Adão e Eva no berço dos anjos. Segunda parte
8 O encontro dos amantes
Notas iniciais
Fernando e Mônica viajaram para o castelo de Eva e Adão, quando as trigêmeas nasceram. Era a vez de Fernando Júnior ver sua esposa. Um bebezinho tão lindo, que mais parecia uma bonequinha. Olhos ligeiramente rasgados, lilases, cabelos castanhos encaracolados, que nasceu nas águas da lagoa. Marta nasceu loira como Eva, olhos azuis cristalinos, e Inês nasceu com os cabelos castanho claro, olhos verdes, na verdade eram três bonecas maravilhosas com uma família gigante se disputando para carregá-las no colo.
Nos dias seguintes, Fernando e Mônica ficaram com Adão, instalados no castelo, conversando, contando anedotas mútuas, com a família indo e partindo para ver as trigêmeas. E em meio de banquetes, eles riam, e o palpite era sempre como é que Noemi ia regressar. Eva dizia que em nenhum planeta se fazia mudança de cor nos cabelos, pois mudar a fisionomia fazia parte do último teste de amor verdadeiro. Mas Alain jurava que existiam cabeças verdes, azuis, e era possível que médicos mudassem o DNA capilar. Adão achava que as mulheres usavam perucas. Mas, no fundo, ninguém sabia a verdade. E as apostas começaram a rolar. Tinha até gente apostando que Noemi chegaria de cabelos amarelo ovos. Fernando dava gargalhadas gostosas de ouvir.
E Fernando e Mônica, estavam tão felizes, pois o reencontro com Adão e seus filhos era esperado por eles fazia anos. Na verdade desde que Noemi viajara eles viveram terríveis dias de pesadelos. E Mônica agora estava encantada. Reencontrar Eva era uma felicidade enorme, pois elas se amavam como irmãs. E as trigêmeas eram parte dessa felicidade. Nohiki levantava os braços para Mônica assim que chegavam nesse castelo. Adão pegava Fernando Júnior no colo, pois o garoto ria com felicidade enquanto se abraçava nele.
Havia dias que entravam no mato a fazer piquenique ao lado da lagoa. Enquanto os pequenos mergulhavam nas aguas cristalinas, eles se lembravam dos iguanas, dos homens de “Z de ALPHA”, e da Terra. Também contavam um ao outro das últimas aventuras que tiveram em separado. Sempre deitados na relva com a cabeça no colo das esposas. Eva alisava a cabeleira de Adão, que faziam Fernando fazer piadas. Nem em “Z” quando viveram quais índios Adão estivesse tão cabeludo.
De regresso em casa, os guris dormiam cedo. Fernando Júnior dormia sozinho, com um bicho de pelúcia. Mas Nohiki dormia abraçada com um gatinho malhado, Marta com os cães peludos, pais de todos, aos seus pés. Já Inês possuía uma tartaruga que se escondia debaixo da cama. Pois foi com elas que a bicharada invadiu os dormitórios. E Fernando os reconhecia a todos, pois numa vida muito longínqua, o pônei viajara na sua nave de um planeta para outro, junto a essas mesmas tartarugas e a esse cão minúsculo que deixara na Terra centos de descendentes. Só faltava o falcão negro. E Adão lhe falava que também faltava Belzier, pois as panteras viviam nas redondezas em bando.
Longe desse agito familiar, Amon-rá chegou um dia ao planeta mais sofisticado do centro do Universo, onde foi reconhecido assim que desceu da nave. Quando contou que estava em busca de sua esposa, muitas pessoas se ofereceram para ajudá-lo na busca. O problema era que ele nunca a vira. Só sabia que possuía cabelos castanhos. Sequer sabia altura, peso, nada. E os solteiros o aconselharam a percorrer as baladas. Havia no mínimo 50 festas de solteiros em cada cidade todos os dias, e tinha a eternidade para encontrá-la. Timidamente, perguntou se nesse mundo se fazia cirurgia para mudar a cor dos cabelos. Imediatamente cinco mulheres de cabelos coloridos gargalharam que dava gosto. A seguir levantaram perucas castanhas, pretas, loiras, vermelhos naturais, ou seja, a resposta era: — não!
O que é que ia fazer?
E se deixou levar, pois já havia se formado uma gangue ao seu redor, pois todos queriam ajudar o bailarino a encontrar sua amada.
