Adão e Eva, numa galáxia distante
17 Cap. 17. O encontro da filha perdida
Notas iniciais
No “Mundo de V”, Nestor estava alucinado pensando na chegada de Adão, e Ana havia enlouquecido de vez, organizando as crianças para cantar, fazer bagunça, desfilar, falando que estava chegando sua irmã desde seu Mundo. Seus filhos Alessandro, Sílvio e Miguel estavam ainda mais eufóricos, pois veriam seu primo Amon-rá, que só conheciam como um bebê nos filmes do pai. E para recebê-los, organizaram um festão no ginásio da Escola esportiva.
Os meninos desse novo mundo já não eram mais crianças.
Havia casais carregando no colo uma recém- nascida e trabalhando nessa cidade como adultos responsáveis, com horários leves. Capinavam o chão, faziam a horta, cozinhavam, construíam novas moradias para quem estava noivo, faziam mobílias esculpidas na madeira, e havia os tecelões que fabricavam inúmeros tecidos. E como em toda sociedade superior, ninguém era remunerado por fazer seus trabalhos.
Dos homens que cruzaram a imensidão com Nestor, para terminar com uma guerra nuclear, poucos deles haviam sido enfeitiçados pela beleza dessa selva exuberante. Ficaram ali apenas alguns professores nas Escolas, Médicos nos hospitais e Arquitetos que tinham encarado a responsabilidade de ajudar as crianças de “V” a reconstruir seu mundo, além do tempo devido. No dia em que Caim partiu de regresso com 90% da frota, junto aos Espiões e aos voluntários de “C”, “D” e “I”, Nestor percebeu que estava sozinho, pois não passou pela sua cabeça, em momento nenhum, que sua responsabilidade estava acabada. E como Ana e seus filhos consolaram-no com carinho, ele entrou no trabalho pesado pela primeira vez na vida.
Nestor percorreu o planeta palmo a palmo examinando o chão, colocando toda sua sabedoria de geólogo em ação. Como biólogo estudou os micro-organismos que começavam a se formar nos desertos áridos, e na escola começou a dar aulas de Arquitetura. E, como em toda cultura superior, nenhuma mulher com filhos menores trabalhava naquele lugar. Dessa maneira então, Ana ficava em casa cuidando dos meninos, nadando na piscina, tomando banhos de Sol, enquanto um robozinho na cozinha lhes fazia os sucos de frutas, os sanduíches, as saladas, enfim. Ana só fazia o jantar quando Nestor regressava para casa. Estendia uma toalha de mesa, colocava pratos e perguntava para ele com telepatia se estava chegando sozinho, ou com invitados. Fazia o feijão, o arroz e as sobremesas. Também emoldurava tortas de aipim em formatos artísticos, faziam ensopados, pastéis no forno, e saladas. Havia tanta verdura a mão, que Ana fazia sempre 5 variedades, onde o repolho, as berinjelas, os tomates, os brócolis, a alface, se acomodavam lado a lado com seu colorido. Decorava com azeitonas, ovos de codorna e pimentas. Nestor adorava as pimentas desse novo mundo. As comia a mordida e depois engolia litros de água para apagar o fogo na boca.
Adão deu uma volta ao redor do orbe, voando baixo, por cima das cidades de beira-mar, para ver os sobreviventes em suas casas. Depois sobrevoaram desertos enormes, com manchas verdes, em cujos lugares se estavam formando um novo ecossistema. Adão também apreciou os lagos, os rios, as montanhas nevadas, e sentiu uma profunda emoção ao ver uma mata virgem com uma cidade, cujas belezas da arquitetura se misturavam às maravilhas da natureza. Desceu no centro de um círculo de plantas ornamentais, sobre uma grama tão extensa como num campo de futebol. Esticou 10 tentáculos de metal finíssimos, abriu a porta inferior, fez funcionar o raio, e pulou no vazio para abraçar seu irmão.
Enquanto a Ana gritava alucinada com Evita, como duas crianças, eles ficaram em silêncio, olhos úmidos, como fazem os homens sob forte emoção. Fernando os filmou, e depois foi abrindo caminho para dar uma geral nessa cidade linda, cheia de flores e casas maravilhosas.
