucos (Kagami não contava!) a ter o privilégio de chamá-lo pelo nome, como se ele fosse uma pessoa realmente importante na vida do moreno.
– Tatsuya... – Suas mãos acariciavam o rosto de Himuro gentilmente.
O sorriso estampado no rosto do moreno era tão genuinamente feliz que fez o coração de Murasakibara pular uma batida. Seus próprios lábios curvaram-se em um tímido sorriso, momentos raros que apenas Himuro possuía o privilégio de presenciar.
E foi entre suspiros e palavras cheias de carinho que os dois amantes chegaram ao ápice, sentindo com satisfação que não eram apenas seus corpos que estavam unidos.
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Seus corpos cederam ao cansaço após uma hora. Himuro havia insistido que tomaria um banho rápido, mas o rapaz de cabelos roxo insistiu em acompanhá-lo – com a desculpa de que acabariam mais rápido – o que resultou em mais dois orgasmos compartilhados debaixo do chuveiro. Exaustos para sequer mover um músculo, Murasakibara estava acomodado sobre a cama com o moreno deitado sobre si. Seu nariz estava afundado nos cabelos recém-lavados de Himuro, sentindo o cheiro de seu próprio shampoo relaxar seu corpo quase que instantaneamente.
– Que horas sua família voltará? – O Lançador não fugiu do toque, apoiando seu queixo sobre o largo peitoral de Murasakibara e olhando-o diretamente nos olhos.
– Hm... Daqui uma hora.
– Então é melhor eu me trocar. – Himuro havia pegado um conjunto esportivo emprestado, o que significava roupas de pelo menos três numerações maiores do que ele costumava vestir.
Murasakibara o deteve antes que ele pudesse se levantar da cama, decidido a arrancar respostas às suas perguntas que ficaram de lado devido a... motivos maiores.
– Por que você estava chorando? – Direto e sem rodeios, assim como o ex-jogador da Teiko costumava ser. A expressão no rosto do moreno dizia claramente que ele pensava que o assunto já havia sido esquecido. O Pivô não o pressionou, ele esperaria o tempo que fosse preciso se isso significasse que Himuro falaria sobre seus anseios.
– Isso é mesmo necessário?
– Sim. Você disse que conversaríamos depois. Agora é depois.
E pela segunda vez a expressão no rosto do Lançador demonstrava descrença, como se estivesse perguntando mentalmente o porquê de Murasakibara lembrar facilmente sobre palavras ditas no calor do momento. O moreno sentou-se de costas para o rapaz de cabelos roxo, dizendo em voz extremamente baixa o que tanto queria esconder.
– Eu estava feliz...
Apesar do tom sussurrado, Murasakibara havia escutado em alto e bom som o que seu amante havia dito. Seus olhos se arregalaram levemente, sua mente tentando assimilar os fatos e acontecimentos. Muro-chin estava chorando só porque estava... Feliz? Quem não conhecia o ex-jogador da Teiko juraria que estava alucinando ao vê-lo rindo livremente, porém, lá estava ele, tentando ao máximo ser o mais discreto possível e perguntando internamente como um ser humano conseguia ser tão adorável.
– Como você é bobo, Muro-chin. – Recuperado da pequena crise, seu rosto agora vestia a habitual expressão neutra, mas intimamente ele ainda sorria, aliviado por saber que suas preocupações não eram tão graves.
– Eu não sou bobo, Atsushi, é que você não sabe como eu me sinto.
– Claro que eu sei. Você me ama, Muro-chin. – Murasakibara arrastou-se sorrateiramente para perto de sua companhia, abrando-o por trás e descansando seu queixo sobre o topo da cabeça morena.
– Não! Q-Quero dizer, é muito mais do que isso. – O Lançador entrelaçou seus dedos entre os que estavam pousados em sua cintura antes de prosseguir – Eu sinto constante medo em te perder. Que eu cometa algum erro estúpido e que você se canse de mim. Eu não quero perdê-lo, Atsushi... Não você.
– Por isso você é bobo. Não ouse pensar que eu farei a mesma coisa que Kagami fez. Aliás, o que aconteceu entre vocês foi tudo por culpa dele (aquilo não era verdade, visto que ambas as partes possuíam sua parcela de culpa, mas para Murasakibara o moreno era a única vítima da história). Eu vou estar sempre ao seu lado, acredite em mim. É uma promessa.
– Eu não sei se eu mereço...
– Para com isso, Muro-chin.
A tarefa não era difícil, mas Murasakibara teve grandes dificuldades em virar seu amante para encará-lo diretamente devido à grande relutância do mesmo. Após alguns segundos de resistência inútil, o moreno cedeu, exibindo olhos vermelhos e uma expressão que demonstrava claramente que estava tentando reprimir as lágrimas. O rapaz de cabelos roxo o abraçou fortemente – tendo em vista que era difícil manter-se impassível perante um Himuro trêmulo e frágil – e por mais que fosse inoportuno, ele se lembrou do passado não muito feliz que a amizade do moreno com Kagami possuía. As feridas do moreno ainda não haviam se cicatrizado completamente, mas Murasakibara não se importava com aqueles detalhes.
– Você está chorando bastante hoje. – O ex-jogador da Teiko limpava as lágrimas de Himuro.
– Eu não estou chorando! Eu só estou feliz...
Eu disse que não faria o Muro-chin sofrer, mas acho que não tem problema se ele estiver chorando de felicidade...
Murasakibara encostou sua testa na do moreno, selando seus lábios logo em seguida, deslizando sua língua vagarosamente para dentro de sua boca. O beijo parecia diferente de todos os que eles já haviam trocado, como se fosse a confirmação dos laços que os uniam. Ele não havia mentido quando disse que sempre estaria ao lado de Himuro. A verdade era que o rapaz de cabelos roxo estava tão acostumado a presença de seu amante e companheiro de time que ele ao menos conseguia imaginar seu presente e futuro sem aquela pessoa. O assunto não estava finalizado e Murasakibara sabia que futuramente outras dúvidas surgiriam, mas por hora ele aproveitaria daqueles doces momentos que só o moreno era capaz de lhe proporcionar.
Nada parecia mais certo do que ter Himuro entre seus braços, e, para Murasakibara, somente aquela certeza bastava.
FIM.
¹ — Não lembro se o Murasakibara chama o Kagami de ''Bakagami'', mas resolvi colocar assim porque fica bonitinho x)
² — Pra quem não sabe, o Murasakibara seria um pâtissier em sua profissão alternativa.
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