Noemi, sentada num café, desiludida da vida, com uma peruca verde na cabeça, estava com os olhos vermelhos de tanto chorar. Havia chegado ao centro do Universo, convertida em anjo feio. Ia ter filhos feios, netos feios, e Amon-rá casaria com ela de lástima. E bebeu seu suco, indiferente ao grupo de gente que passava na rua, sempre solteiros baderneiros, rindo, cantando, pois eram solteiros de todas as vidas passadas. E não tinham nenhuma pressa em se apaixonar. Queriam desfrutar da amizade, das farras, viajar por todos os planetas, quer dizer, quando se tem a eternidade pela frente não há presa para nada.
E como ela era casada, entrar no grupo de solteiros significava perder Amon-rá para sempre. Era melhor regressar para seu mundo, chorar sua derrota em casa da mãe, e esperar. Um dia ele ia aparecer. É claro. Seu pai e seu sogro eram como irmãos e já deveriam estar juntos. Com certeza Fernando Junior e Nohiki já estavam se dando os primeiros beijos de bebês. E chorou mais uma vez. Escondeu a cabeça entre os braços, assou o nariz, e quando ia se levantar percebeu que havia uma turma de gente examinando-a como quem vê um bicho. Nossa! Ela devia estar muito feia mesmo.
Um rapaz perguntou-lhe:
— Por acaso, você é Noemi?
— Sou! E como sabe meu nome?
— Por causa de um doido que dança...
E todos começaram a gargalhar de vez! Tinha os que soluçavam de tanto rir. Davam toques nas mãos, outras davam socos, rindo, pois Noemi era a gozação do momento.
E Noemi perguntou mais uma vez:
— Mas, do que é que vocês estão rindo, afinal?
— Do louco apaixonado! Ele já esteve aqui faz tempo, com a companhia de balé. Agora regressou porque sua esposa está desvairada atrás de uma peruca vermelha!
As gargalhadas desta vez eram de arrepiar. Noemi começou a rir junto. Nossa! Ela estava com uma peruca verde. E a cara vermelha, nariz inchado, um espantalho. E se deixou levar, pois a turma de baderneiros tomou conta dela sem pedir licenças. Mulheres que nunca viram a arrastaram para uma loja com roupas para ela experimentar vestidos lindos. Depois Noemi desfilou qual modelo para aprovação do visual. Os homens aplaudiam, assobiavam, riam, na verdade estavam adorando ajudar no reencontro do casal. E por último fizeram um bingo para escolher a peruca. Deu azul. Então, Noemi colocou a peruca azul, em seguida se deixar maquiar, e também permitiu unhas postiças e joias.
E transformada em aquilo enfrentou Amon-rá, que estava tão lindo como sempre fora. Cheio de musculatura, rosto de anjo, sentado num outro café rodeado de gente.
Quando Amon-rá viu a mulher mais ridícula do Universo, ficou pasmo, pois isso era piada desses bagunceiros. Tinham transformado sua mulher num ser de outro mundo. Vestia uma saia prateada, cheia de babados, uma blusa preta sem mangas, unhas cor vermelho vivo, olhos pintados com sombra marrom, boca rosa suave, brincos longos caindo até os ombros, um colar de diamantes, e uma peruca longa, até a cintura, azul piscina. E correu a abraçá-la, chorando no seu pescoço, e dizendo que sem ela a vida não significava nada, e que com essa peruca estava linda, perfeita, e podia escolher todas as cores que quisesse. Ele ia amá-la negra, loira, como fosse.
A seguir se beijaram. Ambos com rosto banhado em lágrimas. Noemi por descobrir que não o tinha perdido. Amon-rá porque finalmente a tinha encontrado.
A turma desta vez aplaudia e chamava mais gente para ver o reencontro dos amantes, pois nessa altura já se sabia dos fatos em todo o planeta.
No mesmo dia eles casaram, numa farra improvisada, e fizeram um roteiro de lua de mel entre as estrelas. Numa outra nave, que os amigos trouxeram para eles, com dois robôs. Um para pilotar e outro para cozinhar.
E saíram a girar eternamente entre as estrelas.