Sílvio, Miguel e Alessandro se apresentaram sozinhos ao primo Amon-rá, junto a uma turma de guris e fizeram as apresentações de todos. Enquanto isso, uma banda começou a tocar, e umas gurias a pular cambalhotas, desfilando ao redor, num encontro onde todos estavam felizes. Evita apresentou Mônica para sua irmã, e em seguida foram ao encontro de um mundo de gente jovem, com meninos lindos, que os olhavam com um doce sorriso na boca. Evita tomou uma guria no colo imediatamente, depois foi falando com quem estava mais de perto, enquanto caminhavam pela cidade. Ana mostrava-lhe tudo, lhe explicava sobre as colheitas, os detalhes da construção da Escola, de como haviam semeado o capim das ruas, orgulhosa de seu trabalho. Evita aproveitava a lição e examinava de perto, pois essa grama era linda. Começou a pedir sementes de tudo que havia de mais belo, pois queria construir em “Z” jardins maravilhosos iguaizinhos a esses.
Depois dos irmãos se acalmarem, Nestor pegou Amon-rá nos braços, enquanto Adão abraçava com emoção os trigêmeos um a um, pois Miguel e Alessandro eram os seus vivo retrato. Morenos, olhos cristalinos, que os faziam belíssimos, e sérios. Não eram bagunceiros nem falavam muito. Em seguida, os cincos caminharam abraçados, em busca das mulheres confundidas entre a gurizada. Atravessaram essa cidade, entraram na Escola esportiva redonda, e chegaram num salão decorado com flores e mesas com comidas, servidas por meninos de todas as idades. Evita sentou com Ana e Mônica numa mesa decorada com arte, e ficaram conversando, comendo, enquanto as crianças cantavam e tocavam instrumentos com músicas lindas. Adão e Nestor se olhavam um ao outro, felizes, pois a emoção de estarem juntos os tinha derrubado. Adão examinava os meninos dessa cidade, todos eles sadios, fortes, sem nenhuma depressão, namorando as meninas com respeito, muita discrição, pois o sexo deixavam para depois do casamento. Ficou assustado, pois havia 5 homens para cada mulher. Nestor, sorrindo, explicou-lhe que os recém-casados estavam tendo somente meninas, de nove em nove meses, até que os sexos ficassem em quantias iguais. Ele calculava que em 50 anos, poderia finalmente nascer o primeiro homem. Adão deu uma ideia melhor, em mais 20 anos podia enviar os trigêmeos até “Z” em busca de esposas, pois as Lemurianas eram luminosas e teriam filhas tão belas quanto elas. Podia enviar também homens de “V”, pois as índias de “Z” depois de uma boa educação iam ser tão lindas e sedutoras quanto às desse mundo. Nestor achou a ideia bárbara. Além do que, era um bom motivo para se visitarem novamente.
Tarde da noite, encaminharam-se para a mansão de Nestor.
Evita e Adão estenderam-se numa rede, Nestor e Ana numa outra, e conversaram e gargalharam até o dia seguinte.
Nos dias subsequentes, olharam juntos aos documentários feitos por Fernando, onde os amigos de infância lhes deram um concerto de rock, com perucas e roupas extravagantes. A seguir, Nestor viu os filhos desses amigos fazendo maluquices junto aos seus pais, e só chorou quando seus pais e seus sogros ficaram em frente, falando para ele.
— Puxa, cara, eu sinto tanta falta deles...
— Nem fala. O pior de tudo é que vamos perdê-los na eternidade.
— Como assim?
— Bem, se tu nasces anjo, vais subir muito alto, e eles vão ficar para trás. Eu vou reencarnar em “Z” durante uns 6.000 anos. Eles vão subir, enquanto eu fico lá, no fim do Universo.
Ana os interrompeu:
— Meu pai nunca vai nos abandonar... Eu tenho certeza que vai nos espionar e vamos achá-lo, seja lá onde formos nascer. Né, irmã...
— Aposto qualquer coisa... Nossa mãe é nossa mãe, faz uns 4 milhões de anos...
Adão ficou encabulado. Era verdade. João encarnava sempre com a prole. Mas, como é que se fazia uma coisa dessas?
E riram em coro, até que a dor da saudade minguou.
Nos dias seguintes viajaram para as cidades das ilhas, onde as pessoas morriam em ritmo acelerado. Adão os examinou, com um vidro vermelho para detectar doenças, e viu com horror que a maioria tinha células cancerosas espalhadas em cada célula do corpo. Depois lhes examinou sua mente, tentando verificar se as palavras de Caim eram exatas.
Havia grupos humanos que compartilhavam casas lindíssimas, em sistema de matriarcado, pois a maioria masculina determinara esse tipo de união. Mulheres com três ou cinco esposos preparavam banquetes para todos, costuravam suas roupas, limpavam a casa, pois os homens passavam o dia trabalhando tanto no comércio quanto em pequenas empresas de produtos. Dentro de casa, comiam em silêncio, e de noite, um deles dormia com a esposa num quarto separado.
