Adão e Eva no berço dos anjos. Primeira parte.
1 Capítulo 1. Uma vida primitiva
Notas iniciais
Embaixo do céu azul estrelado, uma menina corre como uma índia entre o mato, rodeada de panteras tão negras quanto à noite. Pés descalços, uma blusa curtíssima, saia que mal consegue tampar suas calcinhas, cabelos soltos ao vento, boca vermelha de excitação e um corpo que começa a desabrochar como uma mulher.
E nessa noite, nossa heroína Eva sentou no chão para contemplar as estrelas e as cinco Luas desse mundo, que transformavam a noite num lugar mágico e divino. As luzes dos vagalumes, e os cantos dos sapos, se misturavam aos alaridos longínquos dos leopardos selvagens. E enquanto Eva admirava a natureza com todo seu fulgor, ela se perguntava a si mesma: — de que mundo eu venho? Ou, — será que eu sou casada de outras encarnações? –Afinal, ela era membro de uma família com muitos filhos, a maioria deles homens, embora tivesse uma irmãzinha que ainda vivia nos braços de sua mãe Dina.
Uma vez em casa, balançando na sua rede maravilhosa, ela sonhara: Chegara-lhe entre um nevoeiro denso a figura confusa de um rapaz, tão jovem quanto ela. Mas só conseguiu ouvir sua voz desde longe. Dizia-lhe que estava percorrendo todas as aldeias em sua busca e lhe pedia que se mantivesse fiel, pois ele chegaria a raptá-la para casarem e serem felizes para sempre.
Eva acordou com um sorriso nos lábios. E imaginava seu rosto. Com certeza seu amado tinha a aparência dos livros infantis, que seus irmãos lhe traziam desde a Universidade da Lua. Lindo. Perfeito. Que nem príncipe talvez. Moreno? Loiro? Ruivo?
Por esse motivo, dali em diante cada vez que sua aldeia era invadida por jovens de outros cantos do planeta, o coração de Eva enlouquecia. Examinava os homens, mas, a maioria deles chegava de mãos dadas com alguma guria, pois eram excursões de casais de adolescentes em busca de aventuras. Imediatamente ela tinha que ser gentil. Cozinhar, preparar sucos, servir aos recém-chegados um banquete ao ar livre, por cima de alfombras de taquara estendidas pelo chão.
Os visitantes também recebiam convites para conhecer a montanha, a cachoeira, e todos os encantos naturais que havia em redor. Eva se misturava entre os irmãos, que a cuidavam com zelo, pois o pai João daria um cascudo forte se algo acontecesse com a sua filha mais queridinha.
Enquanto o tempo transcorria, Eva ficava a cada dia uma rapariga mais bela e sensual. Passou a chamar a atenção de amigos de infância, e de alguns visitantes solitários, que percorriam a selva numa viagem ao redor do planeta. Eles montavam a cavalo e a invitavam para dar um passeio. Mas a mãe Dina já a tinha prevenido contra esses galanteadores. Quem saia a passear com um rapaz, perdia a inocência em meio do matagal. E para que nenhum guri a pegasse de surpresa, seus irmãos mais velhos a treinaram nos duelos esportivos. Ensinaram-lhe luta livre, onde rolava de tudo, socos, pontapés, enfim. Já seus irmãos que voltaram da Universidade lunar lhe mostraram segredos de outros esportes mais sofisticados. Aprendera como deter a respiração de uma pessoa colocando um dedo no pescoço, como desmaiar alguém de uma cotovelada na orelha, truques que só se aprendiam no ensino superior.
Adão, numa outra aldeia, nem tão longe dali, crescera entre uma turma de guris barulhentos, com os quais corriam a cavalo entre o mato pulando obstáculos gigantes. Subia em coqueiros altíssimos a pegar cocos, ou escalava outras árvores em busca de avelãs, jacas, mangas, ou, graviolas suculentas, as frutas mais deliciosas que havia nesse mundo encantado. Também recolhiam na beira dos rios verduras para saladas, aboboras, ou, melancias que se alastravam pelo chão como cobras. E ovos. O mato tinha ovos de todos os tamanhos imagináveis. Enormes de avestruz, pequenos de codornas, e normais de galinhas, patos, gansos, que circulavam nas aldeias dos humanos.
