Adão e Eva, na guerra dos iguanas. Parte II

4 Capítulo IV. O príncipe do deserto


Notas iniciais
Imediatamente, foram levados para uma sala especial, onde os gerentes mostraram-lhes como funcionava a riqueza. O dinheiro podia valer muito, ou não, conforme os preços do pregão no mercado internacional, que calculava diariamente o quanto valia cada moeda desse mundo. Portanto, sua fortuna podia ser enorme, ou pequena, dependendo do valor do câmbio. Também lhes falaram que ações não deveriam comprar nunca mais. Isso era prática de “amadores”. Era muito perigoso. No máximo comprar pouco e vender rápido, sem jamais arriscar fortunas, como eles estavam fazendo ultimamente. Bastava um boato na Internet, para perder tudo do dia para noite. Concluindo, o melhor era comprar barras de ouro, que se guardaria em cofres fechados. Quando necessitassem de dinheiro, o próprio banco comprava e dava-lhes o valor equivalente em moedas.

Nos dias seguintes a esses bombardeios, o Senado Internacional enviou um grupo de sanitaristas para atender o povo. Um grupo de 100 médicos, enfermeiros, dentistas, nutricionistas e cirurgiões. E entre os que chegaram estavam Mário e Nina, junto a Tiago e Fernanda, que achavam que estava chegada a hora de entrar em ação. Eles levantaram tendas de lonas, camas de campanha para pessoas com problemas graves, e uma sala de cirurgias numa tenda especial.

Fernanda iniciou seu trabalho como clínica-geral. Olhava no fundo dos olhos, ela mesma preparava uma mistura milagrosa, e lhes dava uma injeção na barriga. Aos mais desidratados os estendia numa cama. Para não levantar suspeitas, colocava o soro com a medicação numa veia do braço do doente.

E entre atendimentos e conversas aos seus pacientes, um boato lhes chegou por acaso. Obra do destino. Um dono de rocinha havia descoberto um poço de petróleo, e o Alertse estava obrigando-o a vender sob ameaça. Fernanda contou para o marido, Tiago deu um berro telepático para Fernando, e antes do meio-dia estava descendo de helicóptero Olaf, para apoiar financeiramente esse fazendeiro afortunado. E o homem, agradecido, lhe ofereceu a metade dos lucros dessa refinaria. Correram a fazer escrituras públicas, depois cercaram a fazenda com arames farpados, torres de vigia, enquanto os equipamentos para extração de petróleo chegavam através de carreteiras empoeiradas, por cima de caminhão, e vigiados por 8 Destruidores de asteroides.

Desta maneira, o primeiro poço desse país de farroupilhas não era propriedade do Alertse, senão que de um João Ninguém e de três desconhecidos: — Olaf, Tiago e Mário. Olaf já era conhecido como um ricaço de Alubiavam, agora os médicos voluntários, que levantaram uma fortuna no mercado de ações, eram gente desconhecida.

Para dar cobertura aos maridos, Fernanda e Nina viraram três dias sem dormir comprando e vendendo ações através da Internet. Fernando Júnior e Guilherme, desde as alturas, vigiavam com telepatia as maiores empresas desse mundo. Como videntes excepcionais, sabiam com certeza quem ia subir no pregão. Falavam para Fernanda e Nina, e elas entravam em ação. Dessa maneira, era vender caro e comprar barato, sem trégua. A grana entrava nas contas bancárias como água correndo pela margem do rio.

Em menos de cinco dias, Tiago e Mário estavam milionários. A única coisa que não sabiam era o que fazer com o petróleo. Mas, o sócio deles decidiu negociar com seus vizinhos. Tiago e Mário acharam ótimo. Venderiam com pagamentos a prazos longos. Para recompensar o fazendeiro, Tiago e Mário lhe cobririam o prejuízo. Depois construiriam tubulações subterrâneas, por onde o petróleo seria canalizado até quatro países humildes.

E os dias começaram a se passar.

Tiago e Mário compraram uma terra perto dessa refinaria, e levantaram duas mansões elegantíssimas. Olaf chegou a assessorá-los com a modernidade tecnológica dos iguanas. Instalaram antenas para satélite, e assim passaram a contar com a mais bela televisão por assinatura, telefone via satélite, computadores modernos com internet a toda hora, além de dois celulares com câmera fotográfica, filmadora e internet. Depois entraram nas redes sociais da Internet, e criaram um SITE, com o nome: — euamoalienígenas. com.