Adão então examinou como era o sexo, lendo a mente de todos. Soube assim que a maioria deitava na pose papai mamãe, e sem nenhuma carícia, entravam nelas e ejaculavam logo. Os movimentos eram mecânicos, fortes, que muitas vezes causavam mais desgosto do que prazer. Nenhuma palavra de amor. Nenhum cafuné. Os homens desejavam os orgasmos, apenas isso.
Depois Adão examinou a mente das esposas, trajadas com roupas cumpridas, apesar do calor daquele lugar. Eram pessoas sem sentimento de “nada”. Tinha as mulheres ardentes, mais, jamais, em hipóteses alguma, elas gritavam de prazer. Gozavam de boca fechada, no máximo com um suspiro. Tentou adivinhar se elas gostariam de outra vida. Recebeu como resposta que a única coisa que elas esperavam com ânsia, era a “morte”.
Inconformado, Adão teve vontade de matar todos os homens, qual “Anjo justiceiro”.
Mas, como ele não era Anjo, abandou as Ilhas, reativando o câncer em forma acelerada, para que eles morressem o mais rápido possível. Deixou UM marido forte e sadio para cada mulher. Aquele que era o “menos pior”. E a esse escolhido o hipnotizou para cozinhar, limpar a casa, lamber como um cão a esposa centímetro a centímetro, fazer sexo oral, ter relações sexuais sem trégua durante 6 horas seguidas, pelo resto de sua vida. No fim das contas, havia medidas que um ser humano podia assumir sem remorsos.
Enquanto Adão viajava com Nestor, um grito telepático lhe chegou de longe. Amon-rá gritava que sua futura noiva estava para nascer. Rindo do pirata, pois ele já havia espionado no Espelho falante o ventre de Mônica, cruzaram o mundo para atender esse parto.
Mônica foi levada até o hospital, onde Fernando e Amon-rá ficaram na sala de cirurgia um de cada lado, olhando com atenção. Fernando com a câmara no ombro, e Amon-rá com o coração palpitando. Mônica ficou em posição de cócoras, levemente deitada, perna arqueada, Adão lhe desintegrou as fezes, parou as contrações, ele mesmo dilatou o colo, e a menina saiu diretamente a seus braços. Limpou-a enquanto Fernando abria a boca falando: — “Incrível”, e Amon-rá gritava: — Yes! Depois todos se acercaram a olhar de perto o cabelo vermelho fogo dessa menina, igual ao cabelo da Ana, perguntando-se como era isso possível.
Adão olhou para o filho que estava eufórico, fascinado com a beleza dessa menina, e mexeu a cabeça sorrindo. Cuidou de Mônica enquanto Amon-rá ficava ao lado de Evita, que deu um banho quente à recém-nascida. Secou-a, embrulhou-a em panos delicados e entregou-a para Fernando, que estava sorrindo ao lado deles.
Depois tudo foi alegria.
Fernando foi abraçado pelos novos amigos, beberam sucos, comeram nesse hospital, e tarde da noite deixaram-no a só com sua família.
Ele deitou sua menina numa cama pequena, e ele se estendeu ao lado da esposa, beijando-a docemente, lágrimas nos olhos, sem entender do porque do cabelo ser dessa cor. Mônica falava que ela tinha uma tia com essa cor de cabelos e uma vovó, mas a duas haviam feito cirurgia igual à Ana. Riram juntos, e dormiram abraçados.
Nos dias subsequentes, Mônica dava os seios, e depois a criança era carregada por alguém. Era Evita, ou Ana, que a tomavam no colo para passear pelo mato, ou nadar na piscina, enquanto Mônica se recuperava deitada num dormitório. Fernando deitava ao seu lado, sempre a beijando, trancava a porta e faziam amor. Quando os berros de telepatia lhe chegavam aos ouvidos, sabia que sua filha estava regressando para mamar. Saía desse dormitório, carregando Mônica no colo, e deixava-a estendida em algum lugar para amamentar a filhinha.
Depois tudo era festa novamente.
A casa de Ana fervilhava de visitas sem descanso, desde que Evita chegara. Era pessoas preparando banquetes o dia todo, gente que chegava a comer e partia a trabalhar, robôs que cuidavam de crianças, gente que mergulhava na piscina, outras que tomavam Sol em biquínis pequeninhos, sem que Fernando sequer conseguisse aprender o nome de todo esse mundaréu. Era uma vida louca. Mas, muito feliz, com Adão e Evita totalmente entrosados na bagunça generalizada.
Quando Noemi, filha de Mônica e Fernando começou a engatinhar e tomar sopinhas, só então Adão decidiu continuar a caminhada através das estrelas.