Quando os amigos de Adão começaram a cavalgar com as fêmeas da aldeia, ele passou a se questionar a si mesmo no que é que se passava com ele, pois todas as mulheres desse lugar eram feias. Nenhuma o estimulava como acompanhante numa cavalgada.
E sem saber como, nem porque motivo, a miragem de Eva começou a lhe aparecer em sonhos. Morena, sorriso lindo, olhos brilhando, e um corpo perfeito. Tinha as vezes que ela aparecia com uma dúzia de filhos em redor. Já outras eram homens grandes, fortes, musculosos, e muitos deles.
E um dia subiu no seu cabalo branco Belzier, seu fiel amigo, e falou para seu pai Sergei que ia dar a volta ao mundo em busca do amor. E seu pai lhe desejou sorte. Somente sua mãe Ludmila ficou triste. Chorou um pouco, e lhe pediu que toda noite, antes de dormir, chamasse para ela com telepatia, para saber que estava bem.
Belzier entrou na mata com resignação. Seu amigo estava um imbecil. Havia perdido a alegria, estava melancólico, suspirava, e só falava dessa guria que nunca vira. E corria através das trilhas que Adão lhe abria com a mirada, e quando o calor ficava insuportável tomavam banho de rio. Ao anoitecer, Adão se tampava com um cobertor e cobria Belzier com outro. Acordavam cedo, comiam tudo que a mãe natureza lhes oferecia, conversavam com telepatia, como sempre fizeram, e depois cavalgavam até que a fome, o calor, ou o cansaço os mandasse a deter a caminhada.
Certo dia, sujo, cansado e faminto, Adão entrou numa aldeia aonde havia uma briga de mulher contra homem, por causa de um campeonato de forças e resistências. O último a ficar em pé, seria o campeão.
Adão caiu na gargalhada, pois havia homem sendo surrado por mulher. Era a coisa mais engraçada de se ver. Cada vez que um macho engatinhava para fora e caia na grama estendido no chão, os juízes o desqualificavam. Para cúmulo os adultos riam, faziam zombaria sem pena, e quando as feridas sangravam, as mães corriam em busca de água e panos para curar os feridos. E sem saber como, alguém pegou a mão de Adão e falou-lhe: — vem cá, homem, necessitamos reforços! E ele ficou entre a pancadaria se defendendo como pode. Deu pontapés, murros no queijo, se protegeu para evitar socos no rosto, mas mesmo assim alguém lhe deu uma cotovelada na orelha, que o desmaiou no chão. A seguir ele foi arrastado pelos pés, por alguém.
No fim do dia havia uns cinco vencedores. Brutamontes que levantavam os braços entre a algazarra generalizada.
Quando Adão começou a recobrar a lucidez, viu a mulher que seria sua: — Morena, sorriso de anjo, e rodeada de machos fortes. Tal como a imaginara em inúmeras vezes. Sorriu. Desmaiou de novo, mas desta vez com um sorriso nos lábios. Mas como é que ia conquistar uma mulher rixenta? E com uns 15 irmãos trogloditas em redor?
Após uma semana de convívio nessa aldeia, Adão estava feliz, pois todos lhe davam comidas, invitavam-no a passear, o faziam dançar em redor do fogo, e praticava lutas com alguns guris, agora só para diversão. Nada de brutalidades. E de longe, não perdia de vista a sua amada. Ela era tão linda, que seu peito doía só de olhar. Possuía o corpo mais harmonioso da terra, os cabelos mais sedosos do mundo, as pernas mais perfeitas da criação, ou seja, era uma pérola num mundo selvagem. Uma rainha perdida que caíra ali por engano.
Mas como era inconquistável, ele foi se achegando para acompanhá-la nas tarefas domésticas. Ajudava-a moer a mandioca, a catar milho entre o mato, carregava as roupas sujas para o rio, pois ela lavava as cuecas de toda a família, além de toalhas, vestidos, camisetas.
E quando chegava à noite ele sentava junto dela com um suco nas mãos, uma cesta de frutas, e lhe contava tudo sobre ele. Era filho único, tinha uns 50 amigos de infância, e estava ali em busca da mulher de sua vida. Jurou-lhe que era virgem, pois jamais sequer se masturbasse quando menino, pois achava que o amor verdadeiro tinha que ser especial. E ele se reservara para a mulher amada.
