Notas iniciais
E finalmente se abraçaram como faziam no passado. Adão beijava-o no rosto, Belzier mexia a cabeça, enquanto Ada-Eva acariciava os longos pelos dessa fêmea, e o resto dos acompanhantes faziam o mesmo com os filhos dele. Todos os cavalos estavam apavorados, pois nascer como homem assustava muito mais uma besta, do que um anjo a nascer como um animal.

À medida que os anjos reprodutores viravam fetos com forma de bichos, os cavalos alados morriam um a um, estendidos no chão. E os espíritos das bestas rodeavam Adão e sua equipe com curiosidade, pois parecia chegado o fim dessa espécie equina. E entre os mortos havia UM, que era conhecido deles de muitas e muitas vidas passadas, Belzier, uma besta magnífica, rodeado de sua fêmea e uns 40 filhos, tão belos quanto ele.

Adão, assim que o viu, correu a se abraçar ao bicho, desta vez gritando como garoto. A seguir Jesus e Paulo, Eva, todos foram a rodeá-lo, pois Belzier era como da família. Vivera com eles, e o amavam. Depois foram reconhecendo os filhos de Belzier, com os quais cruzaram o mato ao galope, tantas e tantas vezes no passado de todos eles. Enquanto Jesus e Paulo riam as gargalhadas, abraçando a manada de Belzier, eles retrucavam. E Adão gritava eufórico:

— Sabia, cara! Sabia que ia te encontrar neste planeta! Mas achei que havias virado borboleta!

— Engraçadinho! Podes me explicar os porquês nos estão matando?

— Porque nunca mais será um animal, cara! Daqui em diante todos vocês serão homens!

Belzier mexera a cabeça não gostando nada do que acabara de ouvir:

— Não! Não, cara! Eu sou feliz sendo bicho! Como homem eu vou sofrer de dores. Dor de corno, agonia pela morte de meus filhos, vou chorar pela morte de meus pais, eu só vou padecer. Não faz isso comigo, o que há de tão bom em ser homem?

Ada-Eva lhe disse:

— Nada! É só sofrimento como tu falas. Lembras-te dos homens-iguanas? Quando lutamos contra eles? E quando tu e tua fêmea nos ajudastes a sobreviver? Lembras? E vocês dois não foram conosco como voluntários para esse massacre? E não morreram ao nosso lado? Há? É isso que te espera!

— Vão dizer para mim, que vão trazer assassinos para este Paraíso? E que eles podem matar minha família?

Ênio, que também conhecia esse cavalo, falou-lhe com firmeza:

— Eles vão vir de um jeito ou de outro. E vão caçar bichos para se alimentarem. Vão queimar a mata, vão secar os rios, vão poluir o ar, e tu vai ter a oportunidade de combatê-los como homem.

— Ganharam! Estou convencido, ser homem vai ser uma porcaria, mas com inteligência humana serei mais eficiente. Mas, vamos nos ver de novo, vão ficar comigo? Como é que é?

Adão lhe disse:

— Nós temos mais um trabalho a fazer, mas nossos pais, que agora serão os seus progenitores, vão ficar por aqui até quando vocês necessitarem. Vão ser os guardiões da nova raça humana: — os homens-equinos! E eu, prometo-te regressar para cá a fazer uma visita, a cada 10.000 anos. O que achas?

— Legal! Sabes que te amo, não sabes? Aliás, vocês todos são minha família...

E finalmente se abraçaram como faziam no passado. Adão beijava-o no rosto, Belzier mexia a cabeça, enquanto Ada-Eva acariciava os longos pelos dessa fêmea, e o resto dos acompanhantes faziam o mesmo com os filhos dele. Todos os cavalos estavam apavorados, pois nascer como homem assustava muito mais uma besta, do que um anjo a nascer como um animal.

E a longa espera dessa nova vida de Belzier e seus filhos se iniciou. Sentaram na grama dos vales floridos, aonde os cavalos e os anjos esperaram o tempo passar.

Um dia, os velhos anjos convertidos em cavalos, finalmente começaram a nascer. Adão e sua equipe puxaram os bebês, que nasciam com rosto diferente, e depois os colocavam nas tetas para a primeira mamada. Nenhum deles possuía assas. Nas extremidades tinham pés com três dedos, e na parte superior do tronco uns braços com mãos de quatro dedinhos. O pescoço era longo, a boca bem grande com uma aparência esquisita. Metade homem e metade besta. O corpo estava cheio de pelos, e um rabo minúsculo ficava na parte traseira. Alguns brancos, já outros marrons, e tinha uns bens pretinhos, de olhos azuis que eram lindíssimos.