A despedida das visitas foi triste, próprio de pessoas que se amam. Amon-rá fizera amizade com seus primos e eles sentiram pela primeira vez o sofrimento causado pela separação de um ente querido.
No dia da partida, Ana chorou abraçada em Evita, por longo tempo, enquanto Nestor preferia sorrir para esconder sua dor. Prometeu visitá-los a todos em “Z” e lhe disse que dali em diante esse mundo estaria de prontidão para ajudar o outro no que fosse necessário. Adão prometeu instalar um Espelho falante em “Z”, e disse que se chamariam todos os dias. Depois, abraçaram-se emocionados e se separaram.
Nestor olhou para essa nave dupla, e ajudou Adão na decolagem. Eles subiram lentamente, com Evita e Adão abraçados frente às janelas, com lágrimas escorregando pelo rosto. Depois desapareceram no ar.
Dentro das naves, quando os robôs perguntaram sobre a rota, Adão perguntou para Fernando se topava um desvio para “W de BETA”, que ficava a dez dias de viagem.
—Mas, qual é a finalidade?
—Curiosidade, só isso. Quero que faças uma filmagem aérea enquanto Evita e eu descemos pelo raio. Quando eu te chamar nos traz de volta e continuamos para outro mundo.
—Bem, tu és o patrão... Vou aprontar as lentes...
Numa cidade pequena do planeta “W de BETA”, iluminada com eletricidade, e em cujas avenidas se alinhavam casas velhas, pessoas mal vestidas, carros caindo aos pedaços, cachorros magros, Adão e Evita caíram do céu, sem chamar atenção de ninguém. Evita ficou olhando para prostitutas oferecendo-se nas ruas, meninos correndo com uma bolsa roubada debaixo do braço, enquanto Adão se concentrava nos becos, onde as pessoas eram assaltadas e assassinadas nesse mundo, a cada 5 minutos.
Um tumulto chamou atenção imediatamente.
Aguçaram a vista e ficaram pasmos, havia três homens divertindo-se com uma guria de 10 anos. A menina encostada contra a parede chorava baixinho, e falava:- mãe, mãe... Evita chegou perto, e gritou-lhes: — “Não preferem uma mulher como eu?” Assim que soltaram a adolescente para se jogar por cima dela, o soco de Adão lhes cortou o caminho. Depois, ele pegou-os um a um, e lançou-os contra o muro sujo, desmaiados. Correram até aquela criança, e olharam diretamente nos olhos dela:
— Amor, é a nossa Inês...
— Nossa caçulinha?
— Ela mesma...
Evita começou a chorar abraçada à menina, com Adão abraçado as duas, felizes de ter achado uma filha perdida, mas horrorizados pelo seu triste destino. Enquanto os três se conheciam, uma mulher chegou até eles, e perguntou:
— Vocês vão pagar por isso?
Evita respondeu-lhe:
— Claro! Quanto custa uma noite com ela?
—Qualquer coisa serve... Esse colar da senhora é muito lindo...
— Então está pago...
Evita puxou suas lindas pérolas, que caíram na calçada espalhando-se com saltos e barulhos, e em seguida caminharam com Inês pelas ruas, esperando que a filha perdesse o medo deles.
A rua deserta foi tumultuada desta vez por um carro negro, cheio de assassinos, que se cruzou no caminho metralhando a duas pessoas que tombaram a poucos metros de Adão. Inês começou a chorar histericamente, gritando abraçada a Evita. Adão se soltou de Evita e correu examinar os corpos. Concentrou-se no coração para evitar a parada cardíaca, e em seguida sugou devagar as balas, cicatrizando as feridas uma a uma e parando o sangramento.
Quando a polícia apareceu, Adão teve que fazer um relatório, detalhadamente, enquanto lia na cabeça dos policiais, para ter as respostas dessa agressão sem motivos aparentes. Ficou sabendo desta maneira sobre a existência “da máfia” desse mundo. Eles eram assassinos organizados que comandavam o tráfico de drogas, os assaltos, a exploração de mulheres e quando alguém lhes atravessava o caminho, prejudicando seus lucros, eram agredidos como essas pessoas. O casal estendido no chão eram jornalistas, que haviam publicado uma matéria denunciando a conexão da Máfia com personalidades importantes dessa cidade.
Rodeados de repórteres, que apareceram num passe de magia, Evita falou defronte os holofotes, mostrou os corpos desmaiados dos agressores de Inês, e assinara uma declaração por escrito para a polícia, enquanto Adão fazia declarações mais graves. Denunciava o nome de todos os esconderijos de droga dessa cidade, o nome de todos os chefes da Máfia, de todos os políticos ligados ao crime organizado, enlouquecendo essa cidade numa noite só. Viaturas policiais e carros com repórteres saíram em direções diferentes. Viaturas pararam em frente de barracos com com drogas para comércio ilícito, desmantelando o crime na maior batida que existira nessa cidade.