Eva, com passar dos dias, não sabia mais o que fazer.
Sua mãe jurava-lhe que Adão era sua alma-gêmea. Seu pai também gostava muito dele. Metade de seus irmãos o achava legal. Mas, será que era o mesmo homem que a chamava em sonhos? Como saber?
E para tirar a dúvida, um dia qualquer, ela subiu em Belzier e se perdeu com Adão no mato ao entardecer.
Isolados do mundo, Eva desceu de Belzier e caiu nos braços de Adão. A seguir ele tomou-a da mão, desintegrou a mata rasteira do chão com o olhar, para ela caminhar sem machucar os pés. E uma vez no rio mergulharam, se entreolhando com sorrisos cativantes, e alguns beijos tímidos no rosto. Após o banho, subiram nas árvores para admirar o Sol se ponto no horizonte, entre cores que pareciam uma fornalha no céu. Só então Adão pegou sua mão, pois como telepático, ele sabia que Eva estava insegura do seu amor por ele. Mesmo assim, Eva foi derrubando seu muro de proteção, e deu-lhe um beijo tímido na boca. E Adão beijou-a com ânsia, enquanto Eva fechava os olhos. Começou a respirar com desejos fortes de paixão, e a seguir pulou dessa árvore nos braços fortes de seu homem. Deitou-se na grama de costas com os braços para o alto, com seus longos cabelos esparzidos em redor emoldurando sua beleza. E ambos perderam a inocência, sem dor, com a doçura própria da juventude.
Belzier se encarregou de alimentá-los.
Carregou cocos para que ambos bebessem água, maças, uma melancia deliciosa, e comeram sentados, em forma aprazível, rindo, beijando-se, nas bocas, pescoço, e com carícias doces no corpo. Apenas uma queimação que lhes esquentava o sangue.
Após a banquete, nadaram, mergulharam, e comeram com ânsia bananas, carregadas por Belzier, para repor as energias. Fim do dia deitaram sobre o chão, cobertos por uma manta de lã, a noite estendeu seu negrume, as estrelas brilharam como nunca, enquanto as cinco Luas deram-lhes um leve tom de magia a esse encontro. Quando acordaram, Adão saiu em busca de frutas montado em seu cavalo, enquanto Eva entrava nesse rio se refrescar. De regresso, ele sentou nessa manta, e comeram bananas, tomates vermelhos, beberam suco de coco, abriram uma jaca suculenta e se lambuzaram entre gargalhadas. Depois a boca escancarada de Adão mordeu pescoço, e mais uma vez fizeram amor até ficarem tontos.
Após 20 dias de amor na beira desse rio, Adão a invitou a dar a volta ao mundo. Eva pediu licença aos pais através da telepatia. Depois lhe falou:
— Minha mãe diz que posso ir, pois já sou adulta. Mas, minhas panteras vão junto...
— Panteras? Quais? Onde?
— Essas ali...
E Adão percebeu, pela primeira vez, que esses animais pretos, gigantes, que sempre estavam de perto, eram dela. Nossa! Sua amada tinha guarda-costas ferozes... E rindo perguntou-lhe:
— Elas já espantaram algum paquerador?
— Hum... Uns 30 deles...
E Adão começou a gargalhar. Mordeu-a no cangote, pois finalmente era dono da mulher mais bela desse planeta, com o consentimento familiar e também de seus bichinhos de estimação.
Mas, antes de iniciar a longa caminhada, Dina gritou para Eva não se esquecer das sementes. E Eva se perguntou como é que ia juntá-las. Só estava carregando um vestido, uma calcinha e Adão duas mantas. Afinal, nessa sociedade silvícola as sementes eram guardadas como se fosse ouro. Robôs faxineiros da Lua recolhiam-nas a cada dez dias em sacolas deixadas numa claraboia, em cada aldeia. Eram cocos esvaziados, as sementes de maçã, laranjas, jacas, pêssegos, melancias, melões, e outras delicias desse mundo encantado. E Adão decidiu ele mesmo semear a selva com sua comida.
