Adão e Eva no berço dos anjos. Primeira parte.
4 A busca do amor
Notas iniciais
Enquanto Adão e Eva se classificavam como Espiões com todos os louvores que lhes correspondiam, Mirim ganhava a fama de ser a melhor cirurgiã desse planeta. Para apagar seu amor por Adão fez terapia, hipnose, e uma vez curada estudou tudo sobre saúde humana, se especializando em cirurgia e microbiologia.
Mas como não conseguia se apaixonar por nenhum macho, começou a percorrer todas as Luas desse mundo. Principalmente aonde chegavam pessoas de outros mundos a fazer reportagens, ou pesquisas cientificas. Sempre em busca de um homem que mexesse com seu coração artificial. Um ser de outro mundo, pois os trogloditas que cresceram com ela estavam todos casados, e os novos jovens não possuíam nenhum carisma para uma mulher educada como ela.
Quando Mirim olhava para os calouros entrando no hospital, todos arrebentados, olhos sangrando, fora das órbitas, sem dentes, costelas quebradas, depois de uma luta nos ginásios, ela se arrepiava inteira. Depois ria, lembrando que um dia ela fora igual a eles. Desordeiros, sem leis para obedecerem, livres como os próprios pássaros da selva, sem noção da força de seus próprios impulsos. E ao lado de Alain, o melhor cirurgião depois dela, costurava os garotos como quem recompõe um boneco.
Viktor, um homem grande, gigante, chegou ao aeródromo espacial com uma câmera no pescoço, para fotografar esse astro com todos seus encantos.
Ele percorreu a cidade lunar, e foi apertando mãos desconhecidas, que lhe davam as boas-vindas. A seguir recebeu todas as explicações para percorrer o planeta. Devia ir até as torres de luz, e indicar o lugar que desejava conhecer. O raio se encarregaria de deixá-lo no lugar indicado. Também foi invitado a se hospedar nos apartamentos de solteiros, onde um robozinho o serviria como seu servo.
Mas Viktor achou mais interessante procurar uma guia turística. Alguém que fosse solteira, linda, e sem apaixonados, pois sabia que nesse mundo selvagem, se mexesse com a pessoa errada terminaria no hospital para cirurgia de ressurreição.
Achou Mirim, a mulher ideal, por causa do acaso, dentro de um supermercado. Era como se a conhecesse da vida toda. Bem, ele nunca se interessou em ver as vidas passadas em frente ao espelho. E enquanto divagava com seus pensamentos sorriu para ela, acenou com a mão e invitou-a a lhe mostrar todos os lugares que ele pudesse fotografar. E ela aceitou encantada. Esse forasteiro a atraia como um imã. Nossa! Lindíssimo! Nem Alain, nem Adão, nem ninguém do planeta era tão atraente quanto ele.
Visitaram todas as Luas, todas as escolas, e finalmente Mirim levou-o a observar o planeta. Cavalgaram entre o mato, visitaram as ilhas flutuantes, e Viktor começou a se envolver no encanto daquele mundo selvagem e inóspito. Havia poucas aldeias, a maioria perto dos trópicos, formando um círculo através dos três continentes do planeta. E as ilhas formavam uma fileira sobre o mar, e sobre elas podiam-se percorrer os oceanos, viajando de ilha em ilha, pois elas se mexiam conforme a vontade dos homens. Elas eram usadas como embarcações, pois se locomoviam como servas. Quando uma ilha encostava com uma vizinha, ela imediatamente regressava ao seu lugar. As pessoas então se jogavam entre as ondas para nadar até as praias distantes, ou usavam uma canoa de troncos entalhados, até a outra margem. Incrível!
E Viktor fotografou com felicidade todas as paisagens fantásticas, os pôr do Sol com cores que só havia nesse planeta, e aos homens das aldeias vivendo na mais simples das vidas. Crianças nuas nadando em rios turbulentos, ou nas praias. Adolescentes correndo a cavalo, fazendo badernas. Havia danças ao redor da fogueira ao ritmo de tambores, e a beleza das damas era maravilhosa. Belezas naturais, com enfeite de flores, cabelos longos, e bocas sensuais. Fotografava tudo com discrição, pois para cada mulher havia um homem capaz de matar por ela.
Em pouco tempo essas fotos constituíam vários álbuns fantásticos. Ele foi empilhando-os. Em seguida colocava alguns nas Bibliotecas das Escolas da Lua, já outro os enviava para seu planeta, junto com cartas para a família, no correio interespacial.