Amon-rá estendeu-se no chão da suíte, sobre almofadas grossas, e Noemi deitou ao seu lado, para examinar seu rosto. O mesmo sorriso cínico, boca gulosa, braços fortes para apertar até quase não conseguir respirar direito, e virgem de tudo, até dos pensamentos, pois na sua cabeça não existia outra mulher além dela e as crianças, que um dia chegariam a completar a felicidade de ambos. Amon-rá olhou para os cabelos castanhos, encaracolados, caindo como cascatas pelas costas, olhos verdes cristalinos, e na verdade ela estava mais linda do que nunca fora. Seu rosto não possuía nenhuma desproporção. A boca estava mais grossa, inchada, sensual, carnuda, e davam vontades de viver beijando-a. E o corpo, jamais fora tão sensual como agora. Nádegas levantadas, generosas, seios fartos, e cílios que davam sombra a um olhar encantador. E lentamente juntaram as bocas, sem pressa, e se beijaram mutuamente em cada parte dos corpos, enquanto a excitação subia de ritmo e velocidades.
E teriam ficado ali na cumplicidade dessa nave, isolados de tudo e de todos, anos a fio, se a comida não terminasse. Guiaram rumo ao seu mundo, com intenção de encontrar um paraíso perdido, pois a lua de mel duraria muito desta vez.
Procuraram o lugar mais inóspito. Levantaram uma tenda na beira de um rio, com um colchão, e mais nada, para fazer amor sem fim, e comer o que a natureza lhes dava, sempre agarrados, pois não dava para se desgrudar.
Quando seus cinco filhos estavam para nascerem, eles chegaram ao castelo de Adão. Com a ajuda dos irmãos Amon-rá energizou uma mansão, que em pouco tempo ficou rodeada de cavalinhos brancos, correndo, se preparando para dar felicidade aos recém-nascidos.
Os cinco filhos de Amon-rá nasceram parecidos às vidas anteriores, dois homens loiros, olhos verdes como o pai, um moreno igual a ele, uma filha morena e outra com cabelos laranja como os de Ana. As crianças cresceram passeando sobre os cavalinhos brancos, enquanto Amon-rá moía trigo, ajudava a fazer pão, convertia folhas em panos macios para a bundinha dos meninos, limpava a casa, pois desta vez era um homem trabalhador.
Anos depois foi à vez de Marta, Inês e Nohiki serem levadas para o mato para ver suas vidas passadas. Fernando Júnior, que crescera ao lado das trigêmeas amando-as como irmãs, entrara no mesmo acampamento. Nohiki convertida numa bela mulher, alta, magra, e sensual. Já Fernando Júnior, era desta vez, mais baixinho. Cresceram brincando junto, sempre abraçados. Beijavam-se no rosto desde sempre. Então, depois que viajaram para o passado, Nohiki ficou incrédula, e ela se perguntou a si mesma se o amaria de verdade como marido. O contemplou nos olhos, que estavam cheios de lágrimas, imóvel, e ela teve vontade de se matar pelo pensamento. Nohiki falou então, com a garganta apertada: — Eu nunca entendi o que é que você vê em mim! E Fernando Júnior respondeu-lhe: — Eu também não sei, pois nunca olhei para outra mulher! — Tem mais alguma por aqui? Depois Nohiki se abraçou nele, chorando, e em redor todos começaram também a choramingar, pois era a primeira vez que isso acontecia. Dois amantes arrasados pela emoção. Mais calmos se beijaram, e ao anoitecer foram permitidos a dormir na mesma tenda. Casaram no dia seguinte desse acampamento acabar, sem nenhuma festa, e se perderam pelo mundo com um colchão e uma tenda. O chamego seria vício pela eternidade. Só os filhos iguanas os separariam quando chegassem a sua busca. E, quem sabe, teriam novamente Abraão, um filho da Terra deixado para trás.
Marta e Inês demoraram bastante tempo em encontrar seus amados. Visitaram varias cidades, percorreram o mundo com amigos em busca de aventuras, e nada. Regressaram para casa como duas solteironas. Só a bicharada para se consolar.
Como Eva e Adão haviam voltado ao batente, Marta então entrou na orquestra de Adão a tocar piano, e Inês foi junto para estudar teatro. E, um dia, encontraram os maridos. Stanislav tocava o trombone, numa outra orquestra, e Rama estudava pintura nos ateliê de artes plásticas. Assim que as viram, eles avançaram até elas olhos arregalados, respiração afoita, pois estavam loucos a sua busca.