Depois subiram em Belzier, e a volta ao redor desse mundo teve início. Duas mantas por sobre Belzier, Adão sentado atrás, Eva na frente. Os beijos no pescoço se iniciaram de imediato, pois fazer amor por cima de um cavalo que trotava era delicioso, afinal. Depois, esgotados pelo prazer cochilaram, Eva dormiu com a cabeça por cima do pescoço do cavalo e Adão dormiu abraçado nela. E Belzier deteve a caminhada, e deu uns grasnidos para acordar os sem vergonhas. Enquanto eles dormiam no chão duro, por sobre uma manta de lã, o cavalo percorreu o mato em busca de algo para mordiscar. Depois Belzier deitou sobre a outra manta e com os dentes subiu a manta para se tampar a si mesmo.
E os dias seguintes foram sempre iguais.
Quando chegaram à aldeia dos pais de Adão, uma festa os estava esperando.
Enquanto os sogros cingiam a nora e a beijavam com carinho, os amigos de Adão sobrevieram por cima dele em bando. Davam-se socos, pontapés, gritavam como guris, pois nesse mundo as coisas eram assim mesmo. Eva foi passear na beira de uma lagoa com novas amigas, para contar fofocas de mulher, rir, descontrair, se embelezar com flores nos cabelos e se preparar para dançar em redor da fogueira e seduzir os homens sem dó. Muitas a olhavam com admiração, pois Adão jamais sequer beijara uma guria nessa aldeia. Era cego frente às mulheres. E tinha as que juravam que tentaram o conquistar de inúmeras formas. Mas ele sempre respondia que sua amada estava em outra aldeia. E foi assim que Eva encontrou uma nova família do coração. Dançou ao anoitecer com elas, rebolando, enquanto os homens as admiravam boca aberta, com pensamentos de luxuria.
E a vida entrou numa rotina fantástica.
Durante o dia Eva ficava ao lado da sogra Ludmila aprendendo a fazer sopas de legumes, ou tortas nas braças, tortas em fornos de argila, marmeladas para passar no pão, queijos, omeletes com legumes, maioneses com ovos e óleo de oliva, enquanto Adão corria com Belzier e os amigos em competições diárias.
No fim da tarde Eva e suas novas amigas distribuíam o jantar.
Todos sentavam em tapetes maravilhosos, em redor do banquete diário. Os mais velhos contavam histórias do passado que os jovens escutavam com respeito. Tinha também os que cantavam, ou tocavam um violão, pois quem regressava da Escola lunar chegava com conhecimentos artísticos. Depois vinha a dança dos mais jovens, das crianças, e as reboladas das damas para os namorados em redor de um fogaréu. No fim da festa, um a um os casais iam saindo de fininho para algum lugar ermo. Ficavam para trás solteiros empedernidos, os moleques, e alguns velhos contando histórias e bebendo uma bebida feita de uvas fermentadas. E esses últimos festeiros faziam a faxina. Todos os restos de comida eram desintegrados com o olhar. As sementes as dispunham em sacolas de linhagem, e as alfombras estendidas no chão eram enroladas e colocadas numa casa de madeiras, cujo lugar possuía o que era de todos. Mantas para cavalos, panelas, um fogão para fazer o pão, teares, sacolas, enfim. E por último desintegravam o fogo, as pedras incandescentes, as cinzas, e a fumaça do ar.
E a aldeia se cobria de sombras. Vagalumes dançavam no ar, felinos davam seus gritos arrepiantes, e milhares de sapos e cigarras entoavam a canção noturna, embaixo de uma tênue luz lunar.
Eva e Adão se isolavam no mato com uma manta grossa, para desfrutar do feitiço da noite. Estendiam-na embaixo de arbustos, grudavam os corpos e faziam amor suavemente, cadenciadamente, com as bocas sempre ocupadas em fazerem as línguas dançarem. Quando o Sol adentrava suas línguas luminosas entre as copas das árvores, eles faziam amor com energias redobradas. Depois iam para o rio a nadar, comiam frutas, beijando boca, pescoço, acariciando-se mutuamente com doçura, até que os amigos apareciam aos poucos, todos com cara de quem não dorme nada durante as noites.
E o dia rolava sempre igual.