E para dar o trabalho por acabado, pediu para Mirim ser sua musa.
Desejava fotografa-la nua sobre as pedras, recostada contra troncos, estendida sobre areias, mas ele prometia não mostrar seu rosto. Queria imortalizar a perfeição de seu corpo, pois nunca vira uma mulher tão bela quanto ela, em nenhum lugar do Cosmos.
E foi assim que tudo começou.
Isolados entre as frondosas árvores do mato, Viktor examinava os melhores ângulos, o efeito da luz, as sombras sobre o corpo perfeito de Mirim, e antes de puxar o gatinho de sua câmera ele já estava respirando com excitação. Mas se concentrava, captava a imagem, e a seguir revelava as fotos na sua tenda, e as pendurava nas cordas, na espera da secagem. Só então chamava Mirim e expunha as figuras para ela.
Mirim pensava com ela mesma. Se Viktor tivesse nascido ali, em alguma aldeia, ela já não seria mais casta, há muito tempo. Mas esse estranho de uma civilização mais avançada, nunca a beijaria sem a sua permissão. Ele era um cavalheiro. Um homem que sabia respeitar uma dama. Por esse motivo ela tomou a iniciativa. Aproveitando o escurinho dessa tenda, deu-lhe um beijo ardente. Viktor imediatamente levantou-a nos braços, e passou para a sala contigua de sua tenda, onde havia uma cama que flutuava. Uma raridade nesse mundo selvagem, onde as pessoas se atracavam contra os troncos, ou rebolavam na lama. E, imediatamente, inebriado com essa amante fantástica, ele pediu-a em casamento.
Os amigos de infância de Mirim lhes fizeram uma festa nupcial ao estilo deles. Colocaram hastes de cera em lugares diferentes, que arderam toda a noite, transformando o mato em pinheiro colorido. Enfeitaram os noivos com flores na cabeça, e todos os membros dessa aldeia dançaram noite adentro em redor deles. Não houve juramento de nada em frente a um juiz, ou amigo, e muito menos em frente a “00”, o mago do espelho falante. Nesse planeta havia a certeza que todos eram casados de outras vidas passadas. E quem não o fosse, cassaria na vida futura com o mago do espelho.
Quase de amanhecida, abraçaram a todos, e partiram desse planeta para ter uma vida de recém-casados na intimidade de uma suíte lunar. E como nenhum deles foi incomodado com trabalho, Mirim e Viktor assumiram a vida de casados, sem planos para o futuro. Saiam aos supermercados em busca de comidas, e Viktor cozinhava enquanto Mirim tomava Sol de biquíni na sacada da suíte. Olhavam televisão, e o chamego começava em qualquer momento. Deitados sobre almofadas, ou rolando sobre a alfombra, ou na cama, e tinha as vezes que subiam nos assentos que balançavam.
E o tempo transcorreu sem nada que os tirasse dessa felicidade. Eram duas pessoas que finalmente encontraram a pessoa certa. E para saber se já se conheciam de outras encarnações, um dia entraram num templo para ver o espelho. Em meio de lágrimas nos olhos, Mirim se viu a si mesma toda vestida de branco, com Viktor ao lado, sendo unidos para sempre num templo de outro mundo. Só que eles eram muito feios. Rostos verdes, olhos vermelhos, mais pareciam bichos do que homens. Saíram do templo com uma mistura de risadas e lágrimas de felicidade. Nesta encarnação Viktor era um príncipe estelar, e Mirim a rainha da beleza universal. E eram casados de vidas passadas, e de todas as vidas futuras que tivessem pela frente. Afinal, quem havia realizado a cerimônia fora o mágico do espelho, o famoso “00”. E todo mundo sabia que, quem se unia em frente dele, ficava ligado para sempre. Mirim escutara isso da boca de Adão desde criança, e nunca acreditara nisso. Se o houvesse escutado, teria se livrado dessa surra terrível.
E, um dia, cruzaram-se numa Avenida com Eva e Adão, que estavam nessa Lua fazendo as mesmas coisas. Comer e namorar. Viktor os cumprimentou com carinho, enquanto Eva olhava para Mirim com calma. Na verdade Mirim nem era tão bela assim. Deu-lhe os parabéns pelo casório, e Adão beijou-a no rosto com felicidade verdadeira, pois ele tirava um peso da alma. Nunca se perdoou fazê-la sofrer, pois ele a amava como uma irmãzinha mais velha. E abraçou Viktor com carinho, e chamou-o de cunhado.