Nina foi colocando nesse site fotografias de vários mundos. Do Mundo dos lagartos e do Mundo dos descendentes de gorilas. O último que descobriu foi fotografias do Mundo dos dinossauros. Todos os arquivos Nina os puxaram de outros sites, de colecionadores de fotografias trazidas pelos petroleiros, e autorizadas para circulação na Internet pelo próprio Alertse.

Para festejar com chave de ouro, Olaf fez uma festa de inauguração dessas mansões, e convidou amigos, autoridades do lugar, médicos acampados e alguns donos refinarias de petróleo dos países vizinhos.

Benjamim apareceu de helicóptero carregando o filho nos braços, acompanhado de Isabela, seus pais, e alguns amigos.

Mas a felicidade deles era a tristeza dos outros.

Longe dali, Ênio ouvia seus camaradas do Alertse berrar e dar socos na mesa desta vez. Não encontravam petróleo, pois o ouro negro não brotava em lugar nenhum para eles. E de agora em diante, ia crescer naquele lugar o mato de Benjamim. A chegada dele era a maior ameaça que viam pela frente. Os miseráveis iam virar agricultores. E ficariam apenas com robôs para o trabalho de mineração.

Ênio sugeriu que estava na hora de falar com Benjamim e comprar a fórmula da metalponita, sob ameaças. Não havia de esquecer que o mato crescia por cima da terra e que o petróleo estava em camadas inferiores.

Um general o olhou direto nos olhos e lhe perguntou:

— Sua mulher também sentiu a diferença em você? É outro homem!

— Claro que sim... Ela disse que agora estou mais... Hum... Vocês sabem...

E as gargalhadas irromperam o ar. Em seguida, a pauta mudou de rumo. Descobriram uma guerra, em outro lugar do planeta, que brotara sozinha. Maravilha! Dois países estavam brigando por terras e queriam ajuda do Alertse com armas, robôs-soldados e mercenários.

Ênio deu os detalhes de tudo para Fernando telepaticamente. O lugar dos combates, número de soldados que seriam enviados, quantidade de robôs, e o lugar onde se fariam os embarques. Venderiam para os dois países, pois enquanto mais extensa fosse essa peleja, mais lucro haveria nas fábricas armamentistas do Alertse.

Desta vez Fernando esperou pacientemente que os cargueiros com os arsenais, mercenários e robôs cruzassem o mar. Os homens foram içados, adormecidos, e enviados congelados para o Planeta das Cobras. A seguir, os 200 navios foram desintegrados com toda sua carga mortífera. Conforme relatos da mídia, os barcos afundaram sem deixar sobreviventes. Mergulhadores entraram no mar em busca de destroços, mas depois de 30 dias de procuras infrutíferas, o nome dos mercenários e da tripulação foi dada como mortos.

Enquanto os generais do Alertse gritavam enlouquecidos, sem saber sobre a identidade dos sabotadores, longe dali, Tiago e Mário foram convidados a uma festa, no palácio de um príncipe do deserto. Um sujeito que era dono e governante de seu próprio país. Tiago deu um berro telepático para Fernando, e este lhe respondeu que era para isso que haviam ficado ricos. Para espionar a cabeça dos bilionários, e descobrir onde é que guardavam sua riqueza.

E finalmente, os homens vindos de outro planeta souberam o que era a exuberância.

Hospedou-se num hotel revestido em ouro, tão lindo, que Fernanda e Nina ficaram com dor de pescoço de tanto olhar para os candelabros de cristais caindo em cascatas, para as águas que ascendiam, dançavam e se misturavam em grande altura. Em seguida, subiram num elevador onde se acompanhava toda a beleza dos andares. Aquários gigantes e esculturas douradas mostram-lhes que nesse lado do mundo, a riqueza não havia poupado gastos. Da varanda se apreciava a cidade com os mais altos edifícios do planeta. Obras magníficas da engenharia moderna. Dava para saber que o dono desse país havia consumido sua fortuna erguendo o reino mais lindo da terra.

Fernanda tirou as indumentárias, e entraram numa piscina com pétalas de rosa flutuando. Tiago entrou na banheira e imediatamente a seduziu, pois, o calor do deserto era afrodisíaco. Coberta de pétalas de rosas, perfumada, Fernanda estava encantadora. Fascinante. Mas, sentiram Olaf chamando-os aos berros, esperando-os na rua com uma limusine. Resignados, deixaram o namoro para depois da festa.

