Adão e Eva no berço dos anjos. Primeira parte.
7 A morte negra
Notas iniciais
Voando em meio do espaço, as mulheres prepararam um banquete para recompor as energias: — strogonoff de cogumelos frescos, lasanha de nutrientes, arroz primavera, verduras ao bafo, empadão de cebolas, e suflês variados, com sobremesas de tortas com frutas e cremes. E enquanto comiam até estourar, lembravam-se dos dias vividos, onde trabalharam em algo que não fazia parte dessa missão. Mas, que havia sido mais um aprendizado. Tudo assinalava que o planeta matara seus filhos para sobreviver. Era triste de se ver! Pois Mirim não encontrou nenhum sinal de pandemia nos cadáveres. Nada! Chegaram ao consenso que esses homens morreram de calor extremo, envenenados com a toxicidade do ar. Apenas isso!
Após dormir como urso, Ênio percebeu que estava cheio de gás. Madalena sentiu seu amado chegando de mansinho, e soube que a lua de mel interrompida ia continuar. E fazer amor sem data para acabar era a melhor coisa que acontecia com quem se perde no espaço numa viagem sem fim. Adão preferiu reiniciar o namoro em meio da horta, comendo frutas deliciosas, como num piquenique de seu mundo. E Eva, que era índia por natureza, fez uma cama de folhas secas no chão, para ficar naquele lugar sem data para ir embora.
Quando a sirene dessa nave enlouqueceu, os seis saíram do chamego trajando o mínimo, para ver um planeta que estava nítido, mostrando um cenário aterrador. Um astro árido ao extremo, e em cujo lugar as manchas verdes das selvas tropicais estavam minguando. E o que era mais sinistro, havia rios negros, manchas pretas boiando no mar, e gente envenenada estendida nas beiradas dessas águas. Nas praias cadáveres de aves e peixes apodreciam embaixo do Sol. Os homens e as bestas sobreviventes estavam convertidos em esqueletos, deambulando sobre a terra em busca de alguma fruta para mordiscar. Não havia explicação de como conseguiam resistir num mundo como esse.
Adão foi o primeiro a falar:
— Mas nós limpamos tudo, não deixamos contaminação em lugar nenhum...
Viktor acrescentou:
— Isso que está emergindo das entranhas da terra, não é petróleo, não...
Madalena quase gritou:
— Lixo nuclear! Eva, tu se lembras da Terra? As Usinas enterravam lixo radioativo em túneis subterrâneos, e tinha os que os lançavam ao mar...
— Nossa! Lembro! Na França só havia energia nuclear! Se esse lixo vazou, estamos condenados. Vamos ficar doentes assim que colocarmos um pé lá embaixo...
Mirim falou-lhes:
— Que nada, eu vou preparar os medicamentos! Um antídoto! É minha especialidade. Só me tragam uma amostra dessa água. E todos desçam com proteção contra radiação. Ah! E comecem a preparar mingau de aveia. Essas crianças não conseguem comer mais nada. E os adultos também não. E tragam água dos Polos. Derretam neve. Desativem os robôs para dar soro no baço, com nutriente tipo “A”.
Viktor deu-lhe um beijo na boca e falou: — Sim, patroa! Depois articulou para Adão: — Eu vou à busca das manchas pretas na água! A seguir Ênio disse: — Eu vou derreter neve e formar um rio! E correram em busca de uma nave pequena para cada um, própria para pousos em terra.
Adão, Eva e Madalena desceram sobrevoando baixo, para examinar a paisagem mais de perto. Encontraram umas quebradas isoladas, secas, em cujo chão só existia capim amarelo. Era o lugar ideal para formar uma colônia. As quebradas davam sombras, e havia um leito seco de um rio, que poderia ser reutilizado. Imediatamente voavam por sobre os moribundos, ou semimortos, e os levitaram em grupos de até 100 pessoas. Até não sobrar ninguém isolado. Só então, Madalena pousou as longas pernas metálicas, e os três desceram em meio aos humanos usando vestimenta completa. Máscara, luvas, botas, enfim.