Rama, moreno, másculo, belíssimo, vestido com um avental cheio de tintas, só atinou a falar: — Diga que ainda se lembra de mim, que me ama, que não pode viver sem mim! Inês falou-lhe: - Eu só lembro que você era um príncipe da Índia, rico, cheio de diamantes, é você mesmo? Depois começaram a gargalhar de felicidades. E Rama tacou-lhe um beijo com um abraço de urso. Perderam-se na corrida rumo ao templo, pois casar era mais do que urgente. A seguir saíram sem rumo, gritando com telepatia para as famílias que estavam de lua de mel em algum lugar desse planeta. Inês seguiu a risca o exemplo de Nohiki, com quem não dava mais para falar nada. Cada vez que tentava telepatia com ela, Inês só escutava gemidos de quem está beijando tempo todo.
Marta foi mais formal. Vestiu-se de princesa no dia de seu casamento, e Alain, seu tio mais amado, que fora seu pai em duas encarnações, insistiu que a festa fosse em casa de João por causa do palco e dos bailarinos que iriam alegrar a festa. Adão não falou nada. As histórias vividas eram assim mesmo. Cruzadas. Interligadas. Não havia como evitar que Marta amasse dois pais, da mesma maneira que ele amou tantos pais, em tantas vidas passadas.
Em meio ao tumulto que foi esse casamento, Adão abraçou Adônis, que fosse seu pai uma única vez, e a Mariuska, sua cunhada, que ria às gargalhadas cada vez que lembrava que uma vez no passado fosse mãe dele e de Nestor. E lhe dava um beijo, o abraçava, pois eles foram uma família muito feliz nessa encarnação. E Adão herdara a beleza de Adônis para a eternidade. Ambos morenos, mas agora castanho escuro, corpos de campeões, e rostos perfeitos.
Durante essa festa Paulo e Jesus brincaram entre o mato com seus guris, fazendo guerra entre bandidos, rindo, gargalhando, pois eles sabiam que a infância passava de pressa. E os primos quíntuplos, filhos de Amon-rá, subiam nas árvores quais índios primitivos, pois o pai os cuidava com zelo. Em cada escorregada os cinco levitavam para o chão. Nomei, Paulina e Malaqui fofocavam entre elas. E quando a sogra Eva se unia a elas, se abraçavam com carinho. Era tão fácil ser feliz. Bastava uma natureza generosa, e uma família cheia de amor para dar entre si, e para com os amigos.
E os anos começaram a passar, e a vida dos filhos de Adão entrou na rotina das vidas passadas.
Um dia voltaram ao teatro, mas desta vez Jesus e Paulo a estudar encenação e Amon-rá escultura. Suas esposas preferiram entrar na orquestra do sogro, como violinistas. E a filharada a correr em todo lugar, como bando. Eram vinte e dois guris entre cinco e treze anos dedicados a bisbilhotar em todo canto.
Adão olhava sua descendência em todo canto desse teatro e enchia o peito. Lembrava-se de aventuras passadas, em vidas sofridas, em guerras verdadeiras, onde seus meninos sempre estiveram ao seu lado. Netos que os seguiram para uma guerra. E seu neto Jorge, filho de Amon-rá fizera com ele essa viagem maluca de fim de vida, durante a guerra dos iguanas. Quando as lágrimas rolavam sozinhas pelo rosto, Eva o beijava lendo seus pensamentos. Depois lhe falava ao ouvido:
— Não esqueça que somos anjos! Com certeza vão nos acompanhar em muitas aventuras pelo Universo! De novo, e de novo...
Nos anos seguintes, Eva teve ainda mais dois meninos, Caim e Peter. Peter nasceu com seus cabelos quase brancos, olhos azuis, que tirou os pais do sufoco de mais uma turnê pelos outros mundos. E Caim nasceu como o caçula. O mimado da mamãe. Um guri enorme, gordão, que corria atrás da bicharada engatinhando.
E só depois que Caim e Peter cassaram e tiveram todos os seus filhos, só então Adão foi chamado para uma reunião na pirâmide, junto aos seus filhos Jesus e Paulo e seu irmão Ênio.
A primeira missão como anjos, estava a os esperar.
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