Quando Amon-rá soube que seus pais haviam encontrado uma irmã, esperou-os com coração agitado. Assim que a viu chegar, abraçou-se nela com carinho. Agora, Inês sorriu timidamente, achando que havia sido adotada por esses seres lindos, maravilhosos, que caíram do céu para salvá-la.
Depois de conversar com todos, já na suíte, Inês entrou numa banheira enorme, onde sua nova mãe lhe deu um banho gostoso cheio de espuma branca. Recebeu roupas limpas, um vestido de Evita, que ela encurtou com tesoura. Depois Evita lhe desintegrou todos os piolhos, secou seu cabelo, fez um penteado alto, com um laço branco e cingiu seu pescoço com um colar de esmeraldas e diamantes. Fez um furo nas orelhas e lhe pendurou dois brincos azuis de água-marinha. Também lhe deu um anel de ouro com um rubi, uma pulseira de pedras negras, e convertida numa bela adolescente a levou para seu primeiro jantar em família.
Uma vez na mesa, Inês sentou ao lado do irmão, com Evita a sua direita. Fernando e Mônica sentaram com Noemi entre ambos, sentando-a numa cadeira de bebê. Inês pegou um garfo de ouro, e comeu uma torta de verduras num prato de porcelana transparente. Bebeu suco de uva num copo de cristal azul entalhado, limpou a boca com um guardanapo bordado, e soube que dali para frente ela seria uma menina rica. Tão rica quanto às crianças que apareciam na TV de seu mundo.
Amon-rá, que lia sua cabeça como num livro aberto, perguntou para seu pai o que era ser rico, pois isso ele ainda não sabia, não. E Adão explicou:
— A riqueza não existe em nenhum Mundo Superior, filho. A fortuna é consequência da divisão dos homens através do acúmulo de patrimônios. Quem tem muito dinheiro, muitas casas, muitos carros, aviões, é rico, quem nada tem, é pobre. Simples!
—Então, em Atalanta somos todos pobres?
—Não, somos ricos. Temos ouro, pedras preciosas, comida abundante, roupas lindas, saúde excelente. Somos todos abastados, mas, ficamos opulentos somente depois que soterramos o dinheiro, cujo acúmulo dividia a sociedade e grupos desiguais. Nós apenas compartilhamos o que temos. Nossa casa por exemplo. Agora é de Percis e de sua tia. Nunca foi nossa, na verdade. Apenas desfrutamos dela por um tempo. E o carro voador? Percis com certeza o levou para a cidade. Deve estar flutuando sobre o teto de algum amigo.
— Em “Z” existe o dinheiro, pai?
—Infelizmente, ele já foi inventado! Vamos conhecer homens ricos em castelos lindos e homens farroupilhas morrendo de fome e dormindo nas ruas a céu aberto... Também vamos encontrar escravos, canibais, e todo tipo de assassinos... Mas não se assustem, pois vocês vão viver numa cidade subterrânea bem longe de tudo isso. Ali, continuarão a serem abastados e felizes...
—Mas, eu quero fazer algo por eles, pai...
—E vai fazer, sim... Só depois de crescer e ser adulto.
—E a Inês?
—Ela com certeza vai se casar com algum príncipe de “Z”, e vai viver num castelo cheio de escravos...
E foi ali que ela deu seu primeiro sorriso, corada de vergonha, enquanto Amon-rá a abraçava, rindo sem parar. Evita ficou olhando-os com os olhos úmidos, e perguntou-se a si mesma, quantos filhos “00” iria lhe dar em essa vida. Deu um beijo na filha, que nessa altura mal lembrava que um dia havia sido prostituta infantil, aliciada pela própria família para colocar dinheiro dentro de casa.
Nos dias seguintes, Inês começou a estudar com Amon-rá a ler e escrever seu próprio idioma, que todos sabiam muito bem, e depois ela aprendeu a falar e escrever aramaico, o idioma de Amon-rá e de seus pais. Também estudou como jogar cartas, dados e xadrez. Noemi, que vivia no colo do pai e da mãe, ficava nos braços dela de vez em quando, pois ela adorava crianças.
Adão pediu a Fernando passar a dar uma olhada em “X de BETA”. Novamente, Fernando fez uma filmagem aérea, e os desceu com o raio branco, sem fazer perguntas. Ele finalmente entendera que estavam à procura de filhos perdidos.
Fale com o autor