E Adão marcou um roteiro para cuidar dessa nova espécie. E para dar exemplo, tomou para si o primeiro tempo junto a Eva. Acompanharam os anjos-cavalos dia após dia, levantando-os cada vez que caiam ao chão, ou, os colocando-os nas tetas para mamar, ou, lhes faziam carinhos. Em dias de chuvas, Adão fazia-lhes abrigos com paus e folhagens, ou, os empurravam para se abrigarem nas cavernas.

Enquanto a manada dormia, Belzier deitava junto de Adão, fazendo planos para o futuro. Belzier não parava de tagarelar. Adão lhe dava conselhos sobre guerras, combates corpo a corpo, pois o bicho já se sentia um líder da humanidade. Um profeta do futuro. Um salvador da pátria. E Adão gargalhava que dava gosto, na sua última conversa com seu amigo de tantas vidas compartilhadas.

E o tempo passou rápido. Os últimos cavalos alados morreram, enquanto seus filhos cresciam andando em duas patas pelo mato, e sem medo da vida, e sem fazer mais nada além de brincar. Refrescavam-se no rio, comiam todas as frutas que havia na floresta, e em dias de chuvas se lambuzavam no chão como porcos na lama, e tinha os que gritavam, como dando risadas. Sons estranhos naquele mundo selvagem. Sons de uma nova espécie que estava abrolhando e fazendo coisas estranhas. Bichos que sempre andaram em quatro patas e agora só usavam dois. Animais que usavam mãos para comer frutas, ou puxar ramas das árvores para fazer camas no chão.

E um dia essas criaturas deram início a sua verdadeira missão: — Procriar! Parir! Começaram os chamegos da juventude, fazendo corridas pelo mato, e os machos atacavam as fêmeas de súbito, tentando beijar com uma boca grande, cheia de dentes enormes. Quando havia lama e chuva era ainda mais excitante. Rolavam pelo chão, com a água batendo contra a pele, sem dor, nem frio, pois a grosa camada de pelos os protegia contra o mau tempo. Quando o Sol os iluminava, entravam nas águas de um rio, onde a farra de do chamego animal continuava sem fim para acabar. A energia animal era forte desta vez. Os corpos robustos estavam toda concentrada na prática permanente do chamego bestial. E as fêmeas não reclamavam de mais nada. Aguentavam as mordidas no cangote, pois beijar na boca como homens demoraram mais algumas gerações. Desde o outro lado da vida, Adão explicava para Belzier que o prazer de um anjo era muito profundo, e que ele herdaria essa agonia. Fazer amor com sua fêmea seria seu vício. Só não podia esquecer-se de se alimentar, e dar de comer aos guris. Também devia respeitar a fêmea durante uma semana depois dos partos. Ser homem ia ter suas recompensas, afinal.

Depois de passada a euforia do trabalhão, e do nascimento de Belzier como homem, Adão se perguntava a si mesmo, se havia realizado a coisa certa, pois os cavalos poderiam ter ido com ele. Belzier poderia ter nascido um cavalo branco, deambulando ao lado do seu castelo. Como os pôneis de Amon-rá.

Quando Belzier e os machos de sua geração entraram na adolescência, imitando seus pais em tudo. Comiam folhas das árvores, frutas, principalmente morangos vermelhos que enfileiravam aos milhares pelo chão, e atacavam as fêmeas em toda parte. Mas, Belzier seguiu a risca os conselhos de Adão, corria com sua égua, agora mulher de seios humanos, brincando, se refrescando no rio, comendo tudo que a natureza lhes dava, e finalmente era chamego, com mordidas no cangote. Nunca imaginou que isso fosse tão bom. Ele teve seus 40 filhos na velhice, em partos de até cinco filhos de cada vez, e viu seus meninos crescerem lindos como nunca. Quando Belzier morreu, Adão estava esperando-o, para lhe dar um último abraço e os últimos conselhos. Dali em diante esse mundo era dele e de seus filhos. Seriam os donos do destino do planeta, pois os anjos-procriadores regressariam um dia ao centro do Universo, lhes deixando como herança genética a beleza, a inteligência e a bondade.

Para matar a dor da separação, Belzier perguntou para Adão antes da partida:

— E esses pais anjos aprenderam alguma coisa com nós?

— Muito! Vão namorar como cavalo o resto da existência! E nenhum deles quer morrer! E como são anjos, eles podem viver até uns 800 anos. Podes nascer de meus pais desta vez, e seremos irmãos, o que achas?

E Belzier deu sua primeira gargalhada como indivíduo macho. Ensurdecedora, muito parecida às risadas de João e de Sergei. E esperou esse coito dos pais de Adão, para pular de novo nesse útero e nascer como homem. Furando a fila de uns 2.000 cavalos alados que caminhavam esperando sua vez.

Ênio marcou a rota, e voaram calmamente, pois o planeta dos condenados estava bem perto dali. Cada homem abraçado na sua mulher. Só desgrudaram quando um planeta ficou do tamanho de uma bola de futebol. Adão abriu a capa, e depois voaram se juntando a todos, tomados das mãos.