Fernanda vestiu-se de rainha. Joias em todo canto, cabelos esvoaçando soltos até a cintura, e um vestido que mostrava com sadismo suas curvas perfeitas. Colocou um xale sobre os ombros, e caminhou sobre sapatos prateados cravejados de pedras preciosas. Tiago, com seu turbante na cabeça, parecia mesmo um homem das areias.

No palácio do príncipe, caminharam por uma avenida de luzes, ladeada por águas dançantes, flores, árvores iluminadas com luzes que piscavam. Várias dançarinas com um lenço no rosto, lhes saíram ao encontro. A música era sensual, deliciosa, e esquentava a alma. Era tudo de um bom gosto incrível. Uma herança cultural milenar. Típico dos povos isolados pelo ermo.

Fernanda e Nina foram abraçadas por Mirim, a anfitriã, no momento em que seu esposo Vitor Plaza, o príncipe, recebia aos homens. Era o costume nesse lugar. Mulher falava sobre a família com as outras senhoras e os homens discutiam entre eles sobre negócios.

E a festa das mil e uma noites começou.

As dançarinas os rodearam, no momento em que garçons elegantíssimos com taças de bebidas e com petiscos delicadíssimos deambulavam entre os invitados. As pessoas experimentavam os néctares com garfos de prata sobre pequenos pratos dourados. A maioria dos visitantes estava estendida em almofadas, cadeiras baixinhas, ao estilo desse lugar.

Nina, Fernanda e China saíram para os jardins onde balcões tinham tudo o quanto a imaginação do homem consegue compreender, sobre mesas decoradas com toalhas bordadas de fino acabamento, plantas, flores, luzes, numa miragem encantada.

Começaram a saborear uma delícia de cada vez, tentando adivinhar o que era cada coisa. Entre os petiscos, acharam enroladinhos com folhas de uvas, diferentes, pois o recheio era desconhecido. Experimentaram tortinhas salgadas, berinjelas recheadas com alguma coisa, porém, magnífico ao paladar. Sem saber que isso era um desfile de bichos, elas comeram carne de rã, gafanhoto com caramelos, lesmas amassadas, e pulgas ao molho de vinho tinto no interior de massas recheadas com arte. Depois foram experimentando brigadeiros com biscoitos, tortas de sorvetes com suspiros e morangos, tortinhas de pêssegos e de goiabas, sempre com um toque de arte através de flores, pois os iguanas comiam flores como capim.

Enquanto as esposas se fartavam com gostosuras, Olaf, Mário e Tiago entraram numa roda de homens, com um uísque com gelo na mão, e desta vez eles preferiram ouvir. Tiago e Mário agradeciam os conselhos desses novos amigos, pois todos queriam que eles ficassem ainda mais opulentos. Ganharam cartões de bancos, com nome de gerentes amigos. Dicas onde o ouro era mais barato. Nome de empresas que estavam para subir no pregão, para comprar ações. Dados sobre empresas falidas que se podia comprar a preço de bananas. Endereço de jazidas, perto dali. Poder-se-ia ir lá, comprar, dinamitar, e ficar ainda mais endinheirado com diamantes, esmeraldas, ouro, o que encontrassem.

Fernando nas alturas, olhando para essa conversa entre machos, através do Espelho falante, estava chegando onde queria estar. Entender como era a mente desses bilionários. E estava vendo que eram homens inteligentíssimos. Sabiam garimpar a riqueza onde havia burrice. Não eram os ladrões que ele pensava que fossem. Não roubavam nada. Faziam bons negócios. Apenas isso. Além do que, todos eram geradores de emprego, alguns grandes filantropos, e muitos deles financiavam a pesquisa em todas as universidades do planeta. Achou apenas uns cinco avarentos. Isso no sistema global era igual a nada.

Tiago perguntou a Vitor Plaza, se ele sabia o que os astronautas faziam em outros mundos. O príncipe falou que sim. Os exploradores ajudavam os cabeludos a construir casas em forma de palafitas, banheiros, e em troca eles os deixavam trazer o petróleo. Também lhes levavam roupas, sapatos, pois os coitados eram muito pobres. Ele próprio possuía vídeos em casa, onde se confirmava tudo isso. Mário preferiu perguntar para o príncipe o que pensava sobre o Alertse. O príncipe lhe falou que preferia não pensar. Ignorar que existiam. E lhes deu um conselho para se defender deles. Comprar mísseis e apontar contra eles. Era o melhor remédio, pois não passavam de cobardes. Só agrediam coitados indefesos. No seu reino, eles sequer passavam, pois também eles eram mãos de vaca. Não gastavam numa diária em seus hotéis.

E a amizade com o príncipe ficou selada para sempre. Olaf abraçou-o com carinho no fim da noite, pois ambos eram amigos de longos anos. Aliás, haviam estudado juntos, quando Olaf se infiltrara a espionar as Universidades de Alubiavam.

Nos dias seguintes, Tiago entrou num banco para abrir uma conta, e Mário em outro banco bem perto, seguindo à risca os conselhos dos ricaços. Ambos com as esposas elegantemente vestidas.

Imediatamente, foram levados para uma sala especial, onde os gerentes mostraram-lhes como funcionava a riqueza. O dinheiro podia valer muito, ou não, conforme os preços do pregão no mercado internacional, que calculava diariamente o quanto valia cada moeda desse mundo. Portanto, sua fortuna podia ser enorme, ou pequena, dependendo do valor do câmbio. Também lhes falaram que ações não deveriam comprar nunca mais. Isso era prática de “amadores”. Era muito perigoso. No máximo comprar pouco e vender rápido, sem jamais arriscar fortunas, como eles estavam fazendo ultimamente. Bastava um boato na Internet, para perder tudo do dia para noite. Concluindo, o melhor era comprar barras de ouro, que se guardaria em cofres fechados. Quando necessitassem de dinheiro, o próprio banco comprava e dava-lhes o valor equivalente em moedas.

Tiago então comprou 50 barras de ouro, e Mário 60.

Perto deles, Fernando Júnior, boiando na sua bolha invisível, viu finalmente o que havia embaixo desses bancos com suas lentes especiais. Nos subsolos, o lugar que não era mostrado aos clientes. Eram ruas, quadras, bairros subterrâneos com ouro soterrado. E além de ouro, havia platina, cobre, prata, diamantes, esmeraldas, guardado a sete chaves. Tudo que faltava no mundo estava lá embaixo, para ser vendido aos amigos.

Quem desceu nessas ruas douradas, para registro histórico, foi Rubinho.

Vestido de preto, entrou por uma abertura que Peter cavou para ele, seguindo o mapa de Fernando Júnior. Rastejou como uma lagarta, e ficou cego momentaneamente, pois o ouro brilhava. E começou a filmar estantes abarrotadas de barras douradas, em prateleiras que não tinham fim. Também filmou as caixas com esmeraldas, safiras, rubis, diamantes, coroas, relíquias antigas, esculturas douradas. Para não se perder nesse labirinto sem fim, Peter o guiou com um rastreador.

Quando seu sobrinho saiu do túnel, Jesus o examinou. Puxou-lhe o veneno do pulmão, com uma pancada forte. Ele tossiu ouro no chão. Era pó aspirado. Imediatamente, uma luz desceu do alto e Rubinho levitou para o hospital das naves, levando consigo um pacote embaixo do braço.

Enquanto Rubinho era desinfetado por uma médica, Fernando chamou as sábias cobras para ver as imagens trazidas por ele. Em pouco tempo, estavam com a boca aberta. Havia tanto ouro, que o fato os pegou de surpresa. Os sábios falavam que entender a cabeça de um homem desse mundo era um desafio. Um multimilionário não gastava sequer a milésima parte do que possuía nesses bancos. O resto ficava para os filhos. E assim por diante. Eram netos, bisnetos, que nasciam na opulência, e faziam apenas uma coisa, gastar a herança.

Mas, quem é que eram esses ricaços? Quais os nomes?

Quem fez a espionagem desses bancos foi Dennis, o outro filho loiro de Amon-rá. Peter fê-lo entrar por um túnel, levitando como uma pena, e o levou diretamente ao computador central. Dennis copiou num pent drive o suficiente para conhecer os clientes mais ricos desse banco. E ele mesmo levou para Fernando nas alturas.

Junto com as cobras sábias, Fernando, e Fernando Júnior analisaram a risca essas contas e desenharam a pirâmide da ambição. Primeiríssimo lugar era ocupado por igrejas, templos, gente que ganhava fortunas entre o povo mais sofrido. Segundo lugar, investidores, petroleiros e empresários. Terceiro lugar, Presidentes e políticos importantes. Quarto lugar, mafiosos. Quinto lugar, militares. Empresários de meio porte, artistas, intelectuais, estavam numa lista mais embaixo.

Fernando descartou os petroleiros, junto aos empresários, pois eles eram geradores de emprego, com empregados no mundo inteiro. Gente como Benjamin. Apagou também intelectuais, modelos, artistas, comerciantes e trabalhadores autônomos. Gente que enriquecera com seu talento. Então, o poder oculto da ambição era composto de altos sacerdotes, mafiosos, militares, e governantes impiedosos.