Uma vez no cânion, os homens se juntavam, com olhos arregalados, sem entender ainda o que estava para lhes acontecerem. Sabiam que uma vez no passado uns alienígenas ajudaram os sobreviventes da guerra. Agora estavam de regresso. Mas, ninguém sabia bem sobre o quê poderia acontecer. Só ficaram a os olhar, pois através dessa roupa não dava para ver-lhes a fisionomia.
Eva começou a cavar grutas — com desintegração mental — nas rochas desse cânion, para as pessoas se abrigarem do calor extremo e Adão os hipnotizou, assim que os robôs apareceram com o soro. Entraram caminhando como autômatos nas cavernas frescas, sentaram contra as paredes rochosas, e os meninos ficaram deitados de costas, estendidos no chão. As peles dessas pessoas estavam secas, as línguas sem saliva, e sobreviviam graças às frutas dos arbustos, e aos cactos dos desertos, que lhes davam o suco e os nutrientes.
Uma bolsa redonda com soro nutritivo ficou por sobre o estômago de todos eles, liquidificando o sangue através de uma sonda que se enterrava dentro do baço. Os glóbulos vermelhos desse baço, reativados pelo soro, entraram na corrente sanguínea alimentando os órgãos internos. Um sangue cheio de nutrientes espalhou-se pelas veias como um rio interno, lhes devolvendo as energias perdidas.
Enquanto Adão os atendia como médico, Eva abriu buracos através desses cânions em busca de águas subterrâneas. Achou-a indo mais ao Oeste em cujo lugar uma montanha deixava cair um fino fio que evaporava ao cair. Dilatou os olhos e desintegrou fendas até encontrar um manancial de pura água cristalina. Em seguida foi abrindo a terra, guiando o liquido através do deserto.
Quando o povo acordou, todos saíram em bando a tomar um banho refrescante.
Algo que não se fazia mais. Meninos chacoalharam como marrecos, rindo, os adultos passaram sabão nos corpos, tirando sujeiras e descobrindo a cor da pele, e nas cabeças o pó se desmanchou mostrando pela primeira vez cabeleiras vermelhas, loiras, morenas. Cor tampada pelo pó através dos anos. Na verdade esses homens eram cinza. Da cor do chão desse mundo. Tinha os que riam ao ver escorregar tanta sujeira.
E Madalena ficou cuidando desse povo, em tempo indeterminado, cozinhando para eles, e respondendo as perguntas: — de onde vieram? ou, do: — porque chegaram? e pouco a pouco ninguém mais tinha receios dela. Embora não enxergassem sua cara, abraçavam-na com carinho, pois à medida que as forças voltavam à vontade de viver tomou conta dos adultos. Reascendeu a esperança. Teve os que se emocionaram. Principalmente meninos que não paravam de falar: — obrigado, a todo instante. Matar a fome havia sido um milagre. O estômago havia parado de torturá-los.
Adão e Eva pela sua vez saíram a examinar o planeta centímetro a centímetro, numa outra nave pequena. Colocaram lentes especiais, e foi se examinando o subsolo, o que havia nas profundezas desse planeta.
Quando encontraram os túneis um arrepio deixou-os estupefatos. Centenas de barris, guardados e isolados por paredes de cimento groso, estavam vazando veneno fazia centenas de anos. Veneno que entrava em rios subterrâneos e chegavam às nascentes da superfície, e finalmente atingiam o mar. Adão e Eva desintegraram os subterrâneos com tudo que havia dentro, deixando buracos a céu aberto gigantescos, que se purificariam ao calor do Sol. Em seguida secaram as águas dos rios intoxicados, evaporando tudo, formando negrumes de tempestades. Nuvens negras de venenos que os robôs sugaram, guardaram, e levaram para arremessar no espaço.
Enquanto essas águas envenenadas despareciam no ar, a água que Ênio derretia nos Polos corria caudalosamente cruzando as savanas, na direção desse cânion. Pouco a pouco esse mundo formava lagos na sua passagem, cascatas de alturas maravilhosas, que caiam nos cânion com um barulho encantador.
E muitos dias se passaram novamente, num trabalho incessante. Com todos os robôs trabalhando no mundo todo, limparam subterrâneos, secaram rios, evacuaram a podridão para o espaço, capinaram, plantaram, e formaram nuvens brancas para refrescar o chão.
A única coisa que os derrotou na recuperação desse planeta, foi o microscópio.
Mirim colocava nas chapas germens que comiam radiação, gérmen que comia putrefação, gérmen que jantava podridão, e não encontravam nada que devorasse a mancha tóxica radiativa dos oceanos desse mundo. Mergulharam aos abismos abissais e buscaram por um remédio nos fundos dos oceanos, com uma decepção trás da outra. Nas profundezas os peixes luminosos engoliam tudo, mas assim que subiam, morriam nas alturas. Sequer os seres aquáticos mais robustos sobreviviam com as águas altas da superfície. Mistérios da natureza. Também tentaram canalizar o veneno para o fundo do mar, mas nenhum verme o comia. A mancha descia e subia intacta, qual bolha assassina, disposta a sobreviver pela eternidade. Na verdade reverter à vida do mar era algo que não conseguiam fazer de jeito maneira.
E numa reunião Adão ponderou que se não encontrassem essa cura, teria que se encontrar o remédio em outro planeta vizinho. E ele ia além, ele ficava ali com os robôs ajudando essa colônia a se organizar. Mas, Mirim tinha que calcular-lhe o tempo de sobrevivência.
— Hum... Puxando o uniforme protetor, tu terias, no máximo, uns 300 anos de vida...
Adão afirmou:
— Tempo suficiente para vocês quatro irem e voltarem com a solução ao nosso problema! Vocês saem a garimpar no espaço. Eu e Eva ficamos com os homens. E nada de articular o contrario. Estou no comando.
E riram em coro para descontrair.
Após o último fracasso em frente ao microscópio, Ênio e Adão procuraram nos telescópios os astros vizinhos. Fizeram um mapa com uns 30 planetas civilizados. Calcularam distância, tempo de voo, e um dia concluíram que havia chegado a hora de se separarem. Viktor e Mirim eram os gênios das experiências com o microscópio, Ênio era o gênio da navegação e Madalena o piloto que nunca erraria o caminho. Por tanto, Adão e Eva ficavam. Se demorassem menos de 300 anos em regressar, encontrariam Eva e Adão ainda vivos. Mas isso era só um detalhe. Podiam demorar 600 anos. Dava na mesma. Encontrar-se-iam de novo na próxima reencarnação. E para dar-se coragem mútua, brindaram com vinho, em jantares gostosos, preparados pelas mulheres.
Madalena deixou seus cachorros com Eva, para ela ter algo do passado para se consolar. Oito filhotinhos recém-nascidos desceram junto, olhando essa nova paisagem de outro mundo um pouco assustados.
E Adão e Eva carregaram o mínimo de mordomias, uma tenda gigante, fogão, mesas, cadeiras, copos, pratos, talheres, panelas, uma cama, cobertores, estantes, camas pequeninas para a cachorrada, e uma pequena nave para viagens pelo mundo e deslocação de robôs. Em outros barracos, sementes, e suprimentos para todo esse povo faminto.
Enquanto organizavam essa tenda na beira do rio, Eva falou:
— Amor, acho que vamos cumprir nosso sonho...
— Nu entre o povo?
— Eles estão nus! Só vestem farrapos sujos para tampar o mínimo! Vou deixar os seios à mostra como as índias da Terra. O que acha?
— Hum... Malandra. Sabe que eu não resisto à miragem.
E sadicamente Eva vestiu uma bermuda, chinelos, e mais nada. Cabelos soltos como uma índia, com 5 colares de pérolas no peito. Adão soltou também a cabeleira, e vestiu um short. Deixaram o chamego amoroso para noite, pois o povo os olhava calados desde a entrada dessa tenda. Nunca imaginaram que dentro dos escafandros luminosos houvesse pessoas iguais a eles. Teve as mulheres que cercaram Eva e a tocaram, para conferir que era humana. Já os homens tocavam Adão, mexiam a cabeça com incredulidade, sem saber como fazer as primeiras perguntas que estavam atravessadas na garganta. Telepaticamente Eva lhe disse: — Conte para eles, amor!
E Adão encaminhou-se para uma pedra alta, e contou-lhes uma história simples. Era homem igual a eles, namorava com sua mulher, como eles também faziam, e imediatamente risadas começaram a pipocar. A seguir respondeu perguntas, falou sobre o futuro, até que sentiu de longe o aroma de seu primeiro banquete primitivo. Eva estava com uma alfombra de taquara estendida no chão, colocando comidas sobre ela com a ajuda de 50 mulheres. Frutas, saladas, pão fumegante cozido nas braças, sucos em jarras de vidros, raízes de mandiocas quentinhas, na verdade era como estar em casa.
Depois da comilança Adão ascendeu uma fogueira, treinou aos homens a bater palmas, enquanto Eva ensinava as mulheres a rebolar.
Mas quem mais se divertiu foram os meninos. Pulavam fazendo rodas, pois uma súbita alegria se difundiu como a pólvora. E os cachorrinhos corriam em redor, se juntando aos humanos, que não paravam dar-lhes abraços e beijos.
Nos dias seguintes Adão reorganizou os robôs nos afazeres de cada um. Além de semear as sementes trazidas das naves, plantaram as primeiras mudas de árvores fortes. Entre as árvores fizeram jardins floridos, colocaram casinhas para abelhas, casinhas para passarinhos, e foram distribuindo ovos de borboletas, pequenas cobras, lagartos, rãs, galináceos, patos, gansos, pererecas, enfim.
O último milagre foi entre os homens. Na medida em que plantavam mudas ao lado dos robôs, invitavam uma namorada a compartilhar a vida. Primeiro foram as mais belas, em seguida as mais velhas, numa matemática perfeita. Sobraram as crianças menores, aos cuidados de robôs, para evitar antigos vícios de estupro infantil. Para os homens solitários, Adão lhes deu uma boneca de borracha para dormir as noites.
Com passar dos dias, as mulheres aprenderam a tecer em teares com fibras naturais e os meninos começaram estudar todas as ciências junto a 50 robôs.
Mas, a construção de uma cidade maior e urbanizada, necessitava de matéria prima. E a única coisa abundante nesse mundo eram as pedras e a argila. Adão construiu um forno para queima e Eva fez moldes para tijolos. E todos os homens aprenderam em silêncio. Batiam barro na beira do rio com os pés, carregavam a argila macia nos braços, batiam de novo misturando com areias, e colocavam nos moldes de madeira enfileirados no chão. Fins do dia tomavam banho no rio para recuperar a cor da pele.
Na medida em que os adultos erguiam uma nova civilização, ajudados com 100 robôs engenheiros, Eva e Adão subiam penhascos para contemplar o pôr do Sol, ajudados com cordas. Fim da escalada Eva socavava buracos nos cumes para pernoitar como primitivos em cavernas, pois esse Cânion era belíssimo. Adão gostava de gritar e escutar o eco repetir sua voz muitas e muitas vezes. E sozinhos, dentro dessas cavernas altas faziam o que mais gostavam, namorar sem data para terminar. Desciam rindo, para se juntar aos novos amigos que os recebiam entre piadas. Bailavam ao anoitecer ao redor da fogueira, e entravam na tenda esgotados como nunca. De alguma maneira esse mundo radiativo deixava o corpo mole.
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