E a primeira parada foi numa Lua desse planeta de condenados.

Naquele lugar havia oxigênio e água, com milhões de monstrinhos correndo pelo chão. Pareciam amebas com pernas, alguns com pelos, boca na parte inferior do corpo, que se alimentavam de tudo que havia esparzido pelo chão. Elas se dividiam estendidas no chão, e se multiplicavam que nem seres microscópicos. Recém-nascidas abriam uma boca, e atacavam as formigas, pois as havia em todo lugar em formigueiros gigantes. Além delas estavam às baratas, os carrapatos, que comiam fungos de pequenas poças de água.

Os seres monstros eram na verdade experiências genéticas mal sucedidas, realizadas ali mesmo, por gênios da ciência desse planeta ao lado. Eram tão feios, que assustavam. Havia-os com três olhos, outros com quatro perninhas, e eram disseminadoras de germens impiedosos. Como testemunho de sua capacidade mortífera, os gênios que as inventaram e os astronautas que os visitaram em voos posteriores eram cadáveres, e as máquinas espaciais com seus laboratórios infernais apodreciam embaixo do Sol.

Adão pediu um exame minucioso e um relatório.

Séfora, esposa de Moisés, e gênio em genética, falou para Adão que havia que matá-las. E para isso bastava um simples resfriado. Teriam que trazer o vírus da gripe de algum laboratório do planeta, pois desta feita morreriam de vez.

E Jesus e Paulo cruzaram o espaço. Dividiram-se pelo mundo em busca de laboratórios. E foram carregando com o que foram encontrando.

Voltando para a Lua, Séfora e as mulheres esvaziaram os vidros com o vírus da gripe, e um a um os monstrinhos morreram, sem afetar as outras espécies. Mas, assim que viravam espíritos, as monstruosidades voavam com a boca aberta a morder Adão e sua equipe. Ada-Eva ganhou no pescoço cinco deles, que custou a puxar, e aos quais lhe deu um beliscão. Afinal, eram seres com direito a vida, como tudo que existe no Universo e estavam revoltados. Adão optou por hipnotizá-los, e caíram ao chão amontoados, dormindo, enquanto Séfora os examinava para ver o que dava para se fazer com eles.

E Adão perguntou para Séfora:

— Dá para nascerem das formigas?

— Não! Mas acredito que nas baratas daria, sim. E Séfora soprou com delicadeza um a um as pequenas monstruosidades, fazendo-as entrar numa colônia de ovos. Pouco a pouco as ninfas se espalhavam sobre o chão lunar, esperando desabrolhar para adultas. Mas, deixou a maioria dos machos e fêmeas estéreis. Elas seriam baratas dali em diante, mas morreriam cedo sem deixar filhos.

Madalena recolheu as sementes do capim e as soprou em todo canto, pois a mãe natureza se encarregaria da evolução dessas espécies lunares. E todos deram um sorriso de satisfação. Desceriam ao planeta para iniciar o julgamento dessa sociedade burra. Se inventarem no passado criaturas assassinas como essas, dava para imaginar o que os estava esperando em meio do planeta.

Para descontrair, antes de se deslocarem, Adão perguntou para todos:

— Alguma ideia? Fazemos o julgamento aos homens desse planeta agora, ou, descemos nessa sociedade na busca de alguém que nos escute? Um vidente? Bruxa? Sei lá? Quem sabe recuperamos essa sociedade? Fazemos uma reversão? Ou, uma grande revolução?

Imediatamente Madalena falou com entusiasmo:

— Isso! Eu fiz isso na Terra! Um dia escutei vozes, e elas me guiaram o resto de minha existência... E acho que ajudei a salvar a Terra quando todos achavam que havia chegado o fim da civilização.

Paulo e Adão gargalharam até sair lágrimas. Abraçaram-na, e com sutileza lhe explicaram que as vozes fora deles, através de telepatia. E que eles não estavam mortos. Estavam bem vivos agitando o mundo lado a lado com ela, escondidos nas cidades subterrâneas da Terra.

— Quem diria! E eu achava que era uma Santa guerreira que escutava a voz de “00” em pessoa...

E riram em coro desta vez.

Depois começaram a se deslocar com destino a esse mundo. Uma civilização os esperava lá embaixo. Homens que estavam condenados à extinção como seres humanos. Homens que Adão teria que matar. Condenar. Levá-los a encarnar quais bestas peludas. Um trabalho que Adão estava detestando fazer.

Notas finais
Depois começaram a se deslocar com destino a esse mundo. Uma civilização os esperava lá embaixo. Homens que estavam condenados à extinção como seres humanos. Homens que Adão teria que matar. Condenar. Levá-los a encarnar quais bestas peludas. Um trabalho que Adão estava detestando fazer.
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