Para encontrar uma luz do que fazer com as pessoas mal-intencionadas, Fernando convocou seus primeiros tenentes a uma assembleia. Chamou Adão com telepatia, para trazer junto Benjamim e sua família, como convidados especiais.

Para ir nessa reunião, Ênio e Madalena tiveram que desaparecer. Sair de circulação. Dali em diante quem espionaria o Alertse seria Jorge, filho de Amon-rá, com sua esposa Regina. Por esse motivo, Juvenal teve que morrer. Desmaiou no chão com parada cardíaca fulminante, levado ao hospital numa ambulância, e no dia seguinte, ele foi cremado.

Quem foi queimado foi um robô verde, com a máscara de Ênio, a pele de Ênio, o uniforme elegante de Juvenal, com toda sua família em redor chorando desconsoladamente. Sua esposa falava para as amigas íntimas que neste último tempo, Juvenal havia sido o melhor dos maridos. Carinhoso com os filhos, amoroso com ela, abandonara as amantes, e nunca mais gritara nem resmungara. E agora estava morto.

Dentro do Alertse, os generais falavam coisa parecida.

Juvenal era o homem que mais matara habitante, por quilômetro quadrado, sobre a superfície da terra. E ultimamente, quis plantar e fazer a paz com gente que ele sempre odiara. Só que esses comentários ficaram entre quatro paredes. Para a mídia, eles explanaram apenas que sentiam a perda de um grande lutador.

Assim que Ênio chegou à Lua, onde as naves estavam esperando-os, Madalena beijou-o esfomeada, como quem está morrendo de amor. E Ênio falou-lhe:

— Amor, vamos nos casar?

— Tem certeza? “00” vai nos unir pela eternidade... Nunca mais vai fugir de mim... É isso que você quer?

— Eu não namorei com mais ninguém desde que estou com você! Fui fiel entre os iguanas. O que mais existe para se provar a si mesmo que se está condenado e amarrado, para a eternidade, por uma única mulher?

— Não sei! Mas eu fui galhuda na Terra durante milhares de anos! Tenho pavor de casamento! Se amar outra no futuro, eu vou sofrer muito... E nas vidas futuras com certeza você nem vai lembrar-se mais de mim...

— Ah, é? E você vai lembrar que é casada comigo? Vai me amar de novo?

— Sei lá! Vai ter que me perseguir, e grudar em mim que nem chiclete...

— Maluca! Casamos?

— Casamos! Sou louquinha por você... Ai! Está me machucando...

— Devolva, morde-me e me tortura...

Enquanto isso, longe dali, Tiago e Mário fizeram uma escritura pública, com poder absoluto para seu sócio vender em nome deles. Compraram um iate de passeio, e viajaram para uma ilha paradisíaca. Sozinhos em alto-mar, o iate foi levitado para uma nave, onde um robô os introduziu por uma passagem lateral, nas naves gigantes. Depois, ficaram fechados nas suítes, se repondo da agitação dos últimos meses vividos.

Maláqui, outra pessoa famosa no mundo dos iguanas, por causa de seus robozinhos, visitou várias cidades, acompanhada de seu marido Jesus, antes de desaparecer.

Amon-rá e Noemi, oficialmente “não existiam”. Eram sombras. Portanto, foram os primeiros a entrar nas naves e voar para essa Lua, para abraçar as filhinhas Luísa e Patrícia. Mais tarde, Fernando chegou a se unir à família, com Mônica. Estavam todos doentes de saudades, uns dos outros. Fernando abraçava Noemi, perguntava se havia sido atacada, ou se estava com medo, perguntas bobas de pai com saudades. Depois, chegaram Fernando Júnior e Nohiki, rindo felizes, pois a baixinha ia ficar mais tempo desta vez. Os filhos já estavam grandes, o mais velho estudava na Universidade, os outros no Ensino Médio, e ajudavam Olaf em tudo.

Os desconhecidos Miriam, Peter, Reginaldo, Rosa, Paulo e Paulina, foram dando o sumiço um a um, com Benjamim justificando as viagens a trabalhos. E por último, Benjamim convidou seus pais, seus irmãos, para dar a volta ao mundo num iate novo, maravilhoso, junto de Eva e Adão, os seus melhores amigos.

O iate foi sugado para as alturas, enquanto toda a tripulação dormia profundamente. Os iguanas acordaram numa cama, rodeados de gente que não eram iguanas. Adão chegou perto de Benjamim e lhe disse: — Eu sou Adão! E Benjamim respondeu na hora, entre gargalhadas altas:

—Nossa! Nunca acreditei que havia um negro tão horrível, embaixo dessa linda pele de iguana! Achei que era piada, cara!

Depois se abraçaram, gargalharam ainda mais, enquanto Fernando e Noemi se apresentavam sorrindo, mostrando que estavam entre amigos. Feios, como falava Benjamim, mas eram todos do bem. Abraçaram os pais de Benjamim, seus outros cinco filhos com suas esposas e três garotinhos, que não ficaram assustados, pois os acharam lindos. Um deles perguntou:

— Vocês são alienígenas?

— Somos, e de muito, mas muito longe.

Depois, Fernando os levou a um encontro informal, para responder perguntas.

Quando chegaram ao lugar onde se serviam as refeições, os iguanas abriram a boca ante a beleza dessa recepção. Encontraram mesas rodeadas de flores lindíssimas e plantas em vasos que se grudavam nas paredes decorando o ambiente. Imediatamente, puxaram florezinhas para saborear. Delícia! Por sobre as mesas havia tolhas bordadas, com detalhes em crochê e outras rendas, e talheres que brilhavam. Nossa! Era ouro! Pratos de porcelanas. Jarras de cristal buriladas à mão, com sucos naturais de frutas. Taças de cristais em várias tonalidades e cinzelados, para beber o melhor vinho do universo, e guardanapos finíssimos, com rendas delicadíssimas. Examinaram com discrição, e perceberam que nada era industrial. Era tudo artesanal. Realizados por mãos habilidosas.

Durante o jantar, onde os robôs os serviram com pastéis de nutrientes, cogumelos salteados, miolos de alcachofras, aspargos com molho branco, ovos cozidos com molhos de amendoim, bistecas de nutrientes, bolinhos de batatinhas doces, sobremesas em taças translúcidas, os pais de Benjamim começaram a pedir explicações. Qual era o motivo de estarem nesse lugar, o que iam fazer com eles, e por que é que Benjamim nunca lhes falara que Adão era um negro gigante. Aliás, como é que na terra, ele era baixinho?

Benjamim preferiu o silêncio. Mexeu os ombros para cima, de forma engraçada, e deixou que Adão explicasse. Afinal, Adão era amado como filho pela família de Benjamim.

— Saber de nossa presença era perigoso para vocês. E os trouxemos para protegê-los. Serão marcados para morrer, assim que o mundo descubra que estamos infiltrados. Serão condenados como traidores, colaboradores, e outros adjetivos. E nossos motivos para ter vindo de tão longe estão gravados em filmes com os massacres a vários mundos primitivos. Chacinas terríveis. Vários planetas estão sendo roubados pelos iguanas sem dó. E durante este tempo todo, vimos que isso também se faz com a maior liberdade no mundo de vocês. Temos gravadas várias reuniões do Alertse, onde se dão as ordens de invasão, de saque, e de chacinas. Desde que chegamos, conseguimos evitar a morte de populares em três confrontos bélicos, organizados e orquestrados pelo Alertse.

O irmão mais velho de Benjamim respondeu na hora:

— Isso todos nós sabemos. O Alertse faz e desfaz o que bem quer. O pai já enfrentou a morte, cara a cara, várias vezes. Ou você colabora, ou então morre. Amigos nossos desapareceram por se negar a doar coisas banais como esparadrapos, ou gazes em tempos de guerras. Os robôs foram uma briga de anos, e tivemos que os entregar... Mas massacres em outros mundos? Eu gostaria muito de ver... Se for verdade, eu ajudo no que me pedirem... E você, pai?

— Bem, eu nem acredito ainda nisso. Temos muitos documentários onde se mostravam palafitas lindas, banheiros, obras de engenharia que nossos soldados construíam para os homens-gorilas.

Notas finais
Durante o jantar, onde os robôs os serviram com pastéis de nutrientes, cogumelos salteados, miolos de alcachofras, aspargos com molho branco, ovos cozidos com molhos de amendoim, bistecas de nutrientes, bolinhos de batatinhas doces, sobremesas em taças translúcidas, os pais de Benjamim começaram a pedir explicações. Qual era o motivo de estarem nesse lugar, o que iam fazer com eles, e por que é que Benjamim nunca lhes falara que Adão era um negro gigante. Aliás, como é que na terra, ele era baixinho?