Jogavam conversa fora com os amigos, ou faziam uma subida aos morros, ou dormiam de novo, escondidos embaixo de alguma mata cúmplice, pois o jantar em família era no fim do dia. Apenas as mulheres recebiam os chamados das mães para ajudar nas cozinhas. Os homens eram abençoados nesse planeta. Não faziam nada além de brincar, namorar, dormir e comer.
E um dia, Adão e Eva partiram, pois estavam em lua de mel. Adão estudou um mapa que lhe dera Sergei, onde se assinalavam todas as aldeias que encontrariam na longa caminhada. Caminhando todos os dias em direção ao nascer do Sol, um dia encontrariam o mar. Adão abraçou a todos, Ludmila derramou algumas lágrimas, e Eva foi beijada na boca por alguns sem vergonhas, amigos de Adão.
E finalmente partiram.
Belzier na altura já tinha uma égua branca prenhe, que caminharia ao lado com alguns trecos para essa viagem. O mínimo. Duas mantas para o casal e uma para cada cavalo. Uma panela de barro para fazer a sopa, e tolhas para tomar banho. Apenas uma muda de roupa para trocar e vestir. E, as sementes, que eles decidiram semear, Adão as colocava numa mochila e subia em coqueiros altos para levitá-las no ar o mais longe possível antes de deixá-las cair no chão, pois a mãe natureza se encarregaria de fazer o resto.
Assim que as pessoas ficaram perdidas ao longe, Eva e Adão retomaram a rotina de amor sem fim. Eva na frente, sentindo o corpo de seu amor grudado nela, pois Adão beijava-lhe o pescoço, dava-lhe chupadas que deixavam marcas roxas, com seus dentes mordendo suave. Eva descansava a cabeça de lado, no seu ombro másculo, e de vez em quando ela virava inteira e sentava de frente para ele, com as pernas no lombo do animal. Era quando Belzier trotava. Ao anoitecer comiam esfomeados e dormiam esgotados, pois a volúpia durava o dia inteiro.
Ao amanhecer, Adão esperava o Sol iluminar com seus raios, trepado no alto das árvores para se orientar e levitar as sementes. A seguir Eva ajudava desta vez a abrir a trilha, até onde os olhos alcançavam ver. Mata rasteira, arbustos menores, desapareciam como por encanto, e um caminho limpo, de uns 4 metros de lado a lado ficava em frente deles. Tomavam um café reforçado, subiam em Belzier, e o resto da bicharada caminhava aos lados.
Um dia pararam o comboio na beira de um lago maravilhoso, para ver os filhos de Belzier chegar ao mundo. Dois potros pequeninos, lindos, brancos como a neve, que Adão ajudou a puxar de dentro da fêmea. Como as panteras pariam como coelhos, perceberam que havia tanto filhotinho em redor, uns mais lindos que outros. Então decidiram dar um tempo. Adão construiu uma casa de paus e folhas, fez um forno de barro, e Eva começou a cozinhar. Sua mãe Dina encarregou-se de enviar-lhes suprimentos. Encheu uma sacola com farinhas, açúcar, feijões, e deixou-as numa rocha alta. Os robôs faxineiros levitaram o pacote, e deixaram-no ao lado de Eva. Milagres de uma civilização superior, que solucionava tudo através da telepatia e da levitação. Os pais de Adão também lhes enviaram coisas, pois Ludmila fazia o pão mais gostoso de todas as aldeias. E Adão conseguia comer sozinho, desde pequenino, dois pães gigantes durante o dia.
E o tempo transcorreu, com uma rotina simples de sexualidade, comilanças, em meio de bichos que corriam em redor alegrando a vida de ambos. Adão passava escova nos quatro cavalos, e Eva dava beijos e abraços em todas as panteras, como num ritual. Na mais velha, mãe de todos, e nos filhotinhos. Depois bichos e humanos corriam para as águas cristalinas de algum lago, onde Eva submergia qual sereia para as profundezas, com Adão grudado nela, mordendo cangote, com mãos nela quais garras de bicho. Tinha vezes que dormiam sobre essa areia branca, olhando o céu, tampados com a manta.
Mas, um dia quaisquer subiram no cavalo, e continuaram a caminhada. Ficaram para trás o forno de barro, e a casa de paus.
E acamparam muitas e muitas vezes. Tinha ocasiões que eles mesmos encontraram casas abandonadas entre a mata, por cima de árvores, ou na beira de um rio, feitas por outros aventureiros.