Dali para frente cada vez que os quatro se cruzavam conversavam longos papos, e tinha vezes que jantavam juntos. Afinal, Viktor era encantador. Um gigante de sorriso aberto, que só tinha olhos de amor para sua mulher. E como ela se entregasse para ele virgem, não tinha ciúmes de ninguém. E Eva, que lia a cabeça até das minhocas, uma noite observou a paixão verdadeira que Mirim sentia pelo marido. Ela estava arrebatada de amor. Tomou sua mão, e pediu-lhe perdão pelo coração de lata. Viktor perguntou:
— Você tem coração biônico?
— Sim!
— Mas, como foi que isso aconteceu, meu amor?
— Foi essa ali, com ciúmes do Adão...
E Viktor caiu na gargalhada. Sabia que os selvagens se matavam uns aos outros nesse planeta, mas ver a realidade nua e crua o pegou de surpresa. Adão, para quebrar o gelo falou-lhe:
— Nem tenta imaginar desafiá-la, cara! Até eu tenho medo dela...
E riram em coro de vez. E ficaram amigos para sempre.
Longe da felicidade de Adão e Viktor, Ênio, vestido como Espião, de preto da cabeça aos pés, voltou para a aldeia a visitar a família, com férias eternas. Até o dia que fosse chamado a trabalho. Sem nenhuma namorada, pois ele ainda não achava alguém que o deixasse quente, fervendo, como nos tempos que era apaixonado por Eva. E agora que terminara sua carreira, ou encontrava uma esposa, ou nunca sairia numa missão estelar. E ele queria percorrer todo o Universo de ponta a ponta. Conhecer outros mundos, outras pessoas, na verdade ele era um aventureiro em busca de emoções intergalácticas.
Madalena, irmã caçula de Eva, que fora reprovada em todas as matérias e devolvida para casa, estava convertida numa bela mulher. Viu Ênio chegando e deu um suspiro profundo. Ele estava arrebatador nesse uniforme preto de Espião! Musculoso, andar felino, mas muito triste. Coitadinho! Elevou as ondas telepáticas, e perguntou para Eva o que devia fazer para conquistar Ênio, pois ela estava começando a se apaixonar dele. Eva aconselhou-a para dar-lhe um pontapé entre as pernas, pois cairia de joelhos. Depois um soco no queixo. Quando estivesse estendido no chão, de costas, devia pular por cima e dar-lhe um beijo de língua. E Madalena gargalhou alto. Riu tanto, que Ênio a olhou pela primeira vez. Nossa! A guria estava maravilhosa! Havia-a encontrado na Lua algumas vezes, mas sempre na correria, rodeada de amigas baderneiras. E agora estava com media dúzia de cachorros gigantes deitados em redor, e um pequenino no colo dela.
Virou o rosto furioso, pois com certeza se apaixonar por ela seria uma fria. Não ia cair de novo nessa. Madalena jamais havia beijado alguém, pois era pior que Eva. Os homens ficavam longe dela, por medo dos cachorros e dos seus socos, pois Eva lhe ensinara todos os truques de uma boa guerreira. Nessa aldeia, nas brigas entre amigos, era uma matadora carniceira. Dava patadas que nem égua. E na sua breve passagem pela escola fora campeã de box.
Mas Madalena era também uma fêmea muito inteligente!
Vasculhou entre suas roupas e colocou um vestido branco que possuía um zíper ao lado e deixava uma perna ao descoberto. Dina, que estava lendo historinhas para suas gêmeas Mariuska e Tathiane, veio auxiliar Madalena com o zíper. Subiu-o com cuidado, e finalmente observou sua garotinha convertida em deusa. A seguir abriram uma caixa de maquiagem, Madalena passou batom na boca, colocou três colares de pérolas, presente de Eva, guardados para uma ocasião especial. Enfiou uma flor nos cabelos, e um perfume de mulher trás da orelha. Suas irmãzinhas riam em redor. Curiosas. Dina perguntou-lhe:
— Quem é o alvo, filha?
— Ênio!
— Hum! Vai cair que nem um pato!
E começaram a gargalhar alto, enquanto as irmãs perguntavam com que idade elas podiam também começar a namorar. A seguir ficaram bisbilhotando de longe, pois Madalena saiu de casa bamboleando os quadris. Só não colocou sapatos altos. Só um chinelo de dedos.
Madalena sentou no chão de lado, mostrando as curvas com sadismo, enquanto a dança ao redor do fogo levantava uma leve poeira, deixando o ambiente ainda mais encantador. Era fumaça, pó, e som de batuques que tinham o poder de fazer corações se apaixonarem.