E um dia chegaram até o mar, onde uma ilha flutuante boiava perto da praia. Era fascinante. Algo assim como um barco de passeio, mas desta feita era uma embocadura de rochas e terras que boiavam, que tinham seu próprio lago, e uma paisagem que deixava à mostra todas as frutas do Éden. Comida era algo que não faltaria nesse pequeno paraíso encantado.
Adão invitou a bicharada a nadar, e todos adentraram em meio das ondas.
Sobrenadaram com firmeza até atingirem às areias brancas dessa ilha. Correram como crianças dando toda a volta em redor. A seguir subiram sobre as rochas, fizeram trilhas entre picos altos, e quando viram um paraquedas caindo na direção deles, souberam que estava sendo-lhes enviado um presente de alguma Lua.
Abriram com curiosidade e uma cama inflável tomou forma. Em seguida uma tenda divina, um fogão automático, era como se alguém lesse a mente deles de longa distância, e lhes enviasse o mínimo para serem felizes. Em outro pacote havia mais uma tenda gigante, que foi destinada para a bicharada. Belzier e sua fêmea entraram numa suíte nupcial, seus filhotes ao lado, as panteras em outras, pois não havia bichos como eles nessa ilha. Apenas passarinhos, lagartos, cobras, e bichinhos menores como ratos, coelhos, enfim.
E no aconchego e conforto da tenda, a chuva derrapou de vez. Água que nutria o lago, os rios, e regava o matagal.
Eva sentiu essa chuva com surpresa, pois nas Aldeias os temporais eram desviados.
Controlar as nuvens e os ventos se estudava nos primeiros anos do ensino na Lua. Dessa maneira, quando chovia ficava um círculo seco no chão, pois as águas viajavam para a mata dentro, se desviando a uns 30 metros acima das cabeças humanas. E durante essa viagem, Sergei lhes limpara a rota antes de sair da aldeia. Mas, desta vez estavam sem pai nem mãe que fizesse isso. Tamparam com a manta, rindo, e se amaram docemente até ficarem dormidos.
Ao raiar do Sol de um novo dia, uma nevoa grossa se elevava no ar. Um vapor quente, como um caldeirão gigante, que os invitava a viverem para sempre na preguiça, corpos horizontais sobre as areias, ou sobre o colchão no aconchego dessa tenda, na magia eterna do amor.
E muitos dias se passaram.
Ficaram com a pele escurecida pela vida ao ar livre, fortes com o exercício diário no mar, afundando entre peixes e moluscos, catando pérolas das ostras, pois Eva aguentava firme uma hora embaixo da água. Juntaram tantas pérolas, que dava para fazer uns 20 colares. Adão fez os furinhos de cada pérola, e catou linhas de raízes moles. Eva montou 10 colares para ela, de larguras diferentes, e os outros foram designados para a família.
E o tempo rolou, sempre igual.
Tinha dias que sequer saiam dessa tenda, pulando sobre o colchão, cochilando, acordando para rolar de novo. Com a suavidade dessa cama, experimentaram novas maneiras de se amar. Quando a preguiça era demais, Belzier os alimentava novamente. Carregava com os dentes cachos com bananas, cocos suculentos, e os deixava cair na beira do colchão. Eva gargalhava:
— Esse cavalo é demais! Lee o nosso pensamento...
— Eu sei... Adoro-o...
— E eu amo meus bichos! Mas, não vamos ter nossos filhinhos?
— Só se formos enviados de regresso da Lua! Meu pai só pode engravidar a mãe quando foram reprovados e regressaram da Escola. Nessa Lua só ficam os mais inteligentes... Quem não passa de ano, é enviado de volta.
— E estudar para quê? Nenhum de meus irmãos entrou na Escola de Espião. Meu pai, então, sequer ficou lá um ano. O mandaram de volta depois das primeiras provas do primeiro período!
E começaram a gargalhar. Sergei pelo menos terminara o Ensino Básico.
Um dia fizeram o caminho de regresso, demorando o dobro de tempo, pois dentro da tenda e por cima da maciez da cama inflável, o tempo da volúpia era desta vez mais longa e prazerosa. Eva estava tão tomada pela preguiça, que olhava para as árvores e desintegrava os galhos das frutas. Adão as fazia levitar no ar até chegar junto deles. Desintegravam as cascas de um olhar, e comiam gulosamente as laranjas cheias de suco, as jacas gigantes, as maçãs, peras, abacates, enfim. De vez em quando caia do céu um pacote. Riam com felicidade. Era pão de Ludmila, ou, bolos e cucas da Dina.
No dia que entraram na aldeia de Eva, ela já não era mais a guria que saíra de cavalo com um guri. Era uma mulher de curvas exuberante, olhos que brilhavam como estrelas, e a rainha da sensualidade.
Enquanto Eva e sua mãe Dina se abraçavam chorando, a irmãzinha Madalena, agora uma guria lindíssima, chegou correndo, se abraçou na irmã, ao tempo que Adão era rodeado pelos cunhados, pelo sogro João, e por amigos que estavam afoitos para escutar como era viver numa ilha que flutuava.
Ao anoitecer bailaram, comeram um banquete, beberam sucos de uva fermentados, e ficaram até o amanhecer falando histórias, pois todos queriam articular com eles. Saber sobre a vida em outros lugares, e Adão desenhava no chão todas as rotas que percorreram, durante todo esse tempo de recém-casados.
E a vida mais uma vez entrou na morna rotina.
Adão fez uma casa por cima de uma árvore, ajudado pelos seus cunhados, em cujo lugar Eva colocou pouca coisa dentro. O colchão maravilhoso, uma alfombra que Dina deu-lhe de presente, vasos com flores nas janelas, e uma cortina na porta para manter a intimidade. As panteras se estendiam nos galhos adjacentes. Eva, que engatinhava como uma onça selvagem pelos galhos, lhes fazia carinho, enquanto lá embaixo Adão passava uma escova em Belzier e seus cavalinhos.
Assim que a festa em redor da fogueira terminava, subiam as escadas correndo, tiravam as roupas com afobação, e faziam amor ardentemente. E como recém-casado nunca era incomodado nesse planeta, só davam a cara no fim do dia, para o festim de todos, ou para dar uma corrida no mato om à bicharada.
De tempos em tempos, Adão visitava sua família, na outra aldeia, rodeado da bicharada, e um dia regressavam novamente para o aconchego do lar dessa árvore, em caminhadas longas.
E, durante uma dessas viagens, viram uma luz descer entre o mato enquanto uma voz telepática lhes informava que teriam que subir nessa nave para conhecer a civilização. Havia chegado o dia em que ambos receberiam conhecimento. E disso, ninguém se livrava nesse mundo, pois estudar fazia parte da vida de todos os homens.
Eva falou um adeus para mãe com telepatia, e Adão outro adeus para sua mãe, enquanto todos os pertences pessoais, panelas, mantas, tenda, lhes foi desintegrado desde o ar. A seguir se elevaram no ar através de uma luz, e adentraram numa nave gigante que flutuava escurecendo o mato.
Lá embaixo Belzier e as panteras ficaram com o pescoço para cima, os vindo partir, pois na Lua não era permitido levar animais de estimação. Muito menos bichões gigantes como esses.
Notas finais
Todos sentavam em tapetes maravilhosos, em redor do banquete diário. Os mais velhos contavam histórias do passado que os jovens escutavam com respeito. Tinha também os que cantavam, ou tocavam um violão, pois quem regressava da "Escola lunar" chegava com conhecimentos artísticos. Depois vinha a dança dos mais jovens, das crianças, e as reboladas das damas para os namorados em redor de um fogaréu. No fim da festa, um a um os casais iam saindo de fininho para algum lugar ermo. Ficavam para trás solteiros empedernidos, os moleques, e alguns velhos contando histórias e bebendo uma bebida feita de uvas fermentadas. E esses últimos festeiros faziam a faxina. Todos os restos de comida eram desintegrados com o olhar. As sementes as dispunham em sacolas de linhagem, e as alfombras estendidas no chão eram enroladas e colocadas numa casa de madeiras, cujo lugar possuía o que era de todos. Mantas para cavalos, panelas, um fogão para fazer o pão, teares, sacolas, enfim. E por último desintegravam o fogo, as pedras incandescentes, as cinzas, e a fumaça do ar.
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