Madalena enviou a cachorrada a dormir no mato, e esperou e esperou, pois, Ênio a examinava hipnotizado e admirava-a, mas numa tentativa desesperada buscava também por outras gurias lindas, para fugir da mandinga da feiticeira. Mas por mais que procurasse no mundo inteiro, não havia nenhuma mulher como Madalena. O busto dela era assustador. Seu sangue ferveu como nunca. Sua excitação estava matando-o.
Para cúmulo Madalena foi caminhando, mexendo os quadris, em direção ao rio, onde sentou numa pedra para admirar a Lua. E Ênio, como possuído por uma força sem controle, engatinhou atrás. Pior que um cão vira-lata. E esquecido que agora era um Espião 002, capaz de matar a patadas qualquer coisa-ruim que chegasse perto. Também podia hipnotizá-la, ou a transformar em robô, e estuprá-la como canibal. Ele na verdade podia tudo desta vez. Podia fazer dormir toda a aldeia para não ser descoberto. Mas todo esse poder adquirido durante tantos anos de estudo, ele nem lembrava mais. Só sabia uma coisa. Madalena tinha que ser sua mulher.
Perto do rio, com uma cascata produzindo o som da noite, Ênio sentou junto a Madalena, tomou-a da mão, e a pediu em casamento. Como um cavaleiro das estrelas. Como os bonitões que chegavam de outros planetas. E sua mulher maravilhosa olhou-o de cara feia:
— Mas, casar sem amor? Assim, mais nada?
— Com amor a toda hora! De manhã, tarde, noite, embora no espaço o tempo não exista. Quero me perder numa nave sem fazer nada além de namorar, namorar e namorar.
— Hum! Não tem graça! Eu quero um homem que me ame, e que mate por mim...
— Mas eu mato... A quem?
— Sei lá, não tenho nenhum apaixonado! Ninguém me ama, e ninguém me quer...
— Quem mandou ser briguenta? Ou também estás a esperar um homem que aparece em sonhos, de outra aldeia, lindo, com cara de príncipe?
— Sonho sim! Só não sei quem ele é! Mas, eu gosto de ti. Quem sabe se não és tu?
E desta vez Madalena olhou-o com cara de anjo, e um sorriso sedutor.
E Ênio não perdeu tempo.
Levantou-a, colou os corpos frente a frente, apertou com forças, e beijou-a. Depois deitaram sobre as areias brancas, onde beijou-lhe pescoço, orelhas, em quanto Madalena ria feliz, pois com certeza esse era o homem que havia esperado a vida toda. E é claro, ele se confundiu! Afinal, Eva e ela eram iguais. Idênticas. Toda a aldeia falava que pareciam irmãs gêmeas!
Em seguida, Ênio chamou com telepatia para um robô piloto, numa nave pequena, e raptou Madalena para ter um namoro mais civilizado, numa cama aconchegante, numa banheira de sabão perfumado, e numa suíte que os receberia como um ninho de amor, em alguma Lua.
A nave os deixou no térreo de um edifício de 80 andares.
Desceram pelo raio que levitava as pessoas como uma folha, e entraram no primeiro apartamento desocupado que encontraram. Um robozinho deu-lhes as boas vindas e encaminhou-se para o fogão a preparar-lhes um banquete. Era uma quitinete própria para casais em lua de mel. E Espião podia viver neles pela eternidade.
Quando o cansaço, que chega depois de um amor de muitas horas, os derrubou, o robozinho chegou com os alimentos. Madalena pegou uma garrafa com canudinho, e bebeu um litro de sucos de mangas sem parar. E perguntou-se a si mesma quando é que seu amado a deixaria encostar os pés no chão.
Enquanto Ênio dormia, Eva falou para irmãzinha com telepatia: — Beijão como se fosse uma manga doce e vais ter um escravo pela eternidade!
E Ênio saiu do sonho para uma realidade maravilhosa. Quem a ensinaria a beijar dessa maneira?
Num dia qualquer, encontraram Eva, Adão, Viktor e Mirim rindo às gargalhadas, num restaurante da cidade. E Adão não se conteve e gritou-lhe aos berros:
— Te confundiste de mulher? Custava esperar a guria crescer, cara?
E desta vez riram juntos, pois os ciúmes eram coisa superada...
Momentos depois Viktor ria até engasgar, com as histórias de infância de